PARTE I: _Poetas da Medida velha._--A tendencia allegorica da ultima
phase da poesia palaciana era um prenuncio da sua transformação. Qual seria ella, comprehendeu-o superiormente Sá de Miranda inspirando-se das obras primas do lyrismo italiano. Antes porém de generalisar-se em Portugal o gosto d’essa nova poetica, mais subjectiva, manifestou-se uma reacção contra os innovadores; o combate não se feriu por alguma theoria de arte ou concepção de ideal, versava apenas na preferencia que se devia manter ao verso octonario ou da _medida velha_ das redondilhas, com exclusão do endecasyllabo. O titulo de Eschola da Medida velha, designa cabalmente o periodo que antecedeu o regresso de Sá de Miranda da Italia, no qual os poetas palacianos pela imitação das allegorias dantescas e já pelo conhecimento da Renascença classica, sem abandonarem as fórmas da poetica hespanhola adoptam o estylo de Theocrito assimilado pelos bucolicos italianos. Bouterwek considera a poesia pastoril portugueza immensamente bella; não resultou esta perfeição de imitações litterarias, mas da aproximação inconsciente das fontes tradicionaes. Nos costumes populares da Peninsula mantinha-se a fórma dialogada dos _Villancicos_, que coadjuvava a naturalisação e desenvolvimento da Ecloga litteraria. Observa-se essa persistencia nos cantos lyricos intercalados por Gil Vicente nos seus _Autos_; e o conhecimento das Pastorellas e Serranilhas gallezianas era ainda o que tornava bellas as redondilhas de Christovam Falcão, de Sá de Miranda e de Camões. Este periodo de transição no gosto apoia-se na sympathia dos poetas pelos elementos tradicionaes das pastorellas. Bernardim Ribeiro é o corypheu dos bucolistas, conhecedor dos Villancicos e Romances populares, a que deu fórma allegorica; soube alliar a naturalidade com os dialogos pastorís, a profundidade do sentimento com a simplicidade. A belleza inexcedivel das suas Eclogas resulta da realidade palpitante dos desgraçados amores com _Aonia_, a sua prima D. Joanna Zagalo. Pela amisade com Sá de Miranda, chegou a conhecer a eschola italiana, a _nova frauta_, de que faz menção a _Ecloga Aleixo_, onde Miranda descreve a sua desgraça.
Depois de Bernardim Ribeiro, foi o seu intimo amigo Christovam Falcão o que levou mais alto o esplendor d’este lyrismo hispano-italico; a ecloga _Crisfal_, em que pinta o desventurado amor com D. Maria Brandão, irmã mais moça dos dois poetas do _Cancioneiro geral_ Diogo e Fernão Brandão, não tem cousa que se lhe compare nas litteraturas da Europa.
Tambem se explicará a sua superioridade pela aproximação dos elementos tradicionaes do lyrismo portuguez: no _Crisfal_ vem intercalado um _canto de ledino_.[206] Todos os outros poetas quinhentistas, á excepção do Dr. Antonio Ferreira, começaram os seus tentames pela redondilha popular, designada litterariamente trova ou verso de Cancioneiro.
Sá de Miranda, que escreveu bellissimas Eclogas e Cartas em redondilhas, satyrisou os que tanto reagiam contra a nova poetica italiana, e condemnava os que mantinham o uso anachronico de uma triste _Esparsa_, de uma _Glosa_ ou _Mote_ velho, de uma pobre _Volta_ com seu _Cabo_. A moda palaciana sustentava o estylo de Cancioneiro, por uma tradição aristocratica. Em uma carta de Soropita, escripta depois de 1589, caracterisa-se esta especie de metrificadores: «Achei n’esta companhia a saber ... um poeta ancião, ainda pela _medida velha_.» Devem comprehender-se sob esta designação propriamente os poetas que antipathisavam com a novidade vinda de Italia, pelo terror pelas ideias da Reforma; e tambem os que tiveram certa communicação com o povo, para quem compunham redondilhas moraes e romances com fórma litteraria. Pertencem á primeira cathegoria, D. Luiz da Silveira, Jorge Ferreira de Vasconcellos e Garcia de Resende; na segunda sobresae o vulto gigante de Gil Vicente, cujas _Obras meudas_ se perderam. Nos seus Autos acham-se romances em redondilhas, que entraram na corrente popular como o _D. Duardos_, e bellas serranilhas semelhantes aos typos dos nossos Cancioneiros trobadorescos. As _Trovas do Moleiro_ de Luiz Brochado, os _Arrenegos_ de Gregorio Affonso e _Avisos para guardar_, do Chiado, tornaram-se vulgares; as _Trovas_ de Gonçalo Eannes Bandarra, com a fórma rudimentar de eclogas, chegaram a actuar na sociedade portugueza, como se lê no seu processo do Santo Officio. As redondilhas do poeta cego Balthazar Dias, taes como _Malicia das Mulheres_, _Conselhos para bem casar_, não fallando dos seus Autos hieraticos, ainda hoje formam parte essencial da Litteratura de cordel, ou popular.
=_Novellas de Cavalleria e Pastoraes._=--Sob o dominio da erudição da Renascença, e com um aspecto apparentemente contradictorio, desenvolve-se uma certa actividade na elaboração de Novellas cavalheirescas, d’onde proveiu o vasto cyclo dos _Palmeirins_. Mas a contradicção concilia-se, por que essas novellas pretendiam continuar as tradições medievaes conjunctamente com as do cyclo greco-romano, prestando-se a um facil emprego d’esse extraordinario prurido rhetorico dos escriptores da Renascença. Além d’isso, influiu tambem a predilecção das damas, como na côrte de Francisco I, ou junto da infanta D. Maria na côrte de D. João III. Dentro d’este meio facticio a pressão erudita leva a novella cavalheiresca a fundir-se com as lendas pseudo-nacionaes. Assim, na _Chronica do Imperador Clarimundo_ João de Barros syncretisa as lendas de Ulysses, pensando em assentar a mão e fixar o estylo rhetorico para escrever dos descobrimentos portuguezes nas _Decadas da Asia_. A influencia feminina sustentava o gosto das Novellas, que decahia pela preferencia da erudição. Do principal romance d’este cyclo, o _Palmeirim de Oliva_, diz Ticknor: «quasi geralmente admittido que se escreveu originariamente em portuguez e é o obra de uma senhora.»[207] N’este cyclo de novellas, os cavalleiros são oriundos da Grecia, e para conciliar o gosto pelo genero bucolico de Theocrito e Virgilio, esses mesmos cavalleiros passam a infancia em casa de pastores, que os accolheram por os terem encontrado abandonados. Foi no regresso da côrte de Francisco I, que o secretario da embaixada Francisco de Moraes offereceu á infanta D. Maria a sua novella do _Palmeirim de Inglaterra_, por 1543, seguindo-se logo a traducção castelhana, na qual Luis Hurtado confessa ser fructo de _agenos huertos_. A rhetorica dissolveu este cyclo novellesco em prolixos e illegiveis volumes.
Uma vez perdido o ideal cavalheiresco e esquecida a Edade media, a Novella vagueava entre os interesses burguezes, que vieram a idealisar-se no _Romance_ moderno, e a imitação dos quadros de convenção da vida pastoral, e as allegorias a successos e intrigas palacianas. O genero da Novella pastoral tem o seu typo na _Daphnis e Chloé_ de Longus, revivescido na _Arcadia_ de Sanazzaro; as allegorias foram empregadas como recurso para dar interesse á ficção. A pastoral mais bella que possuimos é a _Menina e Moça_, de Bernardim Ribeiro, em que descreve allegoricamente os desgraçados amores de _Aonia_ e _Bimnarder_ (sua prima D. Joanna Zagalo e elle Bernardim,) e de _Arima e Avalor_ (D. Alvaro Velez de Guevara e D. Maria Alvares Zagalo, tia de _Aonia_.) A pastoral mais conhecida na Europa, e que chegou a formar um cyclo novellesco é a _Diana_ de Jorge de Monte-mór, continuada por Gil Polo e por Tejada; é tambem uma allegoria aos amores do poeta. Fernão Alvares d’Oriente imitou directamente Sanazzaro; o genero decahiu na insipidez, como se vê no _Desenganado_ e _Pastor peregrino_, de Rodrigues Lobo, e nos disparates dos _Desmaios de Maio_, de Diogo Ferreira Figueirôa, nas _Ribeiras de Mondego_ de Eloy de Souto Mayor, e nos _Crystaes d’alma_, de Escobar. Pelos Indices Expurgatorios conhece-se a existencia de muitas novellas allegoricas que se tornaram mysticas, como _Pé de rosa fragrante_, _Cerva branca_ e outras. Um dos typos mais completos do genero é a _Historia do Predestinado Peregrino_, imitada d’essa extraordinaria allegoria ingleza _Pilgrim’s Progress_, de Bunyan, que o jesuita Alexandre de Gusmão apropriou tomando-a do auctor anabaptista. Continuou esta corrente no seculo XVIII, como vêmos no _Feliz Independente_, do P.^e Theodoro de Almeida, misturando com a imitação de Fénélon o deismo da sua época, e no _Piolho viajante_ de José Daniel, ficção picaresca não com a pujança pittoresca de Mendoza e Quevedo, mas como um producto morbido de uma sociedade imbecilisada pelo mais degradante cesarismo.
Os Contos da Edade media, ou Fabliaux, que receberam fórma litteraria no _Decameron_ de Boccacio, conciliam-se com os Exemplos da antiguidade classica, tomados de Valerio Maximo; os prégadores catholicos empregam-os com intuito moralista. A obra mais capital d’esta transformação é a collecção de Gonçalo Fernandes Trancoso, _Historias de Proveito e exemplo_, livro inestimavel, escripto durante o terror da _Peste grande_ em 1569, e quando o pobre mestre eschola acabava de perder mulher e filhos, como o confessa em uma carta á rainha D. Catherina. Este livro manteve-se no gosto publico até meados do seculo XVIII. Ahi se lê o celebre conto da Edade media, a paciencia de _Griselidis_, que appareceu referido no _Miroir des Femmes_ e universalisado depois no _Decameron_. A redacção de Trancoso egual á castelhana de Timoneda, deriva de um texto italiano anonymo publicado sem data. Nos anexins populares repete-se: «Pelo marido vassoura; pelo marido senhora,» referindo-se ás situações emocionantes d’esse conto. Outros anexins, como: _Minha mãe_, _calçotes_, acham-se desenvolvidos por Trancoso.
=_Gil Vicente e as origens do Theatro nacional._=--Era Gil Vicente um eminente poeta lyrico, como se vê pelas suas serranilhas, que elle mesmo punha em musica; era um notavel philologo, citado como auctoridade nas _Grammaticas_ portuguezas de Fernão de Oliveira e João de Barros; era um racionalista, sendo pelos seus Autos, e dentro da orthodoxia um dos precursores da Reforma. No seu genio satyrico revela o alto senso commum com que retratou todos os vicios do seu tempo, todos os abusos da organisação social, que dia a dia ia sendo invadida pela ambição clerical. Para um homem com todos estes dotes, a vida tinha de ser fatalmente uma lucta; luctou em quanto o protegeu a rainha D. Leonor, viuva de D. João II, e morreu proximo se não no mesmo anno em que entrou a Inquisição em Portugal. O ourives-lavrante da rainha D. Leonor, Gil Vicente, era tio do poeta, que por sua influencia veiu de Guimarães para Lisboa e cursou os estudos de Artes em que recebeu o gráo de _Mestre_ (como se lhe chama no Cancioneiro de Resende). Ainda por influencia de seu tio Gil Vicente ourives, frequentou a côrte de D. João II, e por convite da rainha é que elle compoz os seus primeiros Autos hieraticos, que se tornaram um divertimento palaciano.
O theatro de Gil Vicente é a vida do povo escripta para os serões do paço, como quem expunha ao monarcha, que andava longe da realidade, a existencia de soffrimentos dos que trabalhavam sem garantias. Ali apparecem todos os costumes da Edade media portugueza, as superstições, os anexins, os jogos, as pragas, as cantigas, as danças, os romances; os typos da alcaiota, da bruxa, do judeu casamenteiro, do cigano, do frade unctuoso, do astrologo, do escholastico, do fidalgo pobre, do lorpa ou ratinho, tudo isso apimentado com essa soltura da linguagem medieval, que não arranhava os ouvidos das damas da côrte. Quando vêmos como se passava o tempo nas côrtes europêas do fim da Edade media; como foram compostas as _Cem Novellas novas_ de Luiz XI, o _Heptameron_ da rainha de Navarra, os exemplos obscenos de La Tour Landry para moralisar suas filhas, temos a explicação das desenvolturas de Gil Vicente, e do gosto que ellas lisongeavam nas côrtes de D. Manoel e D. João III. O grande artista teve um intuito superior nos seus Autos, que os torna dignos de estudo, além do merito de serem a iniciação e fórma evolutiva do theatro nacional: luctava pela independencia do fôro civil contra o fanatismo religioso, e contra o parasitismo aristocratico que vivia de capitanias, alcaidarias e commendas. Os humanistas (_alguns homens de bom saber_) atacaram a fórma rude dos seus Autos; elle confundiu-os com a farça de _Inez Pereira_, verdadeiramente molieresca. O seu genio dramatico manifestou-se em um meio deprimente, a côrte, em que era admirado o pedantismo humanista e em que prevalecia a intolerancia religiosa, que por vezes lhe queria impedir a palavra, como se viu quando se oppuzeram a que recitasse o _Sermão_ em verso pelo nascimento do infante D. Luiz. Mas os seus Autos tornavam-se uma necessidade na côrte sempre aterrada com as contínuas pestes com que no seculo XVI Lisboa era devastada. No meio da mortandade geral, a côrte fugia para Santarem, para Almeirim, para Coimbra, para Evora; Gil Vicente era chamado para distrahir os serões do paço: de uma vez chegou a ir representar a Coimbra, ainda doente, tendo a peste em casa, como elle proprio o declara. Por que triumphou a obra de Gil Vicente, apezar do antagonismo classico, da reacção catholica dos Indices Expurgatorios, das tragicomedias jesuiticas e do grande perstigio das comedias hespanholas de _capa y espada_? Para que a fórma de Auto seduzisse espiritos como os de Camões, e se impuzesse á litteratura desde o seculo XVI a XVIII, era preciso que tivesse raizes profundas na alma portugueza; e tinha-as, por que eram as tradições de que o genio de Gil Vicente soube apropriar-se. Aonde Gil Vicente representou os seus Autos, ahi parece ter fundado eschola: em Evora, vamos encontrar seguindo as suas normas, Antonio Ribeiro Chiado, seu irmão Jeronymo Ribeiro, Gaspar Gil Severim e Braz de Resende; em Santarem, desenvolve-se o talento dramatico de Antonio Prestes, que tambem como o mestre prégou as ideias da Reforma; o diacono e mulato Antonio Pires Gonge, e Manoel de Sousa Nogueira, que sustentou a eschola até ao seculo XVII. Em Coimbra, apezar da corrente erudita dos Collegios e das representações de tragedias latinas, a influencia de Gil Vicente não foi extincta; para os divertimentos escholares é que escreveu Camões o _Auto dos Amphytriões_. Em Lisboa, fundaram-se os primeiros _Corros_ ou _Pateos de Comedias_, e as representações dramaticas tornavam-se uma necessidade da vida burgueza, que um privilegio exclusivo a favor do Hospital de Todos os Santos explorava como subsidio. Á eschola do Auto pertencem Gil Vicente de Almeida, neto do poeta, auctor do _Auto da Donzella da Torre_ e da _Comedia dos Cativos_;[208] tambem, Simão Garcia, auctor do _Auto do Pé de prata_, de 1557, Antonio Peres, auctor de comedias manuscriptas, Frei Antonio de Lisboa e Balthazar Dias, cujos Autos de _Santa Barbara_, de _Santo Aleixo_, de _Santa Genoveva_, estão ainda em vigor nas representações aldeãs, e constituem esta eschola lisbonense. O povo entristecido pelas fogueiras da Inquisição e pelas fôrcas do absolutismo, ficou sem festas nacionaes, e o unico desafogo que conservou encontrou-o nos seus Autos hieraticos e farças tradicionaes.