parte d
’ella, me pareceu dizer alguma cousa de sua antiguidade: porque já os Hebreus, Persas, Gregos e Romanos usaram inclinar a cabeça por cortezia, como contam Josepho, Plutarco, Eliano e outros auctores graves: e esta reverencia faziam em signal de humildade, confessando fraqueza, e menos poder ante aquelle a cujo valor se abatiam: posto que dos Romanos, Alexandre Severo, successor do Heliogábalo, não consentiu que ninguem lhe fizesse esta cortezia, havendo-a por lisonja; antes mandava lançar de sua presença a quem a usava (como escreve Lampridio) dizendo que só a Deus se devia aquella inclinação. Os de Thebas, se sabiam que algum dos seus inclinasse a cabeça a pessoa humana, o castigavam rigorosamente: e esta lei pôz em grande confusão a Ismenias, que elles mandaram por embaixador a Artaxerxes (como na sua vida o escreve Plutarco) o qual estando já na sala para falar ao rei, lhe disse um capitão, chamado Tithraustes, que se não havia de fazer ao rei a inclinação que os Persas costumavam, que lhe désse a elle o recado, e que faria em seu nome a embaixada. Elle não querendo fiar de outrem o que lhe fôra encommendado, entrando a falar ao rei, deixou cahir um annel que trazia no dedo; e abaixando-se a o levantar, fez a inclinação dos persas sem poder ser culpado dos Thebanos.--Essa inclinação (disse o prior) de inclinar a cabeça, dobrar os joelhos, ou pôl-os em terra, e extendendo o braço para a pessoa, a que queremos venerar, beijar a mão propria, é ceremonia antiquisima, que só a Deus se fazia; e assim se colhe de muitos logares da escriptura, como é no livro V dos Reis, capitulo XIX, no de Job capitulo XXXI, e no Deuteronomio capitulo XVII. O que tambem alguns gentios usaram, como lêmos em Plinio livro XXVIII, capitulo II. E d’aqui creio que se derivou este uso, que entre nós ha, do _beijo as mãos de V. M._--O costume de beijar a mão (respondeu o doutor) entre os Romanos antigos foi dos escravos a seus senhores. Mas Plutarco conta que, depois que Catão deu fim á sua milicia, despedindo-se d’elle os soldados com muitas lagrimas, e extendendo-lhe as capas e os vestidos por onde passava, lhe beijavam a mão; e d’aqui começaram os livres a usar esta cortezia; de que logo lançaram mão os pretendentes para grangearem animos e vontades alheias, como Seneca diz na Epistola CXVIII. E logo os imperadores modernos mandaram que seus vassallos lhes beijassem a mão, como escreve Pomponio Leto: e os reis da Hespanha o puzeram por ordenação, como se vê nas leis de el-rei D. Affonso nas leis de Castella livro V, titulo XXV, pag. IV. E d’aqui se derivou o _beijo as mãos de V. M._, que é confessar-se por escravo ou vassallo d’aquelle, a quem se faz a cortezia.--Essa (acudiu Solino) me custa a mim bem pouco: porque não gasto n’ella mais que palavras, e essas com as abreviaturas de agora são já muito menos. O que me a mim cansa é o tirar o chapéo, que me fazem de despeza as boas correspondencias de forros, e caireis, a fóra os damnos do feltro; o que Deus sabe e eu o sinto; e não me pesára saber d’onde teve principio este mal que padeço.--O chapéo (respondeu o doutor) era entre os romanos signal de nobreza, e symbolo da liberdade; e quando a queriam significar, pintavam um chapéo, como se vê nas moedas de Claudio, de Antonio e de Galba. E assim quando libertavam aos escravos, lhes davam chapéo, como refere Pierio Valeriano nos seus jeroglificos, livro XL, onde tambem affirma que os escravos, que se vendiam por maus costumes e ruins partes que tinham, os punham em almoeda com chapéo na cabeça, em signal que seu senhor o não queria por escravo, nem se obrivava a fiar sua má natureza. De sorte que o descobrir um homem a cabeça, e tirar o chapéo ao outro, é confessar-se por seu escravo; e a esta cortezia responde a de chamarmos senhores aos eguaes e maiores com que tratamos, e ainda os inferiores.--Pois eu vos affirmo (disse Solino) que a muitos tiro o chapéo, de que não quizera parecer escravo; e esses m’o fazem trazer tal, que parece dos que o são. Comtudo me fizestes mui grande mercê em me descobrir essa razão e a de outra cousa em que eu já cansei algumas vezes o pensamento, que era saber o porque os chucarreiros se cobrem deante dos principes, e, sendo gente tão vil gosam de tão grande preeminencia; e agora entendo que deve ser por estarem no andar dos escravos, que se vendem por ter más manhas, que se vendem com chapéo para serem por elle conhecidos.--Mais me parece a mim (acudiu D. Julio) que é pelo pouco caso que se faz da sua cortezia; ou porque se entenda que, assim como tem aquella liberdade, tem outras para falarem o que não é licito aos homens cortezãos bem disciplinados. Porém não sei a causa, porque nos esquecemos da cortezia a que chamam _cumprimentos_, que n’esta edade tem chegado á mór perfeição de encarecimento que póde ser.--Nisso (disse Feliciano) se acredita ella muito pouco, e menos os que usam muito d’elles; que á falta de verdades e de obras, se introduziram no mundo os cumprimentos, que são um engano desaforado de toda a jurisdicção; conforme ao rifão que diz, que _palavras de cortezia não obrigam a pessoa_.--Parece-me (tornou D. Julio) que tornamos á sentença, com que se começou a pratica, em quanto diz que _falar bem val muito, e custa pouco_: o que á letra se entende dos cumprimentos, pois que custam tão pouco, que ninguem por elles fica obrigado.--Não digamos mal d’elles (disse Solino) que são a melhor cousa do mundo, salvo que perderam reputação como as sardinhas, que, por as haver sempre e custarem baratas, as não estimam; e não era a materia dos cumprimentos para ficar de fora n’esta occasião.--A noite (respondeu o doutor) é a que não basta a tanto; e n’esta me não atrevo eu a vos acompanhar mais: e assim me haveis de dar licença que me recolha.
Com isto se levantaram todos, e deram boas noites; e, depois de recolhidos, gastaram em o desejo da que se seguia o mesmo espaço que d’aquella poupavam; que muitas vezes a recreação dos sentidos vence a necessidade do repouso que os suspende.
DIALOGO XIII
DO FRUCTO DA LIBERALIDADE E DA CORTEZIA
Tendo Feliciano e seu companheiro por cousa sem duvida que se havia de tratar a materia dos cumprimentos a noite seguinte; e que já d’aquella ficavam encetados para se haverem de proseguir; se aperceberam de exemplos, historias e razões mui escolhidas, com que lhes pareceu que deixariam a perder de vista os cortezãos velhos, em cuja mocidade é certo que se usa menos d’esta alquimia de palavras fóra da tenção mental de quem as offerece. Com este fundamento se chegaram ao outro dia com muita confiança: e juntos os amigos, disse o soldado:--Foi para mim tão saborosa a conversação da noite passada, que até a lembrança d’ella antepuz ao repouso; e sem poder entrar em o do somno me lembrou uma historia famosa que succedeu a um capitão nosso portuguez n’aquellas partes do norte, procedida de uma cortezia sua bem empregada, que lhe rendeu graça com as damas extrangeiras e naturaes, inveja nos companheiros, e nos contrarios, gloriosa fama com louvor, e honra da nação portugueza. E como algum dia der logar o nosso exercicio, a hei de contar n’esta companhia em prova do muito preço e valor, que tem a cortezia com a gente generosa e illustre.--Certo (disse o doutor) que será bem errada cousa dilatarmos esta historia para mais tarde; que, posto que a todo o tempo as vossas o gastam mui bem aos ouvintes, agora tem ella o seu, e sahe bafejando á mesma materia que temos entre as mãos, maiormente que, como seja em favor e honra do nome portuguez, não consentirá o sr. D. Julio na tardança.--Antes (respondeu elle) se não accudíreis com tanta pressa, me quizera já queixar da dilação: porque, por a materia, por a historia, e por ser o sr. Alberto o que a ha de contar, obriga por mil caminhos o meu desejo; e do d’estes senhores tenho a mesma opinião.--Não é errada (disse Feliciano) no que pertence á minha escolha.
E porque todos vieram na mesma vontade, começou o soldado:
“Um capitão portuguez, que nas guerras do Norte com singular esforço fez seu nome conhecido no mundo, e sua fama immortal na memoria d’elle; e que não representava menos na presença de sua vista, do que dava a conhecer a experiencia do valor de seu braço, com as mais partes de juizo, e galanteria, que pode desejar um cortezão; cessando por razão da entrada do inverno o exercicio da guerra, escolheu, ou lhe coube em sorte, para alojar as suas companhias, um districto das terras do inimigo, que eram aldeias sem defensão. Acertaram estas ser de uma senhora flamenga, donzella de muita qualidade; a qual vendo o damno sem reparo, que a seus vassallos se apparelhava, além de com a assistencia dos Hespanhoes perder o interesse das rendas que colhia, e de que se sustentava; não sabendo que meio tivesse contra este mal, lhe veiu á imaginação de com as armas, mais poderosas por brandura, que por rigor, conquistar a cortezia do capitão, de cuja liberalidade e nobreza estava bem informada e satisfeita: e fiando de uma donzella, e de um rustico mensageiro o segredo do que queria, lhe mandou uma carta, que vinha a comprehender as razões que se seguem:
“Se o valor e grandeza de vosso animo vence a cubiça e crueldade de inimigo, confiada estou que o não queiraes ser de uma dama illustre, cujo dote, pelos successos da guerra, poz na vossa mão a ventura: e pois o ganho de me despojardes d’elle é tão pequeno, que nem basta para agazalhardes bem os vossos soldados; perdoae antes a essas fracas aldeias com brandura, havendo que ganhaes com ella o coração de uma mulher nobre, que em quanto viver vos ficará captiva (trophéo differente do que se pode esperar de um rustico alojamento), e pois de quem sois, e da fama que vos abona e engrandece se não espera que queiraes perseguir a uma dama rendida a vosso nome, dae-me liberdade para que em o de meus vassallos, para quem a peço, vos offereça os mantimentos, que ha n’esse pobre senhorio; que então será mais vosso, quando eu o possuir com o favor e mercê, que de vós espero, etc.”
O capitão, que, além do valoroso animo que tinha, sabia conhecer o muito que em semelhantes lanços se ganhava; lendo a carta se alegrou por extremo, como quem achara occasião de se mostrar gentil-homem a tão illustre e discreta senhora: e traçando primeiro o como melhor poderia responder com effeito a seus rogos; mandando vestir o rustico que trouxe a carta, e fazendo-se-lhe o agazalho e tratamento que, por quem o mandava, lhe era devido, sem respeitar a incommodidade do que para os seus não tinha, respondeu em maneira semelhante:
“Ainda as armas me não deram maior gloria que esta ventura: porque tenho por tão grande a de vos servir, que estimára em menos dominar um grande senhorio da terra, que ficar agora por guarda e defensor das vossas, as quaes tomo tanto á minha conta, que não sómente lhe tirarei a oppressão dos soldados que lhe causavam receio, mas farei que nenhuns outros lhe possam fazer offensa. Perdei, senhora, o cuidado d’ella; e crêde que saberei estimar o vosso dote mais que a propria vida. E se á custa d’ella quizerdes conquistar bens da fortuna, que egualem o preço das graças que vos deu a natureza, elle será mais copioso, e eu não ficarei menos satisfeito. Por as mercês, que me offereceis, vos beijo as mãos; porém n’ellas as renuncio; porque mais quero parecer a estes companheiros contrario vencido, que amigo obrigado.”
Não se satisfez o capitão com responder tanto a gosto d’aquella dama; mas ordenou juntamente que, quando tivesse a carta, lhe chegassem as novas do que por a sua fazia; e para isto escreveu a um capitão, que alli perto se alojára; do qual tendo licença, se foi para elle com os seus soldados, aos quaes com regalos, vantagens, favores, e cortezias ia satisfazendo a falta do alojamento que deixaram. Soube isto a dama, cujo nome era Floriza; e vencida do primor da obra, e das palavras da carta do Luzitano, o começou a amar por informações que cada hora lhe trazia a sua fama; que estas costumam a ser mais favorecidas, que as da presença. Esta desejava ella de vêr extranhamente; porém a difficuldade de contrario lh’a fazia impossivel. Accommetteu por vezes fazer-lhe presentes, a que elle nunca deu logar; antes n’aquelles, que libertára, havia poucas pessoas que não experimentassem favores e boas obras do capitão, todo o tempo, que durou a visinhança do seu alojamento. Passado o inverno, tornaram a continuar as guerras d’aquella fronteira, muito mais intricadas e perigosas, que as que haviam precedido: e como n’ellas o capitão buscava sempre as occasiões de maior risco; porque o seu esforço o punha sobre o animo dos mais guerreiros; na defensão de um posto, que lhe quiz ganhar o inimigo, ficou elle mui mal ferido, porém o contrario desbaratado, e com muitos soldados menos. Chegou a fama do successo á agradecida senhora, que o sentiu por extremo; e desejosa de fazer algum, com que manifestasse a pena que tinha de seu damno, determinou de (com salvo conducto) passar ao campo contrario a o visitar: e havida a licença, sem levar comsigo mais que duas creadas, atravessou em um coche o arraial. Sendo d’isto avisado o capitão, preveniu os seus soldados para com bellicas alegrias receberem e festejarem a sua chegada. E mandando entrar algumas companhias de guarda, lh’a fizeram a ella com grinaldas de fogo sobre os morriões, e com bombas em os piques, que parece que ardiam até a empunhadura da manopla; e outros foguetes e invenções de polvora muito apraziveis. Sahiu ella do coche á porta da tenda do capitão, vestida de uma téla verde, semeada de borboletas de ouro, que lhe estava muito bem; porque dava graça á neve do seu rosto, que com a afronta d’aquelle atrevimento se enchera de rosas encarnadas; os olhos tão alegres, que parece que se vinham rindo das estrellas, como os cabellos o poderam fazer do sol, se elle já não estivera escondido de pura inveja. Sobre elles trazia uma rede de prata, cujos laços se rematavam com perolas á maneira de camarinhas; e da parte esquerda tres plumas altas, uma branca e duas encarnadas, presas a um camafeu: sobre os pensamentos das orelhas rosas de flôres perfiladas de ouro, e pendurado em cada uma um Cupido, que quebrava o arco sobre um diamante; no pescoço uma volta pequena com pontas de aljofares muito miudos, e uma gargantilha de uns passarinhos de ouro com os peitos de esmeraldas. As creadas vestiam de setim amarello gualde, com guarnição de prata. O Portuguez, posto que não quizera mostrar descuido no que convinha para se entender, que no ornamento militar, e cortezão da sua pessoa, e tenda não faltava, como estava ferido, e incapaz de se valer das galas; converteu tudo em pavilhão rico, armação custosa, e trophéos de armas, que faziam a tenda muito agradavel, e auctorisada. D’alli com grande acatamento e inclinação, e com os olhos cheios de alvoroço festejou a boa chegada da formosa e discreta Floriza, que com as palavras accrescentou infinitas graças á sua formosura. Durou a visita grande espaço com mil finezas, e extremos de cortezia. E posto que o capitão com as feridas estava desfigurado, representava no brio e modo de seu parecer a gentileza de sua pessoa, sem a desculpa, que uns olhos affeiçoados offerecem com a parte offendida. A dama se lhe rendeu de maneira, que o mostrava na vista, empregando na sua muitas vezes os olhos. E por não ter mais tempo, suspensos os que esperavam vêr o successo da visita, lhe deu fim com nova graça: e voltando por onde viera, achou a mesma guarnição, e ordem nos soldados, que quando entrára. Logo entre elles e nos mais do exercito se praticou a causa d’aquelle excesso e novo extremo de cortezia, havendo que a que o capitão tinha com ella usado o merecia. Porém não fez termo aqui o seu desejo; que depois de ausente, mandando por muitas vezes a visital-o na convalescença das feridas com que o vira, já de todo