Chapter 3 of 5 · 13037 words · ~65 min read

parte d

’aquellas virtudes, a que por excellencia chamamos reaes. E como é proprio dos homens de bom nascimento e inclinação aspirarem ás cousas mais altas, e desejarem vantagem e melhoria dos outros; tendo diante de si, e no alto da vista um espelho tão claro como é o seu principe, a elle se estão vestindo e enfeitando d’ellas; primeiro e melhor os que o vêem de mais perto; e depois os que por communicação d’estes participam da mesma doutrina.

Ao rei por assistencia lhe ficam mais perto os favorecidos, e officiaes de sua casa, que os grandes, e titulares. Porém estes, como primeiros por dignidade, se preferem a todos. D’estes se aprende o logar que tem na casa real, nas côrtes, nas jornadas, na guerra e em outras occasiões: a familia de que são, o appellido que tem: se os seus titulos são de juro, se de mercê: e os bens que tem de patrimonio, e da corôa: logo o que toca aos officios maiores do rei, em que occasiões não faltam, e nas em que precedem uns a outros: e assim os filhamentos, e moradias do mordomo mór: as entradas do porteiro mór: os pertos do camareiro mór: as praças, provimentos, e penas do monteiro mór: as aves, e ministros do caçador mór: as capitanias do guarda mór: os potros, e jaezes do estribeiro mór: os privilegios do almotacé mór: as vias do correio mór: e os particulares dos mais officios da côrte; assim os ecclesiasticos de capellão mór, e esmoler, e deão; os da guerra, como condestavel, alferes mór, almirante, marechal, e meirinho mór.--Não era fóra de proposito (accudiu D. Julio) tratar mais miudamente de cada um d’estes cargos, e das obrigações e origem d’elles, e de outros menores, que agora com differentes nomes se accrescentaram no serviço real de Hespanha.--A esse desejo (tornou elle) satisfarei eu em outra noite; que agora nem da obrigação, que tomei, me atrevo a sahir com minha honra.--Com essa promessa (replicou D. Julio) eu fico contente, e vós podeis ir adeante.--Faço-o (disse Leonardo) por me desobrigar mais depressa. E falando dos privados e favorecidos do principe, tambem são dos mestres principaes que ensinam a viver os particulares, assim no adquirir a graça do senhor, como em a sustentar, usar d’ella, avalial-a, e encarecel-a aos cortezãos: porque assim como a privança é vidrenta e perigosa, assim os meios, por que se conserva, são muito subtis, e delicados: e posto que o eleger privado está na vontade do senhor, a diligencia faz n’esta parte muitas vezes o officio da natureza; que se, conforme a sentença de um sabio, _a semelhança é raiz da affeição_, tambem _a diligencia é mãe da boa ventura_. Os reis é cousa muito antiga e certa terem privados: e a Providencia Divina o ordenou assim para o remedio de muitos, e allivio da pessoa real: quando elles são varões de valor, justiça, e bondade, como para este officio se requerem (que de outro modo seria cahir peçonha na fonte, de que bebe todo o povo, como escreveu discretamente o nosso bom portuguez Francisco de Sá de Miranda) a estes se inclina de ordinario, ou por semelhança de partes, ou satisfação d’ellas, com uma natural sympathia, que concilia este amor. Se o principe é affeiçoado a armas, se a amores, se a gentilezas, se a forças, se a caça, ou a montaria, se a musica, ou a poesia, ou outras artes, e disciplinas, contentam-lhe os que tem essas mesmas partes, ou se inclinam a ellas. E assim o que entra n’esta pretenção, que é dos que andam mais perto do serviço do principe, o primeiro, que estuda, é a sua natureza, inclinação, e costume, para se ajustar, ou avizinhar com o seu gosto, e se fingir aquelle que lhe convém ser para o contentar: e porque os homens até a seus proprios defeitos são affeiçoados, maiormente os principes, a quem chega mais tarde o desengano d’elles, até n’estes o imita o que sabe grangear a sua vontade; como ouvi contar de um favorecido de Filippe rei de Macedonia, que se fingia coxo de uma perna, porque el-rei o era de outra; outro se finge curto da vista, outro indisposto, e outro se faz pallido e descorado, achando que o rei tem os mesmos accidentes: no andar, no falar, no olhar, no vestir, e em todas as acções o imita; aprende a arte, o jogo, o exercicio em que o rei se occupa, para que, sendo n’elle extremado, seja muitas vezes escolhido, e faça degraus á sua pretenção; entristece-se, e se alegra segundo ao mesmo rei a que grangea. E ainda passam adeante como a Carizosopho, privado de Dionysio, que estando o rei em conversação com alguns da côrte, e movendo-se entre elles grande riso, o favorecido, que estava apartado d’elles, se começou a rir desentoadamente: e perguntando-lhe Dionysio de que se ria, respondeu, que porque imaginava que as cousas, de que o via rir, seriam de gosto. Se entende que no jogo o principe se alegra com ganhar, deixa-se perder; se estima ser gabado, busca rodeios para que, sem parecer de proposito, trate de seus louvores. E de um ouvi eu contar que as mesmas historias, que ao principe ouvia, das cousas de seu gosto, e das gentilezas, e esforço de sua mocidade, lh’as tornava d’ahi a tempos a referir, dizendo que as ouvira de outras pessoas; encarecendo-as, accrescentando-as, e pondo de casa o que movesse a mais gosto, e vangloria o mesmo Principe. Não faltar na continuação de sua presença (como Aristipo Cyreneo) que nem á necessaria deixava ir a Dionysio sem o acompanhar. E quando com estas, e outras diligencias alcança a graça do rei, é outro novo, e maior trabalho sustental-a; que é o cuidado com que todos os privados se desvelam, porque não comem com gosto, não bebem com quietação, não dormem com descanço, não vivem sem receio. E entre outras advertencias me parecem muito principaes, e excellentes as que aponta o bispo de Mondonhedo no seu _Aviso de Privados_: convém a saber, que o favorecido não descubra ao principe tudo o que cuida; que lhe não mostre tudo o que tem; que não tome tudo o que deseja; que não diga tudo o que sabe; que não faça tudo o que pode; que não negoceie para si, nem para outrem fora de tempo; e que em todos se incline e favoreça a parte justa, para que com conhecida sem razão não arrisque o logar de sua privança. Atraz d’isto se seguem os ciumes de seus competidores, o cuidado de os apartar da vista, e da communicação do principe: e ainda os de que mais se receie, trabalhar de os ausentar da côrte com despachos, dadivas e mercês do mesmo senhor, dourando com ellas a pirola de sua dissimulada tenção. Para o que é notavel exemplo o de uma historia que conta o cardeal Navarro no seu tratado _da Murmuração_, de um Fr. Francisco de Mendania seu natural, muito aceito ao imperador Carlos V; ao qual senhor privado, que se receava de sua valia, persuadiu com grandes louvores do frade que seria de muita importancia nas Indias Occidentaes para converter a gentilidade por sua admiravel doutrina, e bom modo de persuadir: e d’esta maneira com capa de amigo o fez prover com o bispado de Nicaragua, desterrando-o da vista, e lembrança do Imperador, e d’ahi a poucos mezes da propria vida. Outro valido, que não teve este meio para deitar da côrte um gentil-homem, que alcançava graça com o rei, e que nenhum cargo quiz acceitar fora de sua vista, espreitando occasião de uma enfermidade sua, se falou com o medico que o curava, e fez que o persuadisse que viviria mui pouco, se assistisse n’aquelle logar, onde a côrte estava, por ser muito contrario a seus achaques. Elle vendo que se atravessava a vida com a privança, procurou de proposito o que antes enjeitara mil vezes, e se sahiu da presença do principe, deixando ao privado livre de ciumes. Tambem importa muito que o favorecido, depois de estar na graça do senhor se lhe não queira egualar, ou adeantar por opinião em alguma parte, de que elle se preze; nem mostrar-se mais discreto, mais valente, mais bem visto, mais airoso, mais acceito a damas, e em outras partes semelhantes; que é cousa, que os reis soffrem muito mal. El-rei D. João o II, e el-rei D. Sebastião não queriam que em fôrças, e valor se lhe egualasse nenhum vassallo, como se collige de muitas historias suas; e el-rei D. Manuel no entendimento: o que tambem se prova d’aquella historia, referida de Antonio Peres, que lhe succedeu ao mesmo rei com o conde de Sortelha D. Luiz da Silveira, a quem mandou que fizesse uma carta para o papa sobre certa materia de importancia, dizendo que elle faria outra minuta para de ambas escolherem a mais acertada: succedeu que, trazendo o conde a sua a el-rei, pareceu tão bem, que não lhe quiz mostrar a que fizera, e assignou a do conde: elle descontente d’este successo se foi a casa, e fez uma pratica a seus filhos, dizendo que cada um buscasse sua vida; porque já el-rei tinha entendido que sabia mais que elle. Assim que o mais alto logar da privança se sustenta com os maiores extremos da humildade em respeito do mesmo senhor; porém para os de fora lhe é necessaria uma ostentação, e ufania, que mereça mais seus poderes, e quebre os animos que podiam ter com elle competencia, para se não atreverem a capitular seus erros, e a contrastar sua valia. E abreviando esta materia, por ser mui larga, se aprende tambem dos cortezãos, assim dos ministros, como dos continuos da côrte, aos quaes pela communicação dos superiores, e exemplo do principe convém serem modestos, sobrios no comer, cortezes no tratar, discretos no falar, polidos no vestir, honrados no gastar, bem creados no conversar, e amaveis a todo o genero de pessoa: e tem mais d’estas partes os que por creação da meninice tomaram este leite, como são os filhos dos que no mesmo serviço gastaram a vida. Esta é a primeira escola, em que os homens aprendem o que pertence á profissão de homem de côrte.--O segundo exercicio (disse o prior) me parece que é o mesmo que tendes mostrado, advertindo mais algumas poucas cousas que são particulares do serviço das damas. O decóro e primor, com que ellas se tratam (respondeu Leonardo) n’este reino, principalmente as que assistem no paço, parece que em certo modo conserva aquella preeminencia, que os egypcios lhe deram, que com o exemplo do bom governo de Isis reinavam as mulheres, porque em presença, e ausencia os cortezãos as nomeiam por senhoras, se lhes descobrem, e ajoelham como a deusas, lhes fazem festas, jogos, justas, e torneios como a Deidades, estão pendurados de seus favores, e respostas, como de oraculos; as acompanham como a cousas sagradas; se vestem, ornam e enfeitam pelas agradar; se desvelam pelas servir; se apuram, para as merecer, no esforço, na gentileza, na galantaria, no dito discreto, no escripto avisado, no mote galante, na endecha subtil, no soneto conceituoso; por ellas se ensaiam para o sarau, no dançar, no falar, no acompanhar, e no offerecer; por ellas se apressam nas occasiões, de jornadas, de creados, e librés, galas, e ginetes; por ellas continuam e passeiam á vista das janellas, atravessam as salas á sua conta, e rodeiam o terreiro do paço mil vezes por seu gosto; por ellas se offerecem a todo o perigo: porque qual é, que um servidor de damas não ache facil por amor d’ellas? que palavras diz? que extremos receia? que esquivanças não soffre? que riquezas estima? que chimeras não finge? que occasiões não busca? vela de noite, não descança de dia, não se entristece com a pena, não desconfia com o desengano, não faz conta de aggravos, nem estima desprezos, não cura de vinganças, e emfim tudo é veneração e humildade, com que as engrandece. E d’esta escola de seu serviço (como no principio disse) sahem os homens tão apurados no que convém á honra, primor, e discrição, que se não pode esperar d’elle vilania em nenhuma cousa. E porque falta a Portugal ha tantos esta creação, tem tão pouca muitos filhos dos illustres do reino, que livres d’este aprazivel, e honrado senhorio, ficaram no de sua vontade. E posto que a minha era dilatar mais esta materia, nem pela edade, nem pela confiança tenho licença.--Essa vos deram todos facilmente (disse então o irmão do prior) e eu de melhor vontade a procurara para com as damas honrar, e engrandecer as armas: contento-me porém que vos hei de ter presente para as duvidas, e perguntas, que se me podem offerecer.--Em tudo (respondeu elle) estaes vós tão avantajado, que mais podeis mover duvidas para me envergonhar, que para saberes alguma cousa de novo; e assim de corrido, e de corrida me passo ao terceiro exercicio da communicação dos extrangeiros, da qual se não alcança menos doutrina, que de todos os exercicios cortezãos. Quatro generos de gente extranha costuma a assistir nas côrtes dos principes. A primeira reis, principes, e senhores, e homiziados, que por alguma occasião vem a acolher-se a seu amparo, ou por adversa fortuna ficam debaixo de seu senhorio. O segundo são embaixadores, com os nobres e ministras, que os acompanham. O terceiro gentis-homens, que vem a saber a grandeza dos reinos extranhos. O quarto mercadores, que por razão do commercio e correspondencia vem a assentar nas praças principaes do mundo, que são as mais das vezes onde os reis assistem. E todas estas quatro condições de gente são de muita importancia para se colher d’ella muito fructo. Primeiramente facil é de julgar a varia noticia de costumes e condições de gentes e dos ritos e leis de provincias, que os cortezãos portuguezes alcançaram com a vinda de tantos reis e principes extrangeiros, assim infieis, como catholicos, á côrte d’este reino, quantos reis, e senhores da Barbaria, da Ethiopia, e de outras partes da Africa, da India, de Maluco, e de Japão, e de outras remotas partes do mundo; e que cousa apurou mais a côrte d’el-rei D. João o I, que a vinda a ella do duque de Alencastre irmão d’el-rei Richarte de Inglaterra, a cujo respeito houveram os doze portuguezes em Londres aquella celebrada victoria em favor das damas? Pois os mais homiziados e queixosos, que se ampararam á sombra do principe, pela maior parte são homens de valor, sangue, e esforço. Os embaixadores, do que d’elles temos dito, se collige o de quanta importancia sejam para dar exemplo. Os gentis-homens, que por curiosidade vem a saber o estilo e gentilezas de côrtes extranhas, esta mesma diligencia os acredita; e além d’isto é de presumir que tenham visto, ouvido e sabido muito de reinos alheios: de modo, que de uns e de outros se colhe grande doutrina para a conversação civil, e perfeição do homem bem nascido; porque cada um conta da côrte, trajo, modo, e estilo do seu reino, a maneira de reger, governar, julgar, tratar, e peleijar da sua nação: d’elles se aprende as excellencias particulares, e os defeitos das provincias, e de que as suas gentes são mais notadas: como a gentileza de França, a furia de Inglaterra, a fortaleza de Allemanha, o siso de Lombardia, as cautelas de Toscana, a fidelidade de Milão, a presumpção de Esclavonia, a conta e trato de Genova, a destreza de Bretanha, a caridade de Borgonha, a continencia de Picardia, a justiça de Veneza, a magnanimidade de Roma: e logo a crueldade de Hungria, a infidelidade de Turquia, a lisonja de Grecia, as zombarias de Piemonte, a luxuria de Catalunha, e a golodice de Barbaria. Pois dos mercadores se não colhe tambem pequeno fructo: porque, deixando o que pertence á conta, peso, medida, correspondencia, confiança, credito, verdade e razão, se alcança do commercio das provincias o que falta em muitas partes; e as em que ha todas as cousas, que por via dos mercadores se communicam, e os portos, caminhos, e escalas de todo o mundo: por elles se conhecem as pedras finas, drogas, roupas, e materiaes de medicinas da India Oriental; as pedras, aljofar, porcelanas, e alcatifas da China; o ouro de Sofala; como no Occidente de Dalmacia, e Germania; e na França o celebrado de Tolosa: a prata de Nova Hespanha, e de Saxonia, e Sardenha: o metal de Corintho, e Chipre: o estanho, cobre, e arame de Flandres, e Inglaterra: o ferro, aço, e chumbo de Cantabria e Sicilia: o marfim da India, Brazil, e Ethiopia: as lãs de Bretanha, Calabria, Calcedonia, e França: o algodão, cheiros, e myrrha de Arabia, Pancaia, e Assyria: as télas e sedas de Persia: o alabastro de Napoles: as martas, e arminhos de Polonia, e Moscovia: o papel e vidros de Veneza: o assucar de India, Brazil, e ilhas de Portugal: o coral de India e Marselha: courames, madeiras, vinhos, e trigo das ilhas do Oceano, que pertencem á conquista dos portuguezes: e muitas outras cousas, que querer agora contar fôra infinito; e por o não parecer este discurso, tratarei brevemente de quatro exercicios dos pretendentes da côrte: materia mui larga, que pedia mais tempo, e muito importante a todos, porque do seu cuidado, diligencia e soffrimento se pode colher uma lição universal para todo o estado, e condição de pessoa, pois nenhuma ha a que não seja necessario desvelar-se, negocear e soffrer para effeito de dar alcance ao que deseja. E como n’este tempo os homens estão já desenganados de quão pouco valem merecimentos, que (por elles o não serem) vieram a chamar valia ás adherencias; e lhes tem mostrado a experiencia a verdade d’aquelle rifão, que _cada um dança segundo os amigos que tem na salla_; e que só põe em pé os serviços quem os arrima a boa parede, por mais arrastados que andassem na opinião da gente. Já nenhum pretendente discreto faz tanto cabedal d’elles como de ministros que o ouçam, creados que o admittam, amigos que o lembrem, ricos que o abonem, terceiros que o cheguem, e peitas que o despachem. Para o que o avisado, depois de fazer o signal da cruz á sua pretenção, primeiro sabe os que valem com o principe, depois d’isto os que tem logar e entrada com os privados: logo conhecer os creados mais mimosos; em sabendo a sala do valido, tomal-a de empreitada, ser continuo no passeio d’ella; onde a todos a primeira cortezia, e a mais humilde seja a sua; o riso sempre na bôca, os offerecimentos na lingua, os olhos no seu intento; dar o melhor logar a todos, porque acaso não falte a algum que pode ser em seu favor; não se aparte da vista do que grangea; faça-se encontradiço onde o veja; na egreja tomar o logar da porta; na salla a sahida; no acompanhamento o deanteiro, para parar onde fique tomando os olhos do privado, para que assim, ou com a continuação mereça, ou com a importunação o despache: usar do trajo limpo, mas não custoso: o comer leve, mas concertado, porque arguem moderação com gravidade: o falar sempre á vontade do ministro, dizendo os amens a todas suas orações, mostrar-se ao favor humilde, á representação agradavel, á esperança contente, ao desengano confiado: falar a todos no seu negocio, porque muitas vezes acerta com um, de que elle não esperava abrir caminho a seu despacho; saber dos que tiveram os outros, e valer-se da queixa dos mal galardoados, para que, antepondo-lhe os seus merecimentos, approve a justiça e favor, que lhes fizeram. E no que toca á moderação das paixões naturaes, ninguem as traz mais registadas que o pretendente; porque dos cinco sentidos e tres potencias usa d’esta maneira. Vê tudo, e olha pouco; vigia, porque, como dizem, _a quem vela tudo se lhe revela_; mas com os olhos no que procura dissimula o que vê, ouve, e não escuta: e assim as más respostas dos ministros cançados, ou insolentes não o escandalisam, antes lhe mostra alegria fazendo do escandalo materia de agradecimento; cheira de longe o que receia; e dissimula, fingindo confiança no que merece: apalpa, e tenta todos os meios de seu remedio, e finge-se ignorante a tudo o que releva; põe o gosto no de quem o favorece, para não fazer mais que o que lhe contente: a memoria occupa-se em relatar seus serviços, e obrigações fingidas, por vêr se assim as pode ter verdadeiras: esquece-se do entendimento para não sentir, e para tambem com elles obedecer; porque o que pretende é muitas vezes prudencia fingir ignorancia, accommodar a vontade com a sua em um voluntario e forçoso captiveiro; a d’aqui nasce que os que pretendem vivem em pobreza, porque não podem ter proprio emquanto dependem de favores alheios; em obediencia, porque a tem com tanta sujeição, que, se ao senhor deseja parecer creado, ao creado quer parecer escravo, e ao amigo, e parente servidor; fazendo-se com todos os ventos para o contentar; em castidade, porque a sua inquietação e cuidado não dão logar aos de amor, que se criam em pensamentos ociosos, que além do pretendente ser humilde, liberal, cortez, paciente, discreto, comedido, sombrio, advertido; casto, diligente, e temperado, a sua cortezia é mais apurada, a sua discrição mais advertida, a sua liberalidade mais prodiga, a sua offerta mais timida, a sua queixa mais moderada, a sua paciencia mais humilde, o seu louvor mais encarecido, a sua voz mais baixa, a sua razão melhor encaminhada. Emfim é ornado de todas as partes boas, de que se pode prezar o homem bem nascido quando as tenha por natureza, e costume, como os pretendentes as fingem e guardam por necessidade. Com isto me deveis haver por desobrigado do cargo, que me déstes; e posto que as horas, que são passadas da noite, culpam a minha tardança, a materia a pedia; ainda que o desejo de não enfadar me aconselhasse outra cousa.--Tendes dito todas tão bem (respondeu elle) que a pratica, e a noite pareceu breve. Com isso vamos a descançar para na guerra de ámanhã entrarmos mais esforçados.--N’essa me dou já por vencido (disse elle).--E eu por atalhado (accudiu Roberto) e todos se despediram com os olhos n’aquella côrte pintada, que ainda com as sombras da verdadeira enganava os sentidos.

DIALOGO XV

DA CREAÇÃO NA MILICIA

Solino foi o primeiro que a noite do outro dia buscou aos amigos em casa de D. Julio; e elle, e os hospedes lhe agradeceram muito a diligencia. E o prior (que lhe não era pouco affeiçoado) disse:--Bem me parece que não fez a edade falta no vosso animo, ainda que as cãs queiram desacreditar as forças, pois sois o primeiro que acudis á guerra.--Como esta (respondeu elle) ha de ser em alojamento, primeiro apparecem as barbacãs, que os soldados.--N’ellas (acudiu Alberto) está o mais seguro presidio contra os perigos; e tendo eu hoje as vossas da minha parte, temerei pouco as que tiver contra mim n’esta occasião.--Em muitas (replicou Solino) me releva mostrar que sou vosso, por dar boa conta da razão com que de mim faz alguma o sr. D. Julio; que, como sabe melhor o que se vos deve, me terá por rustico, se não pagar com esta vassallagem o que mereceis.--Nada haverá (disse D. Julio) que commigo vos desacredite, mórmente para um cumprimento, segundo agora vos vi armado para elles.--Pois se vae a falar verdade (tornou elle) eu vos affirmo que de nenhum inimigo desejo tanto fugir como de um cumprimento; porém ha alguns, que tomam a um homem como em becco sem sahida, onde o faz animoso a necessidade; e á minha acudistes vós agora com essa interlocutoria; que já minha _copia verborum_ ia dando os fios.--Se com esses me armaes a que vol-o gabe (disse elle) estaes enganado; que me importa poupar o cabedal para outra occasião.--Bem sabeis vós (tornou elle) que em nenhuma me quero gabado, antes; praguejado como Adem; porque se é verdade (como diz Pindaro) que tenho a graça na murmuração, como a cobra a peçonha no rabo; quando me põem o pé n’elle, sei morder com mais subtileza, que na doçura de um cumprimento abemolado, de que já a mercê arda tão estylada a puras sincopas e signalefas que parece tisica, e não sei se, de o estar nas palavras, o anda agora nas obras dos senhores.--Ruim agouro foi para uma e outra cousa (disse o prior) escreverem-a sempre em breve letra por parte: e certo que nenhuma cousa era tão necessaria ás mercês de agora, como o _mantenha-vos Deus_ do tempo antigo. Porém, se me não engano, ouço já os vossos aventureiros, que vem falando alto.--Eu tambem sou com elles (disse Solino) e conheço a Pindaro no riso, que sempre entra com chocalhada como picadeiro. A esta pratica atalhou a chegada d’elles, que com mais compridas desculpas do que foi a tardança se assentaram. E porque Solino tinha um galeote vestido, que trouxera por razão do frio, lhe disse Pindaro: nem de côrte, nem de milicia vos vestistes hoje; e não parece razão que em actos tão solemnes venhaes de caça a casa do sr. D. Julio.--O melhor seria (respondeu Solino) que me cortasseis vós agora de vestir, pois não tendes boa tesoura; e já sabeis que as ruins fazem a bôcca torta aos alfaiates. Porém já que vinheis de côrte para esta casa, onde ha tanta, porque antes de vêr o meu gabão rieis tão alto d’elle?--Vingado estaes (acudiu Feliciano) e o certo é que, se faltardes á milicia, nunca vos faltará a malicia.--Se nos mettermos por ella (disse Leonardo) não ficará tempo para que o sr. Alberto satisfaça á obrigação de nos ensinar a boa creação, que se adquire com as armas.--E se eu com as do vosso entendimento (tornou elle) não soccorrer a minhas faltas, mal me irá n’esta batalha: porém como as mais das instrucções da policia militar dependem, ou se parecem com as da côrte, do que d’estas dissestes tão doutamente me aproveitarei agora, pondo sómente de meu cabedal a differença. E assim me parece que a creação da milicia leva a todas as outras grandes vantagens por quatro fundamentos; que cada um d’elles apura mais aos homens bem nascidos, que o trato da côrte e o exercicio das escolas. O primeiro é, que a honra é a fonte de todo o bom ensino, policia, procedimento e valor; e esta que mais nasce, se cria e conserva na guerra, que em nenhuma outra parte: e assim os reis, que são o primeiro logar, d’onde aprendem os seus inferiores, e d’elles passa a doutrina a todo o vulgo, primeiro os fez a milicia que os tivessem as côrtes: e o primeiro, que houve no mundo, que foi Nembrot, na guerra tomou o nome, e assentou com elle o seu imperio em Assyria; e de então todos, os que por fio de geração não succederam, as armas lhes deram titulo, corôa, sceptro e senhorio; e depois d’elles o tiveram pelo mesmo modo os potentados, duques, marquezes, condes, barões e ricos homens, que nas conquistas, instituições, ou restaurações de reinos, fizeram obras heroicas: e d’elles passaram a seus descendentes os appellidos, armas, insignias, senhorios, terras, vassallos, jurisdicções, liberdades, honras e rendas que engrandecem a nobreza. O segundo fundamento é o rigor, com que na milicia se conserva a lei da policia, bom termo, primor e procedimento; porque se commettem muitas vezes ás armas as faltas e emendas que a estes tocam; e onde o erro é tão arriscado, é a vigilancia e advertencia muito pontual; e por este respeito andam os soldados tão vistos nas miudezas e particulares da cortezia, que nenhum ponto perdem, nem deixam perder. O terceiro é a continuação do soffrimento, e da paciencia militar, que em tudo se adeanta com grande differença a pretendentes, creados ministros, no que é com maior risco da vida, ora seja marchando, ora navegando, ora em alojamento, ora em campanha, pelas incommodidades de sitios, gasalhados e mantimentos; e pelas continuas vigilias, que fazem por lei o repouso tão limitado, como o póde fazer por curiosidade o mais estudioso. O quarto fundamento é a variedade das terras e provincias que vê, as diversas nações e gentes com que trata; que é a creação mais importante para o homem bem nascido, e que na côrte ou nas escolas se não póde adquirir tão facilmente. E para que, ao menos imitando a ordem do sr. Leonardo, dê alguma a minhas razões, discursarei com maior brevidade, que satisfação sobre estes quatro fundamentos, fazendo o principal de minha confiança no favor que d’elle, e de todos estes senhores espero.--Até o tomar na graça (acudiu Solino) ambos levastes um mesmo vento, senão quanto ao sr. Leonardo metteu mais traquetes e cevadeiras: e se isto até ao fim fôr em arremedados, póde ser que entre eu na musica antes de muitos dias.--De boa vontade (disse o doutor) vos passarei eu o de ámanhã.--Não o hei de pedir (respondeu elle) por alvará de renunciação, que será difficultoso o consentimento d’estes senhores; buscarei logar vago: e porque me entalei n’este em ruim tempo, o quero deixar ao sr. Alberto.--Pareceis-me n’elle tão bem (tornou elle) que já me esquecia de o cobrar; porém, já que me daes licença, o primeiro fundamento é que a honra se apura e sustenta mais na guerra que na côrte e nas escolas: este me parece que se prova melhor com uma sentença que diz que _a boa fama é o patrimonio na milicia_; porque a honra, o ser, o preço e a riqueza de um soldado, não consiste no appellido de sua familia, na herança de seus avós, na riqueza e morgado de seu pae, nem outros juros, tenças e rendas de que tenha esperança; senão na opinião em que está tido entre os amigos e contrarios, segundo seu valor e merecimentos. E se é certo que a verdadeira honra não consiste nas estatuas dos antigos, nem nos pavezes e escudos em que se conserva a memoria dos principios da nobreza, senão na virtude, valor, magnanimidade e exforço proprio; só o soldado é filho de suas obras, e se póde chamar honrado por si mesmo, sem por roubo, emprestimo ou herança se chamar nobre: porque os que de nascimento o são, e pelas armas o merecem ser, assim honram a seus passados, melhoram e obrigam a seus descendentes. E os que de principios humildes chegaram por seu braço a merecer titulos, grandezas e senhorios, dão felice principio a sua familia, e tambem a reinos, potentados e casas, que os ficam em seus successores eternisando, como por maravilhosos exemplos dos antigos conhecemos; e por experiencia dos modernos se vê cada dia. Ptolomeu de soldado de uma companhia do exercito de Alexandre, veiu por seu valor a ser rei do Egypto. Dario e Artaxerxes por esforço e merecimentos proprios, sendo de mais humilde nascimento, alcançaram o sceptro e corôa real dos Persas. Valentiniano e Justino imperadores de Roma, nascendo rusticos e pastores, por o braço vieram a merecer aquelle supremo titulo da grandeza humana. Viriato e Tamorlão, de pastores, caçadores e soldados vieram a ser, um imperador dos Scythas, o outro governador e general dos Luzitanos: e outros mais modernos, como foi Primislau rei de Bohemia, Francisco Esforcia duque de Milão, e outros muitos; e na milicia presente de Flandres, França, Allemanha e Inglaterra, na de Asia, e na do Oriente, e da Nova Hespanha, conheço eu por vista, e sei por nome, e da fama de muitos soldados, que, sendo de escuro nascimento, por sua extremada valentia e esforço se fizeram tão claros e illustres, e como taes tem os cargos importantes, os logares, honras e vantagens da milicia. De maneira que, pois a honra é uma universidade, em que se aprendem todos os bons termos, procedimentos e cortezias; e esta está fundada na milicia, onde entre as armas nasce, com ellas se ganha, apura e sustenta; n’ella deve estar mais apurado o fructo de sua disciplina. O segundo fundamento é o rigor com que os erros contra a policia se castigam na guerra; de que nasce a vigilancia e cuidado, com que os soldados se disvellam para andarem apontados até em miudezas, de que na côrte se descuidam os mais advertidos para a differença que ha, cortando-se á espada o maio que cresce ao que é pouco cultivado no bom ensino e procedimento; de modo que, mais periga um homem em uma descortezia ás vezes, que em uma batalha. E assim o falar composto, o responder brando, o perguntar com tento, o tratar do ausente, o defender ao amigo, e o falar do contrario, cada cousa tem na guerra suas leis estabelecidas, em cuja execução se procede com todo o rigor; o dos particulares d’ellas nasceram os desafios e duellos tão justamente reprovados na republica catholica, quanto na barbara opinião antiga bem recebidos, como foi na dos reis de Lombardia, que reduziram o duello a dezoito casos das leis: o o imperador Frederico a quatro; e Filippe rei de França a tres: e Frotanio rei de Dacia fez lei que toda a contenda que havia de ser em juizo, se averiguasse pelas armas. E como o descuido que o soldado tem na cortezia, a soltura na palavra, a má correspondencia no procedimento, a liberdade com que fala do ausente e do contrario, está sujeita a dar satisfação por um caminho tão breve: qualquer soldado pratico está mais advertido que o melhor cortezão no bom ensino, respeito e brandura com que ha de tratar aos homens.--A verdade é (disse o doutor) que os soldados conversam com toda a brandura e bom termo: e já Platão disse que o bom soldado devia de ser como o cão; para os domesticos e conhecidos muito fagueiro; e contra os inimigos arriscado e valente. Porém o duello é cousa muito mais antiga, e que se não inventou para essas miudezas que dizeis: porque, conforme a opinião dos legistas, é um combate e batalha particular de corpo a corpo para provar alguma cousa duvidosa, da qual o que sahe vencedor se entende que provou o que queria, como o desafio de Menelau com Paris, de Enéas com Diomédes, de Ajax com Heitor; os duellos de Lucio Sicinio Dentato, que oito vezes á vista dos dois exercitos sahiu vencedor; o de Tito Manlio Torquato, e de Lucio Emilio com o capitão dos Samnitas; de Alexandre Magno com Póro rei da India, o de Scanderbhec com Zayá, e Tambrá valorosos Persas: o de Roe rei de Dacia com Hudingo duque de Saxonia: e muitos dos nossos valorosos Luzitanos em muitas partes do mundo, o de Alvaro Gonçalves Coutinho o Magrisso em Flandres; o de Alvaro Vasques de Almada conde de Abranches em França; o de Duarte Brandão cavalleiro da Garrotea em Inglaterra; o de Gonçalo Ribeiro em Castella; o de D. Francisco de Almeida em Granada: e muitos outros no Oriente, na Asia e em Barbaria.--Não são esses (respondeu Alberto) os duellos reprovados de que agora tratei, que modernamente se usam, e se definem por differente modo, e por todos com bastantissima causa se defendem; que os de que falaes assim, como são batalhas singulares de corpo a corpo, se usavam de cento a cento, vinte a vinte, dez a dez e doze a doze, como foram os portuguezes de Inglaterra. Duellos, segundo a definição moderna, é um combate de homens, que despresando as leis, querem averiguar por seu braço o que toca á sua honra ou opinião, movidos do interesse de a sustentarem, ou de vangloria, arrogancia, inimisade ou vingança: e d’estes usa na milicia a furto das leis e generaes, que com muito rigor os castigam: procedendo todos sobre miudezas e pontos as mais vezes impertinentes, introduzidos pela bizarria e fonfarria soldadesca, pendendo do que disse, calou, passou, respondeu, olhou, se gabou? se ficou melhor nas palavras, se alguma era escura, e ficou mal entendida? sobre perguntas, declarações, satisfações e respostas, e outras cousas, que, por não merecerem ser tratadas, antes com razão reprehendidas, deixo de dizer. Mas a conclusão, para o meu intento, é que na milicia andam as leis da cortezia, e procedimentos mais ajustadas com a razão, que em outra parte alguma, por meio d’este rigor, que faz aos que militam levarem muitas vantagens. O terceiro fundamento é a paciencia e soffrimento dos soldados, que creados no trabalho, e incommodidade d’aquella vida, é o maior de todos os estados; trazendo sempre como grilhões o peso das armas: que se o proverbio diz que _quem traz no dedo o annel apertado, faz para si voluntaria prizão_, quanto maior o será o cossolete, o morrião, o pique, o mosquete e o arcabuz, traz isto trazer o somno registrado pelas leis do tambor, acudir ao seu quarto no melhor do repouso; e no maior escuro, e geada do inverno, passear á sombra das nuvens carregadas de agua, sem mais luz que a dos relampagos, e mais lume que a do murrão; e ter por cama a terra, que de ordinario serve aos soldados, que se alojam no campo, ou fronteira dos inimigos. E se d’el-rei D. Affonso Henrique, do condestavel D. Nuno Alvares Pereira, do condestavel D. Pedro de Menezes, e de outros generaes portuguezes lêmos, que muitos annos inteiros dormiam as noites sem despirem a malha, e couraças com que pelejavam de dia: que colxões lhes podiam servir para tão asperos lençóes, se não fossem as carretas da artilheria, o espigão dos muros, e o reparo das trincheiras e barbacãs? Pois se a sobriedade e temperança é tão gabada nos bons costumes pelos muitos que d’ella nascem, quem póde ser mais temperado e sobrio que o soldado, do qual tantas vezes a necessidade é cosinheira, o escudo ou cossolete a mesa, o morrião o pucaro, e fome a iguaria? E deixando as famosas, que houve no mundo, de que os auctores escreveram, que todas couberam em sorte aos soldados; qual se não ha de presumir que aconteça onde ha muita gente junta, da qual tudo se receia e nada se fia? E se em alguma gente se conserva o costume dos mantimentos da primeira edade, que eram fructas das arvores e legumes dos campos, só na da milicia acontece muitas vezes: não tratando ainda da guerra naval, que com maiores incommodidades e perigos da vida se exercita; nem nos cêrcos, onde mais vezes a necessidade da fome a põe em almoeda. Atraz d’estes extremos de soffrimento se segue a obediencia militar, que é o esteio em que se sustenta o principal peso da guerra, devida e guardada pelo mais valoroso soldado ao menor e mais humilde official do exercito, havendo n’elle tantos, como são general do exercito, coroneis, capitães, tenentes, governadores, mestre de campo, sargentos-móres, generaes de infanteria, de cavallaria, capitães de gente de armas, capitães de cavallos ligeiros, generaes e capitães de artilheria: fóra os particulares, alferes, sargentos, cabos de esquadra, e outros officiaes não combatentes, como são provedor geral, commissario geral, furriel mór, barrachel, thesoureiros, collateraes, pagadores, e meirinhos, e outros muitos.

E em o que toca ao governo de cada um, nenhum soldado desobedece na ordem, na estancia, no concerto, no acometter, retirar, assistir, reconhecer, vigiar, e em todos os mais actos militares: e ainda que se lhes atravesse deante o rosto da morte, o despresa por acodir á obediencia de quem tem a seu cargo mandallo. E faltando esta sujeição, totalmente se destruirão os exercitos, conforme aquella sentença, que _o maior inimigo, que ha na guerra, é a discordia entre os proprios soldados_: e assim se perderão muitos campos, e armadas, por a inconveniencia dos capitães, e a discordia, e desobediencia dos inferiores. De modo que, por ser esta experiencia tão approvada, vieram os reis, e generaes, a castigar bons successos, quando fóra da obediencia, e ordem militar se conseguiram; enjeitando aos vencedores a ventura, e castigando a ousadia, com que traspassaram a lei da milicia, como eu vi acontecer algumas vezes. Ha além d’esta outra obediencia não menos importante nos soldados, que é a do segredo; que vence ao maior que se deve aos negocios civis, e cortezãos: este se usa nos desenhos, intentos, avisos, estratagemas, ciladas, e até em o dar o nome ordinario da vigia; que tudo se guarda com inviolavel observancia. Assim que em tudo o soffrimento, e obediencia do soldado, muitas vezes alcança na guerra mais merecimentos que o seu esforço. E todas estas leis, costumes, e sujeição fazem a um homem tão apurado, polido, discreto, amavel, secreto, brando e animoso, que deixa atraz a todos os que nos outros exercicios se adiantam. O quarto fundamento é a communicação dos estrangeiros, e a vista de differentes terras, e provincias, que o fazem sciente, pratico e visto nos costumes, ritos, e reinos estranhos: porque um exercito se compõe de gente de muitas nações, que por soldo, irmandade, soccorro, pacto ou visinhança se ajudam uns aos outros: e assim capitães como soldados, cada um por competencia, não sómente quer assinalar seu nome, e honrar a sua nação, mas engrandecer os costumes, gentilezas, trajo, e galas da sua patria, contando ainda as guerras e empresas de seus naturaes, as grandesas da sua provincia, e outras miudesas, que nem pela lição escripta se pode comprehender tão facilmente. Pois a vista, que é só a que de todo satisfaz o animo, e enriquece o entendimento, ninguem a tem mais varia que o soldado, ora seja navegando, ora em presidios fóra de sua patria, aprendendo nas alheias todo o bom termo de proceder, de obrigar, grangear, servir, e de se ennobrecer, apurando a sua gentileza, e partes no serviço das damas, sua liberalidade com ellas, e com os soldados: a policia no seu trajo, e bizarria; a discrição na sua pratica; e todos os outros costumes, que á vista de tantas testemunhas exercita, conquistando honra com o esforço, amigos com o bom procedimento, servidores com a liberalidade, a affeição das damas com a gentilesa; fama entre os estranhos, nome com seus naturaes, merecimentos com o rei; que, quando sejam mal galardoados da ventura, não lhe póde essa tirar o seu verdadeiro preço, que é o louvor que á virtude se deve. Tambem não é para despresar na discrição do soldado, antes muito para engrandecer, a relação dos successos, e occasiões, em que se achou, e contar as coisas d’elles com mais propriedade que os cortezãos, e escriptores; pintando o campo em ordem, a cabeça do esquadrão, o rosto, as alas, os lados, e as costas d’elle, o logar das insignias e bandeiras, e dos instrumentos, artilharia e bagagem, a guarnição dos mosqueteiros, as mangas dos arcabuzeiros, as companhias dos alabardeiros, archeiros, bésteiros, escopeteiros, e piqueiros; dispondo nos combates cada uma d’estas coisas em razão, e termo militar. E egualmente no assalto, ou defensão, ou fortalesa, saber dos fortes os bastiões, torres, muralhas, ameias, barbacans, parapeitos, corredores, bombardeiras, séteiras, torreões, baluartes, terraplenos, platafórmas, trincheiras, praça de baluartes, respiradouros, casamata, rebelins, vias secretas, porta mestra, porta falsa, ponte levadissa, cavas, minas, fóssos, reparos, contrafortes, contraminas e contrareparos, e outros nomes, e serviço de coisas, em que só os experimentados nas armas podem falar propriamente: pelo que tenho o exercicio d’ellas por mais excellente para o homem bem nascido, que todos os outros.--Vós (disse Solino) canonisastes hoje aos soldados, e engrandecestes sobre todas a vossa profissão. E são tão boas as razões com que o fizestes, que se assim foram os seus costumes d’elles, não vos podia ninguem contradizer; nem eu o fizera agora, se tratáreis do que todos vemos em vossa pessoa; mas pela differença de outras, com que eu tratei, correndo tantos lares, e estalagens, como João de espera em Deus, haveis-me de dar licença que mostre o avesso a essa pintura, e diga que a milicia um é homicidio commum, uma escola de todos os vadios, e ociosos do mundo. E os soldados não são outra coisa, que soldados pagos, e armados em damno da republica, roubadores de honras, ladrões de fazendas, blasfemos, jogadores, insolentes, espadachins, matadores, rufiães, adulteros, sacrilegos, incestuosos, e perjuros, e cheios de todos os mais vicios, e maldades abominaveis, considerados na liberdade soldadesca, e em sujeitos tão perdidos, como o são os mais dos que se lançam por o caminho da milicia; de sorte que, se alguns saem tão bem doutrinados como vós, os mais são tão differentes, que desmerecem vossos louvores.--Bem sei (respondeu Alberto) que não posso provar commigo o que tenho dito dos soldados; mas podéra allegar com outros, que me fazem grandes vantagens; e com ellas me desobrigaram, se os tivera presentes, ou dos que aqui o estão foram conhecidos: e tambem é coisa clara que vos não faltarão muitos, com que proveis o que dissestes: porém fallo dos soldados honrados, que são os termos em que se deve tratar do fructo da sua profissão.--Pouca razão (acodio o doutor) mostrou Solino no seu arguir: porque primeiramente, a arte militar é muito approvada para a conservação da republica; e já Platão disse que era n’ellas tão necessaria como a agricultura; e os erros dos viciosos, e depravados não podem desacreditar a profissão, nem tirar merecimento aos bem disciplinados, e generosos: que se houvermos de fazer essa consideração em todos os exercicios, nenhum ha sem egual desconto: porque se no da côrte, em que falou Leonardo tão discretamente, quizermos escolher os perdidos, acharemos que são mais que os aproveitados; e o mesmo proverbio declara que são a maior parte, em quanto diz que a côrte é para privados, e para homens mal acostumados; e o mesmo, e peior acontece nas escolas. De maneira que a boa creação da milicia se deve entender sómente nos bem creados, a quem a honra obriga a que se queiram avantajar do vulgo; e não em os que fazem d’ella tão pouco cabedal, que empregam o de seu animo, e saber em cousas indignas de homens bem nascidos, occupando-os em latrocinios, forças, traições, maldades, enganos, e infamias.--Não me péza (disse Solino) senão porque me gabáram de valente quando aqui cheguei, para me não dar por vencido de duas razões tão fracas como as vossas; e com tudo me hei de calar até vos colher em um duello, em que eu escolha as armas, que vos não hão de valer as de quantos bachareis degolaram o mundo.--Guardae-lhe (disse D. Julio) esse animo vingativo para ámanhã, e virá mais a tempo.--Não já para mim (lhe tornou Solino) porque tem da sua parte muito favor, não sómente o de Solino, pelo que lhe importa, mas de Pindaro que tem estillada a quinta essencia dos louvores escolasticos, e não ha travessa, nem beco sem sahida nas lettras, de que não possa fazer um mappa mui copioso.--E achaes (tornou D. Julio) que é isso mau para letrado?--Antes o tenho por muito bom (disse Solino), prazerá a Deus que virá elle a saber ao que agora cheira, e assim o espero: que, posto que estes estudantes mancebos entornam ás vezes tudo no caminho, elle foi sempre pelo mais acertado.--Tambem a mim me parece agora (acodiu Alberto) acabar o meu discurso na vossa differença: para o que peço a estes senhores que me hajam por desobrigado de ir por diante.--Se estivera em mim (respondeu Leonardo) o poder obrigar-vos a dizer mais, como está o gosto, e desejo de vos ouvir, não sei se vos deixara despedir tão de pressa: porem deve ser tarde; porque já o era quando aqui viemos, por uma occupação que me deteve mais do que queria.--Não me parece a mim (disse D. Julio) que é tarde, nem entendi que estava tanto no fim a nossa pratica, que não podesse fazer algumas perguntas, como costumo, de algumas miudezas que o sr. Alberto passou por muito visto n’ellas, como eram alguns particulares, e differenças na ordem da infanteria, e cavallaria, e muitas da milicia naval.--Porque essas cousas tocavam menos ao meu intento (respondeu elle) passei tanto por ellas: mas quando outro dia tiveres gosto de ouvil-as, terei eu muito pouco trabalho em as relatar.

N’este tempo, porque os mais estavam já levantados, se despediram. E Solino se foi pendurando em palavras de galanteria com o doutor com tanta graça, que desejaram os companheiros poderem fazer o caminho mais comprido; que, por muito que o seja, a boa conversação o faz parecer breve, e desejado.

DIALOGO XVI

DA CREAÇÃO DAS ESCOLAS

Estava tão desejoso e alvoroçado Pindaro para na creação escolastica passar aquellas duas columnas, que Leonardo e Alberto levantáram no estreito limite da policia civil, que, imaginando que lhe fugia o tempo, sem o dar ao doutor, para vir com elle, obrigou a Feliciano a que se fossem mais cedo a casa do D. Julio, dizendo-lhe pelo caminho:--Certo que não desejei cousa como alliviar ao doutor do trabalho d’esta empresa; que, posto que a sua auctoridade culpa o meu atrevimento, tambem o amor, que tenho ás sciencias, o favorece.--Muito bem estivera na vossa mão (respondeu elle) por quão boa a tendes para tudo: porém não desejeis de a tirar da sua; porque até em aquillo, que eu sei muito melhor que outros, quizera antes ouvir aos que sabem mais, que escutarem-me elles: e a razão é, que, além de aos antigos estar tão bem a confiança, como aos mancebos o receio, vou pesando o que lhes ouço com o que eu tinha para dizer, e faço mais certo juiso de meu cabedal para outras occasiões. E n’este appetite me parecestes homem que sabe a historia que ouve contar, que se adianta nos passos d’ella ao que a vai dizendo, e por mostrar que a sabe, faz perder o gosto ao que a ouve, e o feitio a quem a relata. Lanço é de habil essa prestesa, e ferir lume com qualquer golpe; mas de sizudo dissimular as faiscas.

Não vos abataes a todo o passaro, ainda que seja da vossa ralé, que não haverá quem queira caçar com vosco.--Mas quereis (tornou o amigo) que me fizesse mar morto, sem levantar ondas quando me vem o vento tão fresco: muito repugna a agudeza do engenho á paciencia de um fleugmatico como vós, que não sei dobrar as mãos quando a pélla me vem pular aos pés; e cedo vereis se tem razão a minha cubiça.--Perto estaes (disse Feliciano) do desengano, e muito mais perto da casa de D. Julio.

N’esta pratica chegaram a ella, e não muito depois os companheiros, e como Solino, em entrando, os vio sentados, disse logo:--Todavia viestes deante para mostrares que ereis os mordomos da festa: e muito confiados na eloquencia, e auctoridade do doutor, vos parecerá que tendes a fogaça em casa, e eu cuido o contrario, se eu entrar na lucta, e vos não valer; que o dia, que se prega de um Santo, é elle o maior de todos.--Não sei que tendes contra as lettras (disse Leonardo) que, sendo tão grande amigo de Pindaro, vos picaes sempre contra a sua profissão.--Dir-vos-hei (respondeu Solino) o d’onde isso nasce; e é que as lettras não posso negar que são cousa boa, mas assentam as mais vezes sobre ruim papel; e como é feito de trapos, tenho achado tantos n’elles, que me aborrecem.--Melhor dissereis trampas, (tornou elle). Porém no amigo que por vos fizeram?--Ir-se-me todo em lettras (replicou Solino)--Não é razão (accudiu o doutor) que vos adeanteis tanto para me tomar a estrada: deixae-me primeiro falar, que eu vos darei tempo quando me quizeres arguir; que, por mais que se apure a vossa murmuração, não pode diminuir os quilates e preço das sciencias.

--Pede razão o doutor (disse D. Julio) e porque elle e os mais desejavam de o ouvir, fizeram silencio; e elle começou d’esta maneira:--Duas cousas me envergonham n’esta empreza, que a puderam facilitar em outro sujeito, a clareza manifesta da muita vantagem que tem a creação das escolas a todas as outras. A segunda poder mostrar deante com exemplos vivos o que hei de provar com razões menos sufficientes, e que sempre á sua vista ficarão limitadas. Porém para accudir á obrigação, em que me puzeram, deixo a que tenho ás lettras, que era não pôr em disputa, como cousa duvidosa, o seu merecimento, e a muita differença que faz o estudo d’ellas a todos os outros exercicios; porque as escolas, e universidades do mundo, que foram instituidas para o governo e conservação d’elle, são o coração dos reinos, onde estão fundadas, do qual sáem as operações principaes para o regimento da vida civil. E se, como diz Cassiodoro, ha tanta distancia do que alcançou sciencia ao idiota, como de homem ao que o não é: julgae quanto importe a creação das escolas, onde todas se aprendem, em differença de outras profissões, em que só por experiencia e communicação chegam algumas sombras das vivas côres da sabedoria. Esta é a razão, porque Diogenes buscava um homem entre os que o pareciam: e o porque disse do que viu estar sentado sobre um penedo _que estava pedra sobre pedra_. E assim como os metaes, que entre ellas se criam, sáem brutos, e toscos e desconhecidos, até que por via da fundição e beneficio da arte tem lustro, preço e merecimentos, assim a forja, em que se apuram os homens, e se põem nos quilates com que hão de ter a valia que a este nome se deve, são escolas, nas quaes da mesma maneira, que por alchimia de cobre se faz ouro, n’ellas de um idiota, e quasi bruto se faz homem com saber, merecimentos, e sufficiencia para se avantajar do vulgo. E começando da grammatica das linguas, que é o primeiro degrau das lettras, ou, como disse um auctor grave, a primeira porta por que se entra a todas as sciencias, com cujo beneficio ellas se conservam, e se perpetúa a memoria das coisas; ainda que, como escreve Quintiliano, tem mais de trabalho, que de ostentação; é, como diz Izidoro, o fundamento de todas as artes liberaes, e disciplinas nobres. A esta dividem alguns em artificial, historica, e propria: que a primeira ensina o concerto, e disposição das lettras, com que escrevemos; a ortographia, e propriedade das palavras que falamos; a segunda, e terceira pertencem ao conhecimento dos logares, e obras dos historiadores, e poetas, e a explicação do que n’elles por antiguidade, e differença da lingua está escuro e duvidoso, mórmente nas tres linguas hebraica, grega, latina, das quaes triumphando a carreira dos annos deixou em muitas edades differença. Na primeira da hebraica e chaldêa. Na segunda na grega commum, attica, dorica, laconica, e eloica. A terceira em prisca, latina, romana, e mixta: e em umas e outras, e na propria de cada um ensina a grammatica a pronunciação das lettras, o som, e accento diverso das palavras, a distincção das vogaes, e consoantes, e a ordem de falar com pureza, e policia. E se este primeiro degrau é tão necessario aos homens, que parece que sem o conhecimento d’esta arte lhes não é licito abrir os beiços; que será levantar-se, e subir ao cume mais alto das sciencias, e disciplinas nobres? O segundo degrau d’esta escada é a logica, arte, que ensina a distinguir e fazer differença do falso ao verdadeiro, e do torpe ao honesto; e como o entendimento é causa do obrar, assim o é ella do entender: é o peso, e balança, em que se conhecem todas as cousas leves, e pesadas; arte, que não sómente ensina a saber a verdade de todas as cousas, mas a poder manifestal-a aos que mentem; reduzindo a dez cabeças, ou predicamentos, toda a variedade de cousas que o mundo tem, achando o verdadeiro modo de definir a todas ellas, e descobrindo os generos, especies, differenças, substancias, e accidentes; esta ensina diversos modos de arguir, provar e sustentar o que concebemos no entendimento: pelos quaes officios é esta arte tão celebrada, que Platão, e depois d’elle Santo Agostinho a fizeram parte da philosophia, dividindo-a em moral, natural e racional. Aristoteles, Scoto, e outros lhe chamam sciencia, e instrumento de saber: de cujo testemunho, e verdade se alcança que sem o conhecimento d’ella não pode um homem falar seguro entre os outros. E posto que ha tão boas disposições de entendimentos, que naturalmente discorrem, e conhecem sem favor da doutrina estas miudezas; comtudo sem o favor da arte escurece ás mais vezes a clareza do engenho. O terceiro logar é da rhetorica, que ensina a falar bem, e a persuadir aos ouvintes com razões bem concertadas ao intento do que pratica, não fazendo o fundamento na verdade do que diz, senão no concerto, e semelhança da razão, com que obriga, e move. E porque d’esta arte se fala mais diffusamente n’esta conversação em favor da linguagem portugueza, passarei d’ella á poesia, arte tão nobre, e desejada, que, trabalhando sempre os invejosos por escurecer seu preço, lhe não puderam tirar o que hoje tem na opinião e exercicio dos principaes senhores de Hespanha: e bastava para o seu grande valor ser conhecido ter n’ella o fundamento toda a philosophia, pois Plutarco conta, e Aristoteles confessa que todos os philosophos, e suas diversas seitas se derivaram das poesias de Homero: e não só deu principio a ella, mas Prometheu, Lino, Muzeu, e Orfeu, e esses mesmos, e outros deram fundamento ás deidades, que os antigos ritos da gentilidade veneravam. E deixando a recommendação de seus louvores para quem com vivo exemplo pode tratar d’elles, dizendo de sua perfeição, e grandeza o que eu em tão limitadas horas não posso dignamente declarar; passarei á mathematica: e, como a parte principal d’ella, á geometria, arte tão excellente, e tão necessaria ao cortezão, que favorece todas as boas partes que n’elle se requerem; e tão natural ao sabio, que Platão tinha na entrada da sua escola um letreiro que dizia: _não entre n’esta casa homem, que não saiba geometria_. E Filo Hebreu diz d’ella, que é princeza, e mãe de todas as disciplinas. E Francisco Patricio na sua republica, soccorro, e presidio de todas as artes. E Platão escreve d’ella estes louvores, que levanta o animo, e pensamento ao estudo da verdadeira philosophia, o que é necessaria para a conquista de todas as disciplinas, favorecendo a arte militar no formar dos campos, dispôr os esquadrões, recolher e dividir as companhias, sustentando a cosmographia em suas medidas, a architectura em suas proporções, a arithmetica, e musica em seus numeros, e a outras infinitas; medindo em todas ellas as fórmas, espaços, grandezas, medidas, corpos, pesos, e todas as cousas que d’elles se compõem; e de medida de agua, vento, terra, nervos, cordas, e cousas semelhantes, como torres, fortalezas, relogios, moinhos, e instrumentos de musica; consta de linhas rectas, curvas, flexuosas, perpendiculares, planas, parallelas, e de angulos, rectilineo, curvilineo, direito, agudo, e obtuso; finalmente de superficie, circulo, circumferencia, centro, diametro, e outros nomes, e termos naturaes d’aquella arte, que na pratica commum parecerão peregrinos, e de que é bem que o homem cortezão se não ache alheio. Atraz d’esta se segue sua companheira a astrologia, sciencia tão levantada, que penetra da terra os segredos das estrellas, tratando do mundo em universal, e em particular, das espheras, dos orbes, do movimento, e curso d’elles: das estrellas fixas, e de seus aspectos: da theorica dos planetas: dos eclypses do sol, e da lua: dos eixos, ou pólos celestes: dos climas, e hemispherios: de circulos diversos excentricos, epyciclos, retrogrados, raptos, accéssos, e recéssos, e outros semelhantes: e de outros muitos movimentos pertencentes aos céos, e ás estrellas, de cujo curso, e estações de tempos se faz natural juizo das cousas futuras tocantes á agricultura, e navegação, não admittindo a especie supersticiosa dos mathematicos, que é a astrologia judiciaria. E passando d’esta á philosophia, sem cujo conhecimento parece que os homens não podem alcançar perfeição alguma; é tão levantada, que lhe chama Santo Izidoro, no II das suas Etymologias, sciencia de todas as cousas divinas, e humanas, em quanto é possivel ao homem alcançar d’ellas. E Platão diz que ella é o maior bem, que Deus concedeu aos homens: porque ella é a lei da vida, a estrada da virtude, a fortaleza contra os vicios; a fórma das acções humanas, o lume de nossas obras, a ordem dos pensamentos internos, regra do entendimento, a mestra dos nossos costumes, e descobridora dos segredos elementares: mas comtudo não chegou a conhecer a philosophia christã, a qual envolve as tres virtudes theologaes, cujo proprio officio é o que escuramente Platão tocou em seus louvores: e finalmente a contemplação de todas as cousas supremas do céo: e para as da terra ella é a chave que abre os segredos da natureza: que ensina a viver com disciplina; que destroe os erros, e aclara a confusão, e trevas do entendimento; une as differenças; restitue o governo com ordem; rege as cidades com justiça; e administra as nações com sabedoria. E repartindo estes attributos seus pelas cinco partes, em que se divide, physica, ethica, economica, politica, metaphysica; a primeira trata dos principios naturaes, e movimentos, quietação, finito, logar, vacuo, tempo, especies de movimento, medidas do tempo, até chegar ao primeiro e supremo movedor de tudo. A ethica se emprega na composição dos costumes, e na moderação das paixões humanas, em que consiste a felicidade da nossa vida. A economica ensina o governo, e regimento particular da casa, familia, mulher, filhos, e criados. A politica dá os preceitos á legitima ordem, e governo das republicas, reinos, e cidades, assim em razão dos que mandam, como dos que obedecem. A esta chamou Isocrates _alma das cidades_; porque n’ellas faz o mesmo officio, que a alma em um corpo. E Socrates lhe chamou _sciencia dos principes_; porque a elles mais, que aos outros homens, pertence o conhecimento d’ella. A metaphysica trata das cousas, por altissimas, segregadas de toda a materia sensivel, e ainda intelligivel do modo que os bons metaphysicos n’esta divina sciencia praticam. Finalmente considera as fórmas separadas, passando da contemplação das da natureza á das sobrenaturaes; das corporeas, das idéas, dos atomos, da materia prima, da introducção das fórmas, do fado, da eternidade do céo, dos transcendentes, das intelligencias assistentes ás espheras celestes. De modo, que só nos principios moraes d’esta sciencia está fundada toda a doutrina da côrte, e da milicia, que nas noites dos dias atraz se tem mui doutamente praticado. Na physica que é, como tenho dito, a primeira parte da philosophia, está fundada a arte da medicina, que assim pelo importante sujeito em que se emprega, como pelas artes, e sciencias, que lhe ajunta, e encadeia, é o conhecimento d’ella mui digno do homem sabio, e bem nascido. Esta se divide em empirica, methodica, dogmatica, ou racional. A primeira é fundada sómente na experiencia dos remedios, nas virtudes das hervas, pedras, plantas, e animaes. A segunda considera sómente a substancia das enfermidades, sem respeitar conjuncção, tempo, logar, região, edade, natureza, ou habito. A terceira, não despresando a experiencia, nem a razão dos exemplos d’ella, abraça tambem as naturaes, em que está fundada a arte. Na ethica politica tiveram principio as nobilissimas profissões, e sciencias das leis civis, e sagrados canones, e derivadas d’estas fontes da philosophia, e do direito natural, e divino.

E se, como disse Solon, a republica, que não tinha leis, semelhava um monstro, que não tinha mais que o parecer humano; assim se pode imaginar o homem, que não tiver noticia d’ellas, que, por serem tão importantes ao mundo, endeusaram os antigos todos os inventores d’ellas, como Saturno, Belo, Minos, Pheaco, Solon, Licurgo, e outros muitos: e os nossos maiores fizeram leis segundo a differença dos estados; não umas sós, por que todos se governassem, mas convenientes ao genero da vida que cada um tomava. E assim os que apartados do gremio da republica civil se empregam no serviço da egreja, obedecem ás leis que os summos pontifices, e os concilios dos padres ordenaram, que são os Canones Sagrados: porém os seculares se governam pelas leis, e ordenações, que os seus reis fizeram, ou confirmaram; recorrendo em os casos, a que os particulares não alcançam, ás leis imperiaes dos romanos, e disposição do direito commum. E de quererem confundir esta tão necessaria differença os perfidos scismaticos, negando auctoridade ás leis allumiadas pelo Espirito Santo, na cega confusão das suas, que fundam em sua depravada liberdade, vivem em escuras trevas: sendo como disse Tullio as leis vinculo da republica, fundamento, e segurança da liberdade, e fonte da justiça. E por vos não parecer que na minha profissão particular me extendo muito, deixo o que d’ellas pudera dizer, que é infinito, começando dos primeiros legisladores até o estado presente, em que esta profissão está tão levantada, e ennobrecida. E só pela reformação do imperador Justiniano estão em seus volumes escriptas doze mil e setecentas e sete leis, tiradas de muitas mais que confusamente estavam nos livros romanos derramadas. E subindo da metaphysica á divina theologia, fundada sobre a verdade evangelica, se apura um homem, e chega ao mais alto a que se pode levantar o entendimento humano. Esta se divide em escolastica, e escriptura: a primeira é a que com argumentos fortes, razões demonstrativas, e provas invenciveis, disputa contra os hereges, e infieis, em todos os dogmas importantes á verdade da Fé Catholica Romana: como é da Trindade, e Omnipotencia de Deus, da presença divina, da predestinação, do livre arbitrio, da graça, da justificação, da gloria; do peccado, das penas, do logar do Purgatorio, dos Sacramentos, e dos Artigos de nossa Fé. A Escriptura consiste na interpretação, e exposição da Sagrada Escriptura, segundo os quatro principaes sentidos d’ella, que são literal, moral, tropologico, e anagogico: com cuja noticia dada aos homens por meios da sciencia, como antes foi dada por revelação aos prophetas, apostolos, e santos padres, não só dão perfeição ao sabio, mas o fazem parecer uma semelhança de Deus na terra. E supposta esta grandeza das sciencias, com cujo lume fica tão claro o entendimento humano como tenho dito, que outra cousa é universidade, que uma côrte especulativa, em a qual se sabe o que nas dos reis se executa; onde á vista dos doutores prudentes, na lição dos mestres escolhidos, na communicação dos nobres bem acostumados, na conversação modesta dos religiosos, está o nobre em uma continua lição de policia, tendo por palmatoria de seus erros a vergonha de os commetter á vista de tantos censores d’elles; ajudando a advertencia de lhes fugir a curiosidade com que se espreitam, e a liberdade com que se reprehendem: pois a entrada nas escolas, a assistencia nas aulas, qualquer pequeno descuido se rebate com os pés dos que n’ellas assistem, obrigando a todos á compostura do rosto, á quietação do corpo, á modestia do trajo, á pontualidade na cortezia, ao cuidado no falar, e não se querer algum fazer singular entre os outros. Tem as escolas além d’estes um bem, que favorece esta opinião, e é que de ordinario os que as buscam, ou são filhos segundos, e terceiros da nobreza do reino, que por instituições dos morgados de seus avós ficaram sem heranças, e procuram alcançar a sua pelas lettras; ou são filhos dos homens honrados, e ricos d’elle, que os podem sustentar com commodidade, nos estudos; ou religiosos escolhidos nas suas provincias, por de mais habilidade, e confiança para as lettras, e assim fica sendo a gente mais creada do reino; differença, que não pode haver na côrte, e na milicia. E á vista de tantas vantagens, sem tratar de outras particularidades menos importantes, me parece que tenho mostrado o quanto seja mais, que todos os outros exercicios, proveitoso o das lettras, pedindo por a dignidade d’ellas ao prior, e a Pindaro, e Feliciano, que tomem á sua conta aperfeiçoar o que eu não soube dizer, pois o exemplo de suas partes é a mais legitima prova de minhas razões.--As vossas (respondeu o prior) menos dão logar a glosas, que a invejas; e se essa me deixara dizer os louvores que vos devo, renovára no vosso sujeito os das escolas, pois n’ellas nos mostrastes o que sois, que é um mappa de todas as sciencias, tão perfeito, distincto, e intelligivel, que parece que as pode medir qualquer rasoado entendimento; porque recolhidas em vós como em proprio centro estão na sua altura.--Esta vantagem (accudiu Feliciano) tem os que sabem perfeitamente, que não é só para si, mas para ensinarem aos com que falam. Certo estava eu que o doutor sabia de tudo o que disse, não só os termos, e fundamentos, mas ainda o mais difficultoso, e substancial de todas as artes, e sciencias: mas o praticar dellas de modo, que eu as entendesse, é graça de seu saber, e não sufficiencia do meu engenho.--Tambem essa sua submissão (disse Leonardo) é grande prova dos merecimentos de vossa habilidade, que a essa nada ficaria escuro, senão o que por culpa de quem falasse estivera confuso: porém em mim se vêem mais os poderes do doutor, que o posso agora parecer no que lhe ouvi.--A isto (accudiu Solino) _todos dizem amen, amen, sinò D. Sancho que calla_. Pindaro está descontente, pois que emudeceu: se o deixarem, elle vos fará guerra.--Para que a quereis commigo (respondeu Pindaro) se as razões e a occupação da noite é do doutor? a elle podeis contradizer; que para o que calla não servem argumentos.--Bem sei (replicou elle) onde estão os páus; mas quizera costear a bolla por este rodeio, que todos os lettrados sois como cerejas, que se vem após uma todas as outras.--Ahi não ha cousa boa sem contradicção (disse D. Julio) ouçamos as de Solino, e veremos quem tem lebre.--E por vós correrdes esta (lhe disse elle) metteis os cães na mouta, e quereis (como dizem) tirar a sardinha com a mão do gato: na vossa tendes a faca, e o queijo, cortae, que não falta por onde: que eu não tenho nenhuma cousa contra o doutor, salvo se elle me deixar com os outros do seu gráu que o não merecem; que eu farei um _A_, _B_, _C_, por onde á primeira vista lhe conheçam logo as lettras.--Já desde hontem (disse o doutor) os tendes ameaçado; e eu consenti no desafio: não sei agora a causa, porque o temeis.--Porque (disse elle) tendes no campo muitos padrinhos da vossa parte, que o são minhas n’esta demanda. Porém dae-me licença, que em boa paz vá botando a rasoura a esses louvores das sciencias que accogulastes; e sabereis que de cento não ha um lettrado, que não traga cascavél, por onde lhe conheçaes a altura em que anda como furão; e se o tirardes do bairro de sua profissão, se perde na metade da hora do dia, como em bêcco sem sahida: para o que eu tenho um astrolabio excellente, que me deu a experiencia em penhor do serviço de alguns annos sem galardão, que ainda o tempo me deve. Primeiramente, como o vós virdes falar por _secundum quid_ e metter a _materia prima_, e dividir _em abstracto_, accudindo a um _ergo_, e a _fortiori_, assentae-m’o por logico: mas se vos falar em _superficie plana_, e _figura quadrilatera_, _corpo rotundo_, _semicirculos_, e outras semelhantes cousas, entendei que é geómetra, se o ha no mundo. Se vos disser dos _nervos opticos, dos meatos, intestinos, veias mezeraicas, palpitações, sufocações, apoplexias, ophtalmias_, matriculae-m’o na medicina: se vos desandar com uns pontinhos das regras de direito, que são os anexins dos juris-consultos, e falar em _ad rem, e jus in re, e em liti pendente, e in rei veritatem, in foro exteriori_, e outros verbos d’esta linhagem, não escapa de jurista. Ora os theologos, que pela preeminencia, e grandeza de sua profissão tem logar apartado aos dois lanços se alevantam da conversação com a materia dos anjos, e dos auxilios, e outras, em que vos deixam o entendimento em jejum, sem darem um bordo á commum, e civil conversação dos cortezãos. Pois se qualquer d’estes, que digo, acerta de ser official de grammatica, além de debruar tudo de versos de Ovidio, e de sentenças de Plauto e de Terencio, por levar o portuguez arrastro até o fazer latim, fala por _septe_, _docto_, _scripto_, e _benigno_. De maneira que para bem, e conservação da lingua portugueza, e para se não corromper de todo, me parecia que se houveram de arruar os lettrados; que receio, se se misturam, que em poucos annos nos achemos em uma certa Babylonia.--Não cuidei (disse o doutor) que estaveis hoje tão venial; a isso chamam morder na capa: esperava eu que viesseis com algum libello mais rigoroso contra os lettrados; que essas palavras, que se lhes pegam dos termos das mesmas sciencias, não são defeituosas, ainda que não sejam vulgares; porque muitas vezes significam mais propriamente que as outras.

--Bem esteve o libello (replicou Solino), mas se lhe quereis uns artigos accumulativos, com a auctoridade d’um auctor moderno, diz elle que tres cousas deu Deus ao homem de maior estima, que os letrados lhe tem deitado a perder, que são corpo, fazenda e consciencia: o corpo os medicos que com suas purgas, xaropes e sangrias, nem a invenção da polvora foi mais prejudicial que elles para a vida. A fazenda os legistas, que com demandas, embaraços e conluios a põem cada dia em passamento, sem haver entre a poeira de suas encontradas opiniões quem enxergue a verdade: e ainda para si proprios vereis poucos medicos sãos; e nenhum legista vencer demanda sua. Dos da consciencia não quero tratar por ser cousa perigosa: mas ha muitos que fazem por esta parte grande damno. E posto que isto não é culpa das sciencias, senão dos letrados, elles tiraram a innocencia fóra do couce, e abriram de par em par as portas á malicia, semeando enganos e hypocrisias, de que andam mais inçadas as escolas, que de nanteos de fêsto: isto é quanto á linguagem e aos costumes: que na policia do vestir, a sua anda fóra do roteiro dos cortezãos; porque o letrado que se quer trajar galante, como não sabe por uso, segue extremos; porque ou traz a espada que lhe dá com os cabos nas virilhas, ou tão alta que lhe vem comer á bôcca; e por fazer addições ao vestir de modo accrescenta de novo que se conhecem na côrte os estudantes entre os outros homens, como podengos de agua pela guedelha: e pelo costume do barrete, ou tiram o chapéo de meio a meio, ou o penduram pela ponta do cairel, como em tenda de sirgueiro.--Bem sei (disse o prior) que quem vos agora fôr á mão dará nova materia á vossa habilidade: mas sem embargo de todas as culpas que arguis aos letrados, que eu agora não trato de defender, por vos não ajudar a vós e offender a elles, vós sabeis a differença que elles fazem aos outros homens, que não aprenderam; pois sem habilidade, exercicio e doutrina não se alcança sabedoria, de maneira que muitos idiotas não fazem um letrado.--Tambem eu sei (respondeu Solino) que muitos letrados não fazem um homem cortezão; e que este ás vezes vence em pouco tempo o que elles trabalharam em muitos annos: porque além de ser comprido o caminho das sciencias por preceitos, e breve por exemplos, o cortezão, que o é, põe de sua parte maior desejo de saber uma cousa que o estudante: e é certo que alli tem maior força o engenho onde está mais prompta a vontade: e no que toca aos letrados pudera eu agora trazer um par de historias em meu favor, que cabiam n’este proposito.--A essas (disse Leonardo) não faltará logar em nenhum tempo, porém é gastado parte do d’esta noite: e pois esta foi das lettras, não mettamos contra ellas maior cabedal.--Agora (acudiu Pindaro) lhe destes jogo, porque lhe parece que nos perdoou aquellas historias; sendo cousa clara que toda a sua opinião nasceu de uns principios de grammatica que teve; que, depois de ferrugentos n’aquella edade, os alimpou com a cinza do borralho d’esta aldeia para se levantar contra os que sabem; sendo sua murmuração puras fezes de idiota; e se o virem entre os rusticos do termo falar latins, notar prégações, aconselhar em demandas, e applicar medicinas a enfermos, dirão que é manta de retalhos das escolas, e presa-se de dizer mal do que acredita.--Já parece (respondeu Solino) que tomastes folego, que estaveis mui mortal: a verdade é que não sois agudo, senão quando vos dou quatro fios sêccos na minha sufficiencia; e de a eu ter para tudo, me nasce abranger aonde vós não chegaes; que, segundo a capacidade dos que aprenderem, aproveita a doutrina dos que ensinam: e sabei outra cousa, que se não póde chamar sabio o que não conhece os nescios, e d’estes que nenhum se conhece a si.--_No se maten tales dos_ (disse Leonardo) deixemos as letras em paz, e a Solino com seu credito; que são horas de partirmos esta briga, e acabar por hoje a conversação.--Em todas me é de proveito o vosso favor (disse Pindaro) e mais agora que estava colerico contra meu amigo; que, ainda que o não pareça no modo com que me encontra, eu o sou seu na verdade com que o amo, e estimo suas cousas.--Amisade (respondeu elle) quando é segura não periga, nem quebra em tão pequeno salto; que nem por este deixaremos de ir juntos para casa. E querendo os mais levantar-se, começaram alguns a fazer juizo das duas noites passadas com aquella: porque cada um era interessado na profissão que se seguia, se calaram deixando a eleição ao voto de quem o tiver desapaixonado, se ha algum que ao menos na inclinação o não seja á côrte, armas e lettras, de cujo fructo, se são muitos os queixosos por parte da ventura, nenhum ha que da sua propria sufficiencia se mostre descontente.--Eu o estou de mim (disse o doutor) porque esta madrugada determino fazer um caminho á cidade, em que me hei de deter alguns poucos de dias, e esses hei de ter de penitencia na falta de tão boas noites: e para isto peço licença ao sr. D. Julio.--Porque consentir n’essa (respondeu D. Julio) é obedecer-vos, o faço muito á minha custa, com tal condição, que volteis com muita brevidade, que sem vós nem podem estas praticas ir deante, nem deixarei de sentir agora muito mais a falta de vossa conversação, partindo-se ámanhã, como determina, para a sua egreja o sr. prior.--D’essa maneira (acudiu Solino) faço conta que se dividiram os dialogos das noites de inverno, e que ficam servindo esta, e as passadas de uma primeira