parte d
’ellas, que se continuará com a vossa boa vinda; e em tanto se apurarão os entendimentos e a linguagem para materias e sujeitos mais escolhidos que sejam proveitosos e agradaveis aos ouvintes.--Em muitas outras cousas (disse Leonardo) soffrêra eu intervallos, mas n’esta conversação os sinto agora por extremo; por isso, já que n’ella nos tendes bem acostumados, não tardeis muito.--Até nos gostos (tornou o doutor) a muita continuação causa fastio; pelo que os auctores discretos, por não cansarem com elle o juizo dos curiosos, dividem seus volumes em partes, e essas em capitulos e outras divisões, que com a novidade e brevidade, facilitem a leitura.--Fazem elles muito bem (disse Solino) que ha uns livros sem estalagens, tão compridos como leguas do Alemtejo, que os deixa um homem muitas vezes no signal da cruz, por se não atrever a os levar de um trago. E tambem os poetas nas suas comedias, que são mais proprias para recreação e passatempo, dividiram a obra em actos, a que agora chamam jornadas, e essas repartiram em scenas; e por divertir da gravidade e decóro das pessoas introduzidas, inventaram os comicos modernos entremezes e bailes. Não vos detenhaes muito, e tornaremos ao nosso exercicio com maior desejo e melhor cuidado.--Eu o terei (respondeu elle) de fazer pouca tardança; que o interesse me não deixará cahir em descuido, quanto mais esta nova obrigação em que me pondes.
Dizendo isto se levantou, e os mais o vieram acompanhando, feita primeiro cortezia ao senhor da casa, e aos hospedes que ficaram n’ella. Em quanto com a falta daquelles assistentes a houve tambem na conversação das noites que se seguiram, será justo que descansemos um pouco da continuação d’este estylo; que se ao gosto dos curiosos leitores fôr bem acceito, sahirá brevemente á luz outro volume de dialogos, que espera vêr o successo dos primeiros; pois esta virtude de escrever não tem no auctor d’elles outro fructo mais, que a satisfação dos animos affeiçoados a seus escriptos, aos quaes com o trabalho de suas obras deseja pagar a vontade e opinião com que acreditam.
FIM DA “CÔRTE NA ALDEIA”
ECLOGA
CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES
ECLOGA
CONTRA O DESPRESO DAS BOAS ARTES
(=Bieito, Aleixo, Corino.=)
BIEITO
Uma novilha dourada, Que anda naquella floresta Com uma estrella na testa Silva branca e remendada,
Viste, Aleixo, d’onde veio, Que anda alli sem companhia?
ALEIXO
Quiçais se derramaria, Será d’algum gado alheio.
Para nós se vem chegando, E se eu tenho ainda o meu tino. A novilha é de Corino, E o pastor anda-a buscando.
É n’estes pastos extranha, Veio ha pouco a seu curral, Acha-se no campo mal, E foge para a montanha.
BIEITO
E d’onde houve aquella rez. Que elle poucas vacas cria?
ALEIXO
Ganhou-a n’uma porfia Nas festas, que Ergasto fez.
Houve então grão desafio Em lucta, canto, e louvores, Venceu todos os pastores Da serra, e d’além do rio.
BIEITO
Muito sabe, mui bem canta, Muito faz quem se lhe atreve: Como dança! como é leve! Que voz tem! como a levanta!
Viu, correu muitas aldeias, Viveu numa, e n’outra parte; E com ser só na nossa arte, Sabe o muito das alheias.
E segundo tenho ouvido, Já elle houve outro cuidado Bem longe de guardar gado Com o nosso trajo, e vestido.
Foi na villa dos melhores: Mas uma dor bem sentida Fez que deixasse essa vida, E buscasse a dos pastores.
Mas ainda quando se eguala Com o nosso modo aldeão, D’outra sorte dá razão, D’outra sorte canta, e fala.
ALEIXO
Digo-te que assim parece; Que logo na arte, e no geito Tem uma graça, um respeito, Que aos pastores nos fallece.
Vêl-o? assoma na ladeira; Anda o bom pastor sem tino, Chamo por elle, ah Corino.
BIEITO
Não responde com canceira.
Cá anda a tua estrellada. Para nós vem, já nos vê: Façamos que um pouco estê Com nosco n’esta abrigada.
Que uma hora do seu falar, E um lanço do seu saber, Nem é para se perder, Nem é para se pagar.
CORINO
Deus vos salve: venho morto.
ALEIXO
Senta-te descançarás.
CORINO
Corri todo o valle atraz, E ainda agora tomei porto.
ALEIXO
Tens a novilha segura; Descansa e descuida d’ella.
CORINO
Folgo de achal-a, e perdel-a Já não tenho em má ventura.
Porque é tão grande interesse O de vossa companhia, Que de ganho ficaria Quando de todo a perdesse.
Ha muito que estais aqui?
BIEITO
Já sol fóra nos juntámos, E até gora não cantámos: Foi dita esperar por ti.
CORINO
Eu não sei negar-me: agora Vedes que venho cansado, Que não me quero rogado: Cantára, se isto não fôra.
Faz seu officio a edade, Sou já velho, a voz fallece: Mas se a vontade merece, Tendes bem certa a vontade.
BIEITO
Toma alento; então nos dá O que sem te ouvir não temos; Que a vaca nós a traremos. E t’a levaremos lá.
Faze-nos prazer que ouçamos Aquelle cantar primeiro, Que te ouvimos no ribeiro Quando acaso te topamos;
Que mui gabado, e mui raro Para a coisa de que trata.
CORINO
Canto emfim: que quem dilata Dizem que quer vender caro.
E pois que em al não mereço, Quero colher d’isto o fruito.
BIEITO
Tudo o que dizes val muito, Mas isso só não tem preço.
(_Canta Corino_)
“Aqui nesta montanha, Aonde este trajo humilde, e despresado Dos homens não se extranha; Aonde só com um cajado, Vence a fortuna um pobre desarmado;
Aonde não tem valia As mais custosas pedras do Oriente, E as riquezas que cria O mar, que ousadamente Commetteu cubiçosa, e cega gente;
Aqui n’esta rudeza Só de humildes pastores escolhida, Aonde a natureza, Já menos offendida, Dá doce amparo á desejada vida;
Aqui meu desengano Góso contente, e minha liberdade,