Chapter 5 of 5 · 1818 words · ~9 min read

Livre d

’aquelle dano Da cega vaidade, Que corrompeu nos homens a vontade;

Aqui de burel grosso Me vestirei contente, e esquecido D’aquelle traje nosso Tão vão, tão mal trazido, Dos primeiros principios esquecido.

Qual entre a concha amada A tartaruga tem quieto abrigo, Não se teme de nada, E no maior perigo, Escondida entre si, vive comsigo;

Tal o meu pensamento Não quero que á ventura o logar deva; Que não ha mór isento. Nem que melhor se atreva, Que o que tudo, que tem, comsigo leva.

Qual cobra na espessura, Que deixa entre os espinhos esquecida A velha vestidura, E d’ella já despida, Como anguia no mar, renova a vida;

Assim quando me vejo Que começo a viver n’esta mudança, Contento meu desejo, Troco minha esperança, Não quero mais de enganos, que a lembrança.

A cauta cotovia, Vendo o ligeiro imigo, o voo nega; N’elle não se confia, Com a terra se apega, Porque ali com as azas não lhe chega.

D’esta arte se defende O Pastor despresado da ventura, Que ella sempre pretende Descer da mór altura Quem cuida que no alto se assegura.

Da lã d’este meu gado Coberto escaparei, terei socego; Que n’ella disfarçado, Em perigo mais cego, Escapou do gigante o cauto grego.

E o meu desejo acceso, Que encontrando a razão mal se empregava, Ponha em mãos do despreso Os bens que procurava, Da liberdade minha, que era escrava.

Adeus doces enganos; Já parece razão que vos despida, Viveis ha muitos annos, Deixae-me agora a vida, Que, em quanto a vós tivestes, foi perdida.”

BIEITO

Ah! Corino, quem podera Dizer agora o que sente, Se, só com te vêr prezente, A voz não lhe emmudecera.

Confesso que estou culpado, Mas não só de atrevido: Mil vezes te tenho ouvido, E só agora escuitado.

Quem te trouxe entre pastores, Aonde esta vida t’extranha? Que póde dar-te a montanha, Senão rusticos louvores?

Quem não sabe conhecer-te, Como saberá presar-te? Mas ainda acertaste em parte, Pois vinhas para esconder-te.

Não fieis da serra tanto; Que al vai de vêl-a a sentil-a: Torna pastor para a villa, E serás na villa espanto.

Não apouques ao teu muito, Não vivas n’estas aldeias, Aonde entre as ramas alheias Se não conhece o seu fruito.

CORINO

Louvores mal empregados, Quando as partes são presentes, Menos deixam de contentes. Pastor, que de envergonhados.

Porém te affirmo, Bieito, Que n’estas nossas montanhas Ás boas partes, e manhas Se tem ainda algum respeito.

Que eu já na villa tratei Muitos mezes, muitos annos, Trouxe d’ella os desenganos, Com que aos matos me tornei.

Aprendi muito, e bradavam Os mestres para ensinar-me: Ensinaram-me a queixar-me, Porque todos se queixavam.

Depois de ter conhecido Homens, e o seu proceder, Aprendi a me esquecer De quanto tinha aprendido.

Ouvi gabar esta vida, Este trajo, este cajado; Busquei-a agora obrigado Da que já tinha perdida.

Que ainda cá por esta serra Se ama o saber; se deseja, Lá não lhe deixa a inveja, Lugar, em que estê na terra.

Não se tecem já coroas Para as partes estimadas; Entre nós de envergonhadas Se encolhem as artes boas.

Saber, e conhecimento Fazem já desmerecer; De sorte, que o não saber Serve de merecimento.

Assim que é melhor partido, Ao que busca o que convém, Enterrar partes se as tem, E andar dos outros vestido.

BIEITO

Á fé que não dizes mal Quem m’o disse hora? qual dia? Que o bem que perde a valia, Porque entre os homens não val.

Cresce a virtude louvada, A planta favorecida, A vontade agradecida, E a parreira alevantada.

Fui domingo a vêr a lucta, E outros com grande alvoroço; Vim encantado d’um moço, Que alli cantava em disputa.

Dos pastores mais gabados Tinha á roda mais de mil, Que ao som do seu rabil Estavam como enlevados.

Perguntei, vendo occasião, Onde, e que gado guardava, Entre nós? que eu n’isto dava Primeira fé de affeição.

Eis quando alli se murmura, Que se ia d’estas aldeias A buscar terras alheias, Ou buscar n’ellas ventura.

Engeitou-lhe a natureza O bem de seu natural; Então sustenta-se mal A arte onde se despresa.

CORINO

As hervas que os gados pascem, E as flôres que os olhos vem, Mais poderes do sol tem, Que não da terra onde nascem.

O grão, que na varzea cresce, Com humidade arrebenta: O sol cria, o chão sustenta, Levanta-se e reverdece.

O enxerto já crescido Com o sol, e agua accommodada, Se cae sobre elle a geada, Secca-se murcho, encolhido.

O bom natural é parte, Que o despreso desanima: Como a cousa não se estima, Não podes d’ella prezar-te.

Vi eu d’isto uma pintura Com arte e modo extremado; E se inda estou bem lembrado, Tinha ella esta figura:

Um mancebo que encaminha Vôar com desejo acceso, D’uma mão atado um peso, Na outra umas azas tinha;

Uma livre, outra sujeita, E dizia a lettra assim: Se esta pésa contra mim, Est’outra que me aproveita?

Quanto melhor parecera Valer menos tudo o mais, E que ás partes naturaes A mão, e o favor se déra!

Em que se hão de conhecer Os homens, se n’isto não? Que em forças vence o leão, E outro animal qualquer.

Nas partes que o mundo présa, Quantas feras vão deante, No corpo, gesto e semblante Nas forças, na ligeiresa?

Só no saber as vencemos, Com elle as senhoreamos; E quantos n’isto encontramos, Que nos vencem, não soffremos.

D’isto, em que o mundo se pôz, Nasce já que os animaes No que eram tão deseguaes, Nos podem vencer a nós.

Não posso ter soffrimento N’esta queixa, e não me val; Que acanha um baixo metal A um subido entendimento.

Os homens como pintura Falam só com o que apparece: Cada um monta e merece Pelas mostras da figura.

Dizem que já n’outra edade Falaram os animaes, (E eu creio que por signaes Inda hoje falam verdade).

Ouvi cantar como então Se fez valente, e temido Um vil jumento escondido Nos despojos de um leão.

Emquanto de longe o viam Os outros, fugiam d’elle; Eram milagres da pelle Do rei, a que elles temiam.

Quiz falar, buscou seus damnos, Que os outros com raiva crúa Fazem pagar pela sua Da outra pelle os enganos.

Quantos ha na nossa aldeia Leões e lobos fingidos, Que houveram de andar despidos, Se não fôra a pelle alheia!

Sem sabor, sem consciencia Andam com ella entre nós, Conhecem-os pela voz, Honram-os pela apparencia.

BIEITO

O bom tempo é já perdido; N’este de agora, em que estamos, Taes somos, que nos mostramos Ou no tracto, ou no vestido.

Vendem-se as mostras de fóra; Al era no tempo antigo; Deus dê repouso a Rodrigo, D’isso canta, e d’isto chora.

Eram tempos deseguaes, Tratava a sorte melhor; Se ás partes davam louvor, Não lhe negavam o mais.

Se Franco cantava bem, Era por isso estimado: E hoje quiçaes que é culpado Por essa parte que tem.

CORINO

Muitos annos ha que dura O queixume em toda a parte, De vêr que não póde a arte Vencer em tudo a ventura.

Mas se houve alguns queixosos N’esses bons tempos passados, Quantos houve levantados? Quantos houve venturosos?

Com muitos provára o dito; Mas calo-os, porque em respeito Contar poucos é defeito, E todos fora infinito.

Não demos culpa á edade Com tudo que é desacerto: Temos a causa mais perto, Porque é nossa enfermidade.

Que estes desprezos que vemos, Do bom saber, da boa arte, Não se usa em toda a parte, Que al na terra onde nascemos.

Nas outras ainda se présa; (E não sei se diga mais) Nós, e os nossos naturaes Somos de má natureza.

Queremos grão mal ao bem, (Se isto se póde dizer) Sómente pelo querer A quem o merece, e tem.

Verás um pastor, dotado De mil graças excellentes, Andar entre as nossas gentes Assim como homiziado.

Descontente, e mal vestido, De encolhido não se atreve; E assim como o homem, que deve, Sempre só, sempre escondido.

E a causa, que lhe sobeja, Porque traz em companhia Saber, que é mercadoria, Que deve muito á inveja.

Coitado do passarinho, Que nasceu no valle escuso, Aonde nem canta por uso, Nem ha quem lhe saiba o ninho.

Coitado do que nasceu N’esta nossa terra ingrata, Que tão mal conhece e trata Bens da sorte, e dons do céo.

Que o mais honrado, e mais dino Pelas partes naturaes, Não lhe serve de ser mais, Senão de ser mais mofino.

Sempre cae, sempre periga: No que ama, no que procura Faz-lhe acintes a ventura, Que é declarada inimiga.

De tudo lhe nega o fruito: Se com pouco se sustenta, É-lhe do pouco avarenta; E se de muito, é de muito.

Agua, Fogo, Terra e Ar, Sol, Estrellas, Austro e Norte, Tudo lhe negára a sorte, Se lh’o pudéra negar.

E os homens por condição, Ao que devem mór corôa, Se lhe vem vir sorte boa, Vão-lhe mil vezes á mão.

E qualquer que a causa seja, É bem baixo o fundamento Ou de fraco entendimento, Ou de mui forçosa inveja.

Vão mil por este caminho De erros qu’eu contar não posso: Pesa-nos do bem que é nosso, Quando o vêmos n’um vizinho.

Ouvir qualquer extrangeiro Falar de seus naturaes, Dá d’elles tão bons signaes, Que o não tem por verdadeiro.

Falem-vos n’um natural, Dizeis faltas que não tem: Mente o outro para bem; Nós mentimos para mal.

Deixemos para outra dia Os queixumes, que é já hora; Que a meu pesar deixo agora A elles, e a companhia.

ALEIXO

Da tua é para sentir A perda: mas bens não duram, Porque os muitos, que os procuram, Os tem affeito a fugir.

Comtigo iremos andando, Que isto tambem foi partido: E pois o valle é comprido, Bem podemos ir cantando.

Que eu quero da minha parte Mostrar que na voz me atrevo: E se não pago o que devo, Mostro que não sei pagar-te.

CORINO

Tu farás como eu presumo, Que é como o melhor da aldeia;

ALEIXO

Ante ti quem não receia? Quanto mais eu, que o costumo.

Vamos, qu’eu quero ir deante: Por este caminho estreito Torna a novilha, Bieito.

CORINO

Chega manso, não se espante.

FIM DO SEGUNDO VOLUME

INDICE

DIALOGO IX--Da pratica e disposição das palavras 3

DIALOGO X--Da maneira de contar historias na conversação 9

DIALOGO XI--Dos contos, e ditos graciosos e agudos na conversação 24

DIALOGO XII--Das cortezias 37

DIALOGO XIII--Do fructo da liberalidade e da cortezia 49

DIALOGO XIV--Da creação da côrte 63

Dialogo XV--Da creação na milicia 79

DIALOGO XVI--Da creação das escolas 90

Ecloga contra o despreso das boas artes 107

=NOTAS DO EDITOR=

Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos.

A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes quando uma preferência predominante foi encontrada no texto original; caso contrário, não foram alterados.

As aspas irregulares foram corrigidas quando a mudança era evidente e, caso contrário, foram deixadas de acordo com o original.