Livre d
’aquelle dano Da cega vaidade, Que corrompeu nos homens a vontade;
Aqui de burel grosso Me vestirei contente, e esquecido D’aquelle traje nosso Tão vão, tão mal trazido, Dos primeiros principios esquecido.
Qual entre a concha amada A tartaruga tem quieto abrigo, Não se teme de nada, E no maior perigo, Escondida entre si, vive comsigo;
Tal o meu pensamento Não quero que á ventura o logar deva; Que não ha mór isento. Nem que melhor se atreva, Que o que tudo, que tem, comsigo leva.
Qual cobra na espessura, Que deixa entre os espinhos esquecida A velha vestidura, E d’ella já despida, Como anguia no mar, renova a vida;
Assim quando me vejo Que começo a viver n’esta mudança, Contento meu desejo, Troco minha esperança, Não quero mais de enganos, que a lembrança.
A cauta cotovia, Vendo o ligeiro imigo, o voo nega; N’elle não se confia, Com a terra se apega, Porque ali com as azas não lhe chega.
D’esta arte se defende O Pastor despresado da ventura, Que ella sempre pretende Descer da mór altura Quem cuida que no alto se assegura.
Da lã d’este meu gado Coberto escaparei, terei socego; Que n’ella disfarçado, Em perigo mais cego, Escapou do gigante o cauto grego.
E o meu desejo acceso, Que encontrando a razão mal se empregava, Ponha em mãos do despreso Os bens que procurava, Da liberdade minha, que era escrava.
Adeus doces enganos; Já parece razão que vos despida, Viveis ha muitos annos, Deixae-me agora a vida, Que, em quanto a vós tivestes, foi perdida.”
BIEITO
Ah! Corino, quem podera Dizer agora o que sente, Se, só com te vêr prezente, A voz não lhe emmudecera.
Confesso que estou culpado, Mas não só de atrevido: Mil vezes te tenho ouvido, E só agora escuitado.
Quem te trouxe entre pastores, Aonde esta vida t’extranha? Que póde dar-te a montanha, Senão rusticos louvores?
Quem não sabe conhecer-te, Como saberá presar-te? Mas ainda acertaste em parte, Pois vinhas para esconder-te.
Não fieis da serra tanto; Que al vai de vêl-a a sentil-a: Torna pastor para a villa, E serás na villa espanto.
Não apouques ao teu muito, Não vivas n’estas aldeias, Aonde entre as ramas alheias Se não conhece o seu fruito.
CORINO
Louvores mal empregados, Quando as partes são presentes, Menos deixam de contentes. Pastor, que de envergonhados.
Porém te affirmo, Bieito, Que n’estas nossas montanhas Ás boas partes, e manhas Se tem ainda algum respeito.
Que eu já na villa tratei Muitos mezes, muitos annos, Trouxe d’ella os desenganos, Com que aos matos me tornei.
Aprendi muito, e bradavam Os mestres para ensinar-me: Ensinaram-me a queixar-me, Porque todos se queixavam.
Depois de ter conhecido Homens, e o seu proceder, Aprendi a me esquecer De quanto tinha aprendido.
Ouvi gabar esta vida, Este trajo, este cajado; Busquei-a agora obrigado Da que já tinha perdida.
Que ainda cá por esta serra Se ama o saber; se deseja, Lá não lhe deixa a inveja, Lugar, em que estê na terra.
Não se tecem já coroas Para as partes estimadas; Entre nós de envergonhadas Se encolhem as artes boas.
Saber, e conhecimento Fazem já desmerecer; De sorte, que o não saber Serve de merecimento.
Assim que é melhor partido, Ao que busca o que convém, Enterrar partes se as tem, E andar dos outros vestido.
BIEITO
Á fé que não dizes mal Quem m’o disse hora? qual dia? Que o bem que perde a valia, Porque entre os homens não val.
Cresce a virtude louvada, A planta favorecida, A vontade agradecida, E a parreira alevantada.
Fui domingo a vêr a lucta, E outros com grande alvoroço; Vim encantado d’um moço, Que alli cantava em disputa.
Dos pastores mais gabados Tinha á roda mais de mil, Que ao som do seu rabil Estavam como enlevados.
Perguntei, vendo occasião, Onde, e que gado guardava, Entre nós? que eu n’isto dava Primeira fé de affeição.
Eis quando alli se murmura, Que se ia d’estas aldeias A buscar terras alheias, Ou buscar n’ellas ventura.
Engeitou-lhe a natureza O bem de seu natural; Então sustenta-se mal A arte onde se despresa.
CORINO
As hervas que os gados pascem, E as flôres que os olhos vem, Mais poderes do sol tem, Que não da terra onde nascem.
O grão, que na varzea cresce, Com humidade arrebenta: O sol cria, o chão sustenta, Levanta-se e reverdece.
O enxerto já crescido Com o sol, e agua accommodada, Se cae sobre elle a geada, Secca-se murcho, encolhido.
O bom natural é parte, Que o despreso desanima: Como a cousa não se estima, Não podes d’ella prezar-te.
Vi eu d’isto uma pintura Com arte e modo extremado; E se inda estou bem lembrado, Tinha ella esta figura:
Um mancebo que encaminha Vôar com desejo acceso, D’uma mão atado um peso, Na outra umas azas tinha;
Uma livre, outra sujeita, E dizia a lettra assim: Se esta pésa contra mim, Est’outra que me aproveita?
Quanto melhor parecera Valer menos tudo o mais, E que ás partes naturaes A mão, e o favor se déra!
Em que se hão de conhecer Os homens, se n’isto não? Que em forças vence o leão, E outro animal qualquer.
Nas partes que o mundo présa, Quantas feras vão deante, No corpo, gesto e semblante Nas forças, na ligeiresa?
Só no saber as vencemos, Com elle as senhoreamos; E quantos n’isto encontramos, Que nos vencem, não soffremos.
D’isto, em que o mundo se pôz, Nasce já que os animaes No que eram tão deseguaes, Nos podem vencer a nós.
Não posso ter soffrimento N’esta queixa, e não me val; Que acanha um baixo metal A um subido entendimento.
Os homens como pintura Falam só com o que apparece: Cada um monta e merece Pelas mostras da figura.
Dizem que já n’outra edade Falaram os animaes, (E eu creio que por signaes Inda hoje falam verdade).
Ouvi cantar como então Se fez valente, e temido Um vil jumento escondido Nos despojos de um leão.
Emquanto de longe o viam Os outros, fugiam d’elle; Eram milagres da pelle Do rei, a que elles temiam.
Quiz falar, buscou seus damnos, Que os outros com raiva crúa Fazem pagar pela sua Da outra pelle os enganos.
Quantos ha na nossa aldeia Leões e lobos fingidos, Que houveram de andar despidos, Se não fôra a pelle alheia!
Sem sabor, sem consciencia Andam com ella entre nós, Conhecem-os pela voz, Honram-os pela apparencia.
BIEITO
O bom tempo é já perdido; N’este de agora, em que estamos, Taes somos, que nos mostramos Ou no tracto, ou no vestido.
Vendem-se as mostras de fóra; Al era no tempo antigo; Deus dê repouso a Rodrigo, D’isso canta, e d’isto chora.
Eram tempos deseguaes, Tratava a sorte melhor; Se ás partes davam louvor, Não lhe negavam o mais.
Se Franco cantava bem, Era por isso estimado: E hoje quiçaes que é culpado Por essa parte que tem.
CORINO
Muitos annos ha que dura O queixume em toda a parte, De vêr que não póde a arte Vencer em tudo a ventura.
Mas se houve alguns queixosos N’esses bons tempos passados, Quantos houve levantados? Quantos houve venturosos?
Com muitos provára o dito; Mas calo-os, porque em respeito Contar poucos é defeito, E todos fora infinito.
Não demos culpa á edade Com tudo que é desacerto: Temos a causa mais perto, Porque é nossa enfermidade.
Que estes desprezos que vemos, Do bom saber, da boa arte, Não se usa em toda a parte, Que al na terra onde nascemos.
Nas outras ainda se présa; (E não sei se diga mais) Nós, e os nossos naturaes Somos de má natureza.
Queremos grão mal ao bem, (Se isto se póde dizer) Sómente pelo querer A quem o merece, e tem.
Verás um pastor, dotado De mil graças excellentes, Andar entre as nossas gentes Assim como homiziado.
Descontente, e mal vestido, De encolhido não se atreve; E assim como o homem, que deve, Sempre só, sempre escondido.
E a causa, que lhe sobeja, Porque traz em companhia Saber, que é mercadoria, Que deve muito á inveja.
Coitado do passarinho, Que nasceu no valle escuso, Aonde nem canta por uso, Nem ha quem lhe saiba o ninho.
Coitado do que nasceu N’esta nossa terra ingrata, Que tão mal conhece e trata Bens da sorte, e dons do céo.
Que o mais honrado, e mais dino Pelas partes naturaes, Não lhe serve de ser mais, Senão de ser mais mofino.
Sempre cae, sempre periga: No que ama, no que procura Faz-lhe acintes a ventura, Que é declarada inimiga.
De tudo lhe nega o fruito: Se com pouco se sustenta, É-lhe do pouco avarenta; E se de muito, é de muito.
Agua, Fogo, Terra e Ar, Sol, Estrellas, Austro e Norte, Tudo lhe negára a sorte, Se lh’o pudéra negar.
E os homens por condição, Ao que devem mór corôa, Se lhe vem vir sorte boa, Vão-lhe mil vezes á mão.
E qualquer que a causa seja, É bem baixo o fundamento Ou de fraco entendimento, Ou de mui forçosa inveja.
Vão mil por este caminho De erros qu’eu contar não posso: Pesa-nos do bem que é nosso, Quando o vêmos n’um vizinho.
Ouvir qualquer extrangeiro Falar de seus naturaes, Dá d’elles tão bons signaes, Que o não tem por verdadeiro.
Falem-vos n’um natural, Dizeis faltas que não tem: Mente o outro para bem; Nós mentimos para mal.
Deixemos para outra dia Os queixumes, que é já hora; Que a meu pesar deixo agora A elles, e a companhia.
ALEIXO
Da tua é para sentir A perda: mas bens não duram, Porque os muitos, que os procuram, Os tem affeito a fugir.
Comtigo iremos andando, Que isto tambem foi partido: E pois o valle é comprido, Bem podemos ir cantando.
Que eu quero da minha parte Mostrar que na voz me atrevo: E se não pago o que devo, Mostro que não sei pagar-te.
CORINO
Tu farás como eu presumo, Que é como o melhor da aldeia;
ALEIXO
Ante ti quem não receia? Quanto mais eu, que o costumo.
Vamos, qu’eu quero ir deante: Por este caminho estreito Torna a novilha, Bieito.
CORINO
Chega manso, não se espante.
FIM DO SEGUNDO VOLUME
INDICE
DIALOGO IX--Da pratica e disposição das palavras 3
DIALOGO X--Da maneira de contar historias na conversação 9
DIALOGO XI--Dos contos, e ditos graciosos e agudos na conversação 24
DIALOGO XII--Das cortezias 37
DIALOGO XIII--Do fructo da liberalidade e da cortezia 49
DIALOGO XIV--Da creação da côrte 63
Dialogo XV--Da creação na milicia 79
DIALOGO XVI--Da creação das escolas 90
Ecloga contra o despreso das boas artes 107
=NOTAS DO EDITOR=
Os erros tipográficos evidentes foram corrigidos.
A pontuação, a hifenização e a ortografia foram tornadas consistentes quando uma preferência predominante foi encontrada no texto original; caso contrário, não foram alterados.
As aspas irregulares foram corrigidas quando a mudança era evidente e, caso contrário, foram deixadas de acordo com o original.