Part 13
_1st N._ Nevermore for lady I Shall be made to pine or sigh. But if she have fine estate Thither then will my eyes turn And my heart begin to burn, 650 Let the profit be but great. Dance she ne'er so gracefully, Skilfully with nimble feet, Be she sensible, discreet, And fairest of all fair to see: If of her father I have no profit, Much good, I say, may she have of it. Do not you be so lovelorn, For 'tis scarcely to be borne, Love? nay madness, verily.
660 _2nd N._ By your way of it, I see, I the husbandman discover And in very sooth 'twill be A fine story this for me Of the farmer turning lover.
_1st N._ O mock me, Sir, if mock you can.
_2nd N._ Sir, the perfect gentleman Doth not link his lady fair With what her father may possess. Nor descries he other scope, 670 Nor sighs for greater happiness Than 'In the tresses of thy hair,' For indeed is all his hope Centred in that single song, And 'Sorrows to him alone belong,' And 'If they say so, let it be,' And 'Who, my love, hath vexèd thee?' I will sing and gloss them too, All these songs both old and new.
_1st N._ Sir, you are so fierce and brave 680 That I'm half afraid of you: By the holy books you have A wont to carry with high hand Even what you can't command.
_2nd N._ You mock me, yet 'tis but to prove That as you mock you understand. For I must far above you stand, Since if you are exempt from love 'Tis at least for you to know That where I go you cannot go. 690 When you are a lover, then A discretion more profound And subtlety your mind may fill: The lover's world's beyond your ken, A different world that's to be found In regions further than Brazil. O my world, the only true one, O the right I fight for oft, Sweet illusions that pursue one!
_1st N._ O the straw that's in my loft! 700 For a world of straw is mine That all wants for a year will meet, And I have a world of wheat And will sell to all beholders, And a head upon my shoulders. But, my friend, I will not pine For love, nor weep throughout the years Mourning in this vale of tears.
_2nd N._ Farewell, you have no sentiment And are stiff-necked exceedingly, 710 All that's not worth an ancient saw. But me it grieves to see so spent A noble's life most witlessly, Since he's become a man of straw.
FINIS
TRAGICOMEDIA PASTORIL DA SERRA DA ESTRELLA
Tragicomedia Pastoril da Serra da Estrella.
Tragicomedia pastoril feyta & representada ao muyto poderoso & catholico Rey dom Ioam o terceyro deste nome em Portugal ao parto da serenissima & muy alta Raynha dona Caterina nossa senhora & nacimento da illustrissima iffante dona Maria, que depois foy princesa de Castella, na cidade de Coimbra na era do senhor de M.D.xxvij.
Entra logo a serra da estrela & diz:
¶ Prazer que fez abalar tal serra comeu da estrela faraa engrandecer o mar e faraa baylar Castela 5 & o ceo tambem cantar. Determino logo essora ir a Coimbra assi inteyra em figura de pastora, feyta serrana da beyra 10 como quem na beyra mora. ¶ E leuarey la comigo minhas serranas trigueyras, cada qual com seu amigo, & todalas ouelheyras 15 que andam no meu pacigo. E das vacas mais pintadas & das ouelhas meyrinhas pera dar apresentadas aa Raynha das Raynhas, 20 cume das bem assombradas. ¶ Sendo Raynha tamanha veo ca aa serra embora parir na nossa montanha outra princesa despanha 25 como lhe demos agora, hũa rosa imperial como a muy alta Isabel, imagem de Gabriel, repouso de Portugal, 30 seu precioso esperauel. ¶ Bem sabe Deos o que faz.
PARVO. Bofe nam sabe nem isto; a virgem Maria si; mas cantelle nam he bo 35 nega pera queymar vinhas.
SERRA. Isso has tu de dizer?
PARVO. Quem? Deos? juro a Deos que nam faz nega o que quer. La em Coimbra estaueu 40 quando a mesma raynha pario mesmo em cas din Rey, eu vos direy como foy. Ella mesma, benzaa Deos, estaua mesmo no paço, 45 quella, quando ha de parir, poucas vezes anda fora. ¶ Ora a mesma camareyra porque he mesma de Castella, rogou aa mesma parteyra 50 que fizesse delle ella-- pere qui vay a carreyra-- sabeis porque? Porque a mesma Empenatriz pario mesmo Empenador 55 e agora estam auiados. Mas quando minha mãy paria como a virgem a liuraua tanto se lhe dauella que fosse aquelle como aquella 60 se nam ouos hũa vez.
¶ Vem Gonçalo, hũ pastor da serra, ̃q vem da corte & vem cantando:
¶ Volaua la pega y vayse. Quem me la tomasse! Andaua la pega no meu cerrado, 65 olhos morenos, bico dourado quem me la tomasse!
Falado.
¶ Pardeos muy aluoraçada anda a nossa serra agora.
70 SERRA. Gonçalo, venhas embora porque eu estou abalada pera sair de mi fora. Queriauos ajuntar logo logo muyto asinha 75 pera yrmos visitar nossa Senhora a Raynha, querendo Deos ajudar.
GONÇ. ¶ Eu venho agora de la & segundo o que eu vi 80 que vamos la bem seraa: isto crede vos quee assi: porque dizem que a princesa, a menina que naceo, parece cousa do ceo, 85 hũa estrela muyto acesa que na terra apareceo.
SERRA. ¶ Gonçalo, eu te direy: ella ja naceo em serra e do mais fermoso Rey 90 que ha na face da terra, e de Raynha muyto bella; & mais naceo em cidade muyto ditosa pareella & de grande autoridade. 95 ¶ E mais naceo em bom dia Martes, deos dos vencim̃etos, & trouxeram logo os ventos agoa que se requeria pera todos mantimentos.
100 PARVO. Aas vezes faz Deos cousas, cousas faz elle aas vezes, atrauees como homem diz. ¶ Nega se meu embeleco vay poer as pipas em seco 105 & enche dagoa o Mondego: faraa mais hum demenesteco? engorda os vereadores & seca as pernas nas moças de cima bem toos artelhos, 110 & faz os frades vermelhos & os leygos amarelos & faz os velhos murzelos. ¶ Enruça os mancebelhões & nam atenta por nada. 115 Pedemlhe em Coimbra ceuada & elle delhes mexilhões & das solhas em cambada.
GONÇ. Vos, serra, se aueis dir com serranas & pastores 120 primeyro se ham dauyr hũa manada damores que nam querem concrudir. ¶ Eu trago na fantesia de casar com Madanela 125 mas nam sey se querra ella perol eu bofee queria.
¶ Vem Felipa pastora da serra cãtãdo:
¶ A mi seguem os dous açores, hum delles moriraa damores. Dous açores que eu auia 130 aqui andam nesta baylia hum delles moriraa damores.
Falado.
Gonçalo, viste o meu gado? dize se o viste embora.
GONÇ. Venho eu da corte agora 135 & diz que lhe de recado.
FEL. Pois ja tu ca es casado, nega que esperam por ti.
GONÇ. E sem mi me casam a mi? Ora estou bem auiado.
140 FEL. ¶ Nam ha hi nega casar logo & fazer vida com ella senam for com Madanela.
GONÇ. Tiromeu fora do jogo.
FEL. Essa he a milhor do jogo.
145 GONÇ. Essoutra sera alvarenga?
FEL. Mas Catherina meygengra.
GONÇ. Antes me queime mao fogo. ¶ Nam vem a Meygengra a cõto, que he descuydada perdida, 150 traz a saya descosida e nam lhe daraa hum ponto. Oo quantas lend̃es vi nella e pentear nemigalha, e por dame aquella palha 155 he mayor o riso quella. ¶ Varre & leyxa o lixo em casa, come & leyxa ali o bacio, cada dia a espanca o tio nega porque tam devassa; 160 Madanela mata a brasa. Nam cures de mais arenga e dize tu, mana, a Meygengra que va amassar outra massa.
FEL. ¶ Ja teu pay tem dada a mão 165 & dada a mão feyto he.
GONÇ. Par deos darlhey eu de pee comaa casca do melão. Raivo eu de coração damores de Madanela.
170 FEL. Meygengra he mais rica quella; quessa nam tem nem tostam.
GONÇ. Arrenega tu do argem que me vem a dar tormento, porque hum soo contentamento 175 val quanto ouro Deos tem. Deos me dee quem quero bem ou me tire a vida toda, com a morte seja a boda antes que outra me dem.
180 FEL. Eu me you pee ante pee ver o meu gado onde vay.
GONÇ. E eu quero yr ver meu pay, veremos comisto he.
¶ Vem Caterina Meyg̃egra cantando:
¶ A serra es alta, 185 o amor he grande, se nos ouuirane.
FEL. ¶ Onde vas Meygengra mana?
CAT. A novilha vou buscar, viste ma tu ca andar?
190 FEL. Nam na vi esta somana. Agora estora vay daqui Gonçalo que vem da corte; mana, pesoulhe de sorte quando lhe faley em ti 195 como se foras a morte, tente tamanho fastio.
CAT. Inde bem, por minha vida, porque eu mana sam perdida por Fernando de meu tio. 200 Seu com elle nam casar damores mey de finar. Aborreceme Gonçalo como o cu do nosso galo, nam no queria sonhar.
205 FEL. ¶ Se tu nam queres a elle nem elle tampouco a ti.
CAT. Quanta selle quer a mi negras maas nouas van delle. Deos me case com Fernando 210 & moura logo esse dia, porque me mate a alegria como o nojo vay matando. ¶ Oo Fernando de meu tio que eu vi polo meu pecado!
215 FEL. Fernando, esse teu damado, casaua comigo a furto.
CAT. Dize, rogoto, ha muito?
FEL. Este sabado passado.
CAT. Oo Jesu, como he maluado, 220 & os hom̃es cheos denganos, que por mi vay em tres annos que diz que he demoninhado. ¶ Felipa, gingras tu ou nam? Isso creo que he chufar, 225 e se tu queres gingrar nam me des no coraçam, que o que doe nam he zõbar.
FEL. Elle veo ter comigo bem oo penedo da palma 230 & disse: Felipa, minhalma, rayuo por casar com tigo; Digo eu, digo: Vay, vay nadar, que faz calma.
CAT. ¶ Olha tu se zombaua elle.
235 FEL. Bem conheço eu zombaria: vi eu, porque eu nam queria, correr as lagrimas delle.
CAT. Maos choros chorem por elle, que assi chora elle comigo 240 & vayselhe o gado oo trigo & sois nam olha parelle.
FEL. ¶ Eu vou casuso ao cabeço por ver se vejo o meu gado.
CAT. Tal me deyxas por meu fado 245 que do meu todo mesqueço. Quem soubesse no começo o cabo do que começa porque logo se conheça o queu jagora conheço.
¶ Vem Fernando cantando:
250 ¶ Com que olhos me olhaste que tam bem vos pareci? Tam asinha moluidaste? quem te disse mal de mi?
CAT. ¶ A que ṽes, Fernãdo hõrrado? 255 Ver Felipa tua senhora? Venhas muito da maa hora pera ti e pera o gado.
FERN. Catalina! Catalina! assi tolhes ma fala, Catalina? 260 Olha yeramaa pera mi, pois que me tu sees assi carrancuda e tam mofina quem te disse mal de mi? Com que olhos me olhaste, &c.
265 CAT. ¶ Dize, rogoto, Fernando, porque me trazes vendida? Se Felipa he a tua querida porque me andas enganando?
FERN. Eu mouro, tu estaas zombando.
270 CAT. Oo que nam zombo, Jesu. Nam casauas coella tu?
FERN. Eu estou della chufando. ¶ Catalina, esta he a verdade, nam creias a ninguem nada, 275 que tu me tens bem atada alma & a vida & a vontade.
CAT. Pois que choraste coella nam ha hi mais no querer.
FERN. De chorar bem pode ser 280 mas nam choraueu por ella. ¶ Felipa auultase contigo, vendoa fosteme lembrar, entam puseme a chorar as lembranças do meu perigo. 285 Se ella o tomou por si que culpa lhe tenho eu? Mas este amor quem mo deu deumo todo para ti & bem sabes tu quee teu.
290 CAT. Oo que grande amor te tenho & que grande mal te quero.
FERN. Ja de tudo desespero, que ja mal nem bem nam quero.
Teu pae tem te ja casada 295 com Gonçalo dantemão & eu fico por esse chão sem me ficar de ti nada senam dor de coraçom. ¶ Vertaas em outro poder 300 vertaas em outro logar, eu logo sem mais tardar frade prometo de ser pois os diabos quiseram & ali me deyxaram 305 tanta de maginaçam quanta teus olhos me deram desdo dia dacençam.
CAT. ¶ Mas casemos, daa ca mão & dirlhey que sam casada.
310 FERN. Ja tenho palaura dada a Deos de religiam. Ja nam tenho em mi nada.
CAT. Oo quantos perigos tem este triste mar damores 315 & cada vez sam mayores as tormentas que lhe vem. ¶ Se tu a ser frade vas nunca me veram marido: tu seraas frade metido, 320 porem tu me meteraas na fim da Raynha Dido.
FERN. Nam se poderaa escusar de casares com Gonçalo & querendo tu escusalo 325 nam no podes acabar, que teu pae ha dacabalo.
CAT. ¶ Se libera nos a malo! Nunca Deos ha de querer & Gonçalo nam me quer 330 nem eu nam quero a Gonçalo. Eylo vem, velo Fernando? bem em cima na portela; diante vem Madanela, aquella andelle buscando.
335 ¶ [FERN.] Vamolos nos espreitar ali detras do valado & veremos seu cuydado se te da em que cuydar ou se fala desuiado.
340 ¶ Vem Madanela cantando & Gonçalo detras della.
Cantiga.
¶ Quando aqui choue & neva que faraa na serra? Na serra de Coimbra 345 neuaua & chouia, que faraa na serra?
Falado.
¶ Gonçalo, tu a que vens?
GONÇ. Madanela, Madanela!
350 MAD. Tornate maa hora & nella que tam pouco empacho t̃es!
GONÇ. Madanela, Madanela!
MAD. Oo decho dou eu a amargura quasi magasta, Jesu. 355 Ora tras mi te ṽes tu?
GONÇ. Pois a mi se mafigura que nam maas de comer cru. ¶ Se tu me queres matar por teu ter boa vontade 360 nam pode ser de verdade.
MAD. Gonçalo, torna a laurar que isso tudo he vaidade.
GONÇ. Que rezam me das tu a mi pera nam casar comigo? 365 Eu ey de ter muyto trigo & ey te de ter a ti mais doce que hum pintisirgo. ¶ Nam quero que vas mondar, nam quero que andes oo sol, 370 pera ti seja o folgar e pera mi fazer prol. Queres Madanela?
MAD. Gonçalo, torna a laurar porque eu nam ey de casar 375 em toda a serra destrella nem te presta prefiar. ¶ Catalina he muyto boa, fermosa quanto lhabasta, querte bem, he de boa casta 380 & bem sesuda pessoa. Toma tu o que te dão em paga do que desejas.
GONÇ. Ay rogote que nam sejas aya do meu coraçam.
385 MAD. Vayte di, que paruoejas.
GONÇ. ¶ Nam quero casar coella.
MAD. Nem eu tam pouco com tigo. Vees? casuso vem Rodrigo tras Felipa, que he aquella 390 que nam no estima num figo.
¶ Vem Rodrigo cantando:
Vayamonos ãbos, amor, vayamos, vayamonos ambos. Felipa & Rodrigo passaram o rio, amor vayamonos. 395 ¶ Felipa, como te vay?
FEL. Que t̃es tu de ver co isso? Dias ha que teu auiso que vas gingrar com teu pay.
ROD. Nam estou eu, mana, nisso.
400 FEL. Quem te mette a ti comigo?
ROD. Felipa, olha pera ca, dame essa mão eyaramaa.
FEL. Tirte, tirte eramaa laa, tu que diabo has comigo?
405 ROD. ¶ Felipa, ja tu aqui es?
FEL. Rodrigo, ja tu começas? Tu t̃es das maas vãs cabeças, nam quero ser descortees.
ROD. Nem queyras tu er ser assi 410 grauisca & escandalosa; mas tem graça pera mi, como tu es graciosa & fermosa pera ti.
FEL. Cada hum saa de regrar 415 em pedir o que he rezam: tu pedesmo coraçam & eu nam to ey de dar porquee muy fora de mão. E quanto monta a casar 420 ainda queu guarde gado meu pay he juyz honrrado dos melhores do lugar & o mais aparentado. ¶ E andou na corte assaz 425 & faloulhe el Rey ja dizendo-lhe: Affonso vaz em fronteyra e moncarraz como val o trigo la? Ora eu pera casar ca, 430 Rodrigo, nam he rezam.
ROD. Se casasses com paaçom que grande graça seraa & minha consolaçam. ¶ Que te chame de ratinha 435 tinhosa cada mea hora, inda que a alma me chora, folgarey por vida minha. Pois engeytas quem tadora; e te diga: tirte la, 440 que me cheyras a cartaxo. Pois te desprezas do bayxo o alto tabaxaraa.
FEL. ¶ Quando vejo hum cortesam com pantufos de veludo 445 & hũa viola na mão tresandamo coraçam & leuame a alma & tudo.
ROD. Gonçalo, vayme ajudar aacabar minha charrua 450 & eu tajudarey aa tua. Que estoutro sa dacabar quando a dita vir a sua.
GONÇ. Eu sam ja desenganado quanto monta a Madanella.
455 ROD. Deuetela dir com ella como mami vay mal peccado com Felipa.
GONÇ. Assi he ella.
ROD. E tu, Rodrigo, em que estaas?
FERN. Estou em muito & em nada, 460 porque a vida namorada tem cousas boas & maas.
¶ Vem hum hermitam & diz:
HERM. ¶ Fazeyme esmola, pastores, por amor do senhor Deos.
ROD. Mas faça elle esmola a nos, 465 & seja que estes amores se atem com senhos nos.
HERM. O casar Deos o prouee & de Deos vem a ventura, da ventura aa criatura 470 mas com dita he por merce & tambem serue a cordura. ¶ Pondevos nas suas mãos & não cureis descolher, tomay o que vos vier 475 porque estes amores vãos teram certo arrepender. Filhas, aqui estais escritas, Filhos, tomay vossa sorte, & cada hum se comporte 480 dando graças infinitas a Deos & a el Rey & a corte.
¶ Tirou o ermitam da manga tres papelinhos & os deu aos pastores, que tomasse cada hum sua sorte & diz Fernando:
¶ Rodrigo tome primeyro, veremos como se guia.
ROD. Nome da virgem Maria! 485 lede, padre, esse letreyro, se me cega ou alumia.
Escri. Deos & a ventura manda que quem esta sorte ouuer tome logo por molher 490 Felipa sem mais demanda.
ROD. ¶ Vencida tenho eu a batalha, Felipa, mana, vem caa.
FEL. Tirte, tirte, eramaa laa, & tu cuydas que te valha? 495 Nunca teu olho veraa.
GONÇ. Ora vay, Fernando, tu, veremos que te viraa.
FERN. Alto nome de Jesu! lede, padre, que vay la?
Escrito.
500 ¶ A sentença he ja dada & a sustancia della que cases com Madanela.
MAD. Fernando, nam me da nada, seja muytembora & nella.
505 FERN. Dias ha que to eu digo & tu tinhas me fastio.
CAT. Oo Fernando de meu tio quem me casara com tigo!
GONÇ. ¶ Oo Madanela, yeramaa, 510 se me cayras em sorte!
CAT. Ante eu morrera maa morte que Fernando ficar laa tam contrayro do meu norte. E porem nam me da nada, 515 ja me tu a mi pareces bem, Gonçalo.
GONÇ. E tu a mi Catalina; mudate di y passea per hi alem, verey que aar das de ti.
520 FEL. ¶ Estouteu, Rodrigo, olhando, & vou sendo ja contente.
ROD. Se de mi nam es contente nam tey dandar mais rogando. Eu andote namorando 525 & tu acossasme cada dia.
CAT. Inda queu isso fazia, Rodrigo, de quando em quãdo, muy grande bem te queria. ¶ E quando eu refusaua 530 de te tomar por amigo nam ja porque eu nam folgaua mas porque te examinaua se eras tu moço atreuido.
HERM. Agoro quero eu dizer 535 o que aqui venho buscar. Eu desejo dabitar hũa ermida a meu prazer onde podesse folgar. E queriaa eu achar feyta 540 por nam cãsar em fazela, que fosse a minha cella antes bem larga que estreyta & que podesse eu dançar nella. E que fosse num deserto 545 denfindo vinho & pão, & a fonte muyto perto & longe a contemplação. ¶ Muyta caça & pescaria que podesse eu ter coutada 550 & a casa temperada: no veram que fosse fria & quente na inuernada. A cama muyto mimosa & hum crauo aa cabeceyra, 555 de cedro a sua madeyra; porque a vida religiosa queria eu desta maneyra. ¶ E fosse o meu repousar & dormir atee tais horas 560 que nam podesse rezar por ouuir cantar pastoras & outras assouiar. Aa cea & jantar perdiz, o almoço moxama, 565 & vinho do seu matiz, & que a filha do juyz me fizesse sempre a cama. ¶ E em quanto eu rezasse esquecesse ella as ouelhas 570 & na cela me abraçasse & mordesse nas orelhas, inda que me lastimasse. Irmãos pois deueis saber da serra toda a guarida 575 prazauos de me dizer onde poderey fazer esta minha sancta vida.
GONÇ. ¶ Estaa alli, padre, hum siluado viçoso, verde, florido, 580 com espinho tam comprido, e vos nuu alli deytado perderieis o proido. Yuos, nam esteis hi mais, porque a vida que buscais 585 nam na da Deos verdadeyro inda que lha vos peçais.
SERRA. ¶ Ora, filhos, logo essora, cada hum com sua esposa, vamos ver a poderosa 590 Raynha nossa Senhora, sem nenhum de vos por grosa, porque he forçoso que va, que segundo minha fama da Raynha ey de ser ama 595 & a isso vou eu la. ¶ Que tal leyte como o meu nam no ha em Portugal, que tenho tanto & tal e tam fino Deos mo deu 600 que he manteyga & nam al. E pois ha de ser senhora de tam grande gado & terra quem outra ama lhe der erra, porque a perfeyta pastora 605 ha de ser da minha serra.
GONÇ. ¶ Ha mester grandes presentes das vilas, casaes & aldea.
SERRA. Mandaraa a vila de Sea quinhentos queyjos resentes, 610 todos feytos aa candea, e mais trezentas bezerras & mil ouelhas meyrinhas & dozentas cordeyrinhas taes que em nenhũas serras 615 nam se achem tam gordinhas. ¶ E Gouuea mandaraa dous mil sacos de castanha tam grossa, tam san, tamanha que se marauilharaa 620 onde tal cousa se apanha. E Manteygas lhe daraa leyte para quatorze annos, & Couilham muytos panos finos que se fazem laa. 625 ¶ Mandaraam desses casaes que estam no cume da serra pena pera cabeçaes toda de aguias Reaes, naturaes mesmo da terra. 630 E os do val dos penados & montes dos tres caminhos que estam em fortes montados mandarão empresentados trezentos forros darminhos 635 pera forrar os borcados. ¶ Eu ey lhe de presentar minas douro que eu sey com tanto que ella ou el Rey o mandem ca apanhar, 640 abasta que lho criey.
GONÇ. E afora ainda aos presentes auemos lhe de cantar muyto alegres & contentes polla Deos alumiar 645 por alegria das gentes.
Vem dous foliões do Sardoal, hum se chama Jorge e outro Lopo, & diz a Serra:
¶ Sois vos de Castella, manos, ou la debayxo do estremo?
JOR. Agora nos faria o demo a nos outros Castellanos. 650 Queria antes ser lagarto polos sanctos auangelhos.
SERRA. Donde sois?
JOR. Do Sardoal, & ou bebela ou vertela, vimos ca desafiar 655 a toda a serra da estrela a cantar & a baylar.
ROD. ¶ Soberba he isso perem pois haqui tantos pastores & tam finos bayladores 660 que nam ham medo a ninguem.
LOPO. Muytos ratinhos vam la de ca da serra a ganhar & la os vemos cantar & baylar bem coma ca 665 & he assi desta feyçam.
¶ Canta Lopo & bayla, arremedando os da serra.