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Part 1

HISTORIAS DAS ILHAS

_MAXIMILIANO DE AZEVEDO_

HISTORIAS

DAS

ILHAS

(Reminiscencias dos Açores e da Madeira)

DESENHOS DE CELSO HERMINIO

LISBOA PARCERIA ANTONIO MARIA PEREIRA LIVRARIA EDITORA _50, 52--Rua Augusta--52, 54_ 1899

LISBOA TYPOGRAPHIA E STEREOTYPIA MODERNA Becco dos Apostolos, 11

[Ilustração] O Casamento do Veterano

¿Su esposo la perdona aunque lo infama? ¿Ama y perdona?--Es imposible; no ama. CAMPOAMOR.

I

No dia em que o Jorge casou com a filha da Isabel houve grande reboliço no Castello de S. João Baptista. Depois da missa regimental, o padre capellão de caçadores 10 recebeu os noivos, com prévia dispensa do prelado da diocese, na grande capella da fortaleza. Era numerosa a assembléa, formada especialmente pelos curiosos.

Officiaes e soldados, logo que o batalhão destroçou, correram para o templo, onde já encontraram muitas mulheres, algumas de _manto_, aguardando anciosas a chegada do cortejo nupcial, e fazendo em voz baixa e com enorme dispendio de gestos, abundantes commentarios, qual d’elles mais frisante, á resolução tomada pelo cabo de veteranos.--Escolher para mulher uma raparigota, que podia á vontade ser sua neta!--

--Eu cá por mim, exclamava a Luiza Braga, escancarando a boccaça meio desdentada, ía jurar que lhe deram _coisa para querer bem_. Aqui onde me vêm, _destrinço_ o Jorge desde rapaz pequeno, e nunca lhe descobri tenções de casar. Não era então aos cincoenta e oito annos, que estando com o juizo todo, havia de... Nada! Nada! Elle bem sabe que «albarda nova em burro velho é matadura certa».

--E a quem o Jorge foi buscar?... Á Rosa!... acudiu a Josepha Julia, cunhada do sargento Migueis, piscando muito o olho esquerdo, unico de que era possuidora.

--Eu não digo que a rapariga seja _somenas_, mas sempre é filha da Isabel, e ninguem desmente o seu sangue. D’arredio, d’arredio, é que eu gosto de vel-as a ambas!

--Deixe a tia Luiza estar que a Rosa tambem não é nenhuma santinha, replicou a Josepha. Não lhe quero pôr _pitafe_, mas se foi verdade aquella historia com o sargento Luiz...

--Não seria, menina. Olhe que a Isabel é rata sabia e não a deixava ir á noite, sósinha, para o baluarte de S. Pedro. O 33 da artilheria é que disse, que tinha lá visto os dois, mas como todos lhe conhecem a má lingua... Pois não foi elle que andou por ahi a espalhar que a menina Josepha olhava para o alferes da segunda, um homem casado e pae de filhos?!

A Josepha, ao ouvir estas palavras, que lhe foram quasi segredadas, poz-se vermelha que nem malagueta, e redarguiu promptamente:

--Tão damnada é a lingua d’elle, como as que repetem o que o marau vomita. _Ubei!_

--Ó menina, olhe que eu não tenho falas com o 33!

--Nem deve ter, que a tia Luiza, por ter essa edade, não escapa a similhante navalha. Sempre que o tio Braga passa ao pé d’elle, apanha a sua risadinha e é apontado com o dedo...

A velha despediu-lhe um olhar terrivel, enguliu em secco, e atalhou:

--Bem, bem, não se fala agora nas patifarias do 33. Em todo o caso o Jorge devia saber que a Rosa não era para a sua bocca.

--E que pode empanzinar com o petisco, accrescentou a outra, já de perfeito accordo.

N’esta occasião sentiu-se o ruido dos passos de muita gente que vinha atravessando a parada, e os noivos d’ahi a instantes entravam na capella, acompanhados pelos padrinhos, pelos convidados e pelas pessoas que, impellidas pela curiosidade, tinham ido esperal-os á porta da casa terrea, onde a viuva do sargento José de Medeiros vivia desde ha muito, por mercê dos governadores do castello. O Jorge, aprumado dentro da sua farda de gola alta, botões muito lusidios e divisas alvas de neve, mal deitava os olhos para a gente que o rodeava, e, com a cara a escaldar, seguiu machinalmente pela capella adeante, ao lado da noiva, que vestida de cassa branca semeada de raminhos vermelhos, e toucada de grinalda e veo, dava mostras de vergonha, mal deixando ver os grandes olhos pretos por baixo das longas pestanas assetinadas e bastas. No rosto oval, branco e pequenino, esbatia-se um rubor intenso.

Nunca tinha imaginado poder tornar-se o alvo da attenção de tanta gente, e, se não fosse uma vergonha, fugiria d’alli, a bom correr.

Agora é que deveras se arrependia de ter acceitado a grinalda e o veo á menina Elvira, filha do capitão da segunda companhia de caçadores 10, que estava casada, desde o mez anterior, com o tenente Aurelio Joaquim, ajudante da praça. Se tivesse trazido como tencionava, o seu lenço de seda de barras azues, não daria tanto nas vistas. Era tambem esta a vontade do Jorge, porém a Isabel insistira pelo veo, proclamando-o «coisa muito mais fina».

O cortejo rompeu atravez da multidão, direito ao altar, onde havia de effectuar-se a ceremonia.

Notaram alguns dos presentes, e antes de todos a Luiza Braga, que a Rosa tinha córado mais ainda, e estremecido levemente, ao dar com os olhos no sargento Luiz, que, muito apertado na fardeta côr de pinhão, se bamboleava, com ar de escarneo, na primeira fila dos curiosos.

--Nem aqui mesmo a deixa! Já é pouca vergonha! murmurou a Luiza ao ouvido da Josepha Julia.

--Elles lá se entendem, regougou esta ultima, e concluiu, suspirando: «Tal desgraça!»

Entretanto o padre capellão ia tartamudeando as palavras sacramentaes, e o sargento Luiz muito satisfeito de si cofiava o farto bigode louro.

--Olhem! Lá está o sr. governador! murmurou a Luiza Braga para as mulheres que a rodeavam.

O coronel Jeronymo Cardoso acabava effectivamente de surgir a uma porta lateral da capella e deitava olhares perscrutadores para os noivos, sem comtudo esquecer as dores cruciantes, que lhe impunham os terriveis joanetes.

A Isabel tinha querido que o Jorge o convidasse para padrinho, e chegara até a sondar _sua incellencia_ com exito razoavel, mas o veterano puzéra os pés á parede, e a despeito de uma formal reprimenda da futura sogra, insistiu em escolher o José Maria, seu camarada desde o cerco do Porto, que lá estava na egreja á ilharga do amigo, tentando aprumar quanto possivel o corpo já muito derreado pelos janeiros.

O jantar do casamento foi em casa do Jorge.

Tudo correu bem e só houve de notavel o pregar a Isabel, já um tanto avinhada, uma furiosa descompostura na Luiza Braga, porque a viu á porta da rua, espreitando.

Os convivas apaziguaram a questão e d’alli a pouco despediram-se, indo o José Maria, um quasi nada alegrote, acompanhar a Isabel, até casa.

--Parecemos tambem dois noivos, disse o velho, batendo-lhe, com a mão aberta, no meio das costas, e foi-se embora a trocar as pernas, em quanto a viuva lhe gritava do limiar da porta que «para um marido _tanto_ fino só a rainha que estava em Lisboa!»

N’aquella noite, mercê das copiosas libações, dormiram mais profundamente alguns dos habitantes do burgo militar, que pousado no isthmo que liga a peninsula do Monte Brazil ao resto da ilha Terceira, olha sobranceiramente para Angra atravez das suas numerosas canhoneiras.

II

O Jorge tinha perto de cincoenta e oito annos.

Alto, espadaudo, bem conservado, era, sob o ponto de vista militar, um exemplo vivo do que tinha sido o exercito portuguez, em quanto o governou a disciplina implantada pelo marquez de Campo Maior, e conservada pelos officiaes que tinham servido com o famoso organisador inglez. Era um gosto vel-o perfilar-se deante de um superior e fazer-lhe a continencia com todos os tempos e prescripções da ordenança!

Aos domingos, para ir á missa regimental, punha ao peito o habito da Torre Espada, que tinha ganho no cerco do Porto, por estar umas poucas de horas a disparar sósinho um obuz, contra umas alturas, cujo accesso convinha a todo o custo impedir ás tropas de D. Miguel. As demais praças que primeiro guarneciam a bocca de fogo e outras que vieram substituil-as, tinham ido cahindo, a pouco e pouco, ás balas de um regimento transmontano, espalhado em atiradores na frente da bateria.

--Maior Africa tu fizeste, dizia-lhe n’essa tarde o primeiro tenente José Victorino Damasio, em ficares com ambos os braços, do que em escapar ás ameixas d’aquella sucia! Tu és doido! Servir sósinho um obuz!...

--Ó meu tenente, redarguiu o artilheiro ilheu com cara muito seria, pois elle _havera_ de estar calado, tendo uma bocca tanto grande e sempre escancarada?! Até parecia mal!

--Em todo o caso foi doidice, continuou o tenente a rir.

--Saiba V. S.^a que muitos senhores officiaes tambem dão cá á gente d’esses maus exemplos. V. S.^a desculpe, mas parecia mesmo doidinho, quando n’aquelle dia em que lhe atravessaram o corpo com uma bala, queria á fina força, mal lhe fizeram o primeiro curativo, continuar a commandar a sua peça. Eu bem me lembro! Só á má cara é que o arrancámos de lá. Por isso, accrescentou o Jorge, indicando a insignia da Torre Espada que ornava o peito de José Victorino, fez muito bem o nosso Imperador dando a V. S.^a essa fitinha azul ferrete.

--Pois tambem tu a mereces e has de tel-a, affirmou o official.

E teve effectivamente uma das quatro destinadas a artilheiros, na ordem do dia relativa ao combate.

Todas as testemunhas lhe foram favoraveis no inquerito, em que se baseou a concessão.

Ainda assim o Jorge, embora no seu intimo estivesse a babar-se de gosto, não se fartou de desculpar-se para com os camaradas, dizendo que tudo aquillo era obra do tenente José Victorino, e que, verdade, verdade! o que elle tinha feito, fazia-o qualquer galucho.

Depois da convenção de Evora Monte, mandaram-o para a sua terra, para a ilha Terceira, e d’alli a annos arranjaram-lhe passagem a veteranos e o emprego de fiel do material de guerra.

Tinha á sua conta o armazem fronteiro á porta dos carros do castello de S. João Baptista.

Alli, ou n’uma courella do Monte Brazil, que os governadores lhe davam para cultivar, gastou elle durante muitos annos as longas horas do dia, que sempre lhe pareciam curtas.

Era um gosto visitar o armazem, n’aquelle tempo.

Pelo pateo, rodeado de um muro baixo, espalhavam-se com symetria as pilhas de balas cuidadosamente pintadas de preto, e descançavam, em dormentes de madeira, os antigos canhões de ferro e de bronze, tão bem conservados, como se na vespera tivessem vindo da fabrica. Alegrando o quadro, floresciam em volta do recinto hortensias e gyrasoes.

Lá dentro, no casarão apenas allumiado pela claridade coada atravez das frestas envergadas e pela que vinha da porta, alongavam-se em cabides, dos dois lados, soquetes de massa negra e cabo vermelho, emparelhados com as lanadas e os sacatrapos. Os espeques, encostados ás paredes, nos cantos, continuavam a uniformidade do tom vermelho, quebrado tão sómente pela côr de chumbo das pernas da cabrilha, postas ao centro, em cabide mais forte, que sustentava tambem, inferiormente, o molinete, o cadernal e o moitão d’aquelle apparelho destinado ás manobras de força da artilheria.

Toda esta ordem e aceio eram devidos ao Jorge. Raro pedia fachinas para o coadjuvarem. Só quando havia que remover algum peso de muitas arrobas, e assim mesmo!...

Descançava emquanto engulia o boccado.

O jantar fazia-lh’o a Isabel, por um ajuste, que havia entre ambos. Farto de rancho andava elle até aos olhos, e por isso queria «comida feita por mão de mulher». Demais, a viuva bem precisava que a ajudassem, coitada! e não lhe exigia nenhum disparate.

Ás vezes, em logar d’ella, ia a filha levar-lhe o comer. Quando o contracto principiou, a Rosa já era crescidota, mas ainda assim, uns dias por outros entornava-lhe o jantar, porque ia de corrida, para se despachar mais depressa. Apesar d’isto o veterano nunca chegou a zangar-se, porque ao encaral-a, perdia o animo, vendo-lhe aquelles olhos tão pretos e tão bonitos!... E nunca disse nada á Isabel...

Quando o caso succedeu a primeira vez, a Rosa ficou muito contente, e, voltando no dia seguinte, poz a cestinha no chão mal viu o Jorge, e deu-lhe, em agradecimento, um abraço e um beijo.

Ao sentir a carne fresca e macia da rapariguinha tocar-lhe no rosto, o velho ficou exquisito, e d’alli em deante não estava bem ao pé da Rosa. O beijo voltava-lhe á memoria, e com elle a noção vaga de alguma coisa que tinha perdido, e que todos os mais gosavam...

--Nada! Nada! pensava por fim. Eu com isto dou em maluco. O melhor é dizer á Isabel que fica roto o nosso ajuste, que não me arranje mais a comida.

Mas que motivo lhe havia de dar? E custava-lhe tanto vel-a menos vezes, a Rosinha!

Passou-se tempo, a pequena tornou-se mulher, e um dia o Jorge tomou a Isabel de parte e falou-lhe em casar com a filha, de quem era «muito, muito amigo!»

A viuva do sargento Medeiros ficou banzada.

Podia lá entrar-lhe na cabeça que o veterano quizesse aquella gaiata, que não tinha onde cahir morta e que, de mais a mais, no respeitante a juizo... Quantos amargos de bocca já tinha tido em razão d’este particular!... Se havia de ter outros peiores ou de vel-a perdida, mais valia aproveitar aquelle amparo, que lhe cahia do ceu aos trambulhões... É verdade que o noivo podia ser avô da Rosa, mas era homem decidido, e saberia conserval-a no bom caminho.

Ainda assim, por descargo de consciencia, mostrou á filha as coisas como eram: que o Jorge tinha muita edade e que não seria portanto o marido que mais lhe conviesse. Lembrou-lhe, porém, que elle avezava bem bons vintens, que só querendo-lhe deveras é que se teria resolvido a pedil-a em casamento, e que não se parecia em nada com os bandalhos, que andam por esse mundo a desinquietar as raparigas.

--E a final que proveito é o d’ellas, as mais das vezes? perguntava com acrimonia a viuva, fincando as mãos nos quadris, bem especada ao meio da casa. Arranjarem filhos, sem ter apanhado marido!

A Rosa não se decidiu logo. Custava-lhe a tomar o pedido a serio.--Seu marido, o tio Jorge!...

Bem sabia que o Luiz tinha olhado para ella por brincadeira, sem tenção de casar; mas quiz fallar-lhe, para ver que effeito lhe produziria a noticia. O sargento ouviu a participação, achou que o pedido do veterano se justificava com a belleza da Rosa. Elle proprio desejaria fazer o mesmo ... mas não podia, porque o pae o tinha obrigado a prometter casamento a uma prima, em Lisboa, e seria matal-o de desgosto o escolher outra. O que faria com certeza, era ficar solteiro.

A Rosa não o acreditou, mas ficou-lhe agradecida por aquella explicação. Esperava até que o sargento a tratasse mal, quando soubesse dos projectos de casamento. Ainda assim jurou comsigo mesma, que havia de se vingar acceitando o primeiro que a quizesse para mulher, uma vez que podesse gostar d’elle. Mas o Jorge, não! Era tão velho!

Um dia a Isabel entrou fula, pela porta dentro.

A Luiza Braga, a quem ella contara o pedido do Jorge, tinha-lhe dado uma gargalhada nas bochechas, dizendo-lhe que o veterano estava de certo a caçoar com ellas, e que tirassem d’alli a sua ideia.

--Elle é isso? bradou a Rosa, tambem furiosa. Pois negra seja eu, se não estiver casada antes de um mez!

Tinha cumprido a promessa.

III

Tres semanas depois do casamento houve tourada de corda em S. João de Deus.

O Jorge, logo que a Isabel falou em irem todos ao divertimento, condescendeu, dizendo que não queria a rapariga para freira nem para bicho do buraco, e d’alli a boccado saíam do castello pela porta dos carros, os noivos na frente, a Isabel e o José Maria um pouco mais atraz.

Os caçadores da guarda piscaram os olhos uns para os outros cubiçosamente ao verem a Rosa, e um de S. Miguel, mais descarado, commentou, a meia voz, que nenhum d’elles apezar de moços, se benzeria com um «peixão de estoiro» como aquelle que o velho tinha apanhado.

O José Maria, que ainda ouviu a graçola, cuspiu-lhes a phrase: «Galuchada atrevida!» mirando de soslaio o chocarreiro.

Depois de descerem até Angra e de atravessarem parte da cidade, cujas ruas, de ordinario pouco concorridas aos dias santos, mais se despovoavam n’aquelle domingo por causa da tourada, os quatro subiram até ao arrabalde de S. João de Deus, onde já enxameava uma grande multidão.

Dos mirantes, pouco mais altos que uma pessoa, debruçavam-se muitas damas, a quem os donos das casas sempre reservam os melhores logares, e por traz d’ellas ou dos lados apinhavam-se as mulheres do povo, merecendo geralmente umas e outras os olhares de quem buscasse apenas caras bonitas, sendo porém as segundas mais dignas da attenção do pintor de costumes, em razão da variedade dos trajos, que ostentavam quasi sempre com extremada garridice.

Algumas, as mais estimadas, tinham vindo com o _manto_ caracteristico, muito encaloradas dentro d’aquelle envolucro de alpaca preta, egual á da saia, que, franzido em volta da cintura, lhes cobria o tronco, os braços e a cabeça, formando por cima um tecto á laia de telha, duro graças ao forro de papellão que o reveste pelo interior. Quantos rostos não parecem mais encantadores no fundo d’aquelle nicho, quando entrevistos na semi-obscuridade do _manto_, que mão pequenina, ás vezes bem calçada, sorrateiramente descerra á altura do pescoço, para logo o fechar unindo-lhe as bordas deanteiras, de modo a ficar apenas um orificio, atravez do qual os olhos dardejam curiosos!... E o effeito não falha, porque o pomo vedado é o mais appetecido.

A par do _manto_, que em muitas se via descahido para traz por causa do calor, figuravam os capotes de longo cabeção e pesado capello terminado posteriormente em forma de travesseiro. Este abrigo, que constitue abobada por cima da cabeça e resguarda as faces com as abas verticaes, acabadas em bico á altura dos hombros, tinham-o tambem deitado para as costas algumas das donas, não menos encaloradas que as dos _mantos_, ao passo que outras, mais cautelosas, os haviam guardado dobradinhos a preceito, dentro da casa e em sitio escolhido. Nada! Que o capote para muitas é a bem dizer um dote.

Do matiz formado pelos chales e lenços de seda ou de chita, que adornavam as restantes mulheres do povo, destacava-se um ou outro capote e lenço, para ser ainda maior a diversidade dos trajos.

Quando o Jorge e os companheiros chegaram ao logar da festa, já remoinhavam pelas ruas, aos bandos, os rapazes do povo, trajando bellas roupas de _panno fino_, chapeus de feltro e alvas camisas, com os collarinhos unidos por dois grandes botões de ouro, lavrados em relevo imitante a filigrana e encadeados pelo pé. Só os velhos e a maioria dos _senhores da cidade_ buscavam refugio nos mirantes e janellas.

Por entre os passeiantes esgueiravam-se, a espaços, as retardatarias. Estas--duas lindas moçoilas do campo--faziam resoar na calçada as solas de pau das _galochas_ pregadas, em volta, de tachinhas amarellas, e enfeitadas no peito do pé com bordados escarlates a sobresahirem do fundo azul da carneira. E como ambas corriam ligeiras com aquelle calçado tão difficil de suster nos pés! Ora! Se até iriam dançar, a menos que o tirassem, para bailar em palmilhas de meias!

Quem primeiro veiu fallar ao Jorge foi o João Matheus, um leiteiro que tinha a freguezia de muitos moradores do Castello. O veterano quasi não o conheceu, tão differente o achou, de quando elle ia por lá ao seu negocio, de manhãsinha, mettido n’uma grande camisa de linho e coberto com o classico barretinho de malha, parente muito proximo do solideo ecclesiastico. O leite, levava-o em duas grandes cabaças escuras, amarradas aos extremos de um bordão ligeiramente curvo, que lhe assentava pelo meio no hombro esquerdo. Agora estava outro inteiramente, salvo no varapau, e no _pé fresco_, moda tão predilecta do povo açoriano: o fato cifrava-se no dos outros populares, e a cobertura da cabeça, ou, mais rigorosamente, do cocoruto era a famosa carapuça de panno azul, orlada na peripheria com um vivo encarnado e rematada dos lados por duas orelhinhas da mesma côr, reviradas para cima. Para seguir ainda mais á risca a moda popular terceirense, tinha pendente ao meio da testa, saindo por baixo da carapuça, um caracol de cabello feito a primor.

O veterano levou os companheiros para casa do José de Mello, que já o tinha convidado muitas vezes, e que mal accommodou em bom logar do mirante a Isabel e a Rosa, carregou com os dois velhos para dentro de casa, ancioso por dar-lhes a provar uma pinga de vinho novo da Graciosa, que as duas mulheres não acceitaram, mas que os tres homens foram escorropichando por tigelas de barro não vidrado, acompanhando-o de milho cosido com funcho, tremoços, favas e milho torrado, e outros _hors d’œuvres_, patentes na meza e destinados ás visitas.

A mulher do José de Mello, sentada a par da Isabel, disse-lhe que tomasse cuidado á passagem do bicho, porque eram já seis os touros que lhe tinham saltado para o mirante.

Mas o conselho não foi ouvido, porque o estalar de um foguete provocou immediatamente um enorme borborinho. Do touril, estabelecido n’um quintal proximo, acabava de sair o boi. Correram-lhe ao encontro os _aficionados_, pulando e gritando com desespero.

Appareceu finalmente um touro de pequeno corpo e de côr escura, preso, pelas hastes emboladas, a um comprido cabo, que quatro homens seguravam pela extremidade opposta, e largavam ou colhiam para dar fuga ao animal ou obrigal-o a parar.

Traziam os quatro, á laia de uniforme, calças brancas, alvas camisas avivadas de encarnado, e bonnets de copa baixa, apenas differentes dos que usam vulgarmente os cosinheiros por terem tambem vivos d’aquella côr.

A _viseira_ que lhes occultava a metade superior do rosto, é que originou a denominação de _mascarados de corda_, com que o povo da ilha então os designava.

Todos quatro coxeavam mais ou menos, visto que em obediencia ao seu tradicional plano de uniformes, traziam os pés, tão deshabituados de constrangimento, n’aquelle dia apertados em sapatos de bezerro, legitimos representantes, para o caso, dos celebrados borzeguins da tortura inquisitorial.

O touro passou de corrida pela frente do mirante do José de Mello. Um enxame de homens e rapazes seguiu-o de tropel. Tanta diligencia faziam por uma ou duas marradas, que ás vezes viam coroadas as suas aspirações.

N’isto, um d’elles, mais atrevido, tropeçou e cahiu, e d’aqui resultou que outros dois tambem se estatelassem na calçada.

O touro estava perto, e, ou porque os mascarados não podessem a tempo segural-o ou porque desejassem «animar o divertimento», conseguiu chegar aos tres, e depois de uma focinhada prévia dispunha-se já para mimoseal-os com festa mais valente, quando o cabo, esticado com força, lhe deu a _pancada_, obrigando-o a retroceder e arrancando-lhe um mugido doloroso.

Decididamente a tourada promettia ser boa.

Os tres levantaram-se no meio de risadas estrepitosas, e um d’elles, com a cabeça partida, foi curar-se á botica proxima, sem que mais ninguem désse importancia a similhante bagatella.

Apezar de ser fanatica pelo divertimento, a Rosa tornou-se pallida mal viu o sangue, e descórou mais ainda, porque ao afastar os olhos deparou no mirante contiguo o sargento Luiz, a fital-a persistentemente, com um ar muito triste, como de quem sentisse grande pena de estar a vel-a, mas que não podesse desviar d’alli a vista, nem o pensamento. Afinal cobrou animo e, com simulada indiferença, mostrou concentrar a attenção no touro, que já ia a distancia, rodeado por uma caterva menos densa. Alguns dos perseguidores, vendo as barbas do visinho a arder, tinham-se refugiado nos vãos das portas, ou dependurado das grades de algumas janellas mais baixas.

--Não havia de olhar para elle!... Se até lhe tinha raiva!... Quando o Luiz a namorava, jurava-lhe um amor por ahi além, e afinal deixou-a casar com outro... Bem fraco amor!... Nem já se lembrava de que ella existia. Tinha-a encarado, por um simples acaso. Iria apostar que olhava já para outro sitio... Nem já alli estaria talvez...

E, para certificar-se, olhou novamente e viu outra vez o Luiz, sempre a miral-a com a mesma persistencia.