Chapter 12 of 13 · 3928 words · ~20 min read

Part 12

Em todo o caso tratou de precaver-se contra a influencia malefica, e tambem para isto lhe foi a Lauriana uma abalisada conselheira.

Por traz da porta pendurou uma faca, de gume voltado para a rua e um chavelho de boi, a que todas as manhãs queimava a ponta, o que tambem fazia a um chifre de carneiro, que lhe era companhia constante. Ao mesmo tempo defumava a casa, _rezando os quartos em cruz_ e deixando o fumo atraz de si. D’esta maneira, se as bruxas lhe entrassem, como costumam, pelo buraco da fechadura, tornariam logo a sair.

Ainda receioso de que estes meios não fossem bastantes, preparou-se para dar uma lição á feiticeira que conseguisse invadir-lhe o domicilio. Comprou uma navalha com cabo de ponta de veado, amarrou-lhe um rosario bento e pôl-a aberta, junto á cabeceira da cama. Mal visse uma bruxa, atiraria a navalha, de modo que se espetasse no chão. E tanto aquella como as outras que viessem tental-o, ficariam alli presas, remoinhando estonteadas em volta do rosario, como em torno de uma luz esvoaçam os mosquitos. Elle então levantar-se-hia da cama, armado com a competente verdasca, e moeria á bordoada as infernaes visitantes. Mas esperou-as debalde noites e noites, ás escuras, de olhos muito abertos, ouvido á escuta.

--Alguem de certo as avisou, explicou-lhe a tia.

O triste foi emmagrecendo; tornou-se amarello, escaveirado.

Os visinhos já lhe sabiam das crendices. Dois d’elles, uns doidivanas que ás proprias familias se não cansavam de pregar peças, tomaram o Francisco á sua conta. Moravam á ilharga, e uma noite, emquanto um lhe distraia as attenções, o outro conseguiu entrar-lhe em casa e amarrar a uma das pontas da colcha um cordel, que extendeu pelo chão até á rua. Meia hora depois o Francisco estava deitado, e já ia pegando no somno, tão estremunhado elle andava pelas continuas vigilias, quando sentiu a roupa a fugir.--D’esta vez é que eram ellas!-- E atirou-lhes a navalha, mas, pela precipitação, a ponta não se cravou no solho.--Ainda lhe escapavam as malditas!--Só por vergonha não gritou por soccorro.

Ainda que lhe revelassem a verdade, não acreditaria. Da brincadeira tinha desapparecido qualquer vestigio, porque um puxão mais forte fizera o cordel escapulir da colcha.

Como não vissem o resultado da primeira facecia, os esturdios, tarde da noite, espalharam á porta do visinho uma porção de sal e de cinza. Quando o Francisco saía de manhã, para ir tratar das vaccas, sentiu uma coisa a estalar-lhe debaixo dos pés e ia tendo uma vertigem. Uma _salgadeira_ á porta!... E de mais a mais tinha-a pisado!

Correu a chamar a tia.

A velha observou de longe e a medo, benzeu-se e murmurou:

--Eh! Senhor! Muito mal te querem, filho. E o que as bruxas te deitaram á porta!... Sal, azeite, _incensio_, terra de cemiterio ... pois aquella terra é de cemiterio com certeza! Credo! E tambem pennas, não vês? accrescentou ella, indicando duas pennas de ave, que alli estavam por acaso. Manda já varrer tudo isto ... para o lado de fóra, toma sentido!... E vae queimar as botas com que pisaste o sal. Cruzes! Cruzes!

Assim se fez. As botas eram novas da vespera.

Por traz das persianas, os dois sustinham o riso a muito custo, e apenas viram o visinho entrar em casa e a velha ir-se embora, fecharam a vidraça, e começaram aos pulos, ás gargalhadas, planeando nova brincadeira.

Arrepender-se-hiam talvez, se podessem ver o Francisco de joelhos deante do oratorio, erguendo uma supplica ardente para os santos, que conservava de ha muito constantemente allumiados.

Antes de entrar, tinha hesitado e estivera quasi a obedecer á tentação...

Sentia ainda uma esperança. É que a vacca parecia melhorar.

Aquelles santinhos, especialmente o representado n’um retrato egual aos que se tiram hoje em dia ás pessoas[7], quantos milagres não tinham feito em vida e depois da morte? Porque não haviam de fazer mais um, a favor de quem lhe rezava com devoção tamanha, o coração opprimido, o rosto banhado de lagrimas?

E por largo tempo invocou o auxilio milagroso de Santo Antonio.

* * * * *

No dia de Natal a vacca amanheceu muito peior. Soltava a cada instante um mugido tão triste e doloroso, que nem uma alma christã metteria mais compaixão, dizia depois, na cadeia, o Francisco Raposo.

--Só a Marianna não terá dó do pobre do bicho, pensou elle, quasi a chorar.

A vacca fitou o dono com uns olhos muito afflictos, como a pedir que lhe acudisse, que não a deixasse morrer.

Depois teve um tremor por todo o corpo, descaíu a cabeça para o chão, extendeu muito as pernas, deitou pela bocca uma baba muito grossa, e os olhos embaciaram-se-lhe.--Estava morta.

--Quarenta patacas perdidas! gemeu o Francisco, e arrimou-se á humbreira da porta, arrancando os cabellos, praguejando, e batendo alli tão fortemente com a cabeça, que era um pasmo não a partir.

Ouviu tocar á missa.

Encaminhou-se para a egreja. Escutar a voz do sr. padre vigario, que sabia dar tão bons conselhos, vêr a hostia consagrada, tudo havia de socegal-o, e afastar-lhe os pensamentos ruins.

A missa ainda não tinha começado.

--Se a Marianna lá estaria?--Alli é que ella havia de ir, por ser a egreja mais proxima.

Não estava.

--Hereje! Nem sequer no dia do Natal!...

Mas o sr. vigario dissera já outras duas missas n’essa manhã, e talvez a prima tivesse ouvido alguma d’ellas.

Viu a tia logo adeante, e foi falar-lhe. D’ahi a momentos, já sabia que a Marianna não tinha estado na egreja.

--Vi-a hoje, mas não foi na casa de Deus Nosso Senhor. Foi no foral, que vae dar ao sitio onde ella _véve_. Levava até, pendurada na mão, uma fressura de boi.

--Eh, senhora! Porque levava ella isso?

--Eu sei lá, Chico! Talvez por ser o que se tira mais barato no açougue, quasi de graça... Ou quem sabe se?...

A velha calou-se.

--Levava tambem o coração? perguntou-lhe o Francisco anciosamente.

--Pois não, filho! Mas cala-te, que o sr. padre vigario não tarda.

O que mais lhe importava era a missa, depois do que acabava de saber!--A Marianna ainda não estava satisfeita com o mal que lhe causara! Sem se valer da bruxaria do coração espicaçado com a tesoura, já o tinha posto de rastos; o que faria agora, que ia usar d’este meio? Bem podia elle preparar-se para ficar sem nada: sem a outra vacca, sem as terras, sem a casa... Se o fogo não lh’a queimasse, deitava-lh’a abaixo algum tremor de terra. Na ilha ha tantos!... E o demonio arranjaria de certo mais um, se as bruxas lh’o pedissem.

Ia tão fóra de si, que ainda estava de cabeça descoberta.

Chegou em frente da casa térrea onde moravam as primas.

Da chaminé saía fumo--um fumo negro, signal certo de maldade.

Entrou no quintal, e rodeou a casa, para ir ver o que estavam a fazer na cosinha.

Tudo parecia abandonado, como se tivesse passado por alli a morte. Uns pés de couve meio seccos ... uma parreira comida pela doença...

Deante da porta, junto ao cepo de partir a lenha, amarellejava um machado coberto de ferrugem.

Escutou.

* * * * *

Bem triste aquella manhã em casa da Marianna.

Com as faltas de ar que lhe causava a lesão cardiaca, tinha a doente passado a noite em afflicções, e só depois de já ir o sol bem alto, pegou no somno, sentada na cama e encostada a umas almofadas e travesseiros.

A Marianna, a despeito de não ter dormido um instante, saíu devagarinho e foi á cata de uma senhora, que lhe promettera mandar vir das Furnas os remedios applicados áquella doença pelo famoso curandeiro.

As hervas e o mais tinham chegado na vespera, á noite. Se o curandeiro ia envergonhar os cirurgiões!... E com estes e com a botica, as duas irmãs tinham gasto mais do que podiam. A boa senhora ensinou á Marianna uma oração, que vinha escripta n’um papel, para ser dicta emquanto se queimassem as hervas. A pobre pagou os remedios com o ultimo dinheiro que levava, e tornou para casa.

Á porta do açougue viu uma bella peça de carne. Suspirou, pensando que nem um caldo poderia dar n’aquelle dia á irmã. E queria-lhe tanto!...--Quando a mãe lhes faltara, o pae andava mettido com a cunhada, a Lauriana, e nem pensava nas filhas. Só a irmã mais velha cuidara na outra, que pouco mais tinha de oito mezes. Era a sua segunda mãe.

O homem do açougue viu-a e adivinhando o motivo d’aquelle suspiro, d’aquella tristeza, offereceu-lhe um coração e um pedaço de figado, que pendiam de um gancho, a escorrerem sangue.

A Marianna quiz recusar, mas por fim acceitou a esmola com reconhecimento.

Entrou em casa de mansinho. Assim mesmo a doente acordou.

--Aqui veem novos remedios, disse-lhe ella, em quanto accendia o lume. Estes agora, sim! Curam a toda a gente. Primeiro vou defumar a casa com as hervas: alecrim, rosmaninho e outras que não conheço. O remedio da garrafa é para se tomar á noite.

A doente abanou a cabeça, com melancholia.

--No dia de Anno Bom, se Deus quizer, já havemos de ir ambas á missa! continuou a Marianna muito alegre, e encostou a porta da cosinha, por ter passado a fumaceira da lenha. Foi ajudar a irmã a sentar-se á borda do leito e voltou para a chaminé. Logo que a lenha formou brazas, deitou-as para um fogareiro pequeno, e sobre ellas acamou as hervas do curandeiro.

Levantou se um fumo espesso e escuro, que invadiu toda a casa.

A Marianna levou o fogareiro para junto da irmã, dizendo ao mesmo tempo:

«A minha casa venho defumar em louvor do Santissimo Sacramento do altar, com as tres missas do Natal, com as tres hostias consagradas, com os tres padres vestidos e revestidos...»

A porta escancarou-se violentamente, e o Francisco Raposo, levantando o machado da lenha com ambas as mãos, cresceu para a Marianna, a gritar:

--Vae-te para as profundas do inferno, bruxa de mil diabos!

O corpo caíu pesadamente no chão, fendido ao meio o craneo pelo golpe do machado.

A doente abriu muito os olhos, e antes que podesse gritar, resvalou para cima do corpo da irmã.

Assim deixaram de viver as duas _feiticeiras_.

--Morto o bicho, morta a peçonha! murmurou o Francisco, e foi entregar-se á prisão.

[Ilustração]

Acabou em Rilhafolles, tres annos depois.

[Ilustração]

Mary

EM quanto nos despedimos, esteve nervosa, commovida.

A familia, como todo o bom inglez, lunchava na sala de jantar situada ao rez do chão da casa, a curta distancia do taboleiro do _croquet_, onde jogavamos, eu e a Mary.

O que não diria o bom Thomas, o pae d’ella, se nos visse jogar d’aquelle modo,--elle que era um taco de primeira ordem, e que nos considerava a ambos como os seus discipulos predilectos!...

Ah! Mas é que nem eu, nem ella pensavamos no _croquet_, e embora fingissemos dar uma grande attenção ao caminho que percorriam as bolas por entre os arcos de ferro, os nossos pensamentos concentravam-se todos, todos, n’aquella separação eminente, que nos impellira, na vespera, a declararmos o amor, que havia mezes transbordava dos nossos corações de dezeseis annos.

Pobre Mary! Com os seus grandes olhos azues velados ligeiramente de lagrimas, fitava-me com melancholia, continuando talvez a fazer mentalmente a pergunta, que me dirigira no dia anterior, quando, afastados um pouco da familia durante o passeio á quinta do Gordon, tinhamos falado longamente do futuro.

--Porque havia eu de partir? _Why?_

Adivinhava-lhe o pensamento e fugia de encaral-a, porque sentia o peito a estalar de magua, e dizia de mim para mim, que melhor fôra que em vez de me mandarem para Lisboa estudar, me deixassem ficar na Madeira, segundo o conselho da Mary, e assaltava-me o desejo de declaral-o a toda a gente, de recusar-me terminantemente a embarcar no _Maria Pia_, que era esperado no dia immediato.

Continuámos a jogar.

Mary, baixando se, como para fazer melhor a pontaria, disse-me com a voz afogada pelos soluços:

--_Dear! It is for the last time!..._

Sim, era a ultima vez que poderiamos trocar uma palavra em segredo!

Não tardaria que terminasse o _lunch_, a que ella se tinha subtrahido, pretextando um incommodo de estomago.

Era a ultima vez em que poderiamos combinar os nossos projectos de futuro esboçados na vespera, e que a nossa ingenuidade considerava infalliveis.

Então, reanimei-me!

Quiz mostrar a Mary que, apesar dos meus dezeseis annos, não era uma creança incapaz de uma grande resolução.

Quem me déra poder repetir o que então lhe disse! O que haverá de mais puro, de mais elevado, do que as palavras que exprimem um primeiro amor, e que desabrocham da bocca do adolescente, com toda a sinceridade, candura e enthusiasmo de que é susceptivel uma alma?

Nos intervallos deixados pelo jogo, que seguiamos machinalmente, mostrei-lhe que eram impossiveis os devaneios formados na vespera; que era um puro sonho de creança o pensar que ella, herdeira rica, poderia ser para mim, que nada possuia; mas que forcejaria por merecel-a, estudando, trabalhando até vencer!

E phantasiava um futuro de triumphos. Antevia o meu regresso á Madeira. Vinha coberto de gloria, subia a calçada do Monte, e ia depôr com ufania todos os louros colhidos, aos pés de Mary, que seria então para mim.

Creancices!

Ella escutava-me, abanando a cabecinha loura, não se deixando convencer e murmurando sempre:

--_No! Never more!_

Então exaltei-me, duvidei do amor de Mary, accusei-a de querer que eu representasse um papel pouco airoso, que désse azo a accusarem-me de especulador...

Convenci-a.

Estendeu-me a sua mão branca, onde ligeiros traços azulados marcavam as ramificações das veias, e disse-me pausadamente, em portuguez:

--Pois então jure-me que voltará, que não se esquecerá de mim, que serei sempre a sua querida, a sua adorada!

Oh! Como eu jurei tudo, tudo, mesmo junto ao arco da campainha!

Ajustámos então manter correspondencia activa.

A Clarinha Correia se encarregaria de receber as nossas cartas.

--Nunca mais me esquece? perguntou ella ainda uma vez, fitando de novo em mim os seus olhos azues, profundos, scismadores.

--_Never more!_ respondi, e estando muito perto d’ella, prestes a acabar o jogo do _croquet_, quiz beijar-lhe de leve, fugitivamente o braço alvo e rosado, que saía da manga larga do vestido.

Mary arredou-se com vivacidade e lançou-me um olhar de censura, em que vinha implicito um _shoking_.

N’aquella occasião levantaram-se da meza, e o taboleiro do _croquet_ foi logo invadido pelos que tinham estado fazendo honra ao _pale ale_ e ás _sandwiches_, e vinham para os canapés de vime gosar a sombra dos grandes castanheiros, que entrelaçavam lá muito em cima as frondosas ramarias, formando um impenetravel docel.

No dia seguinte chegou o vapor da carreira e d’ahi a dois dias parti para Lisboa.

Não consegui trocar mais uma palavra com Mary.

Apenas a Clarinha me disse que poderia escrever-lhe.

Boa Clarinha! Os seus quarenta annos de solteirona nunca se tinham negado a prestar similhantes favores!

* * * * *

Que tempo durou a nossa correspondencia?

Não posso dizel-o ao certo.

O coração esquece tão facilmente!

Lembro-me de que as nossas cartas respiravam paixão e enthusiasmo, desde a primeira até á ultima linha. Eu ás vezes, ao percorrer enlevado as regras perfeitamente parallelas, que deixara no papel lusidio e espesso a letra firme, esguia e commercial de Mary, perguntava a mim mesmo se era crivel que uma loura _miss_ podesse sentir amor tão vehemente e, o que valia mais ainda, ter a coragem de manifestal-o.

Mas certo dia a duvida desappareceu. Li o espantoso idyllio de _Romeu e Julieta_, chorei lagrimas de punho com o soffrimento dos desditosos amantes de Verona, e conclui afinal que se um poeta de além da Mancha tivera espirito e coração para imaginar e sentir aquelle incomparavel poema de amor, não era muito que uma ingleza, em toda a plenitude da mocidade, e habitando de mais a mais um clima quasi tropical, escrevesse cartas como aquellas.

E eu amava-a, oh! se a amava!... Quantas e quantas vezes me não aconteceu no meio de uma lição de mathematica ou de physica, na Polytechnica, caír em profunda abstracção e vel-a, sim! vel-a tal como era--pequenina, loura, rosada, um tanto diaphana, mas em todo o caso um typo adoravel de Gretchen mais candida ainda que a do _Fausto_! Via-a, sem me escaparem sequer uns pequeninos nadas, que a tornavam mais seductora a meus olhos. Mary não transigia, por exemplo, com as modas das suas patricias; não transigia completamente, é claro. Apenas os primeiros assomos da garridice tinham surgido n’ella, com os quinze annos, Mary abandonára o hediondo calçado que tira a certas inglezas toda a similhança com Cendrillon.

O seu pésinho--creiam que não é do meu amor o diminuitivo--o seu pésinho mostrava-se, abaixo da fimbria do elegante vestido, calçando sempre uma airosa botinha, obra do mais habil «shoemaker» funchalense.

Mary constituia um mixto adoravel da candura ingleza, com a animação e a elegancia meridional.

Sabe Deus quantas curvas de segundo grau e quantos instrumentos de optica e de acustica eu deixei de estudar, para scismar unicamente n’aquella creaturinha fascinante!

Eu queria trabalhar muito, queria colher á farta as taes coroas de louro antes sonhadas; mas vinha sempre a saudade sentar-se ao meu lado, diante da meza do estudo, e a nostalgia velar de crepes tudo quanto me cercava.

Fui entristecendo.

Emprehendeu curar-me, um amigo meu que é hoje deputado, não sei bem se progressista, se regenerador.--É tão difficil distinguil-os!...

Obedeci-lhe machinalmente.

--Deixarás de ser nostalgico, apenas eu faça de ti um bohemio.

E levava-me a...

Eu sei lá aonde me levava!

No regresso, tarde da noite, assaltavam-me grandes furias; descompunha-o, protestava nunca mais acompanhal-o, fechar-lhe até a porta da casa de hospedes onde eu morava: mas esquecia tudo, apenas elle no dia seguinte, na escola, me dava um abraço apertado e soltava uma das boas gargalhadas, que ainda não deu em S. Bento, apesar da comedia em que o vejo mettido. Agora, basta que riam d’elle! É que anda expiando cruelmente a cumplicidade, que teve na queda d’este anjo.

D’alli a pouco tempo eu estava perdido, na accepção dos paes de familia, mas tinha-me consolado.

Não se julgue, comtudo, que esquecia Mary.

Pelo contrario!

Pensava sempre n’ella e por amor d’ella estudava, quando a bohemia me não levava até ás ruas da Baixa...

Tanto Mary me não saía do pensamento, que eu estava de continuo a achar reminiscencias do seu rosto, umas vezes, outras da sua fina cintura, da sua mão, do seu pé, nas conquistas faceis que fazia ao lado do meu amigo, actual deputado, e de Luiz de Almeida, aquelle talentoso poeta e bohemio engraçadissimo, que a morte aniquilou tão cedo, mas que ficou memorado no espirito de quantos o conheceram.

* * * * *

Uma noite, na rua do Ouro, ia eu com os meus dois companheiros de extravagancias, quando encontrei, de cara a cara, Henry, um irmão de Mary de que eu era amigo, e que estava estudando em Londres havia dois annos. Pelos modos o pae viera ao conhecimento de que Henry se escapava a miudo do collegio, e fazia frequentes excursões por Piccadily-Circus e Leicester-Square...

O bom Thomas chamava-o para a Madeira, a fim de regeneral-o.

Feitas as devidas apresentações, os meus companheiros declararam á queima roupa ao inglez, que sympathisavam immenso com elle, e logo o convidaram para nos acompanhar n’aquella noite.

Quiz pôr obstaculos, inventei difficuldades, mas tudo foi inutil. O proprio Henry se insurgiu contra mim e acceitou a offerta com prazer. Queria despedir-se alegremente de Lisboa. E despediu-se, em companhia da seductora Lolita, que os meus amigos lhe apresentaram com todas as formalidades... que foram nenhumas.

Quando no dia seguinte nos separámos a bordo do vapor, eu estive quasi a pedir-lhe para guardar segredo da aventura; não o fiz todavia, suppondo que Henry, por conveniencia propria, fosse discreto, e tambem para não lhe despertar suspeitas ácerca do meu amor pela irmã.

Ai! Porque não o fiz?...

No paquete immediato deixei de receber carta de Mary. Escrevi-lhe afflicto, perguntando-lhe o motivo d’aquelle silencio.

Não tive resposta.

Mandei cartas, sobre cartas.

Um dia a Clarinha Correia compadeceu-se de mim e enviou-me este desengano:

«A Mary soube, pelo irmão, coisas terriveis a seu respeito. Esqueça-a, porque ella já o esqueceu.»

Repelli o conselho, e mandei á Clarinha uma carta, que ella deveria ler a Mary, e que seria capaz de commover não só os tigres da Hircania, tão celebrados de poetas e poetastros, mas até um agiota.

A inglezinha resistiu!

Dois annos depois casou.

Como eu estava longe, padeci muito menos que o heroe de _Sous les tilleuls_, e não fiz nenhuma das incriveis tolices, a que elle se abalançou no seu exagerado romantismo.

* * * * *

Dez annos depois.

N’um dia de sol, galgava eu, em companhia de um amigo, o carreiro ingreme e fatigante, que vae das Féteiras para as Sete Cidades, na ilha de S. Miguel.

Apesar de nos terem antes descripto com as côres mais vivas e fascinantes a belleza do afamado valle, já nos sentiamos invadir pelo aborrecimento, em consequencia da posição incommoda em que iamos sobre os burros alugados nas Féteiras, e tambem porque o sol estava ardentissimo.

Ao nosso lado um rapazelho, descalço, jaqueta de picotilho ao hombro e cajado ferrado na mão, trepava o carreiro aos pulos, soltando por vezes o caracteristico «Passa cá i’asno!» e dando com a lingua no ceo da boca estalos frequentes, para animar os jumentos na trabalhosa ascensão.

Adiante de nós, a uma centena de passos, caminhavam na mesma direcção dois viandantes, um homem e uma senhora. Elle, com as grandes pernas pendentes entre as quatro do burrinho e os compridos pés quasi de rastos pelo chão, balanceava muito os braços e levantava-os com frequencia, fazendo gestos de enthusiasmo, quando volvia os olhos para o vasto panorama, que já começava a desenrolar-se por traz de nós, do lado da beira-mar.

Sobre a cabeça campeava-lhe um capacete branco, envolto em alguns metros de cassa da mesma côr.

Por detraz e descendo para a gola do casaco amarello claro, havia melenas louras arruivadas, semelhantes a barbas de milho.

Mas, naturalmente, o que mais nos attrahiu a attenção, foi a companheira do homem ruivo. Sentada de lado, sobre o albardão do burro, envolvia-se desde a garganta até aos pés n’um comprido guarda-pó de hollanda: ao de cima emergia a cabeça, occulta por um chapeu de palha preta, e embrulhada n’um espesso veo de gaze de seda azul; abaixo da roda do guarda-pó viam-se pendentes dois objectos escuros, muito compridos, de fórma estranha, que não raro se agitavam, na ancia de percutirem as ilhargas do jumento.

Mais de perto conseguimos apurar, que os objectos negros eram dois pés.

E levámos ainda mais longe a observação. Quasi perfurando o linho do guarda pó, adivinhavam-se umas saliencias osseas, correspondentes aos hombros, aos cotovellos, e até aos joelhos, não obstante as saias.

--Quanto phosphato de cal daria aquella ingleza? perguntou o meu companheiro.

Eu ia responder com um gracejo de não melhor gosto, quando attingimos a cumiada que limita em roda o extenso valle.

--Eh! Senhores, disse-nos o rapaz dos burros--um cerrado michaelense dos campos--avistam-se d’aqui a _pêuco_ as lagoas.

Apeámo-nos, e, seguindo o conselho que nos tinham dado na cidade, fomos andando para diante, mas olhando sómente para a nossa esquerda, a fim de que o valle das Sete Cidades nos apparecesse de subito, e não gradualmente, á medida que fossemos deixando para traz de nós um morro, que se erguia á nossa direita.

--Virem-se os senhores agora, disse-nos momentos depois o rapaz. Lá estão as lagoas em baixo!