Chapter 7 of 13 · 3952 words · ~20 min read

Part 7

Durante aquellas duas semanas andou no quartel a chorar pelos cantos, ralado de saudades. Saía para espairecer as magoas, corria as ruas da cidade, parava espantado em frente das lojas, como de antes fazia, quando vinha da freguezia comprar algum fato, ou por amor da festa do senhor Santo Christo. Mas voltava para o quartel, ia para a caserna, e amarrava-se a um canto, sem ao menos ouvir as cantigas tão engraçadas do cabo José. A sua consolação, uma vez por outra, era tirar do bahu a _charamela_, que tocava nas Féteiras, e repetir as modinhas que lhe tinham ensinado por lá. Parecia-lhe então que a caserna, os cabides de que pendiam os uniformes e as mochilas, os armeiros, e tudo o mais ia desapparecendo, desapparecendo, e que via na sua frente a egreja da freguezia, com a casa do _imperio_ do outro lado da estrada; quasi que até ouvia o sino a tocar para a missa!... Uma vez, esteve quasi a dar um grito, porque se lhe afigurou que a Maria do tio Thomaz passava ao pé d’elle, por signal com um vestido de chita clara e um lenço de seda muito bonito!...

Os outros soldados diziam que o rapaz dava em maluco.

Mas o que o fez pasmar, foi que na primeira vez em que esteve de licença na terra, não sentiu a alegria que esperava.

De longe, tudo lhe parecia melhor.

Até a casa, tão pequena e pobresinha, que elle julgava preferivel á caserna, afinal de contas era muito peior.

Um completo desengano.

Mas agora não se demorou a pensar n’isto, e foi descendo a passos largos em direcção á casa do pae, que ficava mesmo á ilharga da egreja.

Quando passou pela venda, teve tentações de perguntar quem tinha adoecido, mas não quiz demorar-se e foi andando para diante.

--Se estava _deserto_ por chegar!

A curta distancia de casa passou por elle o carro do doutor, produzindo estalidos seccos no macadam da estrada.

Vinha do lado da egreja, do sitio onde morava o padre Francisco.

--Não é outro o doente, pensou o 72.

N’isto achou-se ao pé de casa.

Uma coisa lhe fez admiração.

--Que claridade era aquella que saía atravez da porta mal fechada? Não podia ser da candeia, que a mãe accendia todas as noites.

E pareceu-lhe ouvir chorar!...

--Enganava-se por força.

Empurrou a porta, e logo estacou, boquiaberto, com um arrepio por todo o corpo, os cabellos em pé.

No fundo, deitado sobre a cama e um pouco voltado para a porta, estava um homem, já velho, o olhar envidraçado, a cara amarellenta e a bocca repuxada para uma banda. Era o corpo de um defuncto!

Sentadas sobre uma caixa, tres mulheres soltavam ais, assoando-se a miude, e dizendo por entre soluços:

--Louvado seja Nosso Senhor!...

Uma d’ellas, a mais velha, quando deu com os olhos no 72, levantou-se e foi para elle a gritar:

--Ai! Meu rico filho, que já não tens pae!

O Roque bem tinha reconhecido o cadaver, mas attonito, estupido, não queria acreditar nos seus olhos.

Quando ouviu a mãe, desenganou-se; começou n’um berrar destemperado, e atirou-se para o chão, onde estrebuchou muito tempo, arrepellando-se e gemendo sempre:

--Matei o meu pae! Matei o meu pae!

A mãe voltou para junto das companheiras. Uma d’estas segredou á outra:

--O rapaz está variado!

Levantou-se, e com o queixo a bater e todo o corpo n’um tremor convulsivo, foi sentar-se para um canto.

Só á terceira vez é que poude encarar com o defuncto.

Mettia pavor, á luz amarella dos cyrios.

Sem fazer bulha, o Roque fugiu de casa e foi sentar-se á porta da egreja. Lá esteve toda a noite a soluçar:

--Matei o meu pae! É castigo de Nosso Senhor!

[Ilustração]

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O Contrabando

TARDE de inverno.

As vagas frisam-se de espuma, e correm umas após outras de encontro á costa. Da banda do oceano, grandes massas de nuvens pardacentas orladas de branco, sobrepujam o horisonte,--quaes legiões que alli estivessem de reserva, promptas para arremetter á voz da tempestade. As aves aquaticas, aos pios e grasnidos, approximam-se de terra, e emquanto umas traçam na atmosphera largas curvas, outras, embaladas pela onda, descançam na agua, d’onde ás vezes se levantam desprendendo as azas, em que parece librarem-se a custo, para irem saltitar pelas cristas espumosas, de pescoço estendido á cata de peixe. O vento humido e carregado de emanações salinas, investe com a riba alcantilada, percorre-a velozmente, curvando os enfézados arbustos e erguendo nuvens de poeira, que remoinham até se dispersarem na campina superior.

Em frente da casa dos guardas de alfandega, alçada no sopé dos rochedos, um homem trigueiro, alto, de apparencia militar, alonga a vista ao de cima das aguas, e olha com persistencia para o perfil escuro de um morro, que ao longe, muito para a direita, fecha o horisonte terrestre, com grande crueza de tons. A ventania sacode-lhe incessantemente o capote e obriga-o a fechar os olhos de instante a instante.

No mar divisa-se muito ao largo uma vela, uma só: mas o guarda antevê perigo imminente, e mal comprehende que o deixassem alli com um unico companheiro, armados ambos de espingardas detestaveis, quando os contrabandistas pódem ser muitos, e hão de trazer por certo bellas carabinas, que nunca erram fogo e que dão tres ou quatro tiros, em quanto as armas antigas a custo disparam um só.

* * * * *

A lancha, mal a noite acabou de fechar, largou de bordo carregada de tabaco, e navegou para terra cautelosamente. Os remos cahiam na agua ao mesmo tempo e rasgavam sem bulha o flanco das ondas. Dois outros maritimos, de sueste enterrado na cabeça, acompanhavam os remadores e tinham perto de si, á cautela, duas carabinas americanas. Partira da barca uma segunda lancha, que devia correr perigos eguaes, até se haver passado todo o contrabando--umas duzentas caixas de tabaco.

* * * * *

O João Luiz, o guarda, hesitava em recolher-se na casa de abrigo, apezar do frio. A denuncia tinha sido clara. Perto d’alli, na pequena enseada onde o mar é quasi sempre socegado, deviam desembarcar as caixas de tabaco. Lá estavam doze guardas. Como, porém, junto da casa tambem se saltava sem difficuldade, o chefe fiscal tinha mandado guardar o posto pelo João Luiz e pelo Vicente. Não havia ninguem fóra de serviço.

De repente o João Luiz pensou no Estacio e estremeceu.

Elle bem tinha dito muita vez ao irmão que se desgraçava continuando a ser contrabandista, e que um homem casado e pae de dois filhos não deve arriscar a sua vida por um boccado de dinheiro. Palavras perdidas.

O Estacio era teimoso e não largava já o modo de vida, a que se dedicara. Parecia, a bem dizer, uma tentação. Que lhe importava o ser mal visto pela gente da alfandega, se em poucas horas ganhava o que muitos outros não faziam com mezes e mezes de trabalho ao sol e á chuva? E o caso é que o Estacio andava bem vestido, trazia a mulher e os filhos que se podiam ver, e ainda ultimamente tinha comprado uma mobilia americana, e um relogio de parede com uma caixa mais luzidia que a prata.

O proprio perigo offerecia-lhe attractivos singulares. Ás vezes, durante as noites de trabalho, elle bem pensava que podia levar, quando mal se precatasse, com uma bala e não tornar a ver a mulher nem os filhos, principalmente o mais mocinho, o Manuel, de quatro annos, tão louro e tão rosado, que parecia tal qual um menino Jesus. Mas as ideias sombrias passavam rapidas, e o Estacio scismava logo depois que poderia vir a ter um predio, muitos predios, como alguns senhores enriquecidos d’aquelle modo, que nem por isso eram menos estimados por toda a gente. Pelo contrabando ganhava o pão da sua familia e ganhava-o com risco de vida, o que já não era tão pouco!

Um dia esteve quasi a brigar com o João Luiz, por este lhe dizer que o contrabandista é um ladrão como qualquer outro, visto que rouba o Estado e vae contra as leis; mas por fim soltou uma gargalhada e respondeu-lhe que lá a roubar o Estado ninguem levava as lampas aos empregados publicos, uns mandriões que passam vida regalada e que recebem no fim de cada mez uma mão-cheia de dinheiro. Ladrões esses!

* * * * *

Noite fechada, principiou a soprar um vento mais frio. O João Luiz ageitou-se melhor no capote e encolheu-se a um canto da rocha, de onde se avistava bem o mar, até á costa. Passara-se uma hora ou mais talvez, quando elle, que á força de estar attento via já tudo indistincto e como que a apagar-se, julgou sentir bulha do lado da agua. Ia para erguer-se, mas logo mudou de tenção; foi de rojo até á porta da casa e chamou em voz baixa o Vicente. Tornado ao mesmo sitio, conheceu claramente que andava perto um bote.

--Serão contrabandistas ou pescadores? murmurou ao ouvido do outro guarda, que tinha vindo postar-se ao lado d’elle, tambem com a espingarda engatilhada, para o que desse e viesse.

Mas não podiam fazer assim fogo, á falsa fé, detraz de um rochedo, como o ladrão que espera um homem e o mata para roubar. Teve este pensamento e sem importar-se com as ordens recebidas bradou:

--Quem anda ahi?

Não teve resposta. Repetiu a pergunta. O mesmo resultado. Ainda duvidoso, e para certificar-se ou intimidar os tripulantes do bote, disse com voz mais forte:

--Vocês são mudos?! Talvez uma bala os obrigue a falar.

Do bote partiram dois clarões repentinos.

Uma das balas tirou uma lasca de pedra, ao pé do Vicente.

--Ah! Grandes ladrões, esperem lá! gritou o João Luiz e ambos os guardas, com as armas descançadas na rocha, desfecharam ao mesmo tempo, quasi instinctivamente.

Do lado do mar pareceu-lhes que viera um gemido, mas, passada a obcecação momentanea produzida pelos clarões, já não enxergaram a embarcação.

O silencio da noite era quebrado tão sómente pelo arfar do oceano junto á rocha.

O estampido fez com que chegassem, em acto continuo, o chefe fiscal e os doze guardas.

A denuncia tinham-a dado provavelmente os mesmos contrabandistas, marcando para outro sitio o desembarque, a fim de desnortearem a gente da alfandega.

O chefe zangou-se muito, por deixar de se fazer a tomadia, mas a final cahiu em si e absolveu o guarda, pela consideração de que contrabandistas de tanta audacia não se venceriam ás primeiras. Demais, o perigo tinha-lhe merecido sempre um especial desagrado.--Duas horas depois dormia em casa a somno solto.

O João Luiz esteve de serviço toda a noite.

* * * * *

Rompeu formosa a manhã immediata.

Quando o guarda se recolhia a casa, o sol já ia alto e lançava myriades de setas de oiro atravez da atmosphera, lavada pela chuva dos dias anteriores. O mar, á direita, encrespava-se em ondas curtas, e alongava na praia linguas de espuma.

Quasi ao entrar na Horta o João Luiz avistou no areal, á borda da agua, um grupo de homens a rodear curiosamente o que quer que fosse. Chegaram-lhe simultaneamente aos ouvidos, uns gritos de mulher.

Approximou-se e viu um cadaver extendido na areia.

Reconheceu o Estacio.

No peito, que a camisa aberta e ainda molhada deixava a nu, havia um buraco pequeno, redondo, negro, de onde gotejava um tenue filete de sangue.

A mulher do contrabandista, de joelhos ao pé do marido, soltava gritos penetrantes, arrepellava o cabello e cahia de vez em quando desamparada sobre o cadaver, em cujo rosto se desenhava constantemente, persistentemente, a grande ancia que precedera a morte e que a morte não pudera apagar.

A infeliz cahiu finalmente n’uma atonia profunda, e sentou-se na areia, sem despegar os olhos de cima do morto, e murmurando no meio de um tremor:

--Ai! O meu rico marido! O meu rico marido!

Ao pé da mãe o _Manilinho_ chorou em quanto a viu chorar. Depois, quando ella socegou, approximou-se do pae, poz-lhe as mãosinhas na cara, e disse a medo, muito admirado:

--Como o pae está frio! E sempre a dormir!

O guarda, horrorisado de si mesmo, pois fôra talvez a bala da sua espingarda que tinha morto o irmão, olhava para o pequenino, e ao vel-o tão innocente e tão divinal, levantou os olhos para o ceo, e perguntou porque seria que Deus, mandando á terra anjos como aquelle, os não deixava fazer milagres.

[Ilustração]

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Piloto

JÁ vinha anoitecendo, quando o Sergio, de pé descalço e com a trouxa da roupa enfiada n’um cajado e pendente do hombro, saltou da estrada para a rocha.

Sobre o horisonte occidental as nuvens, em longas fitas franjadas, perderam a claridade vivissima de um quarto de hora mais cedo, e tomam uma côr plumbea esbranquiçada: pelo resto do ceo alastra-se um azul uniforme, que a diminuição de luz vae tomando mais opaco.

Convencido de que ninguem o vigiava, foi descendo a escarpa de rocha em direitura ao mar, onde se avistava, muito ao longe, um navio, com as velas pandas de vento.

--Se alguem me viu é que está o diabo, pensou o rapaz, e novamente lançou a vista pela ribanceira acima, e pela enfiada dos pincaros, que recortavam lá muito no alto, sobre o azul, o seu perfil dentado e sombrio.

Áquella hora, a estrada é pouco frequentada. Só de vez em quando lá passam tres ou quatro trabalhadores, que foram dar o dia á Horta, e que voltam para casa, a bom andar, antegostando a ceia, só de avistarem uma ou outra chaminé lançando pachorrentamente, para a limpidez do ar, uma espiral de fumo.

O Sergio, depois de olhar por muito tempo, a ponto de os objectos fixados se lhe tornarem quasi indistinctos, poisou no chão a trouxa, onde vinha toda a sua roupa e um bôlo torrado rescendendo a milhã cheirosa, e sentou-se com os pés muito perto da agua, que chapinhava brandamente no interior da pequena angra formada, n’aquelle sitio, pelos rochedos da costa sueste do Fayal.

E tempos sem fim, com os olhos fitos em o navio, que bordejava a boa distancia de terra, ficou absorto no meio d’aquelle grande silencio, esperando pela canoa, que havia de leval-o a occultas para bordo da baleeira, conforme tinha tratado com um _senhor da villa_.

Sem saber como, foi perdendo a grande resolução que trazia de embarcar, para fugir ao recrutamento e não ir para a Terceira, para o _Castello_.

Obedecia tambem a outra razão: na baleeira ia ter á America, á _Calafóna_, onde tinha enriquecido o Luiz Garcia, e aquelle senhor já velho, dono de uma casa de sete janellas ao pé da egreja da Féteira, e tantos outros!

Nada! O Sergio estava bem decidido, tanto que viera para alli, depois de dar um abraço na mãe e outro no irmão, mais novo do que elle dois annos.

Por isso mesmo não era capaz de saber o motivo por que sentia uma ancia no peito, um aperto na garganta, e tanta vontade de chorar.

Talvez fosse porque a mãe o não tinha acompanhado até ali, para despedir-se.

--Ora! Se foi justamente para a coisa não dar tanto nas vistas! Um visinho não lhe queria bem e podia ir participar á _villa_. Ha gente tão má!...

Mas, fosse o que fosse, o rapaz sentia-se a modos exquisito, e estava já a pedir que apparecesse quanto antes a canôa.

O que havia de lembrar-lhe agora!...

Todas as historias que lhe tinham contado das baleeiras: a de um capitão que moía a tripulação a pontapés e chicotadas. Um dia o cosinheiro respondeu-lhe com uma bofetada, que o estirou no convez. Foi logo mandado pôr a ferros, e nunca mais ninguem o viu. Contavam depois os de bordo, que tinha sido cosido a facadas pelo commandante, e atirado pela borda fóra.

--Mentiras, disse por entre dentes o Sergio, e poz-se a olhar para o mar, a ver se lobrigava a canôa.

Não viu nada.

--Dando se mal na baleeira, desembarcava em _Béteféte_[1], e havia de ir parar á _Calafóna_, onde o ouro é tanto, que até se cava com o sacho!

Mas n’esta occasião lembrou-se de uma coisa, que o Luiz Garcia lhe dizia ás vezes--que por cada um que voltava vivo, ficavam por lá muitos, mortos sem se saber de que, se de fome, se de cansaço...

--Pois sim! Apesar d’isso vão de todas essas ilhas navios carregadinhos de gente para a America. Mal feito fôra não ir eu tambem, concluiu o Sergio.

Ouviu-se a curta distancia um latido, e logo depois um cão pequeno, de pello curto, corria para junto do Sergio, muito festeiro, muito alegre.

--Olha o Piloto! Vae-te d’aqui, diabo!

E deu-lhe um pontapé, que o animal evitou fugindo-lhe com o corpo. Mas d’alli a um instante já voltava, caracolando-se.

--Txeta, _Caim_! exclamou o Sergio mais zangado ainda, e atirou uma pedra ao cão, acertando-lhe n’um vasio.

O Piloto, ganindo e de cabeça baixa, subiu a rocha, deitou-se no cimo e poz-se a espreitar o dono, com o focinho extendido sobre as patas, e os olhos fulvos brilhando na meia obscuridade, como dois carvões mal apagados.

--Admira que viesse dar commigo! pensava o Sergio, sentando-se de novo. Se o tinha fechado no palheiro!...

Insensivelmente foi voltando ás idéas de momentos antes.

Mas com essas vinham outras...

Sim! Quando o cão fosse d’alli para casa, havia de empurrar a porta com o focinho, e se não a podesse abrir, ficaria a raspar com as unhas até que apparecesse alguem, como tinha feito ainda na vespera, ao tornar com o dono da _folga_ do José Pedro.

--Mas esta noite volta sósinho!

E a este pensamento o Sergio sentiu a garganta apertar-se-lhe ainda mais, porque se lembrava de que a pobre mãe teria a mesma idéa e havia de chorar pelo filho, que já andaria a essa hora sobre as aguas do mar.

Para esquecer-se, começou a recordar-se da _folga_, onde tinha bailado com a Anna cinco _chamaritas_ a fio, a ponto de o José Pedro, já de mau modo, dizer o costumado «Caras novas ao terreiro!»

Era boa rapariga a Anna. Quando o vigario da Féteira os via juntos a conversarem, dizia-lhes por graça: «A modo que vocês ainda me hão de dar que fazer lá na egreja.»

Um e outro ficavam encarnados como uns pimentões, mas não queriam mal ao sr. padre por _entícar_ com elles. Se andava sempre com o _canîcînho_ na agua!...

Lembrou-se depois de que a Anna, apesar do que lhe tinha promettido, podia cansar-se de esperal-o e casar com outro, por julgar que elle, colhendo-se á solta, faria como os passaros, e não voltaria ao laço. A mesma peça tinha pregado a Aurelia ao João Furtado.

Só com esta desconfiança, o rapaz sentiu uma afflicção enorme, que lhe subia ao peito e o afogava: fincou os cotovellos nos joelhos, apertou a cabeça entre as mãos e poz-se a chorar desapoderadamente.

Só tinha chorado assim no dia da morte do pae. Uns homens mal encarados vieram metter o defuncto na tumba. A creança poz-se nos bicos dos pés e deitou a cabeça por cima de um dos lados d’aquella caixa preta: quando viu o pae lá dentro, muito amarello, imaginou que aquelles homens é que lhe haviam feito mal, que o tinham _pisado_ muito e desatou n’uns taes gritos, que ninguem o pôde calar.

D’ahi por deante nunca mais chorara. Por isso os olhos lhe tinham tantas lagrimas e o peito tantos soluços.

O Piloto veiu no entretanto chegando-se para o dono, manso e manso; pousou-lhe as patas deanteiras sobre a perna e começou a lamber-lhe as mãos e a cara com uma grande meiguice, como se quizesse consolal-o n’aquella dôr.

O rapaz não teve alma de enxotal-o. Afigurou-se-lhe que não era o cão, mas a familia, a casa, todos os sitios por onde o Piloto o seguia, que estavam a chamal-o carinhosamente; que a mãe e a Anna lhe diziam ao ouvido, baixinho: «Não te vás. Podes ser feliz na tua terra, com a tua mãe, com a tua mulher!»

Levantou-se de chofre, poz a trouxa ao hombro, e galgou a rocha. Chegado ao cimo, estacou duvidoso:

--Mas então ia parar ao _Castello_!...

Um senhor da villa promettera-lhe uma vez, que se fosse com elle no tempo dos votos, o livraria de ir para soldado.

--Não lhe custava a deitar um papel na egreja, affirmava o rapaz.

Na pequena angra entrava n’este momento a canôa. Uma voz dizia asperamente:

--Onde estará metido aquelle diabo?

O Sergio, já de longe, ouviu isto, e agachou-se um pouco, receioso de que o vissem apesar do escuro que fazia.

O Piloto, diante d’elle, com as orelhas fitas, olhava ameaçador para o lado do mar.

--Ó sior, não está ninguem, dizia uma voz com accento africano. O moço arependeu-se.

--Marau! Tinha jurado!...

E chamou outra vez:

--Eh! rapaz do diabo!... Nada!

Os remos bateram na agua.

* * * * *

Quando um quarto de hora depois o Piloto entrou no quintal da casa, estava tão fóra de si, que até ladrou ao gato. Este não fugiu, mas, resentido pela singularidade do ataque, levantou a mão severamente para esbofetear o companheiro. E assoprou.

O Piloto tinha desculpa: não voltava sósinho.

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Na Vindima

ESTÁ prestes a findar a rude labutação.

Os cachos túmidos, e alourados pelo sol estivo, já quasi desappareceram das videiras, e o môsto, o sangue da vinha, corre a flux, denso e espumante, pela bica do lagar, espremidas as uvas sob os pés dos homens, que aturam tempos sem fim n’aquelle trabalho, como se os vapores saídos do engaço lhes augmentassem as forças com a excitação da meia embriaguez.

A mesma animação nos demais trabalhadores, que, ajoujados ao peso dos cestos vindimos, levam os cachos para o lagar escuro e fresco. Qual d’elles, para expandir a alegria ou sentir menos a faina, entôa a meia voz um dos cantos populares da ilha do Pico, dando á melodia mais triste uma expressão festival.

Alguns, para mourejar na freguezia de S. Roque, vieram de longe, de muito longe, e estão alli ha perto de um mez, separados das familias, anciosos por lhes ganharem um pedaço de pão.

Um d’estes era o João Ignacio.

Tinha abalado da outra banda da ilha, dos cabeços perdidos nos matos sobranceiros á villa das Lages, deixando a mulher, as filhas--duas moçoilas frescas e desempenadas, e o filho, um rapazote que dentro em pouco já poderia ajudal-o.

A mulher, coitadinha! estava muito acabada, não pela idade, mas pela doença.

Pois o João Ignacio ia ter uma grande satisfação.

Mandado pela mãe, o pequeno tinha feito a enorme caminhada e já andava alli perto, deitando inculcas, para saber onde encontral-o. Trazia-lhe noticias frescas de todos os de casa: da doente, das irmãs, e até do Calçado, muito rosnador com a velhice, e da porca, que estava gorda, gorda--uma perfeição de animal!

O João Ignacio topou o filho á porta do lagar, onde tinha despejado mais um cesto.

Deitou-lhe a benção, arredou-o de si um quasi nada para miral-o de alto a baixo, e tendo-o visto são e escorreito, deu-lhe uma palmada no hombro.

--Basta que sim! Estaes rijo como...

E sem enunciar o termo da comparação, perguntou pressuroso:

--Como vae a porca?

--_Álhora!_... O pae então pergunta-me pela porca, e não quer saber da minha mãe?

--Eh! rapaz! A porca custou dinheiro e vossa mãe não me custou nada!

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O Jantar Do General

NÃO sei com certeza se o general tinha desembarcado nas praias do Mindello.

O Garcez, coronel de caçadores 12 e cultor eximio da _arte de dizer mal dos seus superiores_, affirmava que não; o Dionysio, soldado de veteranos, dizia que sim, e jurava o até, se alguem se mostrava duvidoso.