Part 4
--Que suspirasse! Que padecesse! Que tinha ella com isso? O que lhe importava, era o impecilho do velho tel-a ido buscar, para reduzil-a áquella desgraça. Maldito!
Desejosa de ver mais tempo o barco, já quasi a occultar-se por traz da bateria de Santo Antonio dos artilheiros, desceu dois passos pelo ingreme talude.
Em direcção contraria, e como o primeiro a curta distancia da costa, vogava outro bote. Á ré tambem um homem e uma mulher.
Provavelmente mais um casal feliz.
Elle era um militar, um sargento. Já se lhe distinguiam as tres divisas verdes.
Tão alegres aquelles dois, que vinham tocando e cantando. A voz abarytonada, que entoava o fado, conhecia-a ella.
--Não! Não era possivel!
Debruçou-se mais, correndo quasi o risco de precipitar-se.
--Sim! Eram o Luiz e a Genoveva.
Com os olhos a saltarem das orbitas e os punhos fechados para o barco, trovejou phrenéticamente:
--Ah! Grandes maraus! Grandes maraus!
O Jorge pareceu acordar de um sonho, levantou-se, olhou para o bote e apesar da distancia reconheceu o sargento.
--Até que te apanhei! gritou elle, travando rudemente do pulso da rapariga.
--Hein! O que é?... Largue-me! Largue-me!
E voltou os olhos para o barco.
--Não olhes para lá, olha para mim, para mim, que sou teu marido! Anda! Nega ainda historia com o sargento... Nega!
--Não nego, e arrependida estou eu de ter negado a primeira vez. Mas largue-me! Arre!...
Com um esforço violento escapou-se-lhe da mão e como sentisse o pulso a doer, bradou fula de raiva:
--_Pisar-me_ assim! Pedaço de bruto!
--Olha que eu desfaço-te, grande diabo! E não te cae a cara de vergonha, por veres que sei tudo! Sempre era muito estupido!... Foi preciso que me mettesses a verdade pelos olhos dentro, ao avistares o sargento com outra mulher! Eu bem o reconheci, accrescentou o velho e apontou para o rival, que mal suspeitava o que alli estava acontecendo por sua causa. Ah! Padeces o mesmo que me tens feito padecer? Ainda bem! Ainda bem!
Ella ia responder com uma insolencia, mas calou-se, porque a vóz do sargento, subindo pela encosta, trouxe-lhe ao ouvido fragmentos de uma quadra do fado, de envolta com os arpejos da guitarra.
Sabia-a de cór, de a ter ouvido ao amante.
--Perdes o tempo a escutar, que não é para ti que elle está cantando! disse-lhe o Jorge, com sarcasmo.
Voltou-se enraivecida para o marido, mas, querendo feril-o mais cruelmente, descambou para a troça.
--Então não querem ver o _fedôr_ do velho! ejaculou, com o dedo apontado para elle e atravez de uma gargalhada. Julga talvez que se o Luiz me não quizesse mais, ganhava com isso alguma coisa? Nicles, meu menino! Não é o mel para a bocca do asno.
E cuspiu-lhe outra risada.
O Jorge ouvia-a estupefacto, sem acreditar.
Para se vingar em alguem, a Rosa continuava nos improperios, como se a desesperação, que dias e dias tinha represado dentro em si, achando finalmente sahida, golfasse n’um vomito asqueroso.
--Julgou o mostrengo que era só appetecer uma raparigota, que ainda mal chegava a mulher, e chamar-lhe sua! Tal desgraça! Juntar a morte á vida!... Que peccado! O avô casado com a neta! Ah! Ah! Ah!
Meio suffocado pelo desespero e pelo asco, mas curioso de saber até onde chegaria aquella abjecção, o velho quiz ouvil-a. Não poude esquivar-se todavia a dizer-lhe com desprezo:
--Grande porca!
--Porco é você! Um porco, que me sujou casando commigo! Porcos os seus beijos! Desde o dia em que me levou á egreja, tenho nojo de mim! Veja-se n’um espelho, seu velho tinhoso, e diga-me depois se eu era para a sua bocca!
O veterano cresceu para ella, chamando-lhe:
--_Valhaca!_ Surrão!
Quiz agarral-a, porém a rapariga furtou-lhe as voltas, e continuou a provocal-o:
--Muito lhe tenho eu aturado! Nenhuma outra soffria tanto. O que eu lhe fiz, não é nem a metade do que você merece!
--Eu mato-te, diabo, eu mato-te! Nem já sequer te vejo!
--Nunca me tivesse visto! Oxalá! Fique sabendo que não gosto de você, nem gostei nunca, nunca! D’elle! D’elle, unicamente!...
E apontou na direcção do bote, que os dois, afastados um pouco da rampa, não podiam agora ver.
Ouvia-a e cuidava já não ser d’este mundo, ou que tudo se anniquilara em volta de si. Ainda os espreitava o sol por traz do monte, e elle julgava-se envolto nas trevas da noite.
--Pois aquella creança, que havia pouco se lhe afigurava tão innocente e pura, como nas tardes em que ella ia levar-lhe o jantar, muito rosada, de vestidinhos curtos, saltitante e alegre que nem um passarinho--aquella creança podia ser a malvada que para alli estava a falar?! Mais nojenta e descarada do que essas mulheres, que á noite, quando lhe succedia voltar para o castello mais tarde, o perseguiam pelas ruas da cidade, com as galochas de pau soando estridulamente nas pedras da calçada, e que se lhe offereciam desbragadas, em tróca de pouco dinheiro! Pois aquillo era a sua mulher, a sua querida mulher?!
No emtanto a Rosa tinha-se abeirado outra vez da escarpa, e com os olhos a brilharem seguia o barco, que se ia afastando de terra.
--Era aquillo, era! Peior ainda que as mulheres de má vida, podia dar lições a todas ellas!
E para que não existisse um monstro assim, o Jorge correu para a mulher, agarrou-a pela cintura e atirou-a com força pela rocha abaixo, dizendo:
--Anda! Vae ter com elle!
O corpo cahiu aos resaltos pela vertente e foi pondo salpicos de sangue nas arestas que o esfarrapavam, em quanto a voz do sargento Luiz garganteava ao longe, toda cheia de requebros:
Mal os meus olhos te viram O meu coração te adorou, Na cadeia dos teus braços Minha alma presa ficou.
IX
O Jorge não poude seguir a mulher no caminho da morte.
Quando ia para despenhar-se, deitaram-lhe a mão o corneteiro-mór reformado e outro homem.
Preso para conselho de guerra, foi julgado tres mezes depois e confessou o crime, sem todavia declarar, por mais instancias que lhe fizessem, os motivos a que tinha obedecido. Os insultos e provocações com que a Rosa o allucinara, contaram-os ao conselho aquellas duas testemunhas. Estavam perto, mas não tinham sabido intervir a tempo de evitar a catastrophe.
Em quanto duraram estes depoimentos, o Jorge, envergonhado não por si mas por ella, tapava o rosto e cravava na testa os dedos contrahidos.
Impressionou vivamente ao auditorio o discurso do defensor. Quem apresentava aquella honrosa biographia militar, allegou o moço official, não era de certo um assassino. Tinha feito uma morte, praticando aliás um acto de verdadeira justiça social, mas não commettera um crime, pois estava inteiramente privado da intelligencia do mal que fazia, o que era previsto pelo codigo.
No fim, o presidente perguntou ao accusado se tinha mais alguma coisa que allegar em sua defeza.
--A minha pena toda é que V. S.^{as} não possam mandar-me varar por quatro balas, respondeu o velho, e não pronunciou mais palavra.
Foi absolvido por unanimidade.
O José Maria acompanhou-o a casa, e no intuito de consolal-o disse-lhe que a Rosa só tinha tido o que merecia.
--Cala-te, homem, cala-te! vociferou o Jorge, e atirou-se para cima da cama, onde ficou deitado, com a cara voltada para a parede, os olhos abertos e inexpressivos.
N’isto chegou-lhe á porta a Isabel e não se fartou de injurial-o.
--Peiores que o matador de sua filha, só os malvados do conselho de guerra, que o tinham absolvido! Tudo uma cafila!
O José Maria dispunha-se a correr com ella, quando a Josepha Julia e a Luiza Braga, que vinham á descoberta, a levaram d’alli.
--Deixa-o lá, dizia-lhe a Luiza, com o braço mettido no da viuva. Bem castigado ficou elle, perdendo a sua Rosa. Tens razão para lhe querer mal, mas, diga-se a verdade, o que a tua filha fez ao Jorge...
--E tu e as mais o que fazem? berrou a Isabel. Mas logo, cahindo no tom lastimoso, ajuntou: O corpo da pobresinha lá está no fundo do mar ... ou talvez fosse comido por algum peixe!
Seguiram caladas pela rua adeante.
--Se todos os maridos, que teem razão de queixa das mulheres, seguissem a receita do Jorge--meditava a Josepha Julia, com azedume de solteirona--os peixes, de gordos, chegariam a não poder nadar!
Depois, lembrou-se de uma novidade capaz de alegrar a Isabel:
--Não sabeis o que se conta da mulher do sargento Luiz?
--Da antiga ama do conego Ricardo? perguntou, immediatamente a Luiza.
--Isso! Que já a prega na menina do olho ao marido, com um estudante do seminario!
--E elle que se ha de affligir! acudiu a Isabel com rancor. Não lhe tirem os moios de renda deixados pelo conego, pois quanto ao mais...
* * * * *
Sempre cabisbaixo, andando á pressa e murmurando uma vez por outra palavras que ninguem percebia, o Jorge só era visto d’alli em deante nas ruas do castello, quando ia de manhã para o armazem do material de guerra ou para a terra do monte Brazil, e á tardinha, quando recolhia.
Quem de noite lhe passasse á porta, mesmo fóra de horas, via pelas frinchas a claridade da candeia, e sentia lá dentro, com frequencia, os passos do velho, medindo em todos os sentidos a casa terrea, e ouvia de quando em quando um suspiro mal reprimido. Quando lhe perguntavam se queria alguma cousa não respondia e ficava á escuta, para continuar na mesma, apenas ia longe o importuno.
Uma noite o José Maria, embora soubesse que o Jorge, como sempre, o receberia mal, entrou-lhe á força em casa e fez-lhe ver que elle estava dando cabo de si, o que era um grande peccado.
--A vida, é Nosso Senhor quem a dá, só elle a póde tirar, retorquiu o Jorge. Cuidas que se não acreditasse n’isto, já não tinha ha que seculos?...
E sem rematar a phrase, continuou a passeiar pela casa, alheio a quanto o rodeava.
* * * * *
Em algumas tardes ia sentar-se na rocha, no mesmo sitio d’onde tinha despenhado a mulher, e deixava-se alli ficar horas esquecidas, olhando para o mar, talvez a pedir-lhe que lhe restituisse a sua Rosa, de quem elle, apezar de tudo, ainda gostava tanto!
[Ilustração]
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Os Filhos Do Frade
FREI Antonio entrou na cella do guardião, tremulo, sem forças. O religioso que o chamou, dissera-lhe apenas:
--Cuido que é para ires a casa do morgado da Fajã.
O guardião, gordo, pausado, pachorrento, disse a uma e uma estas palavras, que iam fazendo estalar de angustia o coração do franciscano:
--Frei Antonio, o morgado da Fajã manda-me pedir um irmão, que vá acompanhar esta noite, junto do caixão, a menina Beatriz, que morreu ainda agora, de repente. Escolhi a Vossa Reverendissima. Vá buscar o seu breviario e ponha-se a caminho, que d’aqui até lá acima ao monte, ainda é boa a distancia.
O frade saiu d’alli cambaleando, estonteado. Por milagre chegou á sua cella, sem cahir ao comprido, sobre as lages do corredor.
Mal fechou a porta, atirou-se de bruços para cima do catre, e mordeu a coberta de lã grosseira, n’um paroxismo louco, abafando os gritos que lhe irrompiam do peito em catadupa.
Depois, foi a pouco e pouco serenando, as lagrimas correram-lhe dos olhos em fio, e o franciscano esteve tempo infinito, de joelhos no chão, com os olhos erguidos para o alto, mal fitando atravez do caudal do choro a imagem de um Christo, que estendia lamentoso os braços sobre o madeiro da Cruz, n’uma attitude de immensa angustia resignada.
E assaltou-lhe a memoria a recordação de uma dôr egual, a da perda da sua mãe, que morrera assim, de repente, estando a falar com elle. Dôr egual, não! que maior que todas é a de perder-se a mulher amada.
E elle idolatrava-a com tão immaculado culto, que nem a vista da donzella profanára aquelle amor. Só agora, declarada a medonha catastrophe, só depois que o guardião dissera que Beatriz tinha morrido, frei Antonio percebeu o que eram aquelles extasis, aquelles arroubamentos ineffaveis, de quando via, ao longo dos caminhos ou na egreja, a figura gentil e fascinante da morgadinha. Ás vezes, quando surprehendia no peito o intenso tumultuar da paixão, illudia-se, rebuscava na memoria passagens dos livros santos e acreditava que ascetas teriam tido como elle, e mais do que elle ainda, o indizivel goso de antever em vida apparições como essa, mensageiros de Deus destinados a fazer-nos crêr nos archanjos e seraphins.
Mas este mysticismo acabava perante a nova fatal. Não! O anjo era-o, mas da terra! Morto, desfolhado aquelle lyrio de fragrancia extrema: impossivel, impossivel!...
Saiu da portaria do convento quasi a correr, e como lá fóra, pelo campo matisado de flores, o sol esparzia ondas de luz, e nas carvalheiras os melros trinavam alegremente, soltou-se-lhe do peito um longo suspiro de satisfação e o rosto coloriu-se-lhe de prazer. Se Beatriz houvesse morrido, o sol ter-se-hia apagado e os passaros nunca mais soltariam os seus gorgeios.
* * * * *
Quando chegou a casa do morgado, as trevas encheram-lhe de novo a alma. Ao fundo do pateo, n’um quarto baixo, avistou, apenas acabava de empurrar a porta da rua, que estava entreaberta, um grupo de mulheres erguendo as mãos ao ceo, e soluçando muito.
Subiu a escada de pedra, passou o alpendre, e logo na grande sala da habitação fidalga encontrou o pobre pae e viu no rosto afogueado do velho a verdade inteira.
Tinha morrido Beatriz.
Lá dentro, no seu quarto virginal, transformado em capella mortuaria, estava a donzella estendida sobre a cama, em quanto não chegava o caixão, que devia contel-a para sempre, e onde se passaria o drama horrivel da podridão, quando aquelles labios, ha pouco avermelhados pelo sangue dos quinze annos, e aquella carne, mais branca e macia do que as petalas das açucenas, fossem devorados lentamente, cruelmente, pelos vermes repugnantes.
O frade olhou-a e descreu outra vez da morte. Bem a viu immovel, côr de cera, esmaecidas as rosas das faces; não acreditou. E quanto mais a via, mais a duvida o animava, mais o espirito se lhe erguia para Deus, interrogando, mas não pedindo. Seria excusado implorar-lhe um milagre para resuscitar Beatriz, porque Beatriz não podia estar morta!
Ainda assim os labios de frei Antonio murmuravam rezas, e quando a noite já ia adeantada, e todos em casa se tinham recolhido, ainda no quarto funebre se ouviam as orações do religioso, quebrando aquelle silencio de coisas mortas, e echoando flebilmente até aos pannos negros, que forravam as paredes, e de que se destacavam, a um lado, as chammas compridas, pallidas e immoveis dos quatro cyrios do altar.
Sempre com a mesma crença, quando ficou só e sentiu o ultimo alento de vida extinguir-se no resto da casa, levantou-se do logar aonde ajoelhara e chegou-se para o caixão.
Abertas para os lados as duas meias tampas forradas de setim branco, mostravam atravez de um véu de tule a donzella. O frade viu-a e recuou inconsciente, como se houvera profanado uma alcova virginal. Coisa alguma d’aquelle espectaculo lhe trazia ao pensamento a ideia da morte.
Todos, sem duvida, se enganavam. Era horrivel deixar que a levassem para debaixo das lages da egreja, para o frio jazigo da familia, quando ella não estava morta, quando a mocidade nunca se expandira tão exuberante no rosto de Beatriz!
Chegou-se mais. Ergueu o veu, quiz encostar o ouvido ao peito da donzella, e perscrutar-lhe as palpitações do coração. Não poude. As tampas do caixão não lh’o permittiam. Pousou a mão tremula regelada na testa da morgadinha, e pareceu-lhe receber uma impressão de calor.
[Ilustração]
--Então estava viva!
Quiz chamar alguem, correu para a porta, mas lembrou-se dos tristes sorrisos de desconsolo, que tinham respondido ás suas duvidas, algumas horas mais cedo.
Tornou para junto d’ella.
--Ah! Se podesse sentir-lhe pulsar o coração!... Porque havia de hesitar?
Levantou o corpo um quasi nada, e em seguida um pouco mais, introduzindo as mãos tremulas por baixo dos hombros da donzella. Sem saber como tirou-a para fóra do caixão, e amparando-a nos braços, e achegando-a a si, qual mãe que aperta ao seio um filho estremecido, dirigiu-se cambaleando, quasi louco, para a cadeira de espalda onde estivera velando o morgado.
Fitou-a, e julgou vel-a sorrir. Chegou-lhe ao coração o ouvido e sentiu palpitações.
Então na sua alma operou-se uma transformação sobrehumana. Aquella quadra já não foi para elle camara mortuaria, mas alcova nupcial, e o frade, perdida a razão, esqueceu tudo, e julgou realidade o que mais de uma vez se atrevera a phantasiar, e viu-se esposo de Beatriz, sentindo nos seus braços o corpo da donzella, rendido, indefeso, e gosou toda a suprema volupia de um primeiro beijo de amor.
* * * * *
De repente ouviu-se um gemido doloroso, quasi um grito!
O frade ergueu-se do chão, de golpe.
Beatriz, prostrada por terra, tinha effectivamente voltado á vida, e acabava de sair do estado cataleptico, que todos tinham julgado morte.
Aterrado, espavorido, fugiu do palacio, soltando brados.
A familia do morgado acudiu e poude adivinhar, horrorisada, o que se tinha passado.
* * * * *
Sessenta annos mais tarde, ha pouco tempo ainda, contava-se esta historia em Santa Cruz, na Madeira, para explicar o motivo por que dois velhinhos, muito parecidos e da mesma altura, e que andavam sempre juntos, eram chamados os _filhos do frade_.
Havia quem dissesse que eram gemeos, mas a opinião encontrava alguns incredulos.
Consta-me até que um investigador consciencioso estabeleceu, com documentos irrefragaveis, que um dos irmãos era onze mezes mais velho do que o outro, porque Beatriz e Frei Antonio...
Silencio! Não é bom revolver o pó das sepulturas.
[Ilustração]
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O Primeiro Desengano
Vestiu pela primeira vez fatos de senhora, no dia em que fez quatorze annos.
Ainda estou a vel-a entrar pela sala dentro muito envergonhada, tropeçando na fimbria do vestido comprido, não sabendo se devia rir ou zangar-se com os gracejos que lhe choviam de todos os lados.
Afinal foi sentar-se ao pé de uma meza, e tirou da floreira uma rosa, que tratou de desfolhar e de triturar, persuadida talvez de que escapava assim á attenção geral. Tivesse mais dois ou tres annos e desejaria prolongar o sentimento de admiração excitado pela sua formosura juvenil, em que transparecia a candura e singeleza da creança, da _baby_ da vespera, alliadas á fascinação da mulher que despontava.
Do meu canto, observava aquella esplendida adolescencia, que assim desabrochava de subito, e quasi não podia acreditar que os poucos mezes, que a Georgina tinha estado longe da Madeira, assim houvessem transformado a minha antiga companheira de brinquedos.
E ao vel-a tão differente, sentia em mim o que quer que fosse novo e estranho, e, desejando aliás approximar-me d’ella e contemplal-a muito tempo, tinha a dubia percepção de que alguma coisa nos separava agora, tornando completo impossivel o falarmo-nos como d’antes, quando, n’aquellas manhãs de julho tépidas e luminosas, iamos com um rancho enorme para o banho do mar, e a Georgina, alegre e buliçosa como um passarinho, pulava na frente do bando, com as suas perninhas brancas e rosadas, que appareciam abaixo do vestido de cambraya.
Em quanto ella e as senhoras entravam para as barracas enfileiradas a curta distancia da babugem da maré, nós, os homens--eu já me incluia no rol--enfiavamos cá fóra os horriveis fatos de banho, quasi sempre á direita das barracas, para nos livrarmos do sol, que surgia por traz do cabo Garajao e começava a faiscar nas vidraças do Funchal.
Que bons aquelles banhos!
Era um alvoroço enorme, uma exuberante alegria, quando entravamos de corrida pelo mar dentro, e, passada a primeira sensação de frio, gosavamos a deliciosa frescura, fluctuando ao impulso da onda, de mãos dadas, divisando atravez da limpidez da agua, as pedrinhas brancas semeadas entre os calhaus do fundo ... e as formas tremulas, fugitivas das banhistas. Sobre o mar, levemente encrespado pela brisa, formava-se para o lado do nascente uma esteira luminosa, coruscante. De quando em quando um de nós fazia repuxar a agua em myriades de gotas, que cahiam como chuva de fogo, até irem perder-se na espuma branca de neve.
Uma vez a Georgina apanhou um grande susto. Presumindo excessivamente das suas aptidões de nadadora principiante, quiz afastar-se da terra, mas lembrou-se de repente de que já não teria pé, de que ia afogar-se, imaginou-se até levada por uma resaca, e poz-se a bracejar desordenadamente, gritando, bebendo agua, como se lhe tivessem dado uma _enterra_. Soffreria provavelmente a morte da Virginia de Bernardin de Saint-Piérre, sem o acompanhamento grandioso e bulhento do temporal, se eu não a tivesse agarrado a tempo e conduzido á praia, Deus sabe com que difficuldade.
Imagine-se a ufania que me causava a recordação da façanha, no momento em que a Georgina me apparecia sob aquelle aspecto novissimo!
--Ah! Se podesse tornar a salval-a, trazendo-a apertada nos braços!... Formulava mentalmente este desejo, que parecia de certo uma enormidade ao meu pudor dos quinze annos, quando notei que a Georgina olhava fixamente para o meu lado.
Desviou a vista, quando a encarei, mas d’alli a pouco estava a olhar outra vez.
Senti então um dos maiores prazeres da minha vida. Comprehendi o motivo por que a julgava outra, adivinhei o que era o sentimento novo que me dominava.
Valeu-me para a descoberta o andar a ler o _Visconde de Bragelonne_, no ponto em que se descreve a seducção de La Vallière. Lembrei-me até de que o maroto do Alexandre Dumas torna quasi cumplices na queda da pobre Luiza uns passarinhos, que havia na sala e que no momento em que Luiz XIV cae aos pés da namorada, chilream dentro das douradas gaiolas uma toada de indizivel concupiscencia, o que ainda mais entontece a futura carmelita. Ora emquanto eu olhava para a Georgina, tambem cantava um passaro, um melro, empoleirado n’uma magnolia do jardim. Achei de bom agouro a coincidencia.
É claro que não emparelhava a Georgina com a La Vallière--via-a como aquella a quem havia de ser unido para sempre, visto que o amor assim nos destinara um para o outro.
Com uns restos de duvida, olhei em roda de mim.
No lado da sala onde eu estava, não havia mais nenhum homem, a não ser o escrivão de fazenda, sujeito de grande bigodeira e voz soturna, que recitava pelas salas o _Noivado do sepulchro_ e a _Doida de Albano_.
Era solteiro, mas tinha mais de tres vezes a edade de Georgina. Fiquei radiante. Era para mim com certeza, que estava olhando. D’alli a pouco fomos jantar.
Não comi nada, porque ella, apesar de ter ficado ao pé de mim, não me deu a minima attenção.
Como já tambem conhecia a existencia das _coquettes_, perguntei a mim mesmo se a Georgina seria uma d’ellas, e resolvi provocar o mais cedo possivel uma explicação decisiva.
Deparou-se-me o ensejo n’aquella mesma tarde.
Achavamo-nos os dois no extremo do mirante sobre o Caminho do Monte, vendo os romeiros que voltavam de festejar a Senhora de agosto.
Os mais não podiam ouvir-nos, entretidos como estavam por um dos espectaculos mais pittorescos dos costumes populares madeirenses. O som dos machetinhos de Braga, machetes de rajão e violas francezas, e o sussurro dos descantes e falatorio dos romeiros abafariam alguma palavra que me escapasse em voz mais alta.
Depois de lhe disparar uma declaração, fiz-lhe não sei quantas recriminações, pelo que me tinha feito soffrer durante o jantar.
A Georgina escutou-me cheia de pasmo, desviou-se um pouco, e medindo-me dos bicos dos pés até á cabeça, disse-me com um supremo desdem:
--O menino endoideceu! Não sabe que é ainda um fedelho e que eu já sou uma senhora! Isso ha de ser somno, por força. O que o Luizinho deve fazer, é pedir á sua mamã que o metta mais cedo na cama!
Fulo de raiva, ia dizer-lhe uma insolencia, quando se approximaram de nós a mãe d’ella e a minha.
* * * * *