Chapter 6 of 13 · 3882 words · ~19 min read

Part 6

Era até impossivel que não tivesse alguma morte ás costas. Quem sabia lá?... Talvez tivesse. A Rosa Moniz chegou uma vez a lembrar que podia muito bem ser elle, e não o Antonio Garcia, quem tinha morto o velho, que appareceu com a cabeça partida ao pé do forte de Santa Catharina. Ninguem vira o Antonio fazer mal ao velho, e lá por se lhe encontrar em casa uma camisa suja de sangue, não se devia jurar que fosse elle o criminoso. Coitado! Se estaria a pagar as culpas de outro?... Chamassem o Casimiro á justiça e veriam quantas testemunhas appareceriam a accusal-o. Mas apezar d’isto--ou talvez por isto mesmo, diziam alguns--a fortuna favorecia-o constantemente. É que nunca se tinha visto ninguem mais feliz em negocio. Não obstante a má fama do dono, não era só a casa de comida posta pelo Casimiro ao pé da praça, que estava sempre cheia de freguezes; acontecia o mesmo á lojinha de fazendas, da ilharga. Admirava que houvesse na villa tanto dinheiro para se gastar. Verdade é que gente de fóra, de Agualva e da villa de S. Sebastião, antes queria alli comprar, do que ir á cidade, ás lojas, da rua da Sé, porque o Casimiro vendia tão barato como o Evangelista ou o Bento Fartura. E tinha então um geito para aviar os freguezes! Quem lhe entrasse na loja, sempre havia de comprar alguma coisa, o ponto era ter dinheiro na algibeira. Ninguem melhor do que elle sabia entender-se com qualquer comprador. Ora, por uma coincidencia que excitava pasmo geral, aquella prosperidade tinha começado exactamente desde que a Luiza viera de S. Miguel juntar-se com o marido e levar aquella vida de negra.

--Vejam lá o que é a justiça de Deus, em que fala tanto a padralhada! commentava um dia o escrivão Salles, socialista e livre pensador.

* * * * *

A opinião das mulheres, valha a verdade, não encontrava echo na maioria dos homens. Só um tinha tal raiva ao Casimiro, que se o visse a afogar-se e lhe bastasse extender a mão para o salvar, ficaria quedo. Podera! Se depois de o Casimiro pôr a loja, o José Antonio já não vendia quasi nada, apezar de ter baixado os preços de tudo! Uma noite, por volta das dez horas, passando elle pela porta do seu inimigo, ouviu a Luiza a chorar. Pôz-se á escuta. A mulher começou a accusar o marido de não se importar com ella, de estar com a Margarida, tanto que muitas vezes depois de fecharem o estabelecimento, elle saía de casa e só voltava tarde, á noite, a horas mortas.

O Casimiro não respondia nada.

O José Antonio espreitou por uma fisga da porta e viu-o a arrumar as fazendas n’uma prateleira.

A Luiza continuou:

--Ah! Tu não respondes! É que não tens que responder! Pois eu um dia pego em mim, e vou a casa d’aquella ganhoa...

O Casimiro atirou ao chão com força uma peça de chita, que tinha na mão, e voltando-se para a mulher, gritou-lhe:

--Isso é que é falar! Olha que eu!...

--Tu o quê! Não me mettes medo com essa cara de calhau. Talvez queiras mandar nas minhas falas?

A ranger os dentes, deu dois passos para a mulher.

--Tu estás suffocando commigo, mas eu...

--Embatucaste outra vez, porque és um albardeiro, um corsario!

--Ah! Mulher, não me botes a longe, que eu perco-me por via de ti.

--Não me deites esses olhos, que eu não me faço amarella. Amarella ha de ficar a Margarida, quando eu...

O Casimiro não se conteve mais tempo e agarrou a mulher por um braço.

--Anda, anda lá! Olha que eu pego a gritar aqui d’el-rei! ameaçou ella.

Ainda não tinha acabado estas palavras, quando a mão do marido, batendo-lhe no alto das costas, a atirou de bruços, para o chão.

--Aqui d’el-rei! Aqui d’el-rei! Quem m’acode!

O José Antonio não quiz ouvir mais nada e foi de corrida buscar o administrador do concelho, que estava alli perto, na Assembléa, a jogar a sua costumada partida de voltarete.

Apenas conheceu a voz da auctoridade, o Casimiro abriu a porta e deu-se á prisão sem resistir.

* * * * *

No dia seguinte, ás dez horas, foi a perguntas, á casa da audiencia.

O juiz, velho de cabello completamente branco e falar pausado, depois de ouvil-o, censurou-lhe, com azedume mas sem desabrimento, a baixeza por elle praticada, em abusar da força para bater n’uma mulher, que se lhe entregara esperando generosidade e protecção, e não violencia e tyrannia.

O preso escutou silenciosamente as palavras do juiz. A principio conservou as sobrancelhas cerradas, e o olhar fixo n’um ponto do sobrado, como se nenhuma attenção prestasse ao que lhe estavam dizendo. Afinal, porém, as feições distenderam-se-lhe, um tremor convulsivo começou de agital-o, e ao mesmo tempo que do peito lhe irrompiam os soluços, foram-lhe as lagrimas rolando pela cara.

--Bem! Bem! disse o juiz. Não se afflija. Pelo que vejo está arrependido do que fez...

Interrompendo-o com um gesto, e suffocando dentro em si o ultimo soluço, o Casimiro começou a falar, com voz pouco perceptivel emquanto o não arrastou o calor da narração. Se o juiz o tratasse mal, não lhe diria nada, ou seria até capaz de uma violencia. Todavia a maneira por que o magistrado se lhe dirigira, os conselhos que lhe dera mais pezaroso que severo, tudo o fôra vencendo gradualmente. Pareceu-lhe que se o tio João Furtado--o pae do Casimiro, em vez de estar enterrado no cemiterio de Villa Franca ha muitos annos, lhe apparecesse n’aquella occasião, usaria das mesmas falas, mas não tão bem feitas como as do sr. juiz. Para este não queria portanto o marido da Luiza parecer um mau homem.

* * * * *

Contou-lhe a sua vida toda, e o juiz quando elle acabou de falar, apertou-lhe a mão commovido, e mandou-o embora, recommendando-lhe prudencia.

As mulheres da villa quando souberam que o Casimiro estava solto e que não passaria trabalhos, vociferaram que tão bom era o juiz como elle. Talvez dissessem isto, porque não ouviram o Casimiro.

* * * * *

Contou ao magistrado a sua vida: como tinha casado com a Luiza, que n’esse tempo era a bem dizer uma pequenota, mas que, talvez sem saber, o puzera como doido. Nem obra de feitiçaria! Estava ainda a vêl-a, no dia em que o tio João a foi pedir em companhia do filho, responder muito envergonhada e como se tivesse medo:

--Pois elle vae, senhor! Se a minha mãe leva isto em gosto, eu tambem levo. Não digo menos de isso.

Os primeiros tempos de casados, viveram-os como se não fossem d’este mundo. A bem dizer, aquillo era até felicidade de mais. Elle trabalhava sem descanço o dia inteiro, fazia o seu negocio e á tarde, quando chegava a casa, lá o estava esperando a Luiza com a ceia prompta, e extendia ao marido os braços com tanto carinho!

A desgraça foi elle ter de ir ás Furnas por causa de um negocio, que por signal não lhe rendeu nada.

Como é que a Luiza se perdeu? Como se deixou ir pelas falas do menino Diogo, filho d’aquelle sujeito que tem uma quinta muito bonita, mesmo á entrada da villa de Lagoa, á mão direita de quem vae do lado da cidade?

O marido só muito depois veiu a saber tudo.

Uma visinha, a Maria do Jacintho, é que a tinha desinquietado, e uma noite em que a Luiza foi ceiar com ella, deram-lhe uma gota de vinho a mais...

--Ah! Que se eu tivesse sabido, matava logo aquella corsaria. Se queria perder alguem, perdesse as filhas... Mas lá essas não precisaram de que a mãe as ajudasse!

E o Casimiro, depois d’esta phrase, começou a falar outra vez vagarosamente, quasi a custo.

Nem sabia dizer ao certo como chegou a descobrir tudo.

Ah! Tinham-lh’o dito. Quando entrou em casa, perguntou-o de repente á mulher. A Luiza, colhida improvisamente, poz-se a gaguejar, mais branca do que a cal da parede.

O marido deitou-lhe as mãos ao pescoço e matava-a, matava-a com certeza, se as visinhas, que acudiram á bulha, não lh’a arrancassem das mãos.

A pobrinha parecia morta. Chegou-se a pensar que elle a tinha afogado. Depois foi voltando a si, olhou para todos com os olhos muito abertos e começou a rir, a rir de tal modo, que uma das visinhas fugiu espavorida pela porta fóra e as mais sentiram arrepios de frio por todo o corpo.

A Luiza não estava boa de cabeça e poz-se a dizer que tinha morrido, que o seu anjo da guarda a levava pelo ceo dentro, mas que os outros anjos fugiam d’ella e não queriam vel-a sequer, porque ... porque... E desatava a rir e a chorar ao mesmo tempo, rasgando-se, atirando-se ao chão, quando a não seguravam com força, com muita força.

Esteve assim tres dias. O Casimiro não comeu nem dormiu durante esse tempo. Ao quarto dia mandou-a para o hospital. Na vespera, de madrugada, quando a Luiza socegava, elle esteve, vae não vae, a matal-a, sem força para resistir á tentação. Se a tivesse mais tempo ao pé de si, era capaz de fazer essa loucura.

Desmanchou a casa e no primeiro vapor foi para a Terceira.

Em Angra não fez nada. Quiz tentar fortuna na Villa da Praia e não se arrependeu da lembrança. O juiz bem sabia como elle tinha começado o seu negocio.

* * * * *

Quando um dia o Casimiro estava só na loja, entrou-lhe pela porta dentro uma mulher embrulhada n’uma capa e atirou-se-lhe aos pés, chorando muito e dizendo:

--Perdoa-me, meu rico marido, perdoa-me!

O primeiro impeto do Casimiro foi agarrar n’ella e atiral-a para a rua, como um animal ruim. Mas quando, ao crescer para a Luiza, a encarou, pareceu-lhe que estava a sonhar.

Não era a mesma. Quer dizer, era a mesma, mas tão differente!... O cabello tinham-lh’o cortado no hospital, para lhe pôrem neve na cabeça. Os olhos sumiam-se no fundo d’umas covas negras como carvão. As faces, d’antes tão córadas, e o corpo tão cheio antigamente, estavam só com a pelle e o osso.

Como aquella desgraçada não tinha padecido!

Sem se levantar do chão, agarrada ás pernas do Casimiro, dizia-lhe no meio de gritos entrecortados:

--Meu rico marido, não me deites d’aqui para fóra. Por alma de teu pae!

Elle fitou-a muito tempo, poz-lhe a mão sobre a cabeça e disse-lhe:

--A benção de Deus te cubra. Bem! Fica p’ra ahi.

No começo a Luiza servia o marido como uma escrava. Nem a Mimosa, a perdigueira, era mais humilde. Mas ao fim de tempo, quiz recuperar o seu antigo logar, e desconfiada de que o Casimiro fazia pouco d’ella por ter alguma outra mulher, queixava-se, accusava-o.

Muitas vezes elle não lhe dava resposta, mas outras desesperava-se, e como tinha genio, levantava a mão e...

--Que quer V. S.^a, sr. juiz? concluiu o desgraçado. Eu bem lh’o tenho dito, mas a Luiza ainda não me entendeu: o vidro que se partiu uma vez, por muita massa que lhe ponham, nunca mais torna a ser o que era.

[Ilustração]

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A Licença Do Domingo

HAVIA já tres quartos de hora que se distribuira o rancho da tarde, no quartel de S. João em Ponta Delgada.

Os piquetes, que tinham ído levar a comida ás guardas exteriores, vinham já de volta e encontravam-se de vez em quando com os soldados que desciam a rua, aos grupos de dois e tres, alguns de mãos dadas pelos dedos minimos, lançando para as raparigas, que estavam pelas portas e janellas, uns olhares provocadores. Se estes galanteios destoavam grandemente da apparencia pouco seductora dos D. Juans de fardeta, nem sempre se perdiam.

Dentro do quartel, nas casernas pequenas e abafadiças, tinham ficado apenas as praças de serviço.

Na da segunda companhia, em redor de uma cama onde está sentado o cabo José, ha ainda assim grande ajuntamento, e estrugem a espaços enormes gargalhadas, que interrompem momentaneamente a cantiga, origem da hilaridade, e chegam até a cobrir os sons da viola que o cabo, um heroe dos _charambas_, dedilha com uma pericia incomparavel.

Mas que terá o Roque, o 72, que, sem attender aos descantes, anda a passeiar de um para outro lado, muito pensativo?

É por força cousa séria.

Oh! Mas o rapaz tomou certamente uma resolução, porque abriu a caixa da roupa, tirou para fóra a fardeta, e vestiu-a, abotoando-se cuidadosamente. Depois ageitou o bonnet na cabeça e caminhou para a porta.

--Vaes passeiar, ó Roque? perguntou-lhe o plantão?

--Tu sabes se o _nosso primeiro_ está no seu quarto?

--Saiu ha migalhinha. Foi com o nosso sargento José Luiz passeiar á doca.

O 72 ficou de má catadura, e pareceu hesitar, mas, resolvendo-se, saiu da caserna.

--Eh! _Home_, levas uma _cara de calhau_, disse-lhe ainda o plantão.

No corredor que rodeia o claustro do antigo convento, o 72 encontrou o impedido do capitão da segunda companhia.

--Ó Francisco, o teu patrão onde está?

--Alli.--E mostrou com o gesto o quarto da extremidade do corredor.--Acabou ha um instantinho de jantar... Vão aqui dentro os pratos vazios, disse o rapaz, enfiando o braço na aza de uma cesta que trazia na mão.--Haja saude, ó Roque!

O outro foi caminhando para o logar que o impedido lhe indicara, mas insensivelmente diminuiu o passo, e poz-se a coçar a cabeça, n’uma grande irresolução.

A porta do quarto estava fechada. O 72 pegou com medo na aldrava e deixou-a cair.

Passaram-se alguns segundos.

--Talvez já cá não esteja, ia o soldado dizer comsigo mesmo, visto não obter resposta, quando ouviu tossir da parte de dentro.

Pegou outra vez na aldrava e bateu muito de leve.

--Que temos? perguntou uma voz encatarroada.

--V. S.^a dá licença, meu capitão?

--Entre quem é.

--Sou eu, meu capitão ... disse o 72, entrando e tirando o _bonnet_ com um movimento rapido e desgeitoso, mal viu o official de cabeça descoberta.

No quarto de inspecção, pequeno e acanhado, havia um forte cheiro a comida e a fumo de tabaco.

O capitão, sentado n’uma cadeira de palhinha, tosca e despolida, tinha os cotovellos encostados á mesa e lia um jornal de Ponta Delgada, o _Echo Michaelense_, tomando a espaços longas fumaças de um cachimbo de escuma, muito queimado.

Com os calcanhares unidos, os olhos um pouco esgazeados, os beiços n’um ligeiro tremor, o soldado não se atrevia a falar.

--Que demonio queres tu? perguntou-lhe o capitão Saraiva, ao cabo de algum tempo e sem interromper a leitura.

--Eu, meu capitão? Saiba V. S.^a que me custa muito vir incommodar a V. S.^a...

--Mau! Despacha-te! Nunca vocês sabem dizer as cousas por claro. Que diabo de gente, estes ilheus! E batendo com a mão sobre o jornal, voltou a cabeça para o soldado, medindo-o com o olhar.

--Elle é verdade meu capitão, mas é que ás vezes _assuccede_ a um _home_ cada uma...

--Ou te explicas, ou marchas n’um prompto para a caserna! disse o capitão, com voz irritada. Levantou-se, poz o bonnet na cabeça, puxou o collete para a cintura, mettendo para baixo do cóz das calças a dobra da camisa que estava saliente, e abotoou o raglan, inferiormente ao qual appareciam as borlas da banda, distinctivo usado no batalhão pelos officiaes de serviço.

--Saiba V. S.^a, meu capitão--começou o 72, dando com as mãos muitas voltas ao bonnet,--que esta tarde, antes do rancho, eu tinha ido alli abaixo, ao largo da Matriz...

--Que tenho eu com isso?

--E vae d’ahi, topei com a Rosa, uma rapariga da minha freguezia, e ... o que me ha de ella dizer? Que hontem á noitinha, quando meu pae ia recolhendo ás Féteiras...

--Tu és das Féteiras? Aquelle logar que fica no caminho para as Sete Cidades?

--Saiba V. S.^a que sim... Ao descer uma canadinha, escorregou dos pés e foi-se abaixo, batendo com o corpo nos calhaus. O pobre do _hóme_ é velho e d’ahi a quéda deu-lhe uma volta ao interior. Parece que está mesmo a decidir.

Estas ultimas palavras foram acompanhadas por um choro meio suffocado.

--Bem! E que queres tu então? perguntou o official, com menos rispidez.

--Se V. S.^a me desse licença, eu pegava em mim e ia vêl-o.

--Ás Féteiras? Tira o cavallo da chuva! Porque não pediste a licença antes do toque da ordem? Não sabes que o batalhão tem pouca força, e que é preciso fazer escolha nas praças que pedem para ir no domingo á terra?

--Saiba V. S.^a que sei, mas áquella hora ainda não me _haveram_ dito nada, e como faz hoje oito dias que eu tive licença...

--Sabias que não a apanhávas.

--Mas agora, se V. S.^a me fizesse essa esmola... O pobre do velho está, vae não vae, a ir para Nosso Senhor, e eu sem lhe poder valer!... A voz do soldado, entrecortada novamente pelos soluços, pronunciou mais algumas palavras inintelligiveis.

O capitão, meio zangado, meio condoido, passeiava pelo quarto, com o cachimbo a um canto da bocca, e as mãos mettidas nos amplos bolsos das calças de cutim. O 72, cabisbaixo, seguia-lhe os movimentos com um olhar obliquo e prescrutador.

--Dar-se-ha o caso de que tu estejas a embaçar-me, grande maroto? perguntou de subito o official, fitando muito o soldado.

--Eu! disse este, cheio de susto. Se minto, mais negro seja que o carvão!

--Eu sei lá! Vocês todos são frescos. Quem me déra para cá os meus trinta e cinco annos de serviço, para me livrar da maldita massada de atural-os! Mentiste ou não mentiste?

--Isto é que se chama! Pergunte o meu capitão á Rosa.

--Teu pae, então, está a morrer?

--A modos que sim, senhor. A dôr de dentro não o larga. Se não foi isto o que a Rosa me disse, abram-me a cabeça com um calhau!

O soldado continuava a praguejar, em quanto o capitão, sem interromper o passeio, se recordava do que lhe tinha acontecido, havia já um bom par de annos, estando elle no Porto, em sargento do 18. Chegou-lhe de Braga uma carta, participando-lhe que a mãe se achava em perigo de vida. Pediu licença immediatamente, mas como a ordem tardasse em vir do quartel general, quando chegou a casa, já a sua _velhinha_ estava enterrada.

--Pode acontecer o mesmo a este pobre diabo, pensava o capitão. Por fim, decidindo-se, parou, tirou o cachimbo da bocca e disse com muita intimativa ao soldado:

--Pois muito bem! Vocemecê vae hoje para a sua terra... É verdade! Não entras de serviço amanhã?

--Entro de fachina, mas o 12, que é meu camarada e _está de nada_, fica por mim, se V. S.^a der licença.

--N’esse caso vae e volta ámanhã á noite, antes do toque.

A cara do 72 alegrou-se, sem comtudo se desannuviar completamente.

--Se V. S.^a me deixasse, eu voltava na segunda feira.

--É isto! Querem logo tudo! Bom! Voltas depois de amanhã, antes do rancho. Serve-te?

[Ilustração]

--Seja pela sua saude, meu capitão! Nosso Senhor é que lhe ha de pagar uma coisa d’estas.

--Vocês ainda me compromettem com o nosso commandante. Anda, põe-te ao fresco!

O soldado rodou sobre os calcanhares, depois de fazer a continencia e dirigiu-se para a porta. Ia já a sair, quando o capitão o chamou.

--Olha lá!

--Prompto, meu capitão!

--Tu... O official hesitou no que ia dizer, depois, lembrando-se de outra cousa: Pediste licença ao primeiro sargento para vir falar-me!

--Saiba V. S.^a que elle saiu a passeio.

--Mau!... É verdade! Tu sabes se os ovos na tua terra estão baratos?

--Tiram-se a seis por um pataco.

--Pois traze-me umas tres duzias; cá na cidade só pesados a ouro... Depois te dou o dinheiro.

--Não faz _moléste_, meu capitão.

--Bom, vae-te embora e dize ao sargento que tens licença.

--Sim, senhor, meu capitão.

E saiu.

O rosto brilhava-lhe de alegria. N’um abrir e fechar de olhos, foi á caserna, despiu a fardeta, vestiu um casaco á paizana, que já tinha antes de sentar praça e descalçou-se. D’ahi a pouco estava fóra do quartel, e descia apressadamente a rua de S. João, receioso de que ainda lhe tirassem a licença. Acompanhava-o a competente _vardasquinha_, isto é, um valente bordão capaz de matar um homem. Dez minutos mais tarde saía de Ponta Delgada, pelo lado occidental.

Quando deixou de encontrar gente, e viu diante de si a estrada quasi deserta, bordejada por paredes caiadas de branco, algumas encimadas pelas comas do arvoredo, parou por instantes, e poz-se a rir maliciosamente:

--Tinha embaçado o capitão!

O pae estava tão doente, como elle. Pelo menos, ainda no ultimo domingo o tinha deixado na freguezia, são e escorreito.

--Fiou-se no que eu lhe disse! pensou. Queira Deus não venha a descobrir! O que me vale é não haver lá na companhia mais rapazes das Féteiras.

Foi andando.

--Por fim de contas não era _coisa ruim_ o que tinha feito. No dia seguinte festejava-se o Espirito Santo, na freguezia. Havia imperio e bôdo. Faltar, era até um peccado! Se falasse verdade, não lhe davam licença. Por ter dito que o pae adoecera, não o fazia ir para a cama. O velho estava ainda esperto e rijo. Podia caír á vontade, que não morria ás primeiras. Tinha hombros largos, pescoço curto, e a cara, embora um pouco enrugada, estava sempre vermelha, que se podia ver. Mettia no canto a muitos rapazes, o _ti Jaquim_.

O Roque avançava que era uma maravilha!

A estrada ia mudando de aspecto. Á direita extendiam-se largas campinas escuras, subindo gradualmente até acabarem nas collinas, que limitam o horisonte; á esquerda começa a ribanceira, cujo sopé vae terminar na costa meridional de S. Miguel em declives abruptos. De cá de cima, em alguns pontos, avistam-se grandes extensões da praia, que offerece ao mar uma larga concavidade, onde se desenrola um vasto lençol de espuma.

Para o lado da cidade vinha um cantoneiro.

--Haja saude, tio João de _Mideiros_.

--Haja saude, Roque. Vaes a casa?

--Vou. Esteve lá em baixo hoje?

--Não. Quem para lá voltou agora, foi o sr. dr. Luiz, que já vinha a caminho da cidade.

--Voltou? Para quê?

--Para acudir a um homem, que teve _uma coisa_ esta tarde. Veiu um rapaz, o José, chamal-o de _galão_ ... montado, por signal, n’um burro.

--E a quem deu o mal?

--Não sei. Não tive tempo de perguntar ao José, porque elle voltou logo, mais o sr. doutor. Aquillo é que é a bondade em pessoa, o sr. doutor! Fosse outro, que bem se importava!...

--Talvez o doente seja homem rico...

--Pode que seja. O que te sei dizer é que o sr. dr. Luiz pegou em si e voltou para traz. Eu, como não era ouvido nem chamado no caso...

--Quem será?

--Haja saude, Roque.

--Haja saude, tio João de _Mideiros_.

Estugou o passo.

--Quem seria o individuo? Talvez algum velho. Certamente o sr. padre Francisco!... Já no verão passado tinha tido um ar de _poplexia_. Antes seja outro--pensava o Roque--senão como se ha de fazer amanhã a festa do Senhor Espirito Santo?...

Ao lusco fusco chegava ás primeiras casas do logar, situadas no alto da encosta, que vae descendo até á egreja. Olhou lá para baixo e sentiu a mesma impressão, que tivera ao voltar á freguezia, depois de passar no batalhão os primeiros quinze dias.