Part 11
As tres senhoras voltaram para a cidade n’uma carruagem, alugada para as levar e trazer; João Terra veiu no seu burrinho, e os quatro rapazes a pé, visto não ser grande a distancia dos Flamengos á Horta, e a noite estar fresca.
Não havia luar, mas as estrellas palpitavam com vivo clarão no fundo negro do ceo, tão limpo de humidade que nem lembrava ceo dos Açores.
O Ricardinho na frente com o Luiz Carvalho, aturava-lhe os remoques, visto que o outro, não tendo podido n’aquella noite justificar a sua fama de conquistador, se desforrava com o amigo.
Mettido no vão de uma porta, para onde correra logo que os viu partir, o José ouviu-lhes a conversa, sem que nenhum dos quatro o presentisse:
--Grande brejeiro, dizia o Carvalho. Quizeste ser imperador sem ter coroado!
--Fala claro, que não te entendo, voltou-lhe o Ricardinho.
--Talvez não arrastasses a aza á imperatriz? Parabens, que a pequena é de estalo! Mas o mais certo é não fazeres vaza. A Maria é muito capaz de judiar comtigo uns poucos de mezes, e deixar-te no fim a chuchar no dedo.
--O futuro a Deus pertence.
--Pois ella é que nunca te ha de pertencer!
O Ricardo Terra estacou, mesmo á ilharga da porta onde estava o José, e disse com a prosapia inconsciente dos seus vinte annos:
--Queres tu apostar em como antes de um mez a tenho no meu rol?
O sobrinho do João Furtado sentiu uma vertigem, um desejo phrenetico de partir, de espedaçar alguma coisa, mas não fez o menor movimento.
Atravez das candeias amarellas que lhe bailavam deante dos olhos, distinguiu que o fato do Ricardo era claro, e escuros os dos mais.
Quando os viu longe, correu para o mesmo lado e entrou n’uma terra, que acompanha a estrada durante uma grande extensão, e que é resguardada por um muro baixo.
Tendo-lhes ganho consideravel deanteira, agarrou n’um pedregulho e acocorou-se por traz do muro.
Pouco teve que esperar. Deitou a cabeça de fóra cautelosamente.
O Ricardinho vinha á direita. Era o mais proximo.
Apenas o teve a dois passos, ergueu-se de chofre, levantou a pedra com ambas as mãos, bem acima da cabeça, e atirou-lh’a com quanta força tinha.
Um grito e o baque de um corpo.
Afastou-se do muro rastejando, e desatou a correr como um coelho em campo aberto. Ainda foi dançar quatro chama-ritas á _folga_ do tio, que só acabou quando já era sol nado.
* * * * *
Nunca se descobriu quem fôra o assassino do Ricardinho Terra.
Como o pae e o filho se tinham envolvido n’uma tramoia eleitoral, falaram os jornaes da opposição em vinganças politicas.
O João Furtado é que de alguma coisa desconfiou, e por causa das duvidas arranjou d’alli a mezes e muito ás occultas, passagem para o José a bordo de uma baleeira.
O rapaz foi ter aos Estados-Unidos. Um anno depois mandou pedir a prima em casamento, aconselhando ao tio que fosse mais ella para S. Francisco da California, pois se haviam de arranjar muito bem.
O João Furtado, como averiguou que o sobrinho estava a caminho da riqueza, seguiu-lhe o conselho.
A Maria é hoje muito feliz com o marido; mas o sogro, á cautela, não vive em casa do genro.
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O Paiol
ERA temivel o sargento Bernardo quando principiava a contar historias, mas como rastejava pelos setenta annos e tinha sido um valente, todos o escutavam com pachorra. Um dia na Malaca, pequena bateria do castello de S. João Baptista, na Terceira, ouviram-lhe o seguinte caso. Affiançaram-me depois que a narrativa não era destituida de fundamento.
Demos a palavra ao sargento Bernardo:
«Não sei bem quando isto foi. Lembro-me de que tinha vindo de Lisboa para S. Miguel em cabo, e que estava lá destacado havia bastante tempo. O commandante do material era um capitãosinho de má cara, d’aquelles com quem a gente não engraça, nem á quinta facada.
Por isso o meu commandante, o nosso tenente, nunca era com elle visto, nem achado.
Um dia começou a fallazar-se do homem. Sabem que mais? Pelos modos fazia o mesmo que o mestre do cazão de caçadores, que foi n’outro dia responder a conselho ... cortava-se, mas não era com tiras de panno! O que elle bifava, era muita e muita arroba da polvora do paiol. Mas lá na que dava para as salvas não roubava nada, essa lhes juro eu! As peças davam sempre o mesmo berro.
A coisa tinha-se divulgado, e já se dizia pela cidade que o paiol estava cheio d’areia, porque a polvora tinha-a queimado o capitão ... puxando o rabo á sota.
Que jogava era tambem certo. Excommungado!... Deus me perdôe! Não havia noite nenhuma em que eu estivesse de guarda ao quartel, no castello de S. Braz, que não me tivesse de levantar por causa do melro. E quasi sempre duas e tres vezes! Vinha buscar dinheiro, para voltar para a jogatina. E com que cara de peccado mortal elle andava! Se o visse á meia noite, em logar escuso, era capaz de pôr-me a crer nas feitiçarias, em que toda a galuchada de S. Miguel acredita como no Divino Espirito Santo.
Andavam os taes dictos, quando chegou navio de Lisboa. D’alli a pedaço disparam esta novidade no castello; o capitão do material vae ser rendido e já desembarcou o tenente, que vem para o logar d’elle. Fiquei banzado!
No dia seguinte vi o official novo. Era um perfeito moço, lá isso era! Alto como uma torre, grosso que nem isto...--O Bernardo abriu muito os braços, formando circulo.--E então a falar?... Tinha o diabo em si! Devia ser do Algarve.
Segundo parece, contou logo que no commando geral da artilheria já se sabia da marosca do capitão, e que elle, tenente, recebera ordem para ver tudo, coisa por coisa. Se até disse que trazia uma balança de botica, para pesar as onças e meias onças de polvora!... Era chalaça, está visto.»
--E o outro, ó tio Bernardo? perguntou um dos que ouviam o veterano.
«O capitão? Se julgam que mudou de cara, enganam-se redondamente. Qual historia! Até o achei de melhor parecer, quasi a sorrir!
Passados tres dias, começou a entrega. Foram primeiro ás peças, palamenta, lanternetas...»
--Sim, tudo o que atulhava os armazens do material de guerra, interrompeu um dos ouvintes. E depois?
--Ah! Vocemecês teem pressa? atalhou o Bernardo. Pois então haja saude! E ia retirar-se.
Só depois de muito instado, se resolveu a continuar a historia, mas d’esta vez com certo mau humor.
«No dia em que se devia entregar a polvora fui nomeado para ir com as fachinas ao paiol, acompanhar os dois senhores officiaes. Eu não acredito em bruxedos, já lhes disse, mas não sei o que me passou pela cabeça, quando me deram parte da nomeação. Parece-me que tremi de medo, o que me não tinha acontecido, podem crer, nas Antas nem no convento da Serra do Pilar. Ao menos nas linhas do Porto, sabia eu haver-me com os demos dos Corcundas, mas alli... O coração adivinhava-me alguma coisa. Á tarde fomos todos para o paiol. Sabem onde elle fica! Saíndo a gente da cidade para os Arrifes e andando menos de um quarto de hora, topa-o á sua mão esquerda.
Iamos eu, as quatro fachinas, o capitão da jogatina e o tenente novo. Os dois senhores officiaes, por signal, tinham jantado bem, muito bem até! Logo se conhecia...
Chegou-se ao paiol, abriu-se a porta do guarda-fogo e a do armazem,--tudo sem novidade. Quando eu estava a olhar para os barris e cunhetes, que já começava a lobrigar alinhados em duas fileiras, o capitão voltou-se para mim e disse-me:
--O’ cabo Bernardo, você já esteve em minha casa, lá no castello de S. Braz?
--Saberá V. S.^a que sim, senhor.
--Pois então vá buscar o mappa da carga, que deixei lá por esquecimento. Peça-o ao fiel, ao 36.
Fiz meia volta e já ia para marchar, quando ouvi:
--Olhe!
Volvi logo á rectaguarda.
--Onde está a balança que lhe deu o fiel?
--Saberá V. S.^a que o fiel não me deu balança nenhuma.
--Cabeça de burro! Pois então volte você ao castello, e peça-lh’a! Como quereria o 36 que pesassemos a polvora? Tolice fiz eu em dispensal-o. Estava doente... É verdade! Leve as fachinas para trazerem a balança.
--Bastam duas para a balança e uma para os pesos.
O capitão olhou para mim d’um modo exquisito e disse afinal, como se lhe custasse:
--Pois sim, deixe ficar um homem.
Quando ia atravessando o guarda-fogo, deitei os olhos para o tenente, que, sem se importar com o caso, estava alegre a não poder mais. Eu já disse que elles tinham jantado bem.»
--Ó tio Bernardo, você está dizendo mal dos seus superiores! notou um dos ouvintes, a rir.
--Leva rumor! acudiu outro. Queremos o resto da historia.
«Elle ahi vae, disse o velho, que estando para acabar um conto, não era capaz de parar nem á mão de Deus Padre. Quando eu ia pela estrada abaixo, para o lado da cidade, mais os tres galuchos... tres não, dois!... tambem lá estava um soldado velho, o 27, que tinha andado commigo nas sarrafuscas da Patuléa... Ah! mas quando eu ia na estrada, sentia-me alliviado de um peso de seiscentas arrobas... Não ficava mais satisfeito deitando ao chão a mochila, depois de uma marcha de oito leguas. Teria a gente dado uns duzentos passos, e eu ia conversando a este respeito com o 27, eis senão quando a terra nos treme debaixo dos pés, e por um pouco não vamos todos de ventas ao chão. Ao mesmo tempo sentiu-se um estrondo, como se tivessem disparado alli ao pé uma duzia de peças de quarenta e oito! Que demonio seria aquillo?»
--O que era, tio Bernardo? perguntaram todos com interesse.
«Tremor de terra não seria, trovoada menos ainda.--O paiol! foi o grito que me saíu da bocca. Voltei para traz, a correr como um doido.
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D’alli a um instante vi que não me tinha enganado. A parede do guarda-fogo, do lado da estrada, estava tão esborralhada que não ficara pedra sobre pedra. O paiol tinha ido pelos ares. Só restavam umas ruinas fumegantes.
Quando andavamos a revolver o enthulho, para ver se encontravamos o corpo d’algum d’aquelles pobres de Christo, appareceu-nos o cabo da guarda, que tinha escapado por estar longe do seu posto... a falar com uma rapariga. Maroto! Livrou-se da morte, mas precisava meia duzia de guardas de castigo.»
--E mais ninguem escapou?
--Escapou tambem a sentinella. Apanhou com pedras no corpo e perdeu dois dedos de uma das mãos, sendo por isso passado a veteranos. Veiu cá morrer ao castello d’Angra.
--E o que tinha succedido no paiol?
«Ao certo só Deus o pode dizer. O que se averiguou, foi que o maldito do capitão veiu fora do guarda-fogo, accender um charuto. A sentinella ainda lhe fez reparo. Estivesse eu lá que sabendo as coisas como corriam, atirava-me a elle e já não o largava. Boas ganas sentiria o capitão ao tenente chegado de Lisboa! De mais a mais, queria esconder a ladroeira. Pouco depois a sentinella apanhou com as pedras e não deu tino de mais nada.»
--Não se acharam os corpos?
«Achou-se o do tenente, á distancia de uns quinhentos passos. Reconheceram-o bem. Pelos modos o pobresinho ainda quiz fugir, porque o _cadavre_ estava menos queimado que os restos dos outros corpos.
Gente que viu de longe aquella desgraça, contava que tinha subido para o ar um grande esguicho de fogo, tal qual, julgo eu, quando os montes da ilha vomitavam lume, em tempos que já lá vão muito longe.»
--Sabe o que me parece exquisito, tio Bernardo? notou alguem. O tenente não desconfiar da marosca do capitão!
--Essa cá me fica! Não disse eu que elle estava transtornado com a bebida? Coitado! Tive pena d’elle. Era um rapagão como as casas!
--Do capitão é que o tio Bernardo não pode dizer mal. Se elle o não mandasse embora...
--Tinha eu dado um salto de mil diabos, olá se tinha! Apesar d’isso, não lhe perdôo. Porque não morreu elle sósinho? Se queria acabar com estrondo, se não lhe bastavam os tiros da escolta á porta do cemiterio, que demonio! mettesse-se n’um bote mais um cunhete de polvora, remasse para o largo, e mecha no caso!... D’aquella maneira pagaram justos por peccadores. Não lhe perdôo!»
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As feiticeiras
OLÁ se elle acreditava em bruxarias!
Com essas historias o tinham embalado.--A avó, mulher _de remate_, fartara-se de contar-lhe o caso do homem, que estando no Brazil foi uma noite visitado pela mulher, que vivia em S. Miguel, n’aquella mesma villa da Lagôa. Havia bem quatro mezes que a triste não recebia cartas do ausente, e como pelas que um visinho mandava á familia soubesse que elle estava de saude, desconfiou de que outra lh’o tivesse roubado. Para se tirar das duvidas, foi ter com uma bruxa, levando comsigo um collete velho, que o marido antes de saír da ilha tinha suado muita vez no trabalho, e que por conseguinte poderia servir para o bruxedo. «Ai! Quem me déra ver meu marido!» disse ella á feiticeira, quando acabou de explicar-lhe o que padecia. «E eras capaz de ir commigo?» perguntou-lhe a velha.--«Pois não!»--«Sem te admirares do que visses?»--«De nada!»--«Pois então vamos vel-o esta mesma noite. Quando me ouvires dizer: Vamos com os diabos!, repetes isto mesmo, e verás como te faço a vontade.» Ao bater das doze badaladas, estava á porta da bruxa. Perto cantou um gallo, de tal maneira que mettia medo. A feiticeira appareceu: trazia um lençol, para com elle fazer um barco, segundo o costume d’essas malditas, quando teem de ir para o mar; mudou, porém, de tenção e voltou a casa. Tinha-se lembrado de coisa melhor. Passados instantes, partiram. O pau de vassoura em que iam as duas, corria por ares e ventos mais do que essas estrellas, que passam no ceo deixando atraz de si um risco de lume. Muito em baixo, avistava-se como que um lençol escuro, azulado e muito grande, sem fim--devia ser o mar.--A porta do quarto do marido abriu-se de pancada, mas sem bulha... Se era por artes magicas!--O traidor lá estava deitado com outra mulher.--Se a bruxa consentisse, ella matava-os a ambos; mas só lhe deixou arrancar uma das mangas ao vestido, que a outra, quando se metteu na cama, tinha deitado para cima de uma cadeira. Assim, levava uma prova contra o marido, e podia certificar-se em qualquer tempo de que tudo aquillo não fôra obra de sonho nem de loucura.--Voltaram como tinham ido--o dicto cabe aqui perfeitamente--em quanto o diabo esfrega um olho, e fizeram um novo bruxedo, para que o marido tornasse quanto antes.--Ao cabo de mez e mez e meio, chegava a S. Miguel.--«Estás como um cravo! disse elle á mulher, quando entrou em casa, e quiz abraçal-a. Repelliu-o e perguntou-lhe o que tinha feito n’aquella noite, de que marcou a data precisamente. «Isto é que se chama! Quem se póde lembrar, depois de tanto tempo?...»--«Lembro-me eu!» E atirou-lhe á cara com a traição, que o homem negou a pés juntos. Ella então correu á commoda, tirou para fora a manga, e pondo-a bem á vista do marido, gritou-lhe: «Nega ainda, se és capaz, nega! Fui lá, vi-te deitado com a brazileira, e arranquei esta manga ao vestido da _ganhôa_!»--«Mas tu tens estado sempre na ilha...» redarguiu elle, branco, enfiado. «Sempre, menos n’aquella noite!»--«Ai! Que esta mulher é feiticeira!» exclamou o homem, fugindo espavorido. No primeiro navio embarcou para o Rio de Janeiro, e lá morreu pouco depois: da febre, disseram os cirurgiões; dos novos feitiços que a mulher e a bruxa lhe fizeram, para que mais nenhuma o lograsse, affirmava muito convencida a boa da velhinha.
Mas ainda que a avó não lhe tivesse contado esta e outras historias similhantes, o Francisco Raposo não deixaria de crer em feiticeiras, á vista de dois casos succedidos com elle.
O primeiro ainda poderia deixar-lhe duvidas. Era pequeno e vinha para casa, com um molho de lenha miuda. Já era noite fechada. Estava com somno. De repente, zumba, lenha ao chão! Levantou-a sem mais reparos, e foi andando. Logo adeante, repetiu-se o mesmo. Sentiu a pelle a arripiar-se, mas tornou a apanhar o molho. Deu mais cincoenta passos, e a lenha caiu-lhe pela terceira vez. Sem querer saber dos gravetos, desatou a correr como um perdigueiro atraz da caça, e só parou em casa, esbaforido, suando em bica. O pae riu-se e disse-lhe que não deitasse as culpas ás feiticeiras mas ao João Pestana. «Da primeira queda, sim senhor, respondeu elle, mas lá das outras...»
O segundo caso é que não admittia a menor duvida. Já era um homem. Pela noite velha ia subindo aquelle caminho, que passa por cima da Ribeira Quente e d’onde se avista um grande pedaço da costa. Levava ao hombro, por tal signal, uns pés de batata doce, que o tio Joaquim lhe tinha encommendado. Por acaso virou-se para traz, e o que viu?... O mar todo em fogo ... um fogo muito branco, como se a lua se tivesse delido na agua. E ainda mais transido ficou, avistando uns vultos esbranquiçados a caírem da rocha para o mar, deixando faiscas por onde passavam, em quanto alli perto n’um chão imitante uma eira, dançavam outros de mãos dadas, aos pinchos, soltando umas gargalhadas e uns gritos muito finos, eguaes aos que dão certamente no inferno os condemnados, sempre que vêem chegar mais uma alma, para soffrer as penas eternas.
Tendo-lhe ouvido a historia, um senhor de Villa Franca disse-lhe que a claridade do mar era do phosphoro de certos mariscos, e que o mais fôra inventado pelo medo.
A primeira explicação, não a entendeu o Francisco; e em quanto ao medo, não fôra elle tamanho que lhe fizesse perder os pés de batata doce. E tanto eram bruxas, que o caso lhe tinha acontecido no dia d’ellas--n’uma terça feira.
* * * * *
Não admira, pois, que tendo-lhe começado os negocios a correr mal e a fortuna a desandar, elle attribuisse tudo isto a obra de feitiçaria. Duas vezes seguidas se lhe estragou a sementeira do milho, em quanto as dos visinhos estavam que se podiam ver. Apodreceu-lhe tambem o batatal, não escapando sequer a batata já colhida, que toda _azougou_. Seria natural tudo isto?
Para mais desgraça, tinha-lhe adoecido a melhor das duas vaccas, e o ferrador, não se entendendo com a doença, disse-lhe afinal, porque era homem de bem, e não quiz ganhar-lhe mais dinheiro: «Haja saude, Francisco e não voltes cá. Fica-te com esta: o que a vacca tem é mau olhado, e com esse não me sei haver. Vê se falas ao curandeiro das Furnas, mas antes de lá ir, trata de saber quem daria quebranto á pobre da alimaria.
Foi isto o que de todo o convenceu.--Mas quem poderia desejar-lhe tanto mal, quem?--Tinha vivido sempre bem com toda a gente; a nenhum visinho dera nunca razão de queixa...
Zangas sérias só as tinha tido com o primo João da Arruda, por causa da herança da tia Gertrudes, mas esse já não era capaz de fazer-lhe damno, que estava ha mais de seis mezes na terra da verdade. Morrera talvez pelo desgosto de ficar mal na demanda, em que um e outro tinham gasto rios de dinheiro. Tivera-lhe muita raiva, mas sem nunca poder satisfazel-a, graças a Deus!... Mostrava-lh’a bem n’aquelles olhares atravessados, que lhe deitava todas as vezes que passavam um pelo outro.
Sim! D’esse estava livre!
Da familia do primo só restavam duas irmãs, ou para melhor dizer uma só, visto que a mais velha já não se levantava da cama e era como se não existisse. E mesmo a outra, a Marianna, estava quasi sempre em casa, parece que a tratar da doente.
Lembrou se de que ia atraz da vacca, da ultima vez em que a encontrara. E sem querer estremeceu.
--Seria a corsaria que lhe andava a dar quebranto?...
A avó sempre lhe dizia: Deus nos livre do poder da má mulher.
Recordou-se melhor d’aquelle encontro.
A prima passou por elle sem trocarem, está bem de vêr, o Deus te salve, e já deviam ir longe um do outro, quando o Francisco, sem saber porque, se voltou para traz. Pareceu-lhe que o tinham obrigado áquelle movimento. E viu os olhos da irmã do João da Arruda pregados n’elle, como os do irmão, e talvez a mostrarem-lhe ainda maior zanga. Teve ganas de moel-a com pancadas, mas deixou-a ir em paz, visto que ella seguiu o seu caminho apenas o encarou.
Dois dias depois--agora é que ligava estas coisas--adoecia-lhe a vacca.
Tratou de saber se mais alguma pessoa lhe poderia querer mal, e não descobriu nenhuma, nenhuma.
Tirou inculcas e veiu ao conhecimento de que a Marianna já pouco ia á missa. Da ultima vez que lá foi, chegou quando o sr. padre já estava no altar e saíu antes de se ter dicto a ultima palavra do santo sacrificio.
--Não quer deixar por muito tempo a irmã sósinha em casa, explicou alguem.
--Não será por outra razão? perguntou o Francisco, muito assomado. Não pode estar bem na egreja, quem anda mettido com o demonio!
--Ui! Isso é que é falar! respondeu o outro, mal convencido.
Quem lhe dava todos os amens, era uma irmã do pae, a tia Lauriana, que morava sósinha e que para algumas pessoas tinha fama de bruxa e de saber _lêr a dita_. As coisas que ella contou ao sobrinho, deixaram-o estupefacto, sem pinga de sangue. Entre outras, disse-lhe que ha gente que para atormentar um inimigo compra um coração de boi preto--boi de outra côr não serve--, pendura-o na chaminé, e todos os dias o vae espicaçando--quanto mais funda a picada, maior o tormento--com uma tesoura aberta em cruz, e dizendo ao mesmo tempo uma oração de resultados tão certos como os da reza da peneira, que serve para adivinhar o futuro. Á medida que o coração se torna escuro e mirrado, tambem o inimigo emmagrece, e perde saude, alegria, felicidade. Egualmente proclamou os effeitos da terra de cemiterio, colhida n’uma sexta feira á meia noite.
--Ui, homem, não te lembras da minha prima Luiza?... Não! Não te podes lembrar, disse-lhe a tia Lauriana. Pois a Luiza casou com um rapaz, que tinha tido amores com uma bruxa. E vae esta pegou em si e botou-lhe feitiços. E o pobre de Christo andava depois a gritar pela casa, a _oviar_ como um cão e a esconder-se debaixo das mezas e cadeiras. Ás duas por tres a Luiza estava na mesma. Só muito depois melhoraram... Arranjei-lhe eu ... quero dizer, arranjou-lhe alguem o remedi o... e poz-se a benzer a cabeça de ambos ... e elles então lançaram de si uma coisa com alfinetes ... mas viveram pouco mais tempo.
O Francisco perguntou á tia o que pensava da Marianna e da irmã.
--Tu gostas d’ellas? Assim eu gosto, respondeu a velha. Ainda bem que fizeste o irmão gastar com a justiça quasi tudo o que tinha. Nem elle nem as irmãs se lembraram nunca de me dar nada.
--E serão feiticeiras as duas? Serão ellas que me fazem mal, mesmo encafuadas na toca?
--Não digo menos d’isso, redarguiu a tia Lauriana, e aconselhou-o a vigial-as, a ir ás escondidas ao pé da casa das primas. Se sentisse cheiro a hervas queimadas ou algum parecido com esse, podia ficar na certeza de que todo o seu mal vinha d’alli.
--As feiticeiras defumam sempre as casas, fingindo louvar o Santissimo Sacramento, quando por fim de contas dizia a velha com entono, o que ellas teem é pacto com o diabo, a quem rezam como a gente reza a Deus Nosso Senhor.
O Francisco não queria ainda lançar todas as culpas á Marianna.
Quem sabe se o bruxedo seria feito por algum inimigo, de que elle não desconfiasse?
* * * * *