Chapter 8 of 13 · 3991 words · ~20 min read

Part 8

Ora o veterano tinha razão para estar bem informado, porque fôra impedido do general, durante trinta e oito dos quarenta annos de serviço attestados pelas quatro divisas brancas, que se lhe estiravam pela manga da fardeta. Verdade é que ás vezes o Dionysio tinha singulares confusões--patetices de seiscentos diabos, qualificava o patrão.

Uma, principalmente foi originalissima. Uma?... Uma serie d’ellas.

O general commandava n’aquelle tempo a nôna divisão militar, hoje defuncta.

Na Madeira a vida corria-lhe em maré de rosas.

Tendo-se recordado do inglez aprendido em Bragança com o major do seu regimento,--um official britannico que acompanhára D. Pedro IV a Portugal e fizera toda a campanha,--o general tornou-se frequentador assiduo das sociedades funchalenses onde predominava o elemento estrangeiro.

Pelo seu espirito de velho solteirão impenitente, chegaram até a perpassar planos casamenteiros, confusos e indeterminados no principio, claros e definidos logo que appareceu no Funchal miss Lorely, a filha de um lord, viva e _espiègle_ como uma parisiense, e exuberante da formosura peculiar das inglezas.

Então o antigo cadete de cavallaria 10, ou não sei quantos, formou planos estrategicos com uma pericia, que talvez o não acompanhasse até ao campo de batalha. Pôz ao serviço d’aquelle tardio amor todos os recursos do seu espirito, que eram poucos, e todas as vantagens da sua posição official, que eram muitas. Passeios militares, exercicios, tudo foi largamente aproveitado. E de tarde, no atrio do palacete das Angustias, onde morava a seductora _miss_, tocava sempre a banda regimental, cujos effeitos maravilhosos Eduardo Pailleron preconisou, muito depois e com infinito espirito, no segundo acto da _Edade ingrata_.

Mas tambem o que elle soffria!...

A prima dos Norfolk e dos Buckingam tinha sabido ou adivinhado que o senil Lovelace professava, com o maior fervor, o culto do dinheiro. Jurou logo aos seus deuses, fazer do seu apaixonado um perdulario; e tão bem se saiu da empresa, que o general offereceu d’alli a pouco um _lunch_, a ella e á officialidade do batalhão, n’um dia de passeio militar a Camara de Lobos--o general que, de tanto jantar fóra de casa, «tinha avenca na chaminé», segundo a phrase malevola do Garcez.

Ora foi justamente por esta occasião, que o Dionysio cahiu na tal serie de enganos. O patrão--Dionysio depois de reformado continuava a servil-o--estava a arranjar-se para ir jantar a casa de _miss_ Lorely. A agua circassiana terminara o seu papel, e entrava em scena o espartilho, quando surgiu um tormento, que fez perder á victima o desejo de ir ver a beldade. O general acabava de sentir no joelho esquerdo as presas aguçadas da gotta, a morderem-o cruelmente. A dor foi tal que lhe arrancou um grito. Ataque para durar tres dias pelo menos.

--Mas então era preciso mandar uma desculpa.

Pegou numa penna e dispoz-se a escrever no bilhete de visita algumas palavras em inglez.

Por fatalidade o major só lhe tinha ensinado a falar a lingua de Pope; quanto a escrevel-a, não se lembrou d’isso. Nem tudo póde lembrar.

--Ó Dionysio?

--Prompto, meu general!

--Tu sabes onde mora aquella senhora ingleza, a quem eu costumo visitar!...

--E a quem faz o seu pé d’alferes?

--Mau, Dionysio! Sabes onde ella mora?

--Não saberei eu outra coisa!

--Pois então leva-lhe este bilhete de visita, e dize á creada que mando muitos cumprimentos á senhora, e que lhe peço desculpa de não ir hoje lá jantar, mas que estou doente.

--Isso não é nada. Ande, vá, olhe que em casa não se lhe arranjou comida.

--Cala a bocca, pateta! Dize-lhe tambem que estou de cama e que por isso não posso escrever-lhe.

--Éna que patranha!...

--Meia volta á direita, maroto, e não te esqueças de nada! Estás cada vez mais urso.

--Somos dois, meu general! respondeu o velho, rodando sobre os calcanhares e caminhando para a porta, em quanto o patrão lhe atirava, por entre dentes, os epithetos de «burro, camello e animal». Ao mesmo tempo agarrava o joelho esquerdo com ambas as mãos, e soltava uns gemidos surdos, que tinham o que quer que fosse de grunhidos.

De repente gritou:

--Olha lá!

O soldado appareceu á porta, e olhou desconfiado para o general.

--Traze-me jantar da hospedaria do costume. Não te esqueças!

--Sim senhor, fique descançado.

E saíu.

* * * * *

Á porta da casa das Angustias, situada no meio de um esplendido jardim, o Dionysio foi recebido pela Luiza, creadinha madeirense, que á força de lidar com inglezes se fazia entender por elles, e assim arranjava, em todos os invernos, excellentes casas para servir.

O veterano, depois de lhe deitar uma olhadela brejeira, apresentou o bilhete.

--O meu general manda isto á senhora, porque não póde vir cá hoje. Está com o seu rheumatico.

--_Saim?_ perguntou a creada.

--_Saim, menaina_, disse o Dionysio, que nunca perdia occasião de imitar a pronuncia madeirense.

--A _mecê_ a modo que está _tirando precipicio_ commigo! replicou, meio formalisada, a creadita.

--_Precepeicio!_... A minha _mecê_ não quer tirar-lhe nada. Agora se eu fosse mais novo uns trinta ou quarenta annos...

--Se fosse mais novo? perguntou a rapariguinha já a sorrir.

--Mau! Mau! Basta de conversas, que o patrão mandou-me levar-lhe o jantar.

--De cá?

--Pois se fôr de cá, melhor ainda, por certos motivos... Cá é que elle vinha comer o jantarinho, e por conseguinte tambem de cá lh’o pódem mandar. Pois não acha?

A Luiza transmittiu fielmente o recado a sua ama. O pedido final produziu o effeito hylariante de uma boa caricatura do _Punch_.

Morta de riso, mas duvidosa ainda, não obstante a fama de Harpagão do seu apaixonado sexagenario, miss Lorely mandou a Luiza interrogar novamente o veterano.

--Ó mulher de ... não sei que diga, já lhe expliquei que elle queria o jantar.

D’alli a pouco um creado, de casaca e gravata branca, entregava ao soldado um grande açafate, donde se exhalava um perfume capaz de fazer crescer agua na bocca ao menos glotão.

* * * * *

O general quando viu o Dionysio ir tirando do açafate, que lhe derreara os braços, uns após outros, muitos pratos de porcelana finissima com excellentes iguarias, ia tendo uma syncope.

--Quanto lhe não custaria aquelle jantar? pensou, e gritou logo para o veterano:

--Ó patife, não me dirás onde foste buscar tudo isso? Talvez a essa hospedaria da Entrada da Cidade onde pagam uma libra por dia os hospedes permanentes! Um jantar assim ... que sei eu?... é um dinheirão!...

--Cale-se para ahi, resmungou o Dionysio. É um jantar de principe e não lhe custa um vintém!

--Não custa!

Dionysio explicou tudo.

O general caíu prostrado n’uma cadeira, com a perna ainda mais espicaçada pela gotta. Depois, tomando uma resolução heroica, tirou tres libras da bolsa.

--As ordenanças ainda ahi estão?

--Não foi o meu general o proprio que as mandou para o quartel?

--Bem! Pois então irás tu novamente, mas vê lá não me faças outra asneira!...

--Outra! Qual foi a primeira, diga!

[Ilustração]

--Toma lá este dinheiro, vae á loja de bebidas da Carreira, onde eu te mandei no outro dia, e pede ao caixeiro que te dê seis garrafas de vinho da Madeira do melhor.

--Gasta-se tudo isto?

--Pois de certo.--E o general apertou de novo o joelho.--Elle que te empreste um cesto, e vae levar o vinho, n’um rufo, a casa da ingleza, com mais este bilhete de visita... Dize á senhora que te enganaste e que eu amanhã lhe explicarei tudo.

* * * * *

Em quanto o general, pelo sim pelo não, ia comendo o jantar, Dionysio desempenhava conscienciosamente a commissão, até chegar á porta de _miss_ Lorely, e tambem depois de entregar o vinho á creada.

D’alli a pouco voltou a Luiza com meia libra em oiro, e deu-a ao velho.

--A senhora manda muitos cumprimentos...

Dionysio interrompeu-a:

--Isto é para pagar o vinho?...

A creada desatou a rir.

--Ah! Você ri-se? Pois se a senhora quer pagar o vinho, então ha de pôr para aqui mais alguma coisa. Diga-lhe que não é uma, que são seis meias librinhas--tres libras!

A Luiza, rindo a bandeiras despregadas, foi levar o recado á ama, que riu muito mais ainda.

D’alli a pouco recebia o Dionysio tres libras.

--Aqui levo dinheiro de sobra, disse elle, e ia entregar honradamente a meia libra do principio.

--Essa é para a _mecê_, fez-lhe notar a creada.

--Acceito para não fazer desfeita. Adeusinho, minha flor, e obrigado!

* * * * *

Quando o general acabava de jantar, chegou o Dionysio com as tres libras.

A explicação foi longa e calorosa.

Tanto gritou o amo como o creado.

--Ora ainda em cima! Por eu lhe zelar o que é seu! respondia o Dionysio, indignado. Se vocemecê gastasse as tres libras, dava-lhe p’ra ahi alguma coisa, e nunca mais prestava para nada.

O caso é que o general parecia ter-se restabelecido instantaneamente da gotta. Vestiu-se á pressa, e foi ás Angustias, pedir desculpa a _miss_ Lorely.

A ingleza perdoou tudo, e confessou ao seu apaixonado que nunca se tinha divertido tanto. Partícipou-lhe ao mesmo tempo que, em voltando a Inglaterra, casaria com um primo, de quem era noiva desde os quinze annos.

Nem por isso o general deixou d’alli em diante de jantar nas Angustias, nem a musica de tocar no atrio do palacete.

Se perdia a noiva, não queria perder tambem os jantares.

Quanto ao Dionysio...

Continuou trapalhão como sempre.

E por isso eu, não me fiando no que elle dizia e sem paciencia para tirar a limpo este ponto historico, termino como principiei:

Não sei com certeza se o general tinha desembarcado nas praias do Mindello.

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O Aprendiz De Barbeiro

A Maria José saiu da Candelária de noite escura, e por isso quando chegou á Magdalena não estava ainda um unico freguez a fazer a barba na loja de João Cardoso.

O pequeno d’ella, o Antonio, apenas a viu, largou uma navalha que estava afiando no assentador e correu para a porta.

A mãe puxou-o para fóra, porque não queria que o mestre ouvisse o que ella tinha que dizer ao filho.

Vergonhas não se querem assoalhadas.

Olhou para o rapaz, e a voz prendeu-se-lhe na garganta. Tinha pejo, mas por fim decidiu-se. Ella bem queria lidar como as outras mulheres, que a bem dizer fazem por toda a ilha o dobro do trabalho dos homens, mas não podia, por causa d’aquella mão aleijada.

Já não sabia com que cara apparecesse ás visinhas. Tinham todas muita pena d’ella, é verdade, ajudavam-a a viver, mas ás vezes, por muita vontade que tivessem, tambem não podiam. Só Deus sabe das faltas, que cada um padece!

Pedir aos ricos, nem pensar n’isso... Quem nunca soube o que é não ter, menos acode aos que precisam.

E vae d’ahi lembrou-se, custando-lhe muito, de vir pedir alguma coisinha ao filho.

O Antonio bem queria fazer-lhe a vontade, mas como? A féria d’aquella semana já estava gasta n’um fato, que tinha ajustado dias antes, e por signal bem barato. O mestre João não queria ver em casa maltrapilhos, não tanto por si, mas por ’môr dos freguezes. Á sua loja iam os senhores mais ricos da villa.

--Não pódes então dar-me nada? perguntou a Maria José, com os olhos rasos de lagrimas.

--Posso, sim senhora, mas é tão pouco... A minha mãe bem sabe que se muito tivesse... Porque estou eu aqui? Para mais a míudo lhe poder fazer bem, e para ir vel-a de vez em quando. Mas um dia pego em mim e abalo n’uma d’essas baleeiras!

--Lá isso não, filho, só se queres matar-me! Bom de lei és tu. Excusas de m’o dizer! Saes todo a teu pae. Ah! Que se aquelle Caim do Gaspar Dutra não m’o tivesse matado!... Coitadinho! Ainda estou a vel-o a arquejar, com a cara toda suja de sangue--parecia um bicho!--os olhos já envidraçados a fincarem-se em mim ... como a querer falar, mas sem poder! Era para me dizer quem o tinha atirado do alto da rocha.

Mas a esse respeito não restavam duvidas á Maria José.

É verdade que na audiencia em que o Gaspar Dutra foi responder ao Caes do Pico, porque o suspeitaram do crime, visto andar ha muito de rixa com o Manoel Luiz, o absolveram por falta de provas, e não appareceu uma só testemunha de vista.

Mas d’ahi a dias, depois de o malvado embarcar para a America, por ter ficado muito arrastado com os gastos da justiça, appareceu em casa da viuva, já perto da noite, a tia Quiteria que tinha uma fazendinha na rocha, mesmo ao pé da outra por que o Gaspar Dutra e o Manoel Luiz andavam desavindos.

A velha tomou de parte a Maria José e depois de obrigal-a a jurar que não diria nada a ninguem, em quanto ella fosse viva, contou-lhe toda a historia do crime. Estava perto do sitio, mas nem um nem outro a tinham visto.

--O Gaspar Dutra é que começou a _abregoir_. O Manoel Luiz desesperou-se e disse-lhe uma má palavra.--Os santos estão no altar!--O outro poz-se fulo, correu para o Manoel e colhendo-o á falsa fé, tal geito lhe deu que o _prantou_ pela rocha abaixo. O corpo a principio não levava muita força, mas depois caíu tão depressa, que nem uma bala de espingarda. Quando deu no chão da rocha, onde ficou estatelado e de braços abertos, vinha já de uma altura de tres ou quatro casas de sobrado. Rebentou-lhe de certo alguma coisa lá por dentro, tanto que o pobre do homem não disse mais palavra na meia hora que ainda viveu.

A Quiteria desculpou-se de se ter calado áquelle respeito, dizendo que o Gaspar Dutra e o irmão não eram _boas folhas_. Se o matador, por causa d’ella, fosse parar á costa d’Africa, o outro era muito capaz de lhe fazer alguma, que désse que falar. Era o Gaspar tão ruim, que andando embarcado tinha querido matar o cosinheiro de bordo, e levara n’essa occasião duas navalhadas, de que lhe resultou o signal em cruz, que tinha na barba, do lado esquerdo.

O Antonio ouvira dezenas de vezes a mãe contar a historia, mas nunca tinha sentido tamanha amargura, um desejo tão furioso de vingança.

Estivesse o pae ainda vivo e a mãe não precisaria de pedir esmola, e já elle teria ido para a America enriquecer, e não estaria alli a ganhar tão pouco.

E lembrou-se do pae--das festas que elle lhe fazia quando vinha á noite para casa, seguido pela _Boníta_, a cadella de gado. Ceiavam, e o pequenito para adormecer queria sempre que o pae o deitasse no collo. O Manoel Luiz fazia-lhe a vontade, e mal o Antonio estava pegado no somno, despia-o todo, deitava-o na cama, com um cuidado, um carinho, de que nem a propria mãe seria capaz.

Quando o pae morreu, o pequeno tinha oito annos. Mostrou pena, como se já fosse uma pessoa grande.

N’aquella manhã renascia a dôr.

A mãe com tanta precisão de dinheiro para matar a fome, e o filho tendo só um pataco que lhe dar!

O mestre João era muito agarrado ao dinheiro e não lhe emprestaria nada.

Metteu a mão na algibeira, levou-a muito fechada até á mão direita da Maria José, e deixou-lhe a moeda entre os dedos, escondida. Beijou a mão da mãe e poz-se a chorar.

N’isto a voz de João Cardoso, chamou de dentro imperiosamente:

--Antonio! Ó Antonio!

O rapaz entrou na loja, de corrida.

Já lá estavam dois freguezes.

* * * * *

A concorrencia foi grande n’aquelle domingo.

Todos queriam apresentar-se na missa conventual com a cara bem escanhoada, para que nada deslustrasse o fato de ver a Deus.

João Cardoso, sem perder a presença de espirito, ia desbravando os matagaes incipientes que, por ausencia da navalha, tinham brotado n’aquella semana.

Animou-se gradualmente a conversa. De um assumpto politico--a escolha do futuro regedor--saltou para o phylloxera, que tinha apparecido pouco antes n’uma vinha do Fayal.

--Aquillo--opinava o Estacio Manuel--é pelos modos um bicho que come a raiz da cepa, como o caruncho roe a madeira, e o gusano o costado dos navios.

--Bicho me pareces tu--atalhou o Amaro, do seu canto.--Se fosse bicho podia-se lá dizer que tinha apparecido uma nódoa d’elle!...

--Nódoa?

--É o que ainda agora li no _Fayalense_. Nódoa de bicho, não entendo.

O Estacio não se deu por vencido:

--É que as terras aonde elle chega ficam pretas como esses _mysterios_, que ahi temos por toda a ilha.

O mestre barbeiro ensaboava, n’esta occasião, a cara do terceiro freguez; suspendeu a operação e voltando-se para o auditorio, exclamou sentenciosamente:

--Sabem o que lhes digo? que se essa praga de nome tão arrevezado salta do Fayal para cá, adeus vinhas do Pico! É cada qual entrouxar a roupa e ala para _Bastão_![2]

Não tinham acabado ainda os applausos provocados pelo dito, quando entrou na loja um homem trigueiro, muito alto, largo de hombros e um tanto desmanchado no andar. Na orelha direita d’este colosso luzia uma arrecada lisa e pequena, e nos pulsos e nas costas das mãos alastravam-se, em prodiga tatuagem, ancoras e estrellas.

O sino da egreja proxima tocou passados instantes, chamando para a missa. Era a terceira vez.

Ficaram só dois freguezes na loja. Um, que o mestre começou a barbear, tinha ouvido a missa das almas. O outro, o da arrecada, coube ao Antonio, e não mostrou dar grande attenção ao chamar pressuroso do sino.

No entretanto pelo largo batido de sol passavam azafamadas e alegres as raparigas do povo, com os lenços de chita, de pontas desamarradas, presos á cabeça somente pelos chapeus de palha de abas largas e copa baixa, cingida por um cordão de lã encarnada. Para ellas a missa não é só uma devoção, é o repouso, o esquecimento momentaneo de uma existencia monotona e trabalhosa.

O Antonio não podia mais. Ainda bem que era aquelle o ultimo freguez! Depois da missa não viria mais nenhum. Não sabia como se tinha aguentado tanto tempo. O seu desejo era fugir d’alli, e, quando ninguem o visse, desatar a chorar desconsoladamente, para ver se lhe passava aquella ancia, que o affligia. Só por grande milagre não enchera de lanhos as caras dos freguezes. Felizmente aquella barba depressa se fazia. Não tinha menos de quinze dias, pouco resistia á navalha.

O rapaz teve de repente um deslumbramento. Na face esquerda do homem que estava alli, nas mãos d’elle, havia um signal, que a principio se não podera ver, porque a barba o escondia, e que era exactamente egual ao do Gaspar Dutra: duas cicatrizes em cruz!

Perguntou, com a voz algum tanto suffocada:

--O senhor é cá do Pico?

--Eu? Sou. E porque?...

--É da Candelária?

--Quem t’o disse?

--Quiz-me parecer. E chama-se?...

--Gaspar Dutra. Tens alguma herança para me entregar? Ha-de ter morrido muita gente minha, n’estes oito annos que estive na America.

Não havia duvida.

O rapaz sentiu nos ouvidos um zumbido ensurdecedor, faltou-lhe a vista, passou-lhe um calafrio por todo o corpo. Devia ser assim a approximação da morte!

Tornou a encarar toda a sua desgraça. Exerceu, porém, um esforço violento sobre si mesmo, e serenou apparentemente.

O Gaspar não suspeitou de nada. Via-o de costas, afiando a navalha. Por fim disse-lhe de repellão:

--Anda! Acaba com isto!

--Sim, senhor...

--Tu estás parvo! bradou-lhe o mestre, do outro lado da loja, sem largar a cara, que já tinha meio rapada.

O aprendiz poz machinalmente mais sabão na barba do freguez.

--És da Candelária? continuou este. Conheces lá muita gente?

--Conheço... Conheço a Maria José, viuva do Manoel Luiz... O senhor conhece-a?

E os olhos, que se fitavam no fio da navalha virado para a garganta do Gaspar, levantaram-se n’uma interrogação anciosa.

--Olá se conheço! E tambem conheci o marido... Um grande marau!

O Antonio teve um espasmo. Os nervos contrahiram-se-lhe medonhamente, e o gume do aço cortou bem fundo no pescoço bronzeado do assassino, abrindo uma ferida alongada, de onde o sangue espadanou com violencia.

O Gaspar ainda ergueu os braços, soltou um arranco, estrebuxou e caíu de lado, no chão. Na toalha, presa por baixo da barba, o sangue formava uma larga mancha vermelha, que se foi extendendo a mais e mais.

João Cardoso e o outro homem, extaticos, boquiabertos, transidos de pavor, não ousavam approximar-se. Por fim, em quanto o freguez corria para a porta a gritar «Aqui d’el-rei!», o mestre, vendo a navalha caída no chão, chegou-se ao pequeno, que estava de parte, todo a tremer, e a olhar com espanto para aquella massa enorme agitada pelas convulsões da agonia.

Agarrou-o por um braço e perguntou-lhe:

--Que foi isto, _grandessissimo_ diabo?

E o Antonio, a gaguejar, como um bebedo:

--Foi ... foi elle ... que matou meu pae!

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[Ilustração]

A Allemã

FOI ha bastantes annos que a vi pela primeira vez.

Loução e garrido, balouçava-se brandamente na enseada do Funchal o _Maria Pia_, vapor da carreira de Lisboa, e rodeado ainda por um enxame de botes, que tinham levado para bordo passageiros e bagagens, apromptava-se para deixar, depois de uma visita de tres dias, a denominada _Flôr do Oceano_.

Eu, debruçado na amurada, e já amargurado pela saudade, seguia tristemente com a vista um barco que, aproado á terra, ia tornando cada vez maior a distancia que começava a separar-me dos unicos entes a quem prezava no mundo.

Estava, havia não sei quanto tempo, n’esta contemplação, quando attentei n’outro bote, que, fazendo força de remos, demandava rapidamente o vapor, apesar de o tiro da partida ter já de ha muito resoado pelas fragas que bordam a Madeira.

[Ilustração]

Não tardou que atracasse ao navio, e momentos depois entrava para o convez uma senhora com o rosto tapado por um veu cinzento, e amparada por dois sadios filhos da ilha, em quem reconheci dois _homens de rede_, os quaes tamanho serviço alli prestam aos tisicos, transportando-os n’aquelle commodo descanso, tão predilecto dos creoulos e de todos os que habitam as regiões tropicaes.

Conduziram-a para uma cadeira de vimes, que já estava disposta com segurança no meio da tolda, do lado da camara de primeira classe, e ahi a depuzeram com delicadeza á primeira vista pouco consentanea com o exterior um tanto rude d’aquella pobre gente.

Feitos os ultimos preparativos para a partida, poz-se o vapor em movimento, aproado a leste, e cortando veloz as mansas aguas da enseada.

Tres horas, talvez, estive a fitar, primeiro as encostas accidentadas e verdejantes da ilha, que fugiam rapidas para o lado do occidente, e depois os pincaros abruptos, que coroam aquella enorme massa vulcanica, e que cada vez se iam tornando menos distinctos, já assumindo uma côr entre parda e azulada, já assimilhando-se a nuvem que mal sobrepujava a superficie do oceano, até que finalmente se occultaram de todo.

E eu, ancioso de rasgar com a vista o horisonte para ver uma vez ainda os que deixára, e enviando-lhes um ultimo adeus na vaga que passava fugaz ao lado do navio, voltei-me para dentro, triste e desanimado, como quem de repente se encontra só na vida.

Foi então que a pude ver.

Imagine-se, por um momento, uma d’aquellas divindades esquivas e vaporosas, de que a phantasia dos bardos do norte povoa os lagos e as florestas: a mulher que eu tinha deante de mim era mais ligeira, mais diaphana do que essas creações imaginarias. Á ultima claridade da tarde observei-a detidamente.

O rosto era de um esplendor lacteo, de uma transparencia de alabastro; se bem que emmagrecido pela doença, ainda ostentava o typo septentrional, em toda a sua formosura e pureza.

Contrastando com a pallidez morbida, desenhavam-se-lhe nas faces as rosas purpurinas e terriveis da tisica.

Nos olhos, do azul mais puro, tristes e resignados, havia uma vaga aspiração para as espheras brilhantes e luminosas, uns reflexos de além do tumulo.

Recostada languidamente nas almofadas que estofavam a cadeira, e com a cabeça, aureolada de finissimos cabellos louros, descahida para traz, olhava para o mar, com a indifferença e melancholia de quem perdeu de todo a esperança.