Chapter 9 of 13 · 3954 words · ~20 min read

Part 9

De quando em quando, uma tosse pertinaz fazia arfar-lhe o peito, e por momentos, se bem que rapidos, transmudava-lhe a expressão do semblante, de serena em dolorosa.

N’outra qualquer occasião ter-me-hia despertado interesse, mas então impressionou-me mais vivamente do que nunca, aquella mulher, moça, bella, e, na apparencia, tão gravemente enferma, que não tinha a seu lado um parente, um amigo, um enfermeiro sequer.

Os passageiros, que o enjôo não obrigára a recolher aos beliches, passavam perto d’ella com indifferença, e sómente o capitão se lhe acercou uma vez, a perguntar-lhe se não julgava melhor descer para a camara.

--Melhor! respondeu ella em francez e com sorriso entre amargo e benevolente. Aqui ao menos tenho este ar tão puro. Prefiro ficar. Obrigada!

E deixando caír novamente a cabeça na almofada, voltou á primitiva immobilidade.

Quando desci á camara, á hora da ceia, não pude esquivar-me a perguntar ao capitão informações a respeito da desconhecida.

Eis o que elle sabia:

Viera no anno antecedente da Allemanha, sua patria, em companhia de um irmão, buscar ao clima benefico da Madeira allivio para os soffrimentos, que os medicos do seu paiz não tinham sabido debellar e a que prophetisavam até um proximo e fatal desenlace.

As sinistras previsões scientíficas realisaram-se, porém com uma differença: a victima não foi ella, mas o irmão, que ferido de morte subita, a deixou só n’uma terra de estranhos, e apavorada com o pensamento de ver-se, na derradeira hora, cercada apenas de indifferentes e mercenarios.

Estar alli nem mais um momento!

Partia pois, esperançada em ter ainda vida bastante, mercê de Deus, para voltar ao que por tanto tempo aprendera a amar: ia morrer nos braços da mãe.

Ás dez horas voltei para o convez.

Era uma noite de agosto, limpida e sem lua; mal soprava uma leve aragem, que ia a pouco e pouco dispersando os rolos do fumo que o vapor deixava após si.

As estrellas reverberando nas ondas inquietas, afiguravam-se, á vista illudida, de outros tantos luzeiros fluctuantes na massa fluida.

O silencio imponente da solidão era perturbado apenas pelas pancadas cadenciadas do helice, e pelo rumorejar surdo da agua em torno do navio.

E em redor tudo immenso: a amplidão etherea e a vastidão dos mares, o infinito e o seu espelho, como disse madame de Staël. E devassando os arcanos da natureza, e affrontando-lhe a soberania, o homem, só e illuminado pelo seu genio, deixando escripta na esteira do navio a divisa do progresso.

Logo que os olhos se me habituaram á meia obscuridade que reinava no convez, descobri-a de novo no logar onde a tinha deixado.

Nem eu sei dizer a tristeza que se apossou de mim.

Tornava para os seus, porém elles, em vez da alegria que traz sempre a volta d’um parente querido, teriam a expectação fatal d’uma desgraça eminente.

A mãe, ao apertar ao seio a filha, ao cobrir-lhe o rosto de beijos, sentiria na ardencia da febre que lhe devorava a vida da sua vida, os amplexos antecipados da mortalha.

E aos vinte annos!... Era bem cedo para morrer, como, da meiga virgem de Procida, diz o poeta das _Meditações_.

Ao menos, triste consolação! uma vez arrebatada á vida, mão amiga e carinhosa iria depôr-lhe sobre a campa as coroas votivas da saudade, e a mesma brisa, que lhe brincara com os cabellos de creança, perpassando por entre os cyprestes, levar-lhe-hia, nas azas perfumadas, os suspiros dos que a choravam.

Dois dias depois chegámos a Lisboa.

Perdi-a de vista ao desembarcar, mas nem por isso a esqueci; e mais tarde, nas horas de melancholia, não poucas vezes aquella mulher, antes visão que realidade, vinha, circumdada de uma aureola de triste poesia, pousar-me docemente na imaginação.

* * * * *

São passados sete annos e com elles quantas illusões!...

Entremos por momentos na alfandega de Lisboa.

Na casa das bagagens vae um borborinho indescriptivel: os passageiros, chegados ha pouco da Madeira, no _Maria Pia_, e do Brazil, não sei em que paquete, reclamam com instancia a propriedade; os fiscaes impacientam-se; as malas e os bahus fecham-se ruidosamente, depois de examinados pelas vistas prescrutadoras dos aduaneiros; os carros de mão giram velozes sobre o asphalto; os sinetes, molhados em tinta azul, percutem sem cessar os disticos de cada lote...

Eu, á busca d’um amigo a quem esperava, ia correndo os grupos, já meio desorientado pela confusão, quando sons ainda mais discordantes me vieram ferir os ouvidos.

Junto de mim, discursava-se com animação, n’aquella lingua que, segundo já alguem disse, qualquer póde falar mettendo um fio de retroz na garganta, e que o auctor do _Fausto_, com o melhor fundamento, poz na bocca do diabo.

Volto-me, para ver quem vinha juntar o seu allemão áquelle motim destemperado, e vejo...

Quem ha ahi que não conheça as milagrosas propriedades nutritivas attribuidas ao medicamento, que tem o nome de uma famigerada cortezã franceza, e que tão apregoado foi pelos jornaes das cinco partes do mundo?

Pois era _ella_, a allemã ... depois de ter tomado a revalescière Dubarry.

A principio descri dos sentidos.

Admittia-se porventura que o ente ideal e vaporoso qual ondina do nevoeiro, que eu entrevira n’outro tempo, se houvesse transformado no que eu tinha deante de mim!

Mas não havia que duvidar.

O rosto era o mesmo, embora á transparencia alabastrina e ás rosas da tisica tivesse succedido ... como hei de dizel-o?... o adipe abundante e as côres sádias da robustez. A cabeça, em vez de reclinada morbidamente, conservava-se levantada e vivaz. A fraqueza de valetudinaria transformara-se em fortaleza, que faria inveja ás nossas matronas de Diu, de que fala Jacintho Freire, ou a um soldado do imperador Guilherme.

Eu estava indignado!

Scismara sete annos n’aquella mulher, enterrara-a, recitara-lhe nénias sobre a sepultura, para um dia,--oh! prosa da vida!--ousar apparecer-me sã, robusta, a vender saude.

Era quasi uma abominação, um crime de leso-ideal; quanto melhor não fôra que tivesse morrido!

Mas ainda eu não disse tudo.

Dava o braço a um allemão (era-o, com certeza!) de barba loura, e seguiam-a duas creanças louras, uma ao collo, outra pela mão d’uma creada tambem loura.

Tudo louro!

Não quiz ver mais nada, e saí precipitadamente da alfandega, amaldiçoando o sentimentalismo, as allemãs e o cabello louro.

[Ilustração]

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_O Marraxo_

Um calor de rachar pedras, quanto os quatro rapazes descansaram do trabalho. Já na vespera á tarde se tinha annunciado a léstia pelos tons vermelhos do horisonte para as bandas do nascente.

Os ricos e remediados podiam fugir-lhe, mettendo-se em casa, com as portas e as janellas bem fechadas; mas elles, coitados!...

Cá fóra chegavam a toda a parte as breves lufadas do vento abrasado do Sahara, que parecia não ter perdido um atomo da sua ardencia com o atravessar centenas de leguas do Atlantico, desde a costa de Africa até á pequena ilha do Porto Santo. N’aquelle ambiente de forno, as plantas mirravam-se de tal sorte, que se alguem apertasse entre os dedos as folhas mais tenues, facilmente as reduziria a pó.

Mas o mar ficava a dois passos do logar do trabalho.

--Que rico banho, graças a Deus! pensavam os quatro.

Atravessaram de corrida o areal a escaldar, e foram-se despir á sombra de uma saliencia de rocha, junto ao Penedo do Somno.

Na extensa praia que borda o sul da ilha, o ar, como ao de cima de uma fogueira, trepidava rarefeito. Augmentava-se ainda mais a impressão do calor, com os offuscantes clarões d’aquella areia amarella e fina. Ninguem podia respirar, nem que fosse até lá acima, ao pico do Castello, que muito no alto, ao noroeste, desenhava no ceo baço e pardacento o perfil regular da sua pyramide.

O mar estava alli ao pé. Todo frescura, espreguiçava-se na praia, encrespado pelo sopro da léstia: ao largo, porém, com o sol dardejando-lhe a pino, lembrava um extenso e irrequieto lençol de metal fundente.

--Sabem vocês uma coisa? disse um dos quatro. A modos que o mar tambem está encalmado!

E a rir do proprio dicto, o José desceu até ao mar, molhou a mão direita e benzeu-se devotamente.

Os outros fizeram o mesmo, e investiram para a agua todos a um tempo, no meio de cachões de espuma, e soltando guinchos com a repentina impressão do frio.

O Francisco seguido por mais dois nadou para fóra, mas o José, que no mar nunca tinha sido afoito, deixou-se ficar no sitio onde quebravam as ondas. A agua nem lhe dava pela cintura.

--Larga-te d’ahi, calaceiro! berrou o Antonio, ao vel-o na occasião em que virava rapidamente a cabeça, para sacudir da testa os cabellos gotejando agua.

--Vá quem quizer, que eu cá tenho pouco folego.

--Ah! Tu não vens? Eu já te vou escarmentar.

Mergulhou, e reappareceu ao cabo de poucos segundos: trazia na mão uma pedra de cal e atirou-a para o José.

--Ah! Vocês querem fazer-me _reinar_? disse este ultimo, deveras amuado, e correu para o logar onde estava a roupa. Tirou a agua da cabeça passando-lhe a mão com força, enfiou a camisa e veiu enxugar á torreira do sol, empoleirado no rochedo que avançava pelo mar dentro.

A umas cem braças de terra, os outros voltaram para traz. Não eram da mesma força a nadar e por isso vinha mais fóra o Francisco, logo adiante o Antonio e na frente de todos o Luiz.

Com a mão direita estendida sobre os olhos, á guisa de pala, e segurando com a outra a fralda da camisa, que o leste sacudia, o José seguia os movimentos dos amigos com olhares invejosos.

Mas o que viu elle subitamente?...

Atraz do Francisco, a umas quatro ou cinco braças a agua mexia-se, e divisava-se como que uma sombra escura seguindo os banhistas.

--O que seria aquillo?

Mal tinha formulado mentalmente a pergunta, deu um grito fortissimo.

Ao de cima da agua avistava-se distinctamente uma galha escura e delgada.

--É um marraxo!

Tremulo de medo, bracejando muito, desatou a chamar os outros, com gritos entrecortados.

O Luiz, que se tinha deitado de costas para descansar, ouviu-o e olhou na direcção que os gestos indicavam. Como descobriu a galha do tubarão, bradou logo:

--Nada com ancia, Francisco, nada com ancia, e não pares!... E tu tambem, Antonio!... Olhem o que vem lá atraz!

O Francisco voltou a cabeça e passou-lhe pelo corpo um arrepio, como se a agua tivesse gelado de repente.

Em quanto elle nadasse--estava farto de o saber--o marraxo não atacava, porque não pode morder sem parar primeiro e virar-se, a fim de voltar para cima a bocca immensa, armada com sete ordens de dentes cortantes como aço!

E acudiu-lhe á memoria o triste fim d’aquelle rapaz, que um marraxo rolara pelo meio, ao pé do ilheo da Cal.

Mais rapidos que as ideias que lhe estuavam no cerebro, só os movimentos que fazia nadando, e que, desordenados, o iam extenuando a mais a mais.

Um dos companheiros havia no entretanto chegado a terra.

Como é que o terrivel animal o não tinha já alcançado?... Devia estar quasi a tocar-lhe nos pés!... Não tardava a rilhar-lhe os ossos!...

Perguntassem-lhe se preferia que um raio o fulminasse, a continuar n’aquella agonia tremenda, e pediria que no ceo limpido, testemunha impassivel da tragedia, se formasse de prompto uma nuvem de tempestade, para lançar-lhe a fita de fogo, que o matasse instantaneamente.

Já não podia mais. O coração batia-lhe no peito, como se quizesse arrombar-lh’o.

Tambem já tinha chegado á praia o João.

--Só para elle estava guardada aquella morte horrenda!...

O José lembrou-se de que no sitio onde se despiram tinham visto um madeiro roliço, que parecia resto de um mastro. Correu a buscal-o. Despiu a camisa e amarrou-lh’a bem, pelas mangas. Sobre o penedo e com o corpo inclinado para o mar, não perdia de vista o perseguido nem o perseguidor.

O Francisco já podia tomar pé, mas fazia bem continuando a nadar, pois o maior perigo estava exactamente no instante em que parasse, e assentasse os pés no fundo, para desatar a fugir.

Ia o Luiz atirar uma pedra ao tubarão, mas o José prohibiu-lh’o com um gesto imperioso, e bradou:

--Nada sempre, ó Francisco, e não tenhas medo!

Um pouco debruçado do penedo, acompanhava com os olhos esgazeados os movimentos do peixe, tal qual o trancador de baleias no momento de arpoar. Mas o banhista chegou á babugem da maré e logo o madeiro caíu entre elle e o marraxo.

--Foge, Francisco! bradaram-lhe os tres, como se fosse preciso o conselho.

Vendo caír-lhe diante e estacionar ao lume da agua aquella massa branca, o marraxo voltou-se e fincou-lhe os dentes com ancia.

--Ahi podes tu morder, cachorro! gritou-lhe o João. Surriada!

E contentissimos, os tres atiravam-lhe pedras, em quanto o Francisco se deixou caír na praia, extenuado e offegante.

Sem dar pela aggressão, o enorme esqualo queria desforrar-se do logro estracinhando a madeira, mas como a areia já lhe penetrava nas guelras, mudou de rumo e dirigiu-se para o largo, a galha escura surgindo sempre ao lume de agua.

Desde aquelle dia o Francisco, por mais calor que fizesse, nunca mais se metteu no mar.

[Ilustração]

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O Pae Do Jacintho

EU estava debruçado no mainel da ponte, por onde se entra na quinta do Jardim da Serra.

Pelo ambiente volitavam effluvios perfumados, vivificantes. O sol, em jorros de luz, animava todo o valle, onde se repercutia sem cessar o chilro atroador dos passaros empoleirados pelos castanheiros e carvalhos, e o murmurio do ribeiro, que formava cascata junto á quinta, para continuar depois serpeando mansamente por entre a penedia musgosa.

O tilintar dos chocalhos do gado, que pastava na encosta visinha, ou as vozes das lenhadoras cantando pelo caminho do Curral, misturavam por vezes áquelles sons, uma nota melancholica e destacada.

De fitar a agua fugitiva ia-me penetrando da suave frescura, que emanava das profundezas do leito escuro da corrente, e ao mesmo tempo alentava-me a perenne vida, que palpitava em toda a natureza aos beijos do sol deslumbrante.

Senti uns passos ligeiros, como que medrosos, perto de mim, na ponte.

Era o Jacintho. Vinha com elle um velho--o pae.

Na vespera, quando saí do Funchal tinha visto o cabo surgir ao meu lado, vestido á paisana e disposto a acompanhar a pé o cavallo que eu montava.

--Vaes de licença?

--Saberá V. S.^a que sim, por um mez. Eu sou de ao pé da quinta para onde V. S.^a vae passar estes dias, e já agora sigo aqui ao lado de V. S.^a, se V. S.^a me dér licença.

E o cabo, sem parar no dispendio das senhorias, não deu parte de fraco durante o passeio de tres leguas, não ficando nem um instante para traz do picarso, por mim alugado na rua da Queimada para a encantadora digressão.

Cicerone consciencioso, não omittiu o nome de nenhum dos _demeraristas_, que tinham comprado terras á beira da estrada. Via-se que a Guyana ingleza fôra para elles um verdadeiro Brazil, ao contemplar as casas brancas, quasi todas com _venezianas_, de que estavam povoados os terrenos adquiridos.

Antes de me dizer adeus, pediu-me licença para, no dia seguinte, me apresentar o pae.

Coitado! Via em mim, pobre capitão de caçadores, um potentado, o que quer que fosse de superior e intangivel, principalmente estando eu alli perto da casa d’elle, e entendia honrar sobremodo o auctor dos seus dias dando-lhe conhecimento commigo.

Por isso me appareciam ambos n’aquella esplendida manhã de julho.

* * * * *

Ainda rijo, o velho. Encostado a um bordão, com a camisa alva de neve a saír por baixo do collete, botas e calças brancas, a carapuça na mão, fitava em mim uns olhinhos curiosos e sorria parvamente, á espera de que o filho m’o apresentasse.

--Saiba V. S.^a que aqui está o meu pae, disse o cabo.

O velho então ganhou desembaraço e pouco tardou em contar-me toda a sua vida. Em certos pontos interrompia a narração para mirar o filho, extatico, embevecido, como se mal acreditasse que o pequenito doente e franzino de quinze annos antes, se tivesse feito aquelle rapagão cheio de robustez e capaz de vender saude.

--O que me tem dado muitas _freimas_, sr. capitão, é elle estar longe de mim. Nunca sei o que lhe terá acontecido ou póde vir a acontecer. Demais, aqui, ao _meu pé_, sempre me ajudava... Se por força tinha de saír da minha companhia, então que embarcasse para Demerara. Lá ao menos podia enriquecer.

--Ou já teria morrido, objectei.

E tratei de fazer-lhe comprehender o que ha de nobre no serviço militar, e quanto é culpado quem pretende fugir-lhe; mas o velho abanou a cabeça, e teimou em não se deixar convencer, a despeito da approvação, que os gestos do filho estiveram a dar-me constantemente.

Lembrei-lhe que o Jacintho, que saíra cabo alguns dias atraz e já mandava em praças mais antigas, era muito estimado pelos superiores, e disse-lhe até que d’aquella massa é que se faziam os officiaes como eu.

Não resistiu. Iam-se-lhe os olhos no seu rapaz.

Por cima d’aquellas faces, que os frios e as soalheiras tinham crestado e a velhice cortava de rugas, mas onde brilhavam ainda as rosas da saude, correram duas lagrimas de satisfação.

--O filho do Manoel de Jesus ainda está em soldado? perguntou elle ao Jacintho.

--Está e estará, respondeu este, com ufania. Se não sabe ler!...

--Deveras! Então sempre serviu d’alguma coisa o que fiz por via de ti. Lembras-te?

A instancias minhas, referiu-me a commovente historia do seu amor de pae--como tinha conseguido que o filho aprendesse a ler e a escrever.

A escola era muito longe, e elle, receioso de que o pequenito, que devia andar pelos seus seis annos, cansasse pelo caminho, acompanhava-o sempre, antes de ir para o trabalho, pelas manhãs asperas e geladas, quando o vento norte soprava rijamente, mais cortante do que navalhas. O Jacintho, em muitas occasiões, desatava a choramigar, dizendo que não sentia os pés e que já não podia dar passada. Então elle pegava-lhe ao collo, descalçava-o, desabotoava o peitilho da camisa, e aconchegava ao calor do corpo os pésinhos inteiriçados com o frio. Quantas vezes sentiu cãibras no estomago, dôres muito finas, depois d’aquelle contacto regelador!... Mas nem por isso arredava a creancinha, que ia inclinando vagarosamente a cabeça para o hombro do pae, até que por fim adormecia. Ao cabo de dois annos de escola, o Jacintho, «como tinha boa _mimoira_», já sabia ler por cima.

--E não _havera_ de ser enganado, como eu tenho sido e hei de continuar a ser! rematou o velho, sentenciosamente.

Encareci-lhe com enthusiasmo o seu admiravel procedimento, porém elle recusou ingenuamente o elogio:

--Não faz mingua o senhor dizer tantas coisas. Se isto é o meu sangue!...

E pronunciava estas palavras, envolvendo o filho n’um olhar de ternura infinita, como as aves envolvem em macio frouxel os seus pequeninos implumes, na meiga concavidade dos ninhos.

* * * * *

Foi isto pouco mais ou menos--áparte a fórma--o que me contou o Silveira. Até aqui, tinha tido na voz uma suavidade, que sobremaneira contrastava com o aspecto marcial e severo da sua physionomia.

Remexeu-se na cadeira, saccudiu a cinza do charuto, puxou o bonnet para a testa e acabou assim a narração do caso:

Quatro annos depois, ainda eu pertencia a caçadores 12. O Jacintho, já na reserva, tinha casado e morava á ilharga da praça do peixe, que como sabes fica sobre o Calhau.

Com um dinheiro ganho pela mulher nas casas onde tinha servido, puzeram um botequim. A freguezia começou logo a acudir numerosa, pois que o rosto alegre e bonito da dona do estabelecimento era magnifico chamariz. De mais a mais a Rita arranhava o inglez, e d’este modo conseguia que a loja fosse preferida pelos marinheiros britannicos, excellentes consumidores de «bebidas de guerra».

O velho assistiu ao casamento do filho e voltou para o Estreito de Camara de Lobos. Com os seus sessenta e cinco annos bem puxados, ainda mourejava de sol a sol. Um dia, em que andava trabalhando perto de uma pedreira, ouviu o grito de: «Lá vae fogo!» annunciando a explosão da _broca_. Como devia haver mais duas advertencias eguaes áquella, não se apressou muito. Quando pousou o picão em terra, ouviu a segunda. Correu para fugir a algum pedaço de rocha, que a polvora explodindo arremessase a distancia, mas contou demasiado com a ligeireza das pernas e caíu. A _broca_ rebentou, depois do terceiro aviso do bota-fogo, e um grande penedo veiu apanhar o pae do Jacintho, e partiu-lhe uma perna e um braço.

Levado n’uma rêde para a cidade, o pobre entrou no hospital da Misericordia e alli esteve tres mezes e meio.

A principio o filho, umas vezes só, outras com a mulher, ia vel-o quasi todos os dias, e carpir a desgraça do pae. Mas as visitas foram rareando.

--Se elle tem a vida tão apensionada! desculpava entre si o doente.

Nos ultimos tempos nenhum dos dois appareceu por lá.

Quando lhe deram alta, o velho estava aleijado.

A uns enfermeiros que o lamentavam, de o verem sair do hospital coxeando e arrimado ao bordão, respondeu cheio de confiança:

--Isso era bom, se eu não tivesse o meu filho!

Appareceu-lhe em casa inopinadamente. Não o receberam mal, e até lhe mostraram agrado, em quanto elle não se explicou.

Depois do jantar, abriu-se com o Jacintho e a nora. Assim aleijado, não poderia fazer nenhum trabalho: por consequencia voltar para o Estreito e morrer de fome, vinha tudo a dar na mesma. O Jacintho olhou a medo para a mulher, que se tinha tornado muito vermelha, e fincava os olhos no tecto.

Por isto não deu o velho, mas notou que o filho, ao offerecer-lhe a casa logo depois, gaguejava e parecia quasi não saber o que estava dizendo. Assaltou-o uma suspeita:

--Seria pesado ao Jacintho?

A resposta indecisa dada por este e o silencio pertinaz da nora, explicaram-lhe tudo.

--Está bom rapaz! Que queres? Julguei que vivias mais desembaraçado. Volto para a nossa freguezia. Sempre lá me hei-de arranjar. Fica-te com Deus, filho, fica-te com Deus!

Agarrou-se a elle, beijou-o muito e saiu pela porta fóra, arrastando ainda mais da perna aleijada.

* * * * *

Tempos depois, vi-o no asylo de mendicidade.

Como sabia isto, disse-lhe do filho tudo quanto merecia aquella infamia.

O velho escutou-me sorrindo tristemente e respondeu por fim, a encolher os hombros:

--Será verdade o que o senhor me diz, mas que lhe hei-de eu fazer? Se elle é do meu sangue!...

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A Folga

(Notas de folklore fayalense)

Tudo prompto em casa do João Furtado, para se receber a coroa do «Senhor Espirito Santo».

E não é nada cedo. A procissão já saíu da casa do _imperador_, que foi o ultimo a _coroar_ no anno antecedente, e vem a caminho.

Os visinhos andam tão alvoroçados, que se não fosse o José, sobrinho do João Furtado, teriam invadido a casa, para verem de mais perto o altar, armado no quarto de fóra.

Mas não se atrevem, que o rapaz, de sentinella á porta, prega um não redondo na cara do mais pintado. Além d’isso, todos sabem que elle não é para brincadeiras, e que poderia ir ás do cabo, temendo que lhe escangalhassem o que lhe tinha custado tanta lida.

Como elle se revia no altar! Sobre a meza coberta com uma toalha de renda, nada menos de quatro jarras de flores e de outros tantos castiçaes com os cyrios ainda por accender. Dão-lhe tanta graça o docel de cassa branca e as cortinas de barra vermelha, que pendem de cada lado!

E como está bem clara toda a casa! Nem a egreja, na noite de Natal! Contando-se bem, são dez os candeeiros de petroleo, uns em cima das mezas, outros pendurados nas paredes.