Part 2
Revoltou-se e sentiu uma grande vergonha, por adivinhar que n’aquella teimosia estava a prova de que elle não a julgava mulher de bem, e a suppunha capaz, depois de casada, de olhar para outro homem, que não fosse o marido.
Ia dizer-lhe pela expressão do semblante a indignação que o atrevimento lhe causava, mas não poude, porque ao encarar com o Luiz conheceu que o seu olhar não era petulante, mas de supplica, e ainda mais terno do que no dia em que elle lhe tinha dicto que a _Rosinha era a flôr do Castello_, e que _morria de amores_ por ella.
O que estava certamente era ralado de pena, porque, em obediencia ao pae, a tinha perdido!... Podia lá querer tornal-a má mulher, embora fosse unicamente nas boccas do mundo!... Até merecia dó o infeliz... Pois não o havia desprezado, para casar com o Jorge?... Coitado!...
No emtanto proseguia o divertimento na sua monotonia habitual. Percorridas as ruas do transito, o boi já vinha quasi a passar pela segunda vez em frente da casa do Mello, continuamente excitado pelos bordões, guardasoes, lenços, e até pelos casacos despidos pelos capinhas improvisados, que assim toureavam em mangas de camisa.
Perplexo, estonteado, o boi estacou ao meio da rua, olhando em derredor e escarvando o chão com as patas deanteiras. Afinal, escolhido o ponto de ataque, partiu como seta em direcção a uns cinco homens, mais impertinentes em atiçal-o, mas que desappareceram por encanto, mal suspeitaram a arremettida. Sumido o alvo, o touro não parou na corrida e foi galgar de um salto o mirante do João de Mello, antes que os _mascarados_ lhe dessem a pancada.
Um reboliço, uma gritaria infernal.
Estes refugiavam-se esbaforidos no interior da casa, aquelles saltavam para a rua, e dois ou tres, paralysados pelo medo, deixavam-se ficar no mesmo sitio, de olhos fechados, mãos nos ouvidos, entregues ao seu destino.
Mas subiu da rua uma gargalhada estrondosa, seguida de palmas e apupos. Era a Isabel, que ao pular do mirante não tinha podido evitar que as saias se levantassem, e dava com isto um espectaculo, se não agradavel, pelo menos original.
A Rosa, colhida improvisamente no meio da sua abstracção, viu o touro cahir-lhe ao pé e desmaiou de susto: mas o sargento Luiz, n’um abrir e fechar de olhos, saltou do mirante onde estava, tomou-a nos braços e afastou-a do animal, a que os _mascarados de corda_ esticavam no entretanto o cabo e obrigavam a descer para a rua.
Quando acordou do seu passageiro desmaio, a mulher do Jorge sentiu que a beijavam e ao abrir os olhos viu-se nos braços do Luiz.
Os dois veteranos conseguiram afinal romper atravez dos que tinham fugido para dentro da casa, e assomavam á porta, sem que nenhum d’elles soubesse ainda ao certo o que era passado. O José Maria como que viu o beijo, mas não teve bem a certeza, pois que todas as vezes que bebia uma gota a mais, ficava tonto e via coisas perfeitamente imaginarias. Convenceu-se de que fôra uma historia armada pelo vinho, quando lhe explicaram o succedido.
Para fugir aos agradecimentos, que o Jorge lhe dava sem a minima desconfiança, retirou-se logo o sargento, envolvido pela Rosa n’um olhar de reconhecimento e admiração.
A Isabel veiu furiosa da rua e quiz por força que se retirassem logo. Temia que o rapazio continuasse a dirigir-lhe chufas.
Não disse palavra a Rosa na volta para o Castello. Se por acaso dava com os olhos no marido, voltava a cara para outro lado, com um movimento brusco. Ao meio da rampa que vae dar á ponte levadiça, parou para descançar, e olhou para traz, sem saber porque.
O Luiz tinha-a seguido, de longe.
Não deram por isto os dois velhos, nem a Isabel. Notou-o comtudo a Luiza Braga, que vinha logo após o sargento, em companhia da Josepha Julia.
--Com cedo principiam! cochichou ella ao ouvido da amiga.
--Principiam? acudiu a outra ennojada. Continuam!
IV
Nos dias seguintes a Rosa pensou, pensou muito, medindo o alcance da loucura que tinha feito em casar com o Jorge.
Só depois do beijo, que lhe escaldava ainda a bocca, percebeu que havia alguma coisa na ligação do homem com a mulher, que o marido com toda a sua amizade não lhe tinha feito conhecer.
Por aquelle beijo o sargento apossara se d’ella com um predominio, que o Jorge nunca lhe tinha imposto, em tantos dias de intimidade. Sentia-se fraca, indefesa perante um ascendente ineluctavel, e pela primeira vez sabia como o homem chega a avassallar a mulher, a fazel-a coisa sua.
Tudo isto passava tumultuariamente no espirito da rapariga, como vaga percepção, sem que ella, intelligente mas ignorante, tivesse bem a consciencia do mundo novo de sensações e ideias que acabava de revelar-se-lhe.
O que de mais comprehendia, era que apenas o Luiz quizesse, não poderia resistir-lhe, e que sabendo aliás que se tornaria uma creatura desprezivel, seria d’elle, d’elle inteiramente.
--Ai! E podiamos estar casados um com o outro! scismou.
Uma semana depois o sargento, certo de que o veterano estava longe, passou-lhe pela porta. A Isabel, tinha-a elle avistado da muralha do castello, a descer a ladeira contigua ao Relvão.
Quando o viu prestes a entrar, a Rosa ficou toda a tremer, e quiz refugiar-se no interior da casa, porém o Luiz disse-lhe que só desejava dar-lhe duas palavras, e que depois a deixaria em paz para todo o sempre; mas que se ella o não escutasse, tinha deixado no quarto a espingarda já carregada, para acabar de vez com o seu tormento.
A Rosa ainda balbuciou que elle queria desgraçal-a; que se sumisse d’alli, ou que se veria obrigada a chamar por alguem. Podiam tel-o visto. Supplicou-lhe de mãos postas que a deixasse, que se fosse embora.
Certo de que não o tinham visto, o Luiz fechou a porta rapidamente, tomou nos braços a linda rapariga e tapou-lhe com beijos a bocca, para que ella não gritasse.
* * * * *
Só quando o sargento lhe disse adeus, e lhe pediu muito que para o futuro fosse vel-o ao quarto d’elle, pois alli seria perigoso continuarem a encontrar-se, é que a Rosa viu bem o que tinha feito.
Jurou que nunca mais tornaria, mas sentiu logo que havia de tornar, indefesa contra a seducção, que ainda lhe fazia vibrar todo o corpo em frémitos de goso.
A segunda entrevista foi no quarto do amante.
Ninguem a reconheceria, vendo-a passar na rua. Ia de manto, e para maior segurança, pedira á mãe emprestadas as botas, sob o pretexto de que as suas lhe _pisavam_ e que precisava ir á cidade. Estando quasi a chegar ao quarto do Luiz, apanhou um susto enorme: encontrou-se com o marido, que devia passar a manhã no monte Brazil.
O Jorge não andava a espial-a. Cumpria simplesmente uma ordem do inspector do material de guerra, que o tinha mandado chamar ao Castello, para lhe dar certas explicações relativas ao embarque de umas peças velhas de bronze, que deviam recolher á Fundição de Canhões.
Os dois amantes, muito conchegados um ao outro, estiveram tempos sem fim de ouvido á escuta por traz da porta, que ella tinha fechado subtilmente. Não sentiram nada. Apenas as pulsações desordenadas do coração de Rosa.
--És uma tola, disse-lhe por fim o sargento, dando-lhe um beijo. Podia lá conhecer-te, com esse disfarce! De mais a mais como é velho, deve ter a vista cançada.
--Elle, a vista cançada? Estás a ler. Vê perfeitamente. E para longe, ainda melhor do que eu.
Quando tornou para casa, ainda ia receiosa.
O marido appareceu d’alli a uma hora. Não fazia differença.
As entrevistas continuaram.
N’uma d’ellas a Rosa, ao sair do quarto do Luiz, topou a Josepha Julia, que a mirou dos pés á cabeça e fez um gesto de escarneo.
--Se me conheceu!... pensou a mulher do veterano, abalada pelo medo. Era o mesmo que sabel-o toda a gente!
Mas logo encolheu os hombros, e disse comsigo resolutamente:
--Ora adeus! O que está feito, está feito!
* * * * *
D’alli a poucas horas já effectivamente andavam de bocca em bocca as infelicidades conjugaes do cabo de veteranos. Para não levantar falsos testemunhos, a Josepha, muito encolhida debaixo do lenço, cosida com as paredes e a passinhos ligeiros, tinha seguido a _mulher do manto_. Mal teve a certeza de quem ella era, correu a casa da Luiza Braga. A velha prometteu guardar segredo, mas, tendo ficado só e vendo entrar-lhe pela porta dentro o 33 da artilheria, a pedir-lhe linha preta para coser um botão do casaco do uniforme, não teve mão em si e poz tudo em pratos limpos, sem dizer, já se vê, quem lh’o tinha contado.
A Josepha já estava em casa, costurando ao pé da janella do rez do chão. Tinha feito solemne protesto de não trocar falas com o maldizente do artilheiro, mas ouviu-lhe a «grande novidade», condimentada com varios pormenores inventados pelo narrador.
Benzeu-se, exclamou que podia ser tudo uma refinada mentira, que a Rosa era levantadinha de cabeça, mas que chegasse a tanto, lá isso não lhe parecia.
--Pois diga-_le_ que não. Quem viu, é pessoa incapaz de mentir.
--E quem é que viu? perguntou a torta em sobresalto.
--Nun xe xabe! como dizia o gallego.
--Então pode não ser verdade. Bem sei que o marido é velho...
--Vê?... Já acreditou!
--Não acreditei nada. Vá-se d’aqui, _seu_ grande má lingua!
Fechou a janella, com um accrescimo de indignação. No fundo estava radiante. Para o libello famoso, já tinha editor responsavel.
* * * * *
A Isabel foi aos ares no dia seguinte, quando soube pelo tio Braga o que a voz publica attribuia á Rosa, e até pregou uma valente bofetada no alviçareiro. Se lhe fez doer, não lhe causou o minimo espanto, de habituado que elle andava a tomar o peso ás mãos da cara metade.
Podia lá entrar-lhe na cabeça que a filha, casada tanto de fresco, já enganasse o marido!... Ainda se estivessem recebidos ha mais tempo!... Ella tinha-se prendido por sua livre vontade, e nem sequer podia dar como desculpa o Jorge ser velho e pouco proprio para encantar uma rapariga. Tudo isto a mãe lhe fizera ver um cento de vezes, antes do casamento.
Não levou um credo para chegar a casa da filha e como a apanhou sósinha, disparou-lhe tudo á queima roupa. Uma de duas: ou conseguia atrapalhal-a e apanhar-lhe a confissão da culpa, ou, se fosse tudo mentira, a indignação havia de patentear bem clara a innocencia.
A mulher do veterano encarou com a mãe, e disse pausadamente estas palavras, cujo effeito foi observando:
--Sim, senhora, é verdade o que lhe disseram. Fiz isso, porque não posso aturar meu marido, e porque só do Luiz é que eu gosto e hei de gostar sempre.
A Isabel cahiu sentada para cima de uma arca, e rompeu n’um grande choro, arrepellando-se, dizendo mal á sua vida.
--Cuidado, minha mãe! Olhe que se meu marido entrasse agora por ahi dentro, a desgraça ainda havia de ser maior.
--Lá isso era, porque descobria toda a verdade, e ... Deus te livrasse!...
--É o que pode fazer com esses alaridos.
--_Ubei!_ Permitta Deus que elle nunca desconfie!... Ora a minha desgraça!... Mas o que eu não quero,--fica sabendo!--é que me tornes a olhar para aquelle _bonecro_ de engonços! Ha de ser isto assim, ou sou eu mesma que prego a ambos uma boa lição, com estas mãos que Deus Nosso Senhor me deu!
--Mau! Já vejo que não temos nada feito, disse a Rosa, afastando-se da mãe. Se as suas tenções são essas, o melhor é ir já, já ter com o Jorge e declarar-lhe tudo. Ande! Vá! Assim ao menos deixo de penar por uma vez!
--O’ rapariga, o que estás tu a dizer?
--Que hei de gostar sempre do Luiz, ou eu não me chame Rosa. Sim, senhora! Resolvi-me a tudo. Dizem mal de mim? E eu que me ralo! Ellas falam, porque se mordem de inveja!
--Ai que está variada! exclamou a Isabel, levantando-se e erguendo os braços para o ceo. Deram-lhe volta ao miolo, olá se deram. Oh! Mas isto não pode ser, e tendo-se voltado para a filha, continuou, voz em grita: Se me não tomas juizo, eu racho-te ... racho-te de meio a meio! Cuidas que por estares assim espigada, me não provas os cinco mandamentos?
--A minha mãe não me entendeu. Olhe! Se fizer isso, se quizer apartar-me do Luiz, queimada seja eu pelo fogo do inferno, se na primeira occasião em que me pilhar a sós com meu marido, não lhe conto a coisa toda como ella é, tim-tim por tim-tim. E reforçou o juramento levantando tambem para o ceo o braço direito, com a mão bem espalmada.
A Isabel, que se tinha benzido ao ouvir fallar no inferno, descahiu outra vez para cima da arca, aos soluços.
--Está doida! Doida varrida!
A rapariga aproveitou este ensejo e approximou-se da mãe, pé ante pé: fallou-lhe ao ouvido, carinhosamente; demonstrou-lhe que só havia uma coisa que fazer--evitar que o Jorge descobrisse, O mal já estava feito, e nem Deus teria poder para destruil-o. Mas se a Isabel quizesse, as coisas continuariam assim, e nunca o velho saberia o que diziam, pois ninguem se atreveria a ir contar-lh’o. Mais dia menos dia, como já era bastante edoso, podia apanhar uma macacôa que o levasse para a terra da verdade, e já ella ficaria livre para casar com o escolhido do seu coração.
--O sargento casar comtigo?... Espera por essa! Tanto como da primeira vez, murmurou a Isabel em tom lamentoso. O que elle quiz foi ... o que se está vendo; mas se julgar novamente o caso mal parado, fica certa de que nunca mais lhe pões a vista em cima. Os homens são assim! E concluiu, ainda mais lamuriante: Ai! A minha triste vida! Para o que eu estava guardada!
--Isso era bom, se o Luiz não gostasse tambem de mim; mas gosta muito, acredite, gosta muito, affirmou a Rosa, fallando ao mesmo tempo que a mãe. E está tão arrependido de me ter deixado casar, tão arrependido!...
--Historias da vida! Mas, ó mulher, foram esses os exemplos que eu te dei? Pois não tens vergonha!... Emquanto fui casada, respeitei sempre as barbas de teu pae, e depois de viuva...
Ia proseguir mas calou-se a um olhar meio serio, meio de escarneo, que a Rosa lhe dardejou sem levantar a cabeça ligeiramente inclinada para o chão, mas arregaçando de subito as palpebras, a fim de trazer bem a lume os olhos negros e expressivos.
Por fim recuperou ousadia e perguntou com voz ainda titubeante:
--Porque olhas para mim d’essa maneira? Porque dás ouvidos ao que dizem certas linguas?... Ainda que tivesse sido verdade, não me podiam dizer nada, porque uma viuva não deve a cabeça a ninguem.
--Nem me dava com isso maus exemplos? interrogou a filha, com apparente serenidade.
--Está visto que não... Quero dizer ... não dava, se não houvesse escandalo, se não soubesses ... de nada.
--E se eu soubesse de tudo? perguntou Rosa, certa já de conquistar o auxilio da mãe. Olhe! Sempre lhe quero contar... Eu teria talvez uns seis annos ... ou nem tanto... Uma tarde, a mãe tinha ido para dentro de casa, e estava a conversar com aquelle cabo de artilheria muito alto e louro--um rapaz bem bonito, por signal--a quem gommava a roupa... Lembra-se? Eu andava a brincar na rua. Passou a Luiza Braga e perguntou-me quem estava lá dentro com a minha mãe. Respondi-lhe que era a sua irmã de Agualva ... a tia Marianna. A velha acreditou-me, e foi-se embora. Se não fizesse o que fiz, ella tinha ido por esse Castello infamar a minha mãe, e ficavam todos certos do que alguns diziam e muito poucos acreditavam. Mas sabe o que valeu?... Foi não passar pela cabeça á Luiza que, n’aquella edade, eu já soubesse mentir. Sabia, porque a mãe, de outra vez, me tinha ensinado a mesma resposta, para quando alguem me perguntasse o que ella me perguntou.
--Eu não me lembro de nada d’isso, murmurou a Isabel, com a voz a tremer.
--Lembro-me eu, e ainda bem que menti! Deus não me castigará, por eu ter livrado a minha mãe de tantas afflicções.
Em voz baixa, n’uma supplica repassada de ternura, accrescentou:
--E tambem não a castiga, se a minha rica mãe quizer ajudar-me a sair d’esta consumição.
--Foi praga que me rogaram! Foi praga!...
A Isabel não poude levar por deante o epiphonema, porque a filha, cingindo-lhe as costas com o braço direito e achegando-a a si brandamente, segredou:
--Bom! Bom! Deixe estar que não se arrepende... e ha de me dar razão algum dia, vendo-me feliz.
--Deus te ouvisse, filha, Deus te ouvisse! Mas o que tu me obrigas a fazer!... Olha! O melhor era deixares aquelle ... não sei que diga!
--Outra vez!... Escolha: ou a mãe consente em ajudar-me, ou eu digo hoje mesmo tudo a meu marido!
--Não, mulher, não lhe digas nada!
E com os olhos em alvo, as mãos erguidas, os dedos enclavinhados, a viuva exclamou:
--Seja tudo pelo amor de Deus!
IV
O José Maria andou uns poucos de dias a parafusar, antes que se resolvesse a dizer ao Jorge umas coisas, que lhe tinham contado muito em segredo a respeito da Rosa, e que elle acreditou, porque eram o complemento e a confirmação da scena entrevista em S. João de Deus.
Esteve quasi decidido a calar-se, porque dava razão ao dictado «Entre marido e mulher não mettas a colher», e tambem porque lhe custava muito ir destruir para sempre a alegria ao seu antigo camarada.
Quando andava n’estas indecisões, e já principiava a desculpar a Rosa, pensando que talvez a coisa não tivesse ido a mais, e que ella sempre havia de ter algum respeito pelos cabellos brancos do marido, adregou-lhe passar á porta da Luiza Braga.
--Pst! Pst! fez-lhe esta, lá de dentro.
--Isso é commigo?
--Entra, ó José Maria, que te quero perguntar uma coisa.
--Tu! Ha de ser fresca!...
Entrou e foi sentar-se n’um moxo.
--O que eu te quero perguntar, disse a velha, que estava a engommar um collarinho, é se o teu amigo já sabe o que rosna por ahi a canalha brava.
--Qual meu amigo?
--O Jorge! Mas tambem elle só deve queixar-se de si mesmo. Não se mettesse com a Isabel, nem com gente da sua geração.
--Cala-te, mulher, que já não te vejo bem! replicou o veterano, levantando-se n’um impeto.
--Eh senhor! Tu endoideceste! Por eu não querer que o Jorge ande enxovalhado por essas boccas ruins, é que tu!... Ainda em cima?... Sempre sou bem tola!
O velho conheceu que se tinha excedido, e ancioso por saber o que mais propalavam os maldizentes, moderou-se e murmurou:
--Dize lá o que querias dizer.
--Queria mas já não quero... Julgas talvez que não sou tambem amiga do Jorge? Pois ainda ha migalha estive quasi _garreando_ com a ... cala-te bocca!... com uma certa pessoa, por não lhe poder ouvir que se elle não vae ás do cabo com a Rosa, é porque uma casa sempre se governa melhor, quando são dois, em logar de um só, a carregarem com as despezas.
--Dois?
--_Bei_, Senhor! Pelos modos o sargento Luiz recebeu, pelo ultimo paquete, uma _mancheia_ de patacas, que lhe deixou um tio lá de Lisboa...
--Fecha-me essa bocca suja, grande excommungada!
Juntando á palavra o gesto, o José Maria bateu-lhe com a palma da mão em cheio nos beiços, e, antes que a Luiza se recobrasse do susto, sahiu pela porta fóra, de escantilhão.
--Hei de contar tudo ao Jorge! resmungava elle, pela rua adeante. Não quero que ande vendido. Hei de contar-lhe tudo, e vae ser hoje mesmo! Que grande pouca vergonha!...
Com mais temor que resentimento, a Luiza foi á porta, para seguil-o com a vista. Não poude furtar-se a dizer com os seus botões que, tirante o Braga, todos os soldados do cerco do Porto eram homens de uma canna só.
V
Foi na courella cultivada pelo Jorge no monte Brazil, que o José Maria encontrou d’alli a pouco o seu antigo companheiro de armas.
Primeiro que entrasse no assumpto, falou de mil ninharias: das lagostas que na vespera tinha pescado na bahia do Fundão; na queda que o corneteiro-mór reformado ia dando na Quebrada, quando andava a apanhar cracas.--Ainda que se não esmigalhasse na rocha empinada e de temerosa altura, e fosse cahir no mar, não escaparia de certo ao mergulho, pois elle a nadar era mesmo um prego!
Foi tagarelando, tagarelando, mas sem alludir á Rosa. Todas as vezes que a rapariga lhe acudia á lembrança, parecia que se lhe punha um nó na garganta.
Afinal o Jorge deu por isto, e foi o proprio que perguntou:
--O’ José Maria, tu estás, a modos, exquisito? Parece que tens uma coisa para me dizer e que não te _astreves_...
O outro ainda lhe retorquiu com um «Olha lá!...» e quiz fingir ar de riso. Mas não poude levar por deante a dissimulação e disse por fim, deixando-se cahir sentado n’uma pedra:
--Pois tenho, tenho muito que te dizer.
--Se é da Rosa, não me digas nada! respondeu-lhe o amigo com arrebatamento. Sei que ella não vae á tua bola, e pódes ter ouvido por ahi qualquer coisa contra a rapariga, e vir então buzinar-me os ouvidos... Se adivinhei, não tenhas esse trabalho!
--Ó Jorge, pois tu fazes de mim similhante ideia?! perguntou o José Maria todo sentido e levantando-se de esfuziote. Metteu-se-te na cabeça que eu fosse capaz de dizer coisas, de que não tivesse a certeza? Bem! Bem! Como te deram volta ao juizo, já aqui não está quem falou ... isto é, quem ia falar!
--Sim, cala-te, que é o melhor! Só faltava que tambem tu me viesses ralar o interior, que já anda bem consumido. Só Deos é que sabe!...
E tendo lançado para longe o sacho com que andava cavando, levou ambos os punhos aos olhos, e desatou a soluçar. Coisa que não fazia desde creança, chorou--chorou lagrimas abundantes, que lhe escorriam pelo rosto e pelas mãos.
Certificou-se o José Maria de que mais ninguem podia ver o amigo, chegou-se a elle e passou-lhe um braço em volta do pescoço.
--Então! Que diabo! Isso não vale a pena! disse-lhe com meiguice. Pois ha mulher que mereça a vida de um homem? Não te lembras da minha serva de Deus? Bem amigo d’ella que eu era: vi-a morrer e ainda por cá estou. Com essas coisas dás cabo de ti.
--Tu, tu é que dás. Para que vieste bulir commigo? Deixasses-me quieto! E dizendo-lhe isto de mau modo, o Jorge arredou-se do camarada e ficou de costas para elle, sem comprehender que fosse dictada pela amizade aquella confidencia.
Pois não lhe trazia a certeza de que elle já receiava? Receiava, sim, mas não queria acreditar, desejoso de que o tempo viesse a embotar aquella duvida, e esperançado em que por fim se conhecesse que a rapariga estava innocente, como lh’o dizia o seu espirito cheio de rectidão. E ainda no peior dos casos, se em verdade a Rosa fosse má mulher, para que haviam de lh’o dizer, se mais dia menos dia elle mesmo descobriria tudo, com certeza?
Por isso nem queria encarar com o seu antigo camarada. Qualquer outro já teria pago bem caro o atrevimento!
O José Maria entendeu que se devia ir embora, o que era aliás seu desejo desde que alli estava.
--Haja saude, Jorge, e não me fiques querendo mal.
O outro encolheu os hombros desabridamente, sem mudar de posição.
--Não te ponhas com maus modos, homem! Aprender até morrer, bem diz o dictado.
E chegando-se mais, concluiu:
--Por me dares esse _pago_, não cuides que ouvindo algum marau dizer poucas vergonhas de ti, deixe de saltar-lhe para cima com vento fresco, apesar de velho e estropiado. Haja saude!