Chapter 10 of 18 · 3757 words · ~19 min read

Part 10

O facto é que nenhuma impressão guardei dos Estados-Unidos de ordem equivalente á impressão ingleza, nem mesmo a de liberdade individual. E certo que o Americano, comparado com o Inglez, tem o sentimento da altivez individual mais forte, porque não ha classe, nem hierarchia a que elle se curve. O Inglez tem reverencia pela posição, pela classe, pelo nascimento; o Americano não tem, e isto faz naturalmente que este se considere mais independente no seu modo de sentir do que o Inglez. É incontestavel que a democracia, introduzindo na educação a idéa da mais perfeita egualdade, levanta no homem o sentimento do orgulho proprio. A questão é saber, tomando o conjuncto dos resultados, si as sociedades antigas onde as influencias tradicionaes não se apagaram de todo, como a ingleza, antes são por assim dizer artificialmente mantidas, não produzem com as limitações de classe uma dignidade pessoal moralmente superior a essa altivez da egualdade. E preciso não esquecer, tratando-se do Norte-Americano, que a egualdade humana para elle fica dentro dos limites da raça; já não fallando do Chim ou do negro,--que seria classificado, si vencesse o instincto americano, em uma ordem differente da do homem,--nunca ninguem convenceria o livre cidadão dos Estados-Unidos, como elle se chama, de que o seu vizinho do Mexico ou de Cuba, ou os emigrantes analphabetos e indigentes que elle repelle dos seus portos, são seus eguaes. Para com estes o seu sentimento de altivez converte-se no mais fundo desdem que ente humano possa sentir por outro.

Não quizera eu negara inspiração superior que ha no sentimento da egualdade na America, como no antigo Israel e na antiga Grecia, onde elle foi um sopro de liberdade, de heroismo, de independencia, de que procederam os mais perfeitos typos na arte e na religião. É evidente que nesse caminho é a Inglaterra que avança na direcção dos Estados-Unidos e não os Estados-Unidos que retrocedem a encontrar a Inglaterra. Ninguem que conheça o typo americano, desde o _news-boy_, que grita os jornaes na rua, até o _king_, o rei, de algum immenso monopolio ou especulação, estradas de ferro, minas de carvão ou de prata, mercado de algodão ou de farinha de trigo, desconhecerá que a caracteristica, por excellencia, do Americano é a convicção de que _melhor_ do que elle não existe ninguem no mundo. A materia prima dos discursos feitos ás multidões, ou dos artigos de propaganda eleitoral, posso dizer que se contem toda nesta phrase, que ouvi a um dos oradores de um _monster-meeting_: «Nos Estados-Unidos (elle disse, como sempre, _in America_) cada homem é um rei, e cada mulher uma rainha». Talvez fosse paradoxo dizer eu que o effeito de tal sentimento não póde ser sinão gerar um illimitado orgulho, e que do orgulho renascerá sinão a desegualdade, porquanto a egualdade póde ficar entranhada no sangue da raça, o servilismo. Não foi assim sempre com as mais livres de todas as raças e as mais soberbas de todas as democracias? O sentimento, entretanto, da egualdade perante a lei e perante a justiça, qualquer que possa ser o sentimento da egualdade de condição, é maior, é mais seguro na Inglaterra do que nos Estados-Unidos. É mais provavel que o _groom_ do marquez de Salisbury obtenha justiça contra seu amo do que o caixeiro de um grande estabelecimento de Nova-York contra o patrão, si este tiver qualquer influencia na City-Hall.

Nos Estados-Unidos não seria necessario annunciar hoje: «Precisa-se de uma aristocracia». Essa aristocracia já existe, ou, pelo menos, se está formando rapidamente, como tudo se fórma alli: aristocracia de nascimento, aristocracia de fortuna, aristocracia de intelligencia, aristocracia de belleza. O que distingue essa aristocracia sem titulos nem pergaminhos de nobreza, toda de convenção, mas, apezar disso, uma aristocracia, o que a distingue das outras aristocracias do mundo é não ser politica, ser mesmo o resultado da abstenção politica. É em segundo logar,--e este é o ponto mais delicado da «_sociedade_» americana,--a idéa que se insinuou entre as mulheres desse circulo estreitissimo, de que o _gentleman_ inglez é um typo superior ao dos seus patricios de maior cultura e distincção. É certo que as Americanas que preferem casar com estrangeiro para pertencerem ás rodas mais exclusivas da aristocracia européa são poucas em relação ás que casam com compatriotas seus, mas a aristocracia é, em si mesma, uma minoria, e são as suas minorias que melhor lhes representam o espirito. Essa preferencia pelo estrangeiro, por parte da mulher americana, quer me parecer um desastre sensivel para o sentimento da egualdade dos Americanos. Si o resultado desse sentimento, e é claro que o effeito não é de outra causa, é crear uma aristocracia em que o homem é considerado abaixo do nivel da mulher, e menos proprio para inspirar-lhe amor e desposal-a do que o _lord_ ou o _honorable_ inglez, póde-se dizer que, na mais alta esphera da sociedade, aquelle sentimento falliu desastrosamente.

Nesse ponto, nenhuma alta sociedade soffre de um mal tão deprimente, como é a consciencia que o homem do mundo americano tem de que a sua joven patricia, bella e muitas vezes millionaria, reputa o duque inglez ou o conde francez um ente superior a elle. Não é o titulo necessariamente o que constitue a vantagem do estrangeiro que telegrapha para Londres ou Pariz o seu _veni, vidi, vici_, dias depois de ter desembarcado; é em parte o prestigio, a seducção do mundo europeu e a idéa de que só excepcionalmente o Americano chegaria a afinar-se com a sociedade ingleza, franceza ou romana, como ella, americana, se afina; mas é principalmente o typo aristocratico de homem que exerce sobre ella essa fascinação desoladora para os seus compatriotas. Ha familias, e as haverá cada dia mais nos Estados-Unidos, que são familias patricias, seja pela immensa riqueza, como os Astors e os Vanderbilts, pela magistratura consular que exerceram, como os Adams, os Hamiltons, os Jays, pelas gerações que representam de nomes conhecidos e de proeminencia social, e é evidente que nessa aristocracia, que tende a ter o seu espirito de classe, a idéa de casamento com estrangeiro, ou de superioridade do estrangeiro, não póde ser sinão a excepção. Mas em uma sociedade é preciso levar em conta o sentimento do grupo que attráe nella a maior somma de interesse publico, (não ha duvida que, no ultimo degráu da sociedade americana, o prestigio do nobre inglez, dos bons titulos francezes, dos principes romanos, vence toda a competição nacional). Está ahi uma terrivel concurrencia, contra a qual é impotente o genio proteccionista do paiz. Apenas, como compensação, póder-se-ia imaginar um _drawback_ em favor dos Americanos que casassem na alta sociedade ou finança européas. Uma aristocracia, onde as mulheres mais ambicionadas, as que têm a primazia da belleza, da fortuna, da seducção, julgam o estrangeiro, quando se trata de amor ou de união, mais ao seu nivel do que o seu compatriota, soffre de um desequilibrio de ideal entre os dois sexos. Não é sinão justo apreciar as sociedades pela sua flôr, pela sua _élite_, isto é, pelo que ellas mais profundamente admiram em si mesmas e o mundo mais admira nellas.

XVII

INFLUENCIA DOS ESTADOS-UNIDOS

Eu não podia, entretanto, ter vivido quasi dois annos nos Estados-Unidos sem em algum ponto ser modificado pela influencia norte-americana. Uma coisa é a Europa, outra a America do Norte. Entre os Americanos, o metal do caracter, o fundo de experiencia humana, o tacto da vida é, fallando do paiz como uma só pessôa moral, anglo-saxonio. Os Estados-Unidos, como a Australia e o Canadá, não pódem esconder a sua procedencia. O fundo anglo-saxonio revela-se, augmentado ou diminuido, na coragem e tenacidade, na dureza e impenetrabilidade, no espirito de empreza e de independencia da raça, tambem na brutalidade e crueldade do instincto popular, nas rixas de sangue, na bebida, nos lynchamentos, na sêde insaciavel de dinheiro, e tambem, outros traços, na necessidade de limpeza physica e moral, no espirito de conservação, na emulação e amor-proprio nacionaes, na religião, no respeito á mulher, na capacidade para o governo livre.

Que homem differente, porém, é o Americano do Inglez! Os moldes são tão diversos que, para explicar a differença, é preciso admittir uma influencia modificadora mais forte do que a de instituições sociaes, uma influencia de região,--cada grande região do globo produzindo como o tempo uma raça sua, differente das outras. As instituições modificam o caracter de um povo, mas não se provou ainda que lhe modificassem o typo e o temperamento physico. Qual seria a differença entre o Grego do tempo de Milciades e do tempo de Alexandre ou de Trajano? Qual a differença do Napolitano do tempo de Affonso o Grande para o do rei Umberto, ou do Portuguez manoelino para o de hoje?

A comparação do machinismo politico-social entre a America do Norte e a Inglaterra é, em quasi tudo, favoravel a esta. As instituições inglezas, tanto as politicas como as judiciarias, tanto as publicas como as privadas, têm mais dignidade, mais seriedade, mais respeitabilidade. Na Camara dos Communs não se imagina o processo do _lobbying_, não ha na administração ingleza o _spoils system_, ninguem pensaria em _squaring_ um tribunal inglez, não ha na Inglaterra um trecho de territorio em que os cidadãos só tenham confiança na justiça que fazem por suas mãos, como nos _lynchings_ americanos. A todos os que têm que tratar com a administração, que estão na dependencia da justiça, a organização americana offerece muito menos garantias de equidade e menor protecção do que a ingleza.

Isto, por um lado; por outro, quem entra na vida publica tem que procurar nos Estados-Unidos as boas graças de individuos muito differentes dos que na Inglaterra abrem aos principiantes as portas da politica; além disso, tem que apprender por um catecismo muito mais relaxado. A intervenção do grande pensador, do grande escriptor, do homem competente, faz-se sentir na Inglaterra mais do que nos Estados-Unidos, onde as massas obedecem a influencias que não têm nada de intellectual e não têm apreço por nenhuma especie de elaboração mental. Tudo o que é superior tem, com effeito, o cunho da individualidade, envolve, portanto, desdem pela sabedoria das massas. O genio politico, qualquer que seja, está para ellas eivado de rebeldia. Singularmente, o cidadão vale menos nos Estados-Unidos do que na Inglaterra. Para ser uma unidade na politica americana, é preciso que o individuo se matricule em um partido, e, desde esse dia, renuncie á sua personalidade. Na Inglaterra não ha semelhante escravidão do partido. O paiz é governado, como os Estados-Unidos, por dois partidos que se alternam e se equilibram, mas os partidos inglezes são partidos de opinião, não são _machines_, como os americanos, das quaes certo numero de _bosses_ governam e dirigem os movimentos.

Tomando-se, porém, o individuo sem relação ao machinismo politico, o homem que não tem dependencias da administração nem da justiça e que renuncia o direito de desgovernar elle tambem os seus concidadãos, os Estados-Unidos são o paiz livre por excellencia. Os Americanos são uma nação que quizera viver sem governo e agradece aos seus governantes suspeitarem-lhe a intenção. D’ahi, a popularidade de seus Presidentes: elles não fazem sombra ao paiz, não pesam sobre a nação. A pressão de cima para baixo, do governo sobre a sociedade, a que a humanidade se habituou de tempos immemoriaes, de fórma a não poder viver sem ella, faz-se sentir nos Estados-Unidos menos do que em outra qualquer parte, menos do que na Inglaterra, onde a protecção governamental está sempre presente. A columna da autoridade é menor sobre os hombros do Americano do que sobre os de qualquer outro povo; a sua respiração é a mais franca, a mais larga, a mais profunda de todas. O governo póde ser melhor, mais perfeito na Inglaterra: que lhe importa isso, si o que elle quer é mesmo que a acção do governo se vá cada dia restringindo e elle a sinta menos e tenha menos que vêr com ella? A questão é saber si a columna de auctoridade, que é hoje tão leve nos Estados-Unidos, não virá um dia a ser a mais pesada de todas. O systema americano póde bem corresponder, dada a differença de epocha e adeantamento, á liberdade pessoal de que gozaram sempre mais ou menos as raças que tinham espaço illimitado para se estenderem e escassa vizinhança em paiz novo. No fundo, essa extrema liberdade é uma fórma de individualismo, de isolamento, de vida á parte, de reponsabilidade ainda não formada, do homem na sociedade. Isoladamente, o Americano será, como eu disse, o mais livre de todos os homens; como cidadão, porém, não se póde dizer que o seu contracto de sociedade esteja revestido das mesmas garantias que o do Inglez, por exemplo. A auctoridade é menor sobre os seus hombros, mas a solidariedade humana é tambem mais frouxa em sua consciencia.

Uma coisa o governo americano não é: não é o governo do melhor homem, como pretendiam ser as democracias antigas. Governo pessoal, as presidencias pódem ser, pelo menos foram algumas accusadas de o ser; não se póde, porém, apontar neste seculo o homem de influencia nos Estados-Unidos, o Gladstone ou o Gambeta americano. A nação dispensa tutores, directores, conselheiros, rejeita tudo o que pareça _patronizing_, ares de protecção e condescendencia para com ella. Aos seus olhos, o que faz um estadista consideravel e importante é a somma de confiança que elle lhe merece, é o reflexo da satisfação que causa a Uncle Sam.

A idéa de que o seu governo é o mais forte do mundo e o que mais economisa e occulta a sua força, é o orgulho por excellencia do Americano. Entre o militarismo europeu e a democracia desarmada dos Estados-Unidos póde um dia rebentar um conflicto que hoje parece quasi um paradoxo figurar, mas, até se experimentar em uma grande guerra estrangeira, como se provou em uma grande rebellião, a solidez e a elasticidade da americana, não se a póde considerar superior á velha textura européa.

O que se póde dizer é que os Estados-Unidos não tiveram ainda os mesmos perigos de que se acautelar que a Europa. Esse governo que muda todos os quatro annos, póde ser o mais forte do mundo, mas não foi experimentado nas mesmas condições que os outros, e está para estes, que são governos armados e em constante vigia pelo risco das coalições estrangeiras, como os magnificos transatlanticos, de vastos salões illuminados, cobertas altas, camarotes espaçosos e arejados, verdadeiras cidades fluctuantes, estão como habitação para os navios de combate.

A União, comparada á Inglaterra, é como a _prairie_ americana comparada ao pateo interior de um castello normando. Em uma, ha de todos os lados o espaço descortinado, a planicie sem fim; em outro, o espectador está fechado por altas paredes, que lhe contam sempre a historia de outras epochas. O passado pesa sobre o presente na Inglaterra e o limita; na America, não ha vista retrospectiva. De tudo isto resulta para o Americano um sentimento de independencia, que o faria, como fazia o Grego, sentir-se metade escravo, si lhe dessem um rei, mesmo quando o effeito da realeza fosse augmentar a sua parte effectiva de direitos e de influencia na communhão. É nisto que consiste a maior «liberdade» americana: no sentimento da egualdade hierarchica entre governantes e governados.

Não havia perigo de que eu adquirisse essa idiosyncrasia americana: era evidente para mim que ella era o resultado das condições em que o paiz crescêra e que, si a independencia tivesse sido feita com um principe inglez, como a nossa foi feita com o herdeiro do throno, os Estados-Unidos, em um seculo de progresso e de adeantamento, teriam desenvolvido para com a sua casa reinante o mesmo sentimento de _loyalty_ dos Inglezes. Si a realeza, na Inglaterra, passou, no nosso tempo, pela metamorphose que se observa do reinado de Jorge IV para o reinado de Victoria, teria passado na America do Norte por uma transformação ainda maior. Mr. King ou Mrs. Queen seria uma pessôa muito mais popular do que Mr. President, e diariamente receberia mais esmagadores _shake-hands_ ou mais familiares cartões-postaes. No Brasil a monarchia foi o que vimos, uma pura magistratura popular; como não seria nos Estados-Unidos, onde o principio activo, a força corrosiva da democracia é ainda mais energica? A monarchia na Nova-Inglaterra, teria, provavelmente, exercido maior influencia sobre as velhas monarchias européas do que exerceu a grande Republica, e outra especie de influencia sobre o resto da America.

Depois da recepção e do acolhimento que Dom Pedro II teve nos Estados-Unidos em 1876, não era mais licito duvidar de que para a intelligencia culta do paiz a monarchia constitucional, representada por uma dynastia como a brasileira, era um governo muito superior ás chamadas republicas da America Latina. Perante multidões americanas nem sempre conviria, talvez, ao orador dizer isso; elle poderia ás vezes declamar que a peior das republicas é um progresso sobre a melhor das monarchias, mas eu sentia que fallar assim era o privilegio do demagogo irresponsavel, e que esse não fôra o sentimento dos Washingtons, dos Hamiltons, dos Jeffersons, nem é o dos que procuram seguir-lhes as tradições. O effeito do republicanismo norte-americano só podia ser para mim o de corrigir o que houvesse de supersticioso no meu monarchismo, tirar-lhe tudo o que parecesse direito divino, consagração super-humana. Entre os dois espiritos, o inglez e o norte-americano, eu não via opposição, como não ha opposição entre as duas raças e as duas sociedades; não havia nada mais facil de comprehender e conciliar do que a admiração com que Gladstone falla dos Estados-Unidos e a admiração dos escriptores mais respeitaveis da America pela Constituição ingleza.

Nenhuma das minhas idéas politicas se alterou nos Estados-Unidos, mas ninguem aspira o ar americano sem achal-o mais vivo, mais leve, mais elastico do que os outros saturados de tradição e auctoridade, de convencionanismo e cerimonial. Essa impressão não se apaga na vida. Aquelle ar, quem o aspirou uma vez, prolongadamente, não o confundirá com o de nenhuma outra parte; sua composição é differente da de todos.

Quanto a mim, fui tratado com tanta benevolencia, encontrei tão generoso acolhimento nos Estados-Unidos, que ainda hoje me reconforto nessas doces recordações. A impressão geral que me deixou o que vi na America do Norte, é uma impressão de nitidez; tudo é nitido, de contorno perfeito e incisivo, como uma medalha antiga. O Inglez fará tudo solido; o Francez, elegante; o Americano procura fazer nitido, _clear cut_. Isso reconhece-se logo em qualquer estampa americana. Ha uma perfeição á parte, que é a perfeição americana, distincta do ultimo toque que o Inglez ou o Francez dá ás coisas, perfeição real, incontestavel, como é a japoneza. Póde-se preferir o modo de vêr, ou, antes, o modo de olhar,--a arte não é no fundo sinão um modo de olhar, uma questão de angulo visual,--do Europeu ao do Americano, é tambem isso em grande parte uma questão de raça, mas não ha duvida que o traço americano é um traço que alcançou, por sua vez, a perfeição. Tudo o que vi me pareceu feito, desenhado com esse traço, que eu não confundiria com outro. O que o distingue é que elle não exprime, como os outros, um estado de espirito ou aspiração de ordem puramente esthetica; que não exprime uma resolução, uma vontade, um caracter. Si não fosse a imaginação historica, de que eu não poderia, nem quizera, desfazer-me, nenhuma residencia, nenhuma vida, nenhum espectaculo me teria nunca parecido tão encantador como o de Nova-York. Não sei si o céo de Nova-York não me pareceu o mais bello do mundo; o que sei é que elle derrama em ondas de luz a alegria, a vida, a coragem, sobre a mais admiravel procissão de mocidade e de belleza humana que jámais passou deante dos meus olhos, a que flue e reflue todas as tardes e manhãs da Quinta Avenida para o Central Park.

Ao Americano, ao homem, não á mulher, e ao homem que não pertence á _élite_ do paiz, faltará o que se tem convencionado chamar maneiras, os toques ou signaes, desconhecidos dos profanos, pelos quaes os iniciados nos segredos mundanos se reconhecem entre si; isto quer dizer sómente que a americana é uma raça que ainda está crescendo na mais perfeita egualdade e ganhando a vida em desenfreada competição. Não ha, porém, no mundo uma escola egual a essa para se aprender o que, d’ora em deante pelo menos, é o mais importante dos preparatorios da vida,--a arte de contar comsigo só. O menino americano, e quando se diz o menino nos Estados-Unidos entende-se a menina tambem, é mettido desde quasi a primeira infancia em um banho chimico que lhe dá a cada fibra da vontade a rijeza e a elasticidade do aço. Qualquer que seja o valor da cultura, nenhum pae preferirá deixar ao filho mais um sentido intellectual a deixar-lhe o poderoso _pick-me-up_ americano, o cordial que impede a enervação nos grandes transes moraes. E que o jogo da vida nos tempos modernos,--muito mais nos seculos que vão vir, em que a concurrencia será ainda mais numerosa e implacavel,--não se parece com figuras de minuete ou com divertimentos campestres do seculo passado, como os vemos em um Boucher ou em um Goya; parece-se com as chamadas _montanhas russas_: é um incessante despenhar a toda a velocidade, montanha abaixo, de trens que com o impulso da descida transpõem as escarpas fronteiras para se precipitarem de novo e de novo reapparecerem mais longe, e para essa continua sensação de vertigem é principalmente o coração que precisa ser robustecido. Segundo toda probabilidade, os Estados-Unidos hão de um dia parar, e então terão tempo para produzir a sua sociedade culta, como os velhos paizes da Europa. Já ha nos Estados-Unidos porções da sociedade que pararam e querem permanecer em repouso; essas formam o primeiro indicio de uma aristocracia, que um dia será um grande poder na União, uma grande influencia ou conservadora ou artistica.

Em uma entrevista que concedeu ha annos a um reporter americano, Herbert Spencer concluiu com esta previsão sobre o futuro dos Estados-Unidos: «De verdades biologicas deve-se inferir que a mistura eventual das variedades alliadas da raça Aryana que formam a população hão de produzir um mais poderoso typo de homem do que tem existido até hoje, e um typo de homem mais plastico, mais adaptavel, mais capaz de supportar as modificações necessarias para a completa vida social. Por maiores que sejam as difficuldades que os Americanos tenham que vencer e as tribulações por que tenham que passar, elles podem razoavelmente contar com uma epocha em que hão de produzir uma civilisação mais grandiosa do que qualquer que o mundo tenha visto.»