Part 14
«Meu Mestre e meu Imperador,--Não passará o 3º anniversario da Libertação da Raça Africana no Brazil sem que André Rebouças dê novo testemunho de filial gratidão ao Martyr sublime da Abolição.
«Sinto-me feliz por ter sido escolhido pelo Bom Deus para representar a devotação da Raça Africana a V. M. Imperial e á Princeza Redemptora, e alegro-me repetindo-o incessantemente.
«É hoje grato relembrar a _synthese_ da nossa vida, como meu Bom Mestre disse no _Alagôas_ quando commemorámos seu 64º anniversario.
«Principiou em Petropolis, em 1850, ha quarenta e um annos, examinando-me em arithmetica, ainda menino de collegio, e continuou, quasi quotidianamente, nas lições e nos exames das Escolas Militar, Central e de Applicação na fortaleza da Praia Vermelha até dezembro de 1860.
«Os annos de 1861 e 1862 foram de estudos praticos de caminho de ferro e de portos de mar na Europa. A primeira Memoria, escripta com o Antonio, datada de Marselha, em 9 de junho de 1861, foi dedicada, como de justiça, ao nosso Bom Mestre e Imperador... Quando Vossa Magestade encontrava meu Pai, suas palavras primeiras eram:--_Como vão os meninos?--Onde estão agora?--Recommende-lhes sempre que estudem e que trabalhem._
«Voltámos ao Brazil em fins de 1862, e encetámos a vida pratica nos trabalhos militares de Santa Catharina, motivados pelo conflicto Christie.
«A 28 de dezembro de 1863 separei-me, pela primeira vez, do meu irmão Antonio... Começa d’ahi em diante o periodo industrial da minha vida...
«Vossa Magestade e meu Pai não queriam que eu tivesse uma orientação além da vida tranquilla da Sciencia e do Professorado; mas o Visconde de Itaborahy, que tambem me devotava affeição paternal, dizia:--_André!... Quero que você succeda ao Mauá!..._
«Sabe Vossa Magestade quanto soffri da oligarchia politicante e da plutocracia escravocrata nesses afanosos tempos... Só tenho hoje delles uma consolação:--Projectei e construi as Docas de Pedro II; concebi e dirigi o caminho de ferro Conde d’Eu e sua bella estação maritima do Cabedello.
«Vossa Magestade gosta de recordar que, em Uruguayana, salvámos juntos, pelo nosso horror ao sangue, 7000 Paraguayos e centenas de Brazileiros... Na actual antipathia ao Militarismo, apenas lembro-me dos trabalhos de Itapirú e Tuyuty.
«Em 1880 começa a Propaganda Abolicionista. Nós, tribunos ardentes, só tinhamos uma certeza e uma esperança:--o Imperador. Em 1871 havia Vossa Magestade concedido á Filha Predilecta libertar o berço dos captivos com Paranhos, Visconde do Rio Branco.
«Em 1888 a iniciativa partiu d’Aquella que não póde ver lagrimas nem ouvir soluços de pobres, de infelizes e de escravos, no amor santo de Martyr do Christianismo Inicial, aspirando menos á gloria na Terra do que anhelando a benemerencia no Ceu, junto a Jesus, o Redemptor dos Redemptores.
«Emfim... Creio que podemos esperar tranquillos o juizo de Deus; porque havemos cumprido sua grande Lei trabalhando pelo Progresso da Humanidade.
«Agora, só tenho a dizer-lhe que desde 15 de novembro de 1889 perdi a linha divisoria entre meu Pai e meu Mestre e Imperador, e que é na maior effusão de amor que me assigno,--Com todo o Coração--_André Rebouças_.
Ou este itinerario, que elle traçára para a fuga de escravos de S. Paulo para o Norte, pura phantasia, mas tão cheio para todos nós de vestigios de sua originalidade, de toques da sua generosa sensibilidade, quasi impessoal:
CAMINHO DE FERRO SUBTERRANEO
do
ALTO S. FRANCISCO AO CEARÁ LIVRE
ESTAÇÃO INICIAL... S. Paulo; junto ao tumulo de Luiz Gama.
SEGUNDA ESTAÇÃO... Pirassinunga.
TERCEIRA ESTAÇÃO... Cachoeira de Mogy-Guassú.
QUARTA ESTAÇÃO... Era pleno sertão, com rumo de Nordéste; o Sol deve amanhecer á direita e cair, á tarde, á esquerda.
QUINTA ESTAÇÃO... Piumhy, nascente do Rio S. Francisco, acompanhando sempre o bello rio, abundante de peixes e de fructos deliciosos.
SEXTA ESTAÇÃO... De um lado Goyaz livre; do outro o sertão da Bahia, onde não ha _capitães do mato_.
SETIMA ESTAÇÃO... Na Villa da Barra, onde começam as grandes cachoeiras do S. Francisco.
OITAVA ESTAÇÃO... No varadouro das aguas do S. Francisco para as do Parnahyba.
NONA ESTAÇÃO... No Paraiso,--no Ceará Livre.»
Mathematico e astronomo, botanico e geologo, industrial e moralista, hygienista e philanthropo, poeta e philosopho, Rebouças foi talvez dos homens nascidos no Brasil o unico _universal_ pelo espirito e pelo coração... Pelo espirito teremos tido alguns, pelo coração outros; mas sómente elle foi capaz de reflectir em si ao mesmo tempo a universalidade dos conhecimentos e a dos sentimentos humanos. Quem sabe si não foi a imagem que partiu o espelho! «Delirante ovação dos meus alumnos, escrevia elle em 15 de maio de 1888 no seu diario. Annuncio-lhes o projecto de Triangulação Moral e Cadastral do Brasil. Voto de louvor pela Congregação. Nova ovação. Carregado pelos alumnos por todo o peristylo.» Da abolição elle foi o maior, não pela acção exterior, ou influencia directa sobre o movimento, mas pela força e altura da projecção cerebral, pela rotação vertiginosa de idéas e sensações em torno do eixo consumidor e candente, que era para elle o soffrimento do escravo. Era uma fornalha cosmica a que ardia nelle. Si Rebouças inda é visto no seu tempo como uma estrella de segunda grandeza, é porque estava mais longe do que todas... Dos Evangelistas da nossa boa nova elle é que teria por attributo a aguia... Ha no seu estylo e nos seus moldes muita coisa que lembra S. João... Idealista todo elle, é quasi só por symbolos que escreve... A ilha da Madeira foi a Pathmos de um apocalypse infelizmente perdido, porque suas ultimas paginas, voltado para o Sul, elle as escrevia, tomando por lettras as estrellas e as constellações. Sua lenda, porém, está feita, não ha perigo para elle de esquecimento: a lenda do seu desterro e de sua amizade a D. Pedro II.
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Outro com quem vivi até sua morte em grande approximação de idéas, foi Joaquim Serra. Desde 1880 até a abolição elle não deixou passar um dia sem a sua linha... Minado por uma doença que não perdôa, salvava cada manhã o que bastasse de alegria para sorrir á esperança dos escravos, a qual viu crescer dia por dia durante esses dez annos como uma planta delicada que elle mesmo tivesse feito nascer... Feita a abolição, desabrochada a flôr, morria elle... E que morte! que saudade da mulher e dos filhos, da filhinha adorada, que não se queria afastar um instante d’elle! Serra cumpriu a sua tarefa com uma constancia e assiduidade a toda prova, sem dar uma falta, e com o mais perfeito espirito de abnegação e de lealdade... Renunciando os primeiros logares, elle mostrava, entretanto, de mais em mais uma agudeza de vista e uma clareza de expressão dignas de um verdadeiro _leader_. Eu mesmo, que acreditava conhecel-o, fui surprehendido pela ousadia da sua manobra, quando uma vez elle prometteu ao barão de Cotegipe todo o nosso apoio,--nós respondiamos uns pelos outros,--si fizesse concessões ao movimento. Ao contrario de Rebouças, Serra era um espirito politico, mas acima do seu partido, do qual fôra durante a opposição o mais serviçal dos auxiliares, collocava a nossa causa commum com uma sinceridade intima que nunca foi suspeitada... «Passamento do grande Joaquim Serra, escreve Rebouças no seu _Diario_ em 29 de outubro de 1888, companheiro de Academia em 1854 e de lucta abolicionista de 1880-1888, o publicista que _mais_ escreveu contra os escravocratas.» «Ninguem fez _mais_ do que elle, escrevia Gusmão Lobo por sua morte... e quem fez _tanto_...?»
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Gusmão Lobo... É outro nome do nosso circulo interior... Alguns dos que combateram juntos sem descanço, durante os primeiros cinco annos da propaganda, os quaes foram os annos do ostracismo politico e social da idéa, acreditaram sua tarefa, si não acabada, pelo menos grandemente alliviada no dia em que um grande partido no governo, com os seus quadros, sua influencia, seu eleitorado, sua imprensa, adoptou a causa de que elles eram até então os unicos arrimos... Entre esses está Gusmão Lobo, que não teria deixado a penna de combate, si não tivesse visto a bandeira que ella protegia, passar triumphante das mãos dos agitadores para as mãos de Presidentes do Conselho. Na epocha decisiva do movimento, aquella em que se teve de crear o impulso e de tornal-o mais forte do que a resistencia, isto é, em que se venceu virtualmente a campanha, os seus serviços foram inapreciaveis... Elle sósinho enchia com a emancipação o _Jornal do Commercio_ desde a columna editorial, onde por toda a especie de habilidades, artificios e subtilezas, graças á boa vontade do dr. Luiz de Castro, conseguia ter a questão sempre em evidencia... Seu talento, seu estylo de escriptor, airoso, perfeito, prismatico, um dos mais bellos e mais espontaneos do nosso tempo, era verdadeiramente inexhaurivel... Elle achava solução para tudo, tinha os expedientes e as finuras, como tinha a plastica da expressão... Todo o seu trabalho foi anonymo e poderia assim passar despercebido de outra geração, si não restasse o testemunho unanime dos que trabalharam com elle... Era um assombro a variedade dos papeis que elle desempenhava na imprensa, incalculavel o valor da sua presença e conselho em nossas reuniões, e depois no intimo do gabinete Dantas. Seu nome está escripto, por toda a parte, nas paredes das Catacumbas em que o abolicionismo nascente viveu os primeiros cinco annos como uma pequena egreja perseguida, mas apparece cada vez mais raro á medida que a nova fé se vae tornando religião official. É um dos enigmas do nosso tempo,--enigma nacional, porque se prende á questão do emmurchecimento rapido de toda a flôr do paiz,--como semelhante talento renunciou mais tarde de repente a toda a ambição...
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Não quero fazer a galeria da abolição, mas, como dei, vencido pela saudade, dois ou tres perfis, tão imperfeitos, de amigos, pagarei tambem o meu tributo a José do Patrocinio... Este é o representante do espirito revolucionario que com o espirito liberal e o espirito de governo fez a abolição, mas que foi mais forte do que elles, e acabou por os absorver e dominar... Sem o espirito governamental de homens como Dantas, Antonio Prado e João Alfredo, não se teria chegado pacificamente ao fim, nem tão cedo; sem o espirito humanitario, extreme de odios e tendencias politicas, a abolição teria degenerado em uma guerra de raças ou em um encontro de facções; sem o trabalho vario, inapreciavel, de cada um dos grandes factores provinciaes, que conservarão sua autonomia na historia, como o do Ceará, com João Cordeiro, o de S. Paulo com Antonio Bento, o de Pernambuco com João Ramos, tomando esses nomes como collectivos, o resultado teria sido differente e talvez funesto. O que Patrocinio, porém, representa é o _fatum_, é o irresistivel do movimento... Elle é uma mistura de Spartaco e de Camille Desmoulins... Os que luctavam sómente contra a escravidão, eram como os liberaes de 1789, da raça dos cegos de boa vontade, sinão voluntarios, que as revoluções empregam para lhes abrirem a primeira brecha... Patrocinio é a propria revolução. Si o abolicionismo no dia seguinte ao seu triumpho dispersou-se e logo depois uma parte delle alliou-se á grande propriedade contra a dynastia que elle tinha induzido ao sacrificio, é que o espirito que mais profundamente o agitou e revolveu, foi o espirito revolucionario que a sociedade abalada tinha deixado escapar pela primeira fenda dos seus alicerces... Patrocinio foi a expressão da sua epocha; em certo sentido, a figura representativa della...
XXII
CARACTER DO MOVIMENTO.--A PARTE DA DYNASTIA
A abolição teria sido uma obra de outro alcance moral, si tivesse sido feita do altar, pregada do pulpito, proseguida de geração em geração pelo clero e pelos educadores da consciencia. Infelizmente, o espirito revolucionario teve que executar em poucos annos uma tarefa que havia sido desprezada durante um seculo. Uma grande reforma social, para ser agradavel a Deus, exige que a alma do proprio operario seja purificada em primeiro logar. São essas as primicias que elle disputa e que lhe pertencem. A differença é grande, mesmo para as emprezas mais justas e mais bellas, si as levamos por deante com espirito de verdadeira caridade christã, ou si não empregamos nellas sinão essa especie de estimulo pessoal a que em moral leiga se chama amor da humanidade. O reformador não vencerá completamente pela copia de justiça que a sua idéa contenha; o resultado da victoria depende do gráu de caridade que inspirar a germinação. A politica é a arte de escolher as sementes; a religião, a de lhes preparar o terreno.
O movimento contra a escravidão no Brasil foi um movimento de caracter humanitario e social antes que religioso; não teve por isso a profundeza moral da corrente que se formou, por exemplo, entre os abolicionistas da Nova-Inglaterra. Era um partido composto de elementos heterogeneos, capazes de destruir um estado social levantado sobre o privilegio e a injustiça, mas não de projectar sobre outras bases o futuro edificio. A realisação da sua obra parava assim naturalmente na suppressão do captiveiro; seu triumpho podia ser seguido, e o foi, de accidentes politicos, até de revoluções, mas não de medidas sociaes complementares em beneficio dos libertados, nem de um grande impulso interior, de renovação da consciencia publica, da expansão dos nobres instinctos sopitados. A liberdade por si só é fecunda, e sobre os destroços da escravidão refar-se-ha com o tempo uma sociedade mais unida, de idéas mais largas, e é possivel que esta proclame seus creadores aquelles que não fizeram mais do que interromper a oppressão que presidia aos antigos nascimentos, os gemidos que assignalavam no Brasil o apparecer de mais uma camada social. A verdade porém, é que a corrente abolicionista parou no dia mesmo da abolição e no dia seguinte refluia.
Durante a campanha abolicionista, em uma das eleições em que fui candidato, um escravo, que parecia feliz, suicidou-se em uma fazenda de Cantagallo. Contou-me uma senhora da familia, annos depois, que perguntado no momento da morte por que attentára contra si, si tinha alguma queixa, elle respondera ao senhor que não, que pensou em matar-se sómente porque eu não tinha sido eleito deputado... Tenho convicção de que a raça negra por um plebiscito sincero e verdadeiro teria desistido de sua liberdade para poupar o menor desgosto aos que se interessavam por ella, e que no fundo, quando ella pensa na madrugada de 15 de novembro, lamenta ainda um pouco o seu 13 de maio. Não se poderia estar em contacto com tanta generosidade e dedicação sem lhe ter um pouco adquirido a marca. Desde a dynastia, que tinha um throno a offerecer, ninguem que tenha tomado parte em sua libertação, o lastimará nunca. Não se lastima a emancipação de uma raça, a transformação immediata do destino de um milhão e meio de vidas humanas com todas as perspectivas que a liberdade abre deante das futuras gerações. Não ha raças ingratas. «Senhor Rebouças, dizia a Princeza Imperial a bordo do _Alagoas_, que os levava juntos para o exilio, si houvesse ainda escravos no Brasil, nós voltariamos para libertal-os.»
Ah! de certo o throno cahiu e muita coisa seguiu-se que me podia fazer pensar hoje com algum travo nesses annos de perfeita illusão... mas não, devia ser assim mesmo... As consequencias, os desvios, as aberrações, estranhas e alheias, não pódem alterar a perfeita belleza de uma obra completa, não destróem mais o rhythmo de um cyclo encerrado... No dia em que a Princeza Imperial se decidiu ao seu grande golpe de humanidade, sabia tudo o que arriscava. A raça que ia libertar não tinha para lhe dar sinão o seu sangue, e ella não o quereria nunca para cimentar o throno de seu filho... A classe proprietaria ameaçava passar-se toda para a Republica, seu pae parecia estar moribundo em Milão, era provavel a mudança de reinado durante a crise, e ella não hesitou; uma voz interior disse-lhe que desempenhasse sua missão, a voz divina que se faz ouvir sempre que um grande dever tem que ser cumprido ou um grande sacrificio que ser acceito. Si a monarchia pudesse sobreviver á abolição, esta seria o seu apanagio; si succumbisse, seria o seu testamento. Quando se tem, sobretudo uma mulher, a faculdade de fazer um grande bem universal, como era a emancipação, não se deve parar deante de presagios; o dever é entregar-se inteiramente nas mãos de Deus. E quem sabe... A impressão quando se olha da altura da posteridade, da historia, é que o papel nacional da dynastia tinha sido bello demais para durar ininterruptamente... Não ha tão extensos espaços de felicidade nas coisas humanas; o surto prolongando-se traria a queda desastrosa. Essa dynastia teve só tres nomes. O fundador fez a independencia do joven paiz americano, desintegrando a velha monarchia européa de que era herdeiro; seu filho encontra aos quinze annos o Imperio enfraquecido pela anarchia, rasgando-se pela ponta do Rio Grande, e funda a unidade nacional sobre tão fortes bases que a guerra do Paraguay, experimentando-a, deixou-a á prova de qualquer pressão interna ou externa, e faz tudo isso sem tocar nas liberdades politicas do paiz que durante cincoenta annos são para elle um _noli me tangere_... Por ultimo, sua filha renuncia virtualmente o throno para apressar a libertação dos ultimos escravos... Cada reinado, contando a ultima regencia da Princeza como um embryão de reinado, é uma nova coroação nacional: o primeiro, a do Estado; o segundo, a da nação; o terceiro, a do povo... A columna assim está perfeita e egual: a base, o fuste, o capitel. A tendencia do meu espirito é collocar-se no ponto de vista definitivo... Deste o 15 de novembro não é uma queda, é uma assumpção... É a ordem do destino para que a dynastia brasileira fosse arrebatada, antes de começar o seu declinio, antes de correr o risco de esquecer a sua tradição.
De certo o exilio de Imperador foi triste, mas tambem foi o que deu á sua figura a majestade que hoje a reveste... Não, não ha assim nada que me faça olhar para a phase em que militei na politica com outro sentimento que não seja o de uma perfeita gratidão... Não devo á dynastia nenhuma reparação; não lhe armei uma cilada; na humilde parte que me coube, o que fiz foi acenar-lhe com a gloria, com a immortalidade, com a perfeição do seu traço na historia... Ninguem póde affirmar que desprezando a abolição ella se teria mantido, ou que não teria degenerado... A abolição em todo o caso era o seu dever, e ella recolheu a gloria do acto; deu-nos quitação...
Que seria feito na historia da lenda monarchica brasileira si no mesmo dia se tivesse proclamado a Republica e a Abolição? Gratidão infinita pelo 13 de maio, isso, sim, lhe devo e deverei sempre; nunca, porém reparação de um damno que não causei...
XXIII
PASSAGEM PELA POLITICA
Ah! o que não recebi nesses annos de lucta pelos escravos! Como os sacrificios que por vezes inspirei, eram maiores que os meus! Eu tinha a fama, a palavra, a carreira politica... É certo que não tive outras recompensas, mas essas eram as mais bellas para um moço, nesse tempo avido de nomeada e das sensações do triumpho. Era o meu nome que sahia victorioso das urnas numa dessas eleições que electrisavam os espiritos liberaes de todo o paiz, que me traziam de longe as bençãos dos velhos _quakers_ da _Anti-Slavery Society_, e até uma vez os votos de Gladstone... Aquelles, porém, que concorriam para a victoria desappareciam na lista anonyma dos esquecidos... Seus nomes, mesmo os principaes, não echoavam fóra da provincia... Só, dentre elles, José Mariano era conhecido de todo o paiz e reputado o arbitro eleitoral do Recife. Quem conhecia, porém, a Antonio Carlos Ferreira da Silva, então simples guarda-livros em uma casa do Recife, que no emtanto fez todas as minhas eleições abolicionistas? A verdade é que era elle o espirito que movia tudo em meu favor; sem elle tudo teria corrido em outra direcção... Essa é a melhor prova do caracter espontaneo, natural, popular, das minhas eleições do Recife, o ter bastado para fazel-as um homem como elle, sincero, dedicado, intelligente, leal, habil, todo coração e enthusiasmo sob uma mascara de frieza e misanthropia, mas sem posição, sem fortuna, sem _status_ politico, sem ligação de partido, simples abolicionista, nunca apparecendo em publico, e, além do mais, republicano confesso... Essa circumstancia só por si mostra bem a sinceridade, a humildade, a ingenuidade de todo esse movimento de 1884-1888. Esse foi o meu paranympho... Os muitos que trouxeram o seu valioso concurso para o successo da causa commum, ou para meu triumpho pessoal, como aconteceu com tantos, comprehenderão o meu sentimento quando ainda uma vez revelo o segredo da minha relação com o Recife, dizendo que Antonio Carlos, que nada era e nada quiz ser, foi o verdadeiro auctor della... Não esqueço ninguem, a começar por Dantas, que me fez quasi forçadamente seguir para o Norte a pleitear um dos districtos da provincia; não esqueço de certo o dr. Ermirio Coutinho e o dr. Joaquim Francisco Cavalcanti, de cuja dupla renuncia resultou a minha inesperada eleição pelo Quinto districto, uma semana depois de annullarem o meu diploma pelo Primeiro, passe eleitoral que surprehendeu a todos na Camara e em que Antonio Carlos foi grandemente ajudado pelo seu amigo dr. Coimbra. Tambem não esqueço José Mariano, cuja lealdade para commigo foi perfeita em circumstancias que poriam á prova a emulação e a susceptibilidade de outro espirito, capaz de inveja ou de ciumes; nem a suave physionomia, um puro Carlo Dolce, da sua meiga e amorosa D. Olegarinha, tão cedo esvaecida, a qual nas vesperas da minha eleição, que José Mariano fizera delle, contra o Ministro do Imperio, fez empenhar joias suas para o custeio da lucta, o que só vim a saber no dia seguinte, quando o partido as resgatou e lh’as foi levar... Não esqueço ninguem, nenhum dos chefes e centuriões liberaes, Costa Ribeiro, João Teixeira, Barros Rego, o Silva da Magdalena, Faustino de Brito, os Rochas do Peres: seria preciso citar cem, duzentos... Nenhum tambem desse grupo de abolicionistas, que me recebeu com Antonio Carlos: Barros Sobrinho, João Ramos, Gomes de Mattos, João Barbalho, Numa Pompilio, João de Oliveira, Martins Junior, todos elles; não esqueço os brilhantes artigos de tantos jornalistas distinctos, sobre todos Maciel Pinheiro, o amigo de Castro Alves, austero, rutilante, genial, figura que lembra o traço velazquiano, ao mesmo tempo sombrio e luminoso. E são esses sómente os primeiros nomes que me vieram á penna. Outros, muitos outros, estão egualmente presentes ao meu espirito como Annibal Falcão e Souza Pinto, então os chefes intellectuaes da mocidade.