Part 15
Duvido ter eu tido maior revelação, ou impressão exterior que ficasse actuando sobre mim de modo mais permanente, do que essas eleições de 1884 a 1887,--a de 1889, posso dizer, feita a abolição, não me interessava quasi. Ellas puzeram-me em contacto directo com a parte mais necessitada da população e em mais de uma morada de pobre tive uma _lição de coisas_ tão pungente e tão suggestiva sobre o desinteresse dos que nada possuem, que a só lembrança do que vi terá sempre sobre mim o poder o effeito de um exame de consciencia... Eu visitava os eleitores, de casa em casa, batendo em algumas ruas a todas as portas... A pobreza de alguns desses interiores e a intensidade da religião politica alimentada nelles fez-me por vezes desistir de ir mais longe... Doia vêr o quanto custava a essa gente credula a sua devoção politica. Diversos desses episodios gravaram-se-me no coração. Uma vez, por exemplo, entrei na casa de um operario, empregado em um dos Arsenaes, para pedir-lhe o voto. Chamava-se Jararaca, mas só tinha de terrivel o nome. Estava prompto a votar por mim, tinha sympathia pela causa, disse-me elle; mas votando, era demittido, perdia o pão da familia; tinha recebido a _chapa de caixão_ (uma cedula marcada com um segundo nome, que servia de signal), e si ella não apparecesse na urna, sua sorte estava liquidada no mesmo instante. «Olhe, sr. doutor», disse-me elle, mostrando-me quatro pequenos, que me olhavam com indifferença, na mais perfeita inconsciencia de que se tratava delles mesmos, de quem no dia seguinte lhes daria de comer... E depois, voltando-se para uma creancinha, deitada sobre os buracos de um antigo canapé desmantelado: «Ainda em cima, minha mulher ha dois mezes achou essa creança deante da nossa porta, quasi morrendo de fome, roida pelas formigas, e hoje é mais um filho que temos!» «No emtanto, estou prompto a votar pelo senhor, recomeçava elle, cedendo á sua tentação liberal, si o senhor me trouxer um pedido do brigadeiro Floriano Peixoto.» Esse foi talvez o primeiro _florianista_ do paiz... «Póde vir por telegramma... Elle está no engenho, nas Alagôas... E o que elle me pedir, custe o que custar, eu não deixo de fazer... Telegraphe a elle...» «Não, não é preciso, respondi-lhe, vote como quer o Governo, não deixe de levar a sua _chapa de caixão_... não arrisque á fome toda essa gentinha que está me olhando... Ha de vir tempo em que o senhor poderá votar por mim livremente; até lá, é como si o tivesse feito... Não devo dar-lhe um pretexto para fazer o que quer, invocando a intervenção do seu protector...» E sahi, instando com a mulher, supplicando, com medo que elle se arrependesse e fosse votar em mim.
Em outras casas o chefe da familia estava sem emprego havia annos por causa de um voto dado ao partido da opposição; a pobreza era completa, quasi a miseria, mas todos alli tinham o orgulho de soffrer por sua lealdade ao partido... E como entre os liberaes, entre os conservadores. Eram coherentes na miseria, na privação de tudo... Esse espectaculo seria de certo animador no mais alto gráu para o optimista desinteressado; este julgaria ter descoberto o refugio da verdadeira natureza humana escondida; para o candidato, porém, de cuja causa se tratava, era terrivelmente pungente surprehender assim a agonia da dignidade... Posso dizer, quanto a mim, eu não teria ousado ser mais um dia pretendente a um posto que custava tanto soffrimento, si não fosse para servir a causa de outros ainda mais infelizes do que essas victimas da altivez do pobre, da paixão e illusão politica do povo. Hoje, quem sabe, eu não teria talvez em nenhum caso a força, a coragem de insinuar aos bons, aos credulos, aos ingenuos, sacrificios pessoaes dessa ordem em favor de uma causa que não fosse directamente delles. Faria com todos o que fiz com o bom Jararaca: aconselharia que não sacrificassem os seus... Mas a lucta pela justiça é isso mesmo, é o sacrificio de gerações inteiras pelo direito ás vezes de um só, para resgatar a injustiça feita a um opprimido, talvez um estranho. De certo, não tenho remorsos nem me arrependo... Pessoalmente nenhum lucro tirei de todas as abnegações que vieram a mim; não capitalisei o soffrimento de tantos desinteressados... Consola-me nada ter tirado da abolição sinão o gozo de algumas impressões de tribuna e de nomeada, que foram apenas uma expansão como qualquer outra da mocidade... Graças a Deus, favor este inestimavel, nenhum lucro material, directo ou indirecto, me resultou nunca das idéas que me seduziram e com as quaes seduzi a outros...
Mas, ainda uma vez, o que recebi foi incalculavel. Só Deus mesmo, que vê os soffrimentos que se escondem e cujo orgulho é passarem invisiveis no meio da multidão, póde fazer tal conta. Sou um captivo do Recife. Ninguem que não tenha acompanhado um dos candidatos, de casa em casa, das areias do Brum aos canaes dos Afogados, durante a campanha da abolição, póde avaliar o que custou áquelles bairros de população densa, vivendo na mais completa destituição de tudo, o acolhimento que me deram. Para chegar á Camara tive os hombros dos que não tinham de seu sinão o trabalho de suas mãos e que se arriscavam, carregados de familia, a vêr fechar-se-lhes no dia seguinte a officina, a ser despedidos, despejados, depois de me terem dado o voto... O que me fica de todo esse episodio, o unico de minha carreira politica, é um sentimento acabrunhador de fallencia... Meu unico activo é a gratidão. O passivo é illimitado... Foram milhares os que me offereceram tudo o que tinham, isto é, como nada tinham, o que eram, o que podiam ser, e posso dizer que o acceitei em nome dos escravos. Muitos ter-se-ão levantado outra vez e seguido seu caminho pelas estradas abertas desde então, mas que todas parecem conduzir á mesma miragem que abrasa o horizonte. Terão ido, ou irão indo, coitados, de illusão em illusão, de desprendimento em desprendimento, de lealdade em lealdade... Não importa. O facto para mim dominante é que em um momento da minha vida pedi e acceitei o sacrificio absoluto de muitos pela causa que eu defendia... De certo, foi a mais nobre, a mais augusta das causas; mas o facto é que eu era alli o representante della, que em grande parte a dedicação, o sacrificio era por mim, como era meu o triumpho, minha a carreira, meu o futuro politico...
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A impressão que me ficou da politica, excepto esse quadro doloroso do sacrificio ingenuo dos simples, dos bons, dos que soffrem, pelos que se elevam, posso dizer que me lembra um jardim encantado do Oriente, onde tudo eram fórmas enganadoras de existencias petrificadas, immobilisadas, á espera da palavra que as libertasse; onde a rosa que nunca desbotava exprimia a presença occulta de uma paixão que não queria perjurar-se; onde o marmore alabastrino das fontes significava o corpo immaculado de que vertia continuo o sangue puro dos martyrios do amor e da verdade; onde os rouxinóes que cantavam, eram pares de amantes a quem era defeso procurarem-se sob a fórma humana... Tudo alli estava suspenso, transportado a outra escala do ser, a outra ordem de sensibilidade e de affectos... Era o mesmo facto, mas com differente aspiração, differente consciencia, differente vontade, e para o qual por isso mesmo o tempo não corria, como no sonho... A scena politica foi tambem para mim um puro encantamento... Sob a apparencia de partidos, ministerios, Camaras, de todo o systema a que presidia com as suas longas barbas niveas o velho de S. Christovão, o genio brasileiro tinha encarnado e disfarçado o drama de lagrimas e esperanças que se estava representando no inconsciente nacional, e á geração do meu tempo coube penetrar no vasto simulacro no momento em que o signal, o toque redemptor, ia ser dado, e todo elle desabar para apparecer em seu logar a realidade humana, de repente chamada á vida, restituida á liberdade e ao movimento... Por isso não trouxe da politica nenhuma decepção, nenhum amargor, nenhum resentimento... Atravessei por ella durante a metamorphose.
XXIV
NO VATICANO
Um episodio da abolição, a minha ida a Roma em começo de 1888, contarei aqui, porque será um élo em minha vida, um toque insensivel de despertar para partes longamente adormecidas de minha consciencia.
Eu tinha sempre lastimado a neutralidade do clero perante a escravidão, o indifferentismo do seu contacto com ella... Para o fim, porém, a voz dos bispos se fez ouvir em um momento de inspiração. Por occasião do jubileu sacerdotal de Leão XIII, elles publicaram, quasi todos, pastoraes convidando os seus diocesanos a offerecer como dadiva ao Santo Padre cartas de liberdade. Esse appello dos prelados offerecia uma opportunidade ao partido abolicionista de pedir ao Soberano Pontifice a sua intervenção em favor dos escravos, e eu resolvi aproveital-a.
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Eu acabára de ser eleito deputado pelo Recife, batendo o ministro do Imperio, e essa eleição soou como o dobre da resistencia escravista. Nos poucos dias que restavam da sessão parlamentar de 1887, vim ao Rio de Janeiro tomar assento na Camara, mas o objecto principal da minha vinda ao Rio era conseguir, e consegui, o pronunciamento moral do exercito contra a escravidão, a dissociação absoluta entre a força publica e as funcções dos antigos capitães de matto. Para occupar as férias parlamentares hesitei entre essa ida a Roma e uma viagem aos Estados-Unidos, onde o acolhimento que eu teria por intermedio dos antigos abolicionistas podia dar grande repercussão á nossa causa em todo o continente americano. Preferindo ir a Roma, fui levado sobretudo pela idéa de que uma manifestação do Santo Padre tocaria o sentimento religioso da Regente.
Era-me, de certo, permittido recorrer ao Papa, como a qualquer outro oraculo moral que pudesse inspirar a Princeza, fallar-lhe ao ideal e ao dever. Durante dez annos não visei a outra coisa sinão a captar o interesse da dynastia, e a accordar o sentimento do paiz. A opinião publica do mundo parecia-me uma arma legitima de usar em uma questão que era da humanidade toda e não sómente nossa. Para adquirir aquella arma fui a Lisbôa, a Madrid, a Pariz, a Londres, a Milão, ia agora a Roma, e si a escravidão tivesse tardado ainda a desapparecer, teria ido a Washington, a Nova-York, a Buenos-Aires, a Santiago, a toda parte onde uma sympathia nova por nossa causa pudesse apparecer, trazendo-lhe o prestigio da civilisação. Si havia falta de patriotismo em procurar crear no exterior,--tomado não como poder material, mas como o reflector moral universal, que é para nós,--uma opinião que nos chegasse depois espontaneamente com a grande voz da humanidade, não posso negar que fui um grande culpado... Teria sido o mesmo crime que o de W.L. Garrison desembarcando na Inglaterra para commovel-a contra a escravidão nos Estados-Unidos; o mesmo erro que o dos delegados dos diversos congressos internacionaes anti-esclavagistas. A consciencia, a sympathia humana é, porém, uma força que nunca é prohibido procurar chamar a si e pôr ao serviço do seu paiz ou da causa que se defende.
Chegando a Londres em Dezembro, em Janeiro parti para Roma com cartas do cardeal Manning, que a _Anti-Slavery Society_ e Mr. Lilly, da União Catholica ingleza, me tinham obtido. Em Roma encontrei um apoio egualmente util, o do nosso ministro, o sr. Souza Corrêa, antigo collega e amigo meu. Elle poz-me logo em contacto com o Cardeal Secretario do Estado, que me acolheu de modo supremamente benevolo. Roma estava repleta de peregrinos por causa do jubileu, no Vaticano o trabalho era enorme; apezar d’isso, consegui abrir caminho até o Santo Padre. Em 16 de Janeiro eu apresentava o meu memorial ao Cardeal Rampolla. Hoje eu o teria redigido de outro modo, mas hoje não tenho mais o ardor do propagandista... Aqui estão alguns trechos d’essa supplica; por elles se verá que o meu appello não era sómente pelos escravos do Brasil, mas por toda a raça negra, pela Africa, d’onde pouco tempo depois devia surgir arrebatadamente a grande figura do cardeal Lavigerie:
«Sem excepção quasi, os bispos brasileiros declararam em pastoraes, que o modo mais digno e mais nobre de celebrar o anniversario sacerdotal de Leão XIII era para os possuidores darem liberdade aos seus escravos e para os outros membros da communhão empregarem em cartas de alforria os donativos que quizessem offerecer ao Santo Padre.
«O appello moralmente unanime dos nossos prelados não podia deixar de exercer a maior influencia sobre o movimento abolicionista, que já arrastava comsigo a opinião, e d’ahi seguiu-se uma manifestação religiosa e nacional, que pela sua propria grandeza mostra que a abolição no Brasil não é mais uma divergencia entre partidos politicos... Pela manumissão de multidões de escravos em nome do Santo Padre, o seu jubileu ficará sendo a elevação á liberdade de centenas de novas familias brasileiras.
«De todos os dons postos aos pés de Leão XIII o tributo do Brasil sob a fórma d’esses libertos christãos, que tomam de longe parte em sua glorificação universal, é talvez a unica offerta que terá feito derramar ao Santo Padre lagrimas de reconhecimento.
«Eis ahi, Eminencia Reverendissima, a esplendida occasião que se offerece ao Soberano Pontifice de interceder, de intervir, de ordenar em favor dos escravos brasileiros. D’essas cartas de alforria depositadas deante de seu augusto throno, Leão XIII póde fazer a semente da emancipação universal. Uma palavra de Sua Santidade aos senhores catholicos no interesse dos seus escravos, christãos como elles, não ficaria encerrada nos vastos limites do Brasil, teria a circumferencia mesma da religião, penetraria como uma mensagem divina por toda a parte onde a escravidão ainda existe no mundo.
«O Papa acaba de canonisar a Pedro Claver, o Apostolo dos Negros. Na epocha adeantada da civilisação em que vivemos, ha infelizmente ainda escravidão bastante no mundo para que Leão XIII possa accrescentar aos seus outros titulos o de Libertador dos Escravos.
«Alguns dos seus illustres predecessores procederam por vezes contra a escravidão; tendo esta por unica origem o trafico, está de facto comprehendida nas bullas que o condemnaram, mas os tempos em que esses immortaes Pontifices fallaram não são os nossos, a humanidade então não havia feito esforços para apagar o seu crime de tantos seculos contra a Africa, cuja raça infeliz parece destinada a soffrer, sob fórmas diversas do mesmo preconceito, a fatalidade da sua côr. Um acto de Leão XIII, generoso, ardente, inspirado na espontaneidade de sua alma, contra a maldição que pesa sobre aquella raça, seria um beneficio incalculavel.
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«Nenhum pensamento politico intervem na supplica que dirijo ao Chefe do mundo catholico em favor dos mais infelizes dos seus filhos. Não quero sinão pôr o seu coração de pae em communicação directa com o d’elles. D’esse contacto da caridade com o martyrio não póde jorrar sinão a onda de misericordia que eu espero. Por ella o jubileu de Leão XIII será assignalado como uma data da redempção humana em toda a parte onde a raça negra se possa julgar a orphã de Deus».
Em 10 de Fevereiro seguinte, Sua Santidade concedia-me uma audiencia particular. Dei conta d’ella no mesmo dia, escrevendo para o _Paiz_... D’entre os papeis velhos que formam _as parcellas de minha vida_, a expressão é de uma carta do Imperador,--outro papel velho que é para mim uma reliquia,--este ha de ser sempre um dos mais preciosos: a emoção que elle guarda não poderia ser repetida, e é d’essas que augmentam á medida que os annos se afastam... Por isso o reproduzo agora:
«_O Papa e a Escravidão._
«Tive hoje a honra de ser recebido em audiencia particular pelo Papa, e como essa audiencia me foi concedida com relação ao assumpto politico que me fez vir a Roma, não devo demorar a reconstrução da conversa que tive com Sua Santidade e que eu trouxe do Vaticano tachygraphada, photographada na memoria. Foi uma insigne benevolencia de Sua Santidade conceder-me tal audiencia em um tempo em que cada um dos seus momentos está de antemão empenhado aos bispos, arcebispos, e catholicos proeminentes, que lhe vêm trazer algum dom por occasião de seu jubileu.
«O Papa está constantemente a receber numerosas deputações influentes de todas as partes do mundo e dirige-se sempre a ellas com uma allocução animada. Esse accrescimo de trabalho ás suas constantes occupações de cada dia não deixa muito tempo de descanço ao Santo Padre, sobre quem os seus 78 annos, juntos á majestade da tiara, começam a pesar; no emtanto é nessas horas de repouso que Sua Santidade recebe individualmente os homens notaveis do mundo catholico e conversa com elles largamente sobre o assumpto pelo qual cada um se interessa.
«Eu, porém, era um desconhecido e não vinha trazer nada ao Papa, vinha só pedir-lhe; nenhum serviço tinha prestado nunca á Egreja, e a questão que me occupava, exigia que Sua Santidade lesse antes uma série de documentos e fizesse alguma meditação sobre a grave resposta que me ia dar. Isto era um esforço, e, nas circumstancias especiaes do jubileu, a attenção a mim prestada pela mais alta de todas as individualidades humanas é um acto a que ligo ainda maior apreço e reconhecimento por saber que na minha humilde pessôa foi aos escravos do Brasil que Leão XIII quiz acolher paternalmente e fazel-os chegar até ao seu augusto throno, como, symbolicamente, o mais elevado de todos os logares de refugio.
«O Papa recebe em audiencia particular, sem testemunha alguma. Ninguém está na sala sinão elle e a pessôa a quem a audiencia é concedida. Em uma sala contigua está um secretario e um official da guarda, mas uma vez introduzido no pequeno salão, o visitante acha-se a portas fechadas em presença sómente de Leão XIII. O Papa, que lia um livro de versos latinos quando fui annunciado, mandou que me assentasse numa cadeira ao lado da sua e perguntou-me em que lingua devia fallar-me. Eu preferi o francez.
«A impressão que senti todo o tempo da audiencia, que não durou menos de tres quartos de hora, não se parece com a sensação causada pela presença de um dos grandes soberanos do mundo. O throno brasileiro é uma excepção. Nunca no Brasil houve homem tão accessivel como o Imperador, nem casa tão aberta como S. Christovão. Mas os monarchas em geral são educados e crescem, porque a sua condição é superior á do resto dos homens, na crença de que são _melhores_ do que a humanidade. A todas as vantagens do Papado como instituição monarchica, notavelmente a electividade, é preciso accrescentar essa superioridade do Papa sobre os outros soberanos, que estes nascem, vivem e morrem no throno, e que os Papas só chegam á realeza nos ultimos annos da vida, isto é, que vivem toda a vida como homens e no throno não fazem quasi sinão coroar a sua carreira. Esse caracter _humano_ da realeza pontificia é a condição principal de seu prestigio, assim como a electividade é a condição da sua duração illimitada e o espirito religioso a da sua selecção moral. Eu diria mesmo que a sós com o Papa a impressão é antes a do confessionario que a dos degráus do throno, si ao mesmo tempo não houvesse na franqueza e na reserva de Sua Santidade alguma coisa que exclue desde o principio a idéa de que alli esteja o confessor interessado em descobrir o fundo da alma do seu interlocutor. A impressão dominante é, entretanto, de confiança absoluta, como si, entre aquellas quatro paredes, tudo o que se pudesse dizer ao Summo Pontifice tomasse caracter de uma conversa intima com Deus, de quem estivesse alli o interprete e o medianeiro.
«As palavras que cahiram dos labios do Santo Padre, gravaram-se-me na memoria, e não creio que se apaguem mais, nem creio que eu deixe de ouvir a voz e o tom firme com que foram ditas. O Papa começou notando que elle me havia demorado muito tempo em Roma, mas que eram numerosos os seus deveres nesse momento, ao que respondi que o meu tempo não podia ser melhor empregado do que em esperar a palavra de Sua Santidade.--«Eu ia aos Estados-Unidos, disse eu a Leão XIII, onde está a maior parte da raça negra da America; mas quando os nossos bispos começaram a fallar com deliberação e de commum accordo a proposito do jubileu de Vossa Santidade e a pedir a emancipação dos escravos como o melhor e mais alto modo de o solemnisar no Brasil, pensei que devia antes de tudo vir a Roma pedir a Vossa Santidade que completasse a obra daquelles prelados, condemnando, em nome da Egreja, a escravidão. Conseguindo isto de Vossa Santidade, nós, abolicionistas, teriamos conseguido um ponto de apoio na consciencia catholica do paiz, que seria da maior vantagem para a realisação completa da nossa esperança.»
«Sua Santidade respondeu-me:--_Ce que vous avez à cœur, l’Eglise aussi l’a à cœur._ A escravidão está condemnada pela Egreja e já devia ha muito tempo ter acabado. O homem não póde ser escravo do homem. Todos são egualmente filhos de Deus, _des enfants de Dieu_. Senti-me vivamente tocado pela acção dos bispos, que approvo completamente, por terem de accordo com os catholicos do Brasil escolhido o meu jubileu sacerdotal para essa grande iniciativa... É preciso agora aproveitar a iniciativa dos bispos para apressar a emancipação. Vou fallar nesse sentido. Si a encyclica apparecerá no mez que vem ou depois de Paschoa, não posso ainda dizer...
«--O que nós quizeramos, observei, era que Vossa Santidade fallasse de modo que a sua voz chegasse ao Brasil antes da abertura do Parlamento, que tem logar em Maio. A palavra de Vossa Santidade exerceria a maior influencia no animo do governo e da pequena parte do paiz que não quer ainda acompanhar o movimento nacional. Nós esperamos que Vossa Santidade diga uma palavra que prenda a consciencia de todos os verdadeiros catholicos.
«--_Ce mot je le dirai, vous pouvez en être sûr_, respondeu-me o Papa, _e quando o Papa tiver fallado, todos os catholicos terão que obedecer_.»
«Estas ultimas palavras o Papa m’as repetiu duas ou tres vezes, sempre na forma impessoal; não:--_quando eu tiver fallado_, mas sempre:--_quando o Papa tiver fallado_.
«Acredito ter sido absolutamente leal para com os meus adversarios na exposição que fiz em seguida á Sua Santidade da marcha da questão abolicionista no Brasil. O Papa fez-me diversas perguntas, a cada uma das quaes respondi com a completa lealdade que devia primeiro ao Papa, e depois aos meus compatriotas. Descrevi o movimento abolicionista no Brasil, como tendo-se tornado proeminentemente um movimento da propria classe dos proprietarios, e dei, como devia, e é justo, aos operarios desinteressados da ultima hora a maior parte na solução definitiva do problema, que sem a sua generosidade seria insoluvel.