Chapter 17 of 18 · 3884 words · ~19 min read

Part 17

Mas que profundeza no sentir! Si todo o mundo estava fóra do seu logar,--elle não pretendia isso, pelo contrario, pensava que a distribuição era justa, que as posições e responsabilidades eram dadas aos melhores, sómente estes não faziam o melhor, não procuravam dar o mais que podiam,--quando todo o mundo estivesse, elle ao menos queria estar no seu... Conservador e catholico, conheci-o muito abalado com o _Kulturkampf_, por sua idéa allemã de que o maior politico do mundo,--para elle Bismark certamente o era,--não podia ser atraiçoado n’aquella questão ao mesmo tempo pelo seu faro nacional e pelo seu instincto conservador. O seu conservatismo entranhado era tambem parte da sua philosophia, por isso elle tinha pelas nossas instituições um sentimento de que nós mesmos eramos incapazes: o de veneração idealista. D’esse simples funccionario do Estado, que não tinha de seu sinão seu modesto ordenado de cada dia, e além d’isso, estrangeiro de origem, partiu talvez o unico grito de: _Viva a Constituição do Imperio!_ que se ouviu, si alguem o ouviu,--tão fraca era já a voz,--em 15 de Novembro ao desfilar das tropas do general Deodoro pela rua do Ouvidor. Talvez alguem olhando para o velho que fazia sem medo tal protesto, pensasse que era um protegido do Imperador allucinado pela catastrophe que o tragaria tambem. Não o era porém; favores, elle os não devia, nem gratidão; tudo o que tivera, fôra em concurso, do qual os competidores desistiam, louvando-se em sua fama... Não era um despeitado, era um philosopho, era o homem que melhor estudára a psychologia do nosso paiz e que mais se conformára a ella até áquelle acto, que lhe pareceu nacionalmente fatidico, como para os Judeus o partir-se ao meio do véo do templo...

Um traço d’essa sua penetração já assignalei uma vez, lembrando que foi elle quem me fez notar que o nosso interesse pelas coisas publicas é tanto menor quanto o assumpto mais de perto nos concerne. É assim, dizia-me elle, que os negocios do municipio nos interessarão sempre _a todos_ menos que os da provincia, os da provincia menos que a politica geral. Para mostrar quanto era precario o nosso _self-governement_, não bastava essa indifferença que cresce na razão directa do interesse que deviamos sentir? Outra observação d’elle que revela a promptidão do seu espirito, foi a nossa conversa sobre a impermeabilidade ingleza a idéas e concepções alheias. Eu dava a lentidão dos inglezes em apanhar e comprehender o ponto de vista, a novidade estrangeira, como um signal talvez de menor vivacidade intellectual do que a dos povos continentaes: «Pelo contrario, observou-me elle, as palavras serão minhas, a idéa é d’elle, essa repugnancia ao que vem de fóra do paiz, essa suspeita contra o que não é conforme ao instincto da raça, prova antes a originalidade della, a força de sua propria productividade, o orgulho das suas creações nacionaes... Essa resistencia foi que permittiu á Inglaterra dar ao mundo um Shakespeare.» Foi essa reflexão talvez que me levou a pensar que o cosmopolitismo, na esphera da concepção intellectual, não é um elemento creador, nem uma superioridade invejavel: pelo contrario, a difficuldade de assimilar, de sentir o que não tem affinidades com a nossa propria producção, é antes uma virtude do que um defeito; a permeabilidade prejudica a solidez e conservação das qualidades proprias, isto é, da propria natureza.

Si eu tivesse que precisar o que devo a Tautphœus, assignalaria, entre tantos outros trabalhos de lapidação que acredito serem d’elle, duas acquisições, a que em certo sentido, se poderiam chamar transformações intimas. A primeira, sem que aliás a suggestão partisse d’elle, nem mesmo que elle tivesse consciencia d’este ponto de vista meu,--quem sabe si elle o não combateria?--é que deante delle, pensando nelle, me habituei a considerar o juizo do historiador como o juizo definitivo, o que importa, final, e por isso aquelle a que se deve _desde logo_ visar. Não póde haver maior revolução para o espirito do que essa, de collocar-nos espontaneamente em frente do solitario juiz de bibliotheca do futuro e não dos juizes sem numero de praça publica do momento actual. Perante aquelle juiz o nosso nome póde não ser citado, os testemunhos incompletos pódem ser-nos injustamente favoraveis ou desfavoraveis, mas a sua opinião é a que conta, é a que vale... O juizo da multidão que hoje nos eleva ou nos deprime, esse representa apenas a poeira da estrada. Não é preciso que sejamos actores para que essa concepção da verdadeira instancia que decide das reputações nos affecte, por assim dizer, em cada um dos nossos moveis de acção, estimulos e affinidades moraes: o effeito é o mesmo sobre o espectador, o curioso, o transeunte, o indifferente. É, em menor escala, está visto,--porque esta é a maior de todas as possiveis differenças nos motivos de inspiração e de conducta,--como a mudança da concepção pagã, que o importante é a vida, para a concepção christã, que é a eternidade. Feita a reducção das aspirações da propria alma para as da intelligencia ou do espirito, a metamorphose é tambem profunda entre viver, ou vêr viver, tendo-se em vista os contemporaneos e tendo-se em vista a posteridade. Tratando-se da posteridade, está claro que é sempre preciso imaginar o espaço de algumas gerações, dar toda a margem ao esquecimento... No momento actual são milhares, milhões que julgam; pouco a pouco o tribunal se vae reduzindo, até que os grandes personagens vêm a depender da sentença de um juiz singular, um Mommsen, um Ranke, um Curtius, um Macaulay, encerrado em sua livraria, procurando animar-se para com elles de uma paixão retrospectiva, toda ella puro enthusiasmo, illusão de auctor, na qual não figura nenhum dos sentimentos, um unico siquer, nem das paixões verdadeiras que elles inspiraram...

Outra transição que lhe devi... Como hei de explical-o que se entenda sómente a nuança, e não mais? porque quero crer que os germens se desenvolveriam por si mesmos, mas sinto que o seu influxo benefico penetrou até o terreno onde elles se estavam talvez formando sem eu o sentir...

Nós tinhamos nos ultimos tempos da vida de Tautphœus uma pequena solidão em Paquetá, para as vizinhanças do chamado Castello, em um remanso daquellas encantadoras paragens. Era uma antiga casa terrea a que um dos proprietarios, um inglez, juntára uma varanda em roda e a meio um pequeno sobrado com venezianas verdes e balcão por onde subia uma trepadeira, dando-lhe um aspecto ao mesmo tempo singelo e pittoresco de residencia estrangeira. A frente deitava para o mar, e a parte baixa da costa do outro lado formava um suave fundo de quadro. A casa estava sobre uma pequena elevação, e o declive para a praia era tomado por um grande taboleiro de gramma, cuidadosamente tratado, como em um parque. A ilha de Paquetá é uma joia tropical, sem valor para os naturaes do paiz, mas de uma variedade quasi infinita para o pintor, o photographo, o naturalista estrangeiro. Para mim ella tinha a seducção especial de ser uma paizagem do Norte do Brazil desenhada na bahia do Rio. Emquanto por toda parte á entrada do Rio de Janeiro o que se vê são granitos escuros cobertos de florestas continuas guardando a costa, em Paquetá o quadro é outro: são praias de coqueiros, campos de cajueiros, e á beira-mar as hastes flexiveis das cannas selvagens alternando com as velhas mangueiras e os tamarindos solitarios. Ao lado, entretanto, d’essas miniaturas do Norte encontram-se na ilha a cada canto do mar rochas revestidas com a mesma caracteristica vegetação fluminense.

Tautphœus fôra sempre um apaixonado da nossa natureza. Desde que chegára ao Brasil tinha sido um explorador de suas bellezas. A madrugada, a alta noite, a distancia não eram impedimento para elle, tratando-se de um nascer de sol, um effeito de luar, um fio de agua descendo pela pedra, um jequitibá escondido na matta virgem. Toda a vida elle vivera n’esse colloquio intimo de namorado com a luz e a terra do Brasil; um raio de sol illuminando o Corcovado ou o Pão de Assucar, era uma saudação mysteriosa do poder creador a que elle sempre respondia... Ao vêl-o sentado, a escutar os passaros na matta ao lado, eu associava insensivelmente o mestre com as minhas primeiras lições de inglez e lembrava-me do vizir do sultão Mahmud. Os arredores do Rio de Janeiro especialmente o seduziam. Elle era de todos os passeios a que o convidassem para qualquer dos pontos pittorescos, que ahi são sem numero. Passar a tarde sob o arvoredo secular que se encontra em tantas das ilhas, observando o glorioso colorido das montanhas ao pôr do sol, era uma verdadeira volupia para elle. A nossa vivenda de Paquetá agradava-lhe por lhe dar, com o silencio e isolamento que cercava a bibliotheca, a escolha, á vontade, do mar, do campo e da montanha: as praias extensas, a floresta accessivel, a planicie atapetada, si lhe agradava passear; a agua serena, o mar fechado á vista, como um lago suisso, si queria tomar o nosso barco e mandar o Mudo, o nosso saudoso remador, abrir a vela para os pequenos ilhotes de onde se avistam em um extremo os Orgãos de Theresopolis, e no outro a serrania da cidade ... Elle vinha sempre aos sabbados e ficava o domingo, e ás vezes, nas curtas férias que tinha, dias seguidos... Era visivelmente a despedida. Suas faculdades estavam intactas, elle era desses em quem se sente que o espirito não soffrerá deperecimento, que se apagará de repente no meio de uma contemplação ou meditação mais intensa e prolongada; mas as forças physicas estavam em declinio, via-se o cançaço de ter pensado tanto e o involuntario tributo á duvida: si teria bem aproveitado o tempo, ou si teria vivido em vão. Elle tomára muito ao serio o gosto da obscuridade, a modestia, o retrahimento; cortejára de mais o esquecimento, e via talvez que este estava a ponto de envolvel-o, excepto em alguns raros espiritos, onde sua lembrança duraria mais algum tempo, até elles mesmos serem por sua vez envolvidos...

Como foram suaves esses dias finaes que elle nos deu, tão penetrantes, tão profundamente melancolicos, da melancolia, porém, dos momentos que quizeramos tornar eternos, ou que outros viessem gozar delles ao nosso lado para não se esvaecerem de todo, como um meteóro deslumbrante!... O seu prazer, muitas vezes, era sentar-se em um banco á beira do mar, do lago, eu devia dizer pela impressão que dava, e d’alli assistir á tarde, cujas cambiantes no ar, no céo, na agua, nas côres do horizonte, no murmurio e no silencio da solidão, eram uma gamma de que elle não perdia a mais insignificante transição... Quantas outras vezes, de dia, ao passearmos na matta ao lado da casa, quando se ia abrindo caminho para passarmos, não me pedia elle que não tocasse na natureza, que respeitasse o intricado, o selvatico, o inesperado, de tudo aquillo, porque aquella desordem era infinitamente superior ao que a arte pudesse tentar... Elle achava a mais pobre e arida natureza mais bella do que os jardins de Sallustio ou de Luiz XIV. Ah! si tem sido elle o descobridor e possuidor da America, o machado nunca teria entrado nella... E o tição? Uma queimada era para elle egual a um auto de fé. O incendio ao lamber essas resinas preciosas, essa seiva, esses suecos de vida, esse sem numero de desenhos caprichosos de artistas inexcediveis cada um no seu genero, modelos de côr e de sensibilidade, todos elles unicos, parecia consumir com uma dôr cruel, vibrante, todas as suas ligações sensiveis com a natureza e a vida universal, os nervos todos de sua peripheria intellectual.

O seu amor pela nossa natureza foi muito grande. Quantas vezes introduzi em nossas conversas a idéa de uma viagem á Europa para vêr si despertava n’elle affinidades esquecidas, recordações latentes. Toda essa parte européa, porém, estava morta, atrophiada; em vez della o que havia, esta, vivaz e peregrina, era uma sensibilidade nova, a americana, a brasileira... Era um eterno encantado da nossa terra. Ella lhe dizia o que a nós não diz, e que talvez seja preciso ter tido e renunciado por ella uma primeira encarnação, um outro mundo, para se poder sentir. Si nós brasileiros pudessemos ter aquelle amor! Esse perenne embevecimento de Tautphœus foi uma das influencias que desenvolveram em mim o gosto, o encanto, ainda que de minha parte puramente sentimental e ingenuo, que o contacto de nosso paiz tem hoje para mim... Em Tautphœus aquelle amor era differente: era fino, espiritual, intellectual, esthetico:... em mim será uma simples affinidade do coração, uma ternura, uma saudade da vida, mas esta affinidade deverá muito ao espectaculo do carinhoso devaneio d’aquelle sabio, d’aquelle grego antigo, d’aquelle philosopho nascido e formado em outros climas, perante a amenidade, a doçura dos tropicos, o pittoresco da nossa moldura agreste, os toques de mutação de nossa scenographia natural, a modulação, o colorido, a solidão intima de nossa paizagem.

No tempo da minha vangloria litteraria duas cousas me feriam nelle: que com toda sua sciencia elle não escrevesse nada e que pudesse ser tão submissamente catholico. Agora em nossos passeios pela floresta, em nossas «soirées» á beira da minha pequena enseada, dourada pelo luar, era sobre a religião que versavam nossas conversas... Oh! que admiraveis monologos os delle! A ultima vez que atravessou o nosso _mare clausum_ voltou para casa para morrer. O vestigio do seu pensamento ficou por muito tempo commigo, e ainda por vezes lhe sinto a ondulação fugidia. Foi por minhas palestras com elle que comprehendi por fim que um grande espirito podia ficar á vontade, livre, em um religião revelada, do mesmo modo que foi graças a elle que comprehendi que os escriptores não formam por si sós a _élite_ dos pensadores, que ha ao lado delles, talvez acima, uma especie de Trappa intellectual votada ao silencio, e onde se refugiam os que experimentam o desdem da publicidade, de sua ostentação vulgar, de seu mercenarismo mal disfarçado, de seu modo frivolo, de sua apropriação do bem alheio, de sua falta de sinceridade interior. O horror da scena, hoje do mercado, não póde ser um signal de inferioridade intellectual.

O resumo da impressão que eu guardo delle está feito por Goethe conversando com Eckermann sobre Alexandre de Humboldt: «Que homem elle é! Ha tanto tempo, tanto, que o conheço, e elle é sempre novo para mim. Póde-se dizer que não tem egual, nem em sciencia, nem em experiência. Além d’isso, ha uma variedade de aspectos nelle como não encontrei em ninguem. Qualquer que seja o assumpto de conversa que se procure, está sempre no seu proprio terreno e despeja sobre nós thesouros de informações. É como uma fonte de varias bicas, sob as quaes basta collocar um cantaro para logo o encher, e donde estão sempre a correr jorros de agua fresca inexgottavel. Elle passará aqui alguns dias, e já me parece que ha de ser para mim como si tivesse vivido muitos annos.» Ouvil-o, vêl-o, viver com elle, era litteralmente esquecer o presente e reunir-se á comitiva de Sócrates... Elle era uma d’essas copias, que nem por serem copias, nem por se reproduzirem seguidamente de epocha em epocha entre differentes nações, deixam de conservar a superioridade, a primazia do original, o mais nobre dos modelos humanos.

XXVI

OS ULTIMOS DEZ ANNOS (1889-1899)

A queda do Imperio puzera fim á minha carreira... A causa monarchica devia ser o meu ultimo contacto com a politica... De 1889 a 1890 estou todo sob a impressão do 15 de Novembro seguindo-se ao 13 de Maio; escrevo então os meus soliloquios em uma Thebaida onde podia andar centenas de milhas sem deparar com o refugio de outro praticante... Em 1891 minha maior impressão é a morte do Imperador. De 1892 a 1893 ha um intervallo: a religião afasta tudo mais, é o periodo da volta mysteriosa, indefinivel da fé, para mim verdadeira pomba do diluvio universal, trazendo o ramo da vida renascente... De 1893 a 1895 soffro o abalo da Revolta, da morte de Saldanha, de que sáem meus dois livros _Balmaceda_ e a _Intervenção_... Desde 1893, porém, o assumpto que devia ser a grande devoção litteraria da minha vida, a _Vida_ de meu pae, tinha-se já apossado de mim e devia seguidamente durante seis annos occupar-me até absorver-me...

Como escrevi algumas paginas atraz, o meu espirito adquirira em tudo a aspiração da fórma e do repouso definitivo. A nossa dynastia tivera em 15 de Novembro o que chamei uma assumpção: vivêra e acabára como uma encarnação nacional. O condão deixado pela fada no berço da nossa nacionalidade foi quebrado e lançado fóra; quem nos diz que o desfecho não estava previsto por ella? A Independencia, a Unidade nacional, a Abolição: nenhuma dynastia jamais insculpiu na sua pyramide um tão perfeito _cartouche_... Quando eu pensava no papel representado pela casa reinante brasileira, Dom Pedro I, Dom Pedro II, Dona Isabel, e nas condições de unanimidade, espontaneidade, e finalidade nacional necessarias para ella o poder de novo desempenhar de accordo com a sua lenda, o problema excedia a minha imaginação, e parecia-me um attentado contra a historia querer-se accrescentar, a não ser por mão de mestre, de uma segurança, de uma delicadeza, de uma felicidade a toda prova, um novo painel áquelle triptyco...

Por outro lado, durante os annos que trabalhei na _Vida_ de meu pae a minha attitude foi insensivelmente sendo affectada pelo espirito das antigas gerações que crearam e fundaram o regimen liberal que a nossa deixou destruir... O que eu respirava n’aquella vasta documentação, não era um espirito monarchico inconciliavel, bastando como uma religião, como uma bemaventurança, aos que por ella se destacavam do mundo... A monarchia para aquellas epochas de architectos, pedreiros e esculptores politicos incomparaveis, era uma bella e pura fórma, mas que não podia existir por si só; o interesse, o amor, o zelo, o fervor patriotico delles dirigia-se á substancia nacional, o paiz; sua vassallagem ao principio monarchico era apenas um preito rendido á primeira das conveniencias sociaes... Para taes homens, verdadeiramente fundadores, um terremoto poderia subverter as instituções, mas o Brasil existiria sempre, e á sua voz seria forçoso acudir, qualquer que fosse o vendaval em torno, e quanto mais ferido, mais mutilado, mais exhausto, maior o dever de o não abandonar... Elles não estabeleceriam nunca o dilemma entre a monarchia e a patria, porque a patria não podia ter rival.

A impressão d’esses sentimentos varonis, d’essa antiga lealdade, foi grande em mim e á medida que eu a ia respirando, o desejo augmentava de não deixar pelo menos o meu tumulo murado do lado do futuro... Comprehendo a carta de Berryer moribundo a Henrique V, como comprehendo a carta do conde de Chambord sobre a bandeira branca; a monarchia franceza gerára uma cavallaria, um ponto de honra aristocratico, um espirito de classe á parte, e mesmo assim era como o proprio Berryer, como Chateaubriand, como o duque de Aumale,--«_La France était toujours là!_»--que os nossos antigos homens de Estado desde os tempos coloniaes, e o Imperador lhes reflectia o sentimento patriotico absoluto, collocavam a patria fóra de competição com qualquer outra idéa ou sentimento... Eu, porém, não tinha uma parcella de legitimismo, de direito divino; minha caracterisação, o accento tonico, era outra: _liberal_, não no sentido passageiro, politico, da expressão, mas no seu sentido humano, eterno, e como liberal a aspiração synthetica de minha vida tinha que ser a de não me dissociar, qualquer que fosse sua fórma de governo, dos destinos do meu paiz.

Assim, mesmo como monarchista, me fui pouco a pouco distanciando da politica. Meu espirito crystallisára sob faces que o fariam sempre rejeitar como anti-politico... Que podia eu mais tentar sósinho, por mim mesmo? Em 1879 eu me alistára para uma campanha que suppunha havia de durar além de minha vida; fiz assim, posso dizer, voto perpetuo de servir uma grande causa nacional: o que devia durar mais de trinta annos, durou sómente nove, mas nem por isso economisei forças, iniciativa, imaginação para outros emprehendimentos... A abolição, além d’isso, pelo seu sopro universal, isolára-me dos partidos, afastára-me da sua esphera contencisa; por habito eu agora aspirava a viver em regiões de ar mais dilatado, onde se respirasse a unanimidade moral, a fé, o optimismo humano, o oxygeneo das grandes correntes de ideal...

De mais, eu me convenci de que os partidos, os homens, as instituções rivaes em uma mesma sociedade hão de ter o mesmo nivel, como liquidos em vasos que se communicam; de que o pessoal politico é um só, os idealistas, os _ultra_, de cada lado sendo imperceptiveis minorias; por ultimo, de minha inaptidão para lidar com o elemento pessoal, de que dependem em politica quasi todos os resultados... Era-me de todo imposivel encontrar de novo em mim o impulso, o movimento, o impeto das nossas antigas cargas da abolição... Luctas de partidos, meetings populares, sessões agitadas da Camara, tiradas de oratoria, tudo isso me parecia pertencer á edade da cavallaria... Agora o menor problema politico causava-me uma timidez invencivel, tornava-se nacional, internacional, e todos convertiam-se em casos de consciencia. Uma serie de reflexões, que tomavam a fórma de maximas politicas, eram outros tantos avisos de perigo sobre qualquer superficie desconhecida que eu quizesse pisar... Eu desistia assim de lidar d’ora em deante com partidos e com acontecimentos; minha esphera tornára-se toda subjectiva... «Ha epochas em que o associar-se, ainda mesmo com outros melhores do que nós, é trahir o ideal proprio que cada um tem em si e que lhe cumpre a seu modo lapidar e polir ao infinito.» Esta minha phrase sobre o isolamento de André Rebouças, quando não imaginava o fim melancolico que elle havia de ter, exprime muito do meu proprio sentimento... É preciso roubar ao mundo uma parte da vida, e é melhor que seja a final, para dal-a aos pensamentos e ás aspirações que não queremos que morram comnosco.

Os ultimos dez annos são assim o periodo em que o interesse politico cederá gradualmente o logar ao interesse religioso e ao interesse litterario até ficar reduzido quasi sómente ao que tem de commum com elles... Quando digo interesse politico, quero dizer o espirito politico, porquanto a emoção, a parte que tomo na sorte do paiz augmenta com as peripecias, as contingencias, os vortices dos novos dramas. O auctor e o actor desapparecem; o espectador, esse, porém, sente a sua anciedade crescer e tornar-se angustiosa... Posso portanto terminar aqui a historia de minha formação politica, e mesmo de toda a minha formação, porque das novas influencias que me vão dominar no resto da vida, a religiosa já se a encontrou na infancia e a das lettras na mocidade. As lettras luctaram em mim annos seguidos, como se viu, contra a politica, sempre com superioridade, até vir a abolição, que durante os dez annos as relegou, como tudo mais, a immensa distancia. Extincto este grande fóco de atracção, nenhum outro teria o mesmo poder contra ellas... Ainda assim talvez tenha apenas havido entre ellas e a politica uma verdadeira fusão... A historia é com effeito o unico campo em que me seria dado ainda cultivar a politica, porque nelle não terei perigo de faltar á indulgencia, que é a caridade do espirito, nem á tolerancia, que é a forma de justiça a que eu posso attingir... São essas duas das faces, a que ha pouco alludi, sob que meu espirito crystallisou.