Part 12
O espectaculo da sua devoção concorreu mais do que nenhuma outra influencia para conservar durante annos intacta a minha crença; depois esta passou por grandes abalos, mas aquella impressão predominante fez-me sempre tratar o que me parecia essencial na religião como a esphera superior ou a fonte mais elevada da inspiração humana... Alguma vez, entretanto, pensando n’elle e na sua grande auctoridade sobre mim, não deixei de sentir a vantagem que os espiritos emancipados se attribuem em relação aos que nunca sahiram da fé. Era no tempo em que eu perguntava a mim mesmo si um homem, mesmo tendo o genio de um Santo Thomaz de Aquino, podia ser chamado superior, si não tinha, em nosso seculo, outro horizonte intellectual sinão o da revelação... Talvez pensasse eu então como consolo que meu pae tambem tivera duvidas que não deixava perceber, ou que tinha voltado á fé como a uma synthese já prompta da vida humana em todas as suas relações depois de ter debalde procurado construir outra por si mesmo. Só mais tarde alcancei comprehender que a intelligencia póde trabalhar até ao fim inteiramente alheia aos graves problemas religiosos que confundem o pensador que os quer resolver segundo a razão, si nenhum choque exterior veiu perturbar para ella a solução recebida na infancia. A duvida não é signal de que o espirito adquiriu maior perspicuidade, é ás vezes um simples mal-estar da vida. Uma existencia occupada por grandes trabalhos póde não ter um momento para dar á duvida religiosa. Si não é exacto dizer que a duvida nunca ajudou nenhum dos grandes genios da humanidade no traço ou no aperfeiçoamento de sua obra, o numero dos que ella assistiu é seguramente pequeno comparado ao dos que não precisaram de um sopro de negação para os inspirar e souberam crear, crendo. Uma coisa pelo menos é certa, a saber, que as faculdades creadoras devem estar solidamente construidas para que a duvida não as faça produzir uma obra menos consideravel ou menos bella do que o faria a fé. A duvida póde ser o indicio de um novo destino humano, o esboço de uma intelligencia ainda por vir, mas ella levará muito tempo para chegar a formar um sentido superior á religião. As minhas idéas sobre o que constitue a superioridade intellectual mudaram felizmente muito desde esse tempo em que eu procurava pretextos para attribuil-a a espiritos destituidos da faculdade da duvida, mas que em tudo mais me impunham admiração, como meu pae. Eu tomaria por vezes então um litterato, um escriptor, como superior a um d’esses pensadores asperos, cuja idéa só se póde colher depois de quebrar o involucro resistente que a protege. É como si a flôr que dura uma manhã devesse ser a ultima expressão do mundo vegetal de preferencia ao cedro millenario, pae da floresta.
XIX
ELEIÇÃO DE DEPUTADO
Até 1878 foi propriamente o periodo da minha formação politica; o que se segue, de 1879 a 1889, é o do papel que me tocou representar; o final,--já agora devo esperar todo elle assim,--será o do amortecimento do interesse politico e de sua substituição por outros, talvez ainda mais irreaes e chimericos, porém, que de algum modo quadram melhor com o crepusculo da vida, quando o espirito começa a ouvir ao longe o toque de recolher. Durante aquelles dez annos a que me tenho referido, não fui sinão um curioso, attrahido pelas viagens, pelo caracter dos differentes paizes, pelos livros novos, pelo theatro, pela sociedade. Uma vida invejavel para mim teria sido então o assistir dos bastidores aos grandes factos contemporaneos, conviver com os personagens, e, como distracção do presente, ter direito de entrada nas excavações de Athenas ou de Roma. No fim desta phase de lazzaronismo intellectual, quando sou pela primeira vez eleito para o Parlamento, eu tinha necessidade de outra provisão de sol interior; era-me preciso, não mais o dilettantismo, mas a paixão humana, o interesse vivo, palpitante, absorvente, no destino e na condição alheia, na sorte dos infelizes; aproveitar a minha vida em qualquer obra de misericordia nacional; ajudar o meu paiz, prestar os hombros á minha epocha, para algum nobre emprehendimento. Nenhuma causa politica, dados os elementos que descrevi, poderia causar-me esse enthusiasmo, inspirar-me esses arroubos; a politica seria sempre a emoção partidaria, incerta, negativa, o temor de edificar desconfiado da solidez dos materiaes e do terreno. Era preciso que o interesse fosse humano, universal; que a obra tivesse o caracter de finalidade, a certeza, a inerrancia do absoluto, do divino, como têm as grandes redempções, as revoluções da caridade ou da justiça, as auroras da verdade e da consciencia sobre o mundo. No Brasil havia ainda no anno em que comecei minha vida publica um interesse d’aquella ordem, com todo esse poder de fascinação sobre o sentimento e o dever, egualmente impulsivo e illimitado, capaz do _fiat_, quer se tratasse da sorte de creaturas isoladas, quer do caracter da nação... Tal interesse só podia ser o da emancipação, e por felicidade da minha hora, eu trazia da infancia e da adolescencia o interesse, a compaixão, o sentimento pelo escravo,--bolbo que devia dar a unica flôr da minha carreira...
O facto que me lançou na politica foi a morte de meu pae, em março de 1878, anno em que serei eleito pela primeira vez deputado... Elle morreu a tempo ainda de assegurar a minha eleição que tinha ficado resolvida entre elle e o barão de Villa-Bella, chefe politico de Pernambuco. Souza Carvalho, que muito impugnou, depois de morto meu pae, a minha candidatura, foi a Villa-Bella e referindo-se áquella morte, disse-lhe:--«_sublata causa, tollitur effectus_». Domingos de Souza Leão, porém, tinha a religião da amizade e da lealdade, e a morte de Nabuco, em vez de delir o seu compromisso, tornára-o de honra... Meu desejo intimo era então continuar na diplomacia... Minha mãe, porém, conservava a ambição de meu pae, de me vêr entrar na politica, para um dia substituil-o, sentar-me na sua cadeira de senador, como elle se sentára na de meu avô, que já não fôra o primeiro senador Nabuco, porque encontrára no Senado seu tio José Joaquim Nabuco de Araujo, o primeiro barão de Itapoan. Eu representaria assim no Parlamento a quarta geração da mesma familia, o que não aconteceu, supponho, a nenhum outro. Com Martim Francisco Junior, filho, neto, e bisneto de parlamentares, as gerações politicas foram tres, por serem irmãos o avô e o bisavô, Martim Francisco e José Bonifacio.
Não me custou nada essa eleição... Custou sim a Villa-Bella na côrte e na provincia a Adolpho de Barros, que passou pela politica como um perfeito _gentleman_, seu presidente, incluirem-me na lista... Meu nome afastava os de outros que eram antigos luctadores, como o dr. Aprigio Guimarães, popular na Academia pelo seu liberalismo republicano e sua eloquencia tribunicia. Eu não tinha que ter remorso disso, _fata viam invenient_... Não era só meu nome que postergava o direito de antiguidade; a chapa estava cheia de nomes novos; eu representava uma tradição de serviços ao partido, os de meu pae, que valiam bem os de qualquer outro, e tinha confiança de que justificaria na Camara a minha promoção rapida. Si não me deu trabalho algum essa eleição, que foi feita pelo partido, dispondo de todos os elementos officiaes, não deixou de ter para mim o seu episodio... N’uma sessão academica de 11 de agosto, no theatro Santa Isabel, quando eu proferia, do camarote do Presidente, as primeiras palavras, fui acolhido pelos protestos e vozeria de um grupo numeroso, que se tornou dominante, e que depois transferia para uma praça da cidade o seu _meeting_ de indignação contra mim... O thema do meu improviso, em resposta aos epigrammas e diatribes contra S. Christovão que tinham soado no palco, fôra este: a grande questão para a democracia brasileira, não é a monarchia, é a escravidão. Posso dizer que experimentei por vezes a doçura da popularidade; nada, porém, eguala o prazer de uma dessas tempestades levantadas contra si pelo orador que se sente de posse da verdade e ao serviço da justiça, quando antevê que esses que o injuriam naquelle momento, estarão com elle no dia seguinte... Eu deixava passar aquella onda raivosa e espumante, que a intriga, explorando a susceptibilidade propria da democracia pernambucana, as reminiscencias praeiras, e com imperfeito conhecimento do individuo, do papel que elle ia representar, impelliam contra a minha candidatura... Eu sabia que a palinodia havia de ser completa, que se desfaria o _mal-entendu_ creado entre mim e o povo do Recife, desde que elle visse o fim para o qual eu aspirava ao seu mandato... Na verdade, a opinião do partido popular, ciumento dos seus fóros e tradições, mudou a meu respeito logo na primeira sessão em que tomei a palavra na Camara... Desde esse dia estabeleceu-se entre mim e o Recife uma affinidade que nunca se interrompeu e que ainda hoje, em que estou quanto á politica retirado de tudo, estou certo, será a mesma, porque foi como que o encontro de duas opiniões que se miraram uma na outra até ás fontes do sentimento e reconheceram na transparencia do seu fundo a sinceridade de cada uma.
Foi um anno de actividade e de expansão unico em minha vida, esse de 1879, em que fiz a minha estréa parlamentar. Posso dizer que occupei a tribuna todos os dias, tomando parte em todos os debates, em todas as questões... O favor com que era acolhido, os applausos da Camara e das galerias, a attenção que me prestavam, eram para embriagar facilmente um estreante... Como hoje seria diverso, e quanto tudo aquillo está desvalorisado para mim como prazer do espirito! Hoje é a gotta crystallina que mana da rocha do ideal,--fonte occulta que todos temos em nós,--e não os grandes chafarizes e aqueductos da praça publica, que unica me desaltera. Então tudo me servia para assumpto de discurso; eu fallava sobre marinha e immigração, como sobre a illuminação ou o imposto de renda, sobre o arrendamento do valle do Xingú ou a eleição directa... Tinha o calor, o movimento, o impulso do orador; não conhecia o _valerá a pena_? do observador que se restringe cada vez mais... O publico, os grandes auditorios eram para mim o que é hoje a minha cesta de papel, ou a labareda que dá conta da exuberancia superflua do pensamento. Só muito tarde comprehendi porque os que vieram antes de mim se retrahiam, quando eu me expandia: em muitos era a saciedade, o enojo que começava; em alguns a troca da aspiração por outra ordem de interesses mais utilitaria; em outros, porém, era a consciencia que chegava á madureza, o amor da perfeição... Desses discursos sem excepção que figuram em meu nome nos Annaes de 1879 e 1880 eu não quizera salvar nada sinão a nota intima, pessoal, a parte de mim mesmo que se encontre em algum. Não assim com os que proferi na Camara na semana de maio de 1888, nem com os do Recife em 1884-1885, pronunciados no theatro Santa Isabel. Esses são o melhor da minha vida.
Quando disse que o periodo que vae até 1879 é o de minha formação politica, quiz sómente dizer que é o periodo em que adquiro a ferramenta com que hei de trabalhar em politica; ainda assim a limitação do tempo não é precisamente exacta, porque é na propria politica, na Camara, sob o influxo e determinismo do papel que escolho, que a verdadeira formação se opera, isto é, que as contradicções se conciliam, a subordinação dos impulsos e das tendencias se dá, as affinidades essenciaes se pronunciam, os attritos interiores, as vacillações, as attracções ou repulsões prejudiciaes se eliminam, e o destino uma vez conhecido crêa a vocação, a tarefa mesma perfaz o instrumento.
Com effeito, quando entro para a Camara, estou tão inteiramente sob a influencia do liberalismo inglez, como si militasse ás ordens de Gladstone; esse é em substancia o resultado de minha educação politica: sou um liberal inglez,--com affinidades radicaes, mas com adherencias whigs,--no Parlamento brasileiro; esse modo de definir-me será exacto até o fim, porque o liberalismo inglez, Gladstoniano, Macaulayiano, perdurará sempre, será a vasallagem irresgatavel do meu temperamento ou sensibilidade politica; no emtanto, depois do primeiro ensaio, a feição politica tornar-se-á secundaria, subalterna, será substituida pela identificação humana com os escravos e esta é que ficará sendo a caracteristica pessoal, tudo se fundirá n’ella e por ella. N’esse sentido é a emancipação a verdadeira acção formadora para mim, a que toma os elementos isolados ou divergentes da imaginação, os extremos da curiosidade ou da sympathia intellectual, os contrastes, os antagonismos, as variações de faculdades sensiveis á verdade, á belleza, que os systemas mais oppostos reflectem uns contra os outros, e constróe o molde em que a aspiração politica é vasada, e não ella sómente, a intelligencia, a imaginação, os proprios sonhos e chimeras do homem.
Como eu disse, porém, ha pouco, eu trazia da infancia o interesse pelo escravo... Esse episodio não será talvez descabido n’estas recordações.
XX
MASSANGANA[3]
[3] A razão que me fez não começar pelos annos da infancia foi que estas paginas tiveram, ao serem primeiro publicadas, feição politica que foram gradualmente perdendo, porque já ao escrevel-as diminuia para mim o interesse, a seducção politica. A primeira idéa fôra contar minha formação monarchica; depois, alargando o assumpto, minha formação politico-litteraria ou litterario-politica; por ultimo, desenvolvendo-o sempre, minha formação humana, de modo que o livro confinasse com outro, que eu havia escripto antes sobre minha reversão religiosa. É d’este livro, de caracter mais intimo, composto em francez ha sete annos, que traduzo este capitulo para explicar a referencia feita ás minhas primeiras relações com os escravos.
O traço todo da vida é para muitos um desenho da creança esquecido pelo homem, e ao qual este terá sempre que se cingir sem o saber... Pela minha parte acredito não ter nunca transposto o limite das minhas quatro ou cinco primeiras impressões... Os primeiros oito annos da vida foram assim, em certo sentido, os de minha formação instinctiva, ou moral, definitiva... Passei esse periodo inicial, tão remoto e tão presente, em um engenho de Pernambuco, minha provincia natal. A terra era uma das mais vastas e pittorescas da zona do Cabo... Nunca se me retira da vista esse panno de fundo da minha primeira existencia... A população do pequeno dominio, inteiramente fechado a qualquer ingerencia de fóra, como todos os outros feudos da escravidão, compunha-se de escravos, distribuidos pelos compartimentos da senzala, o grande pombal negro ao lado da casa de morada, e de rendeiros, ligados ao proprietario pelo beneficio da casa de barro que os agasalhada ou da pequena cultura que elle lhes consentia em suas terras. No centro do pequeno cantão de escravos levantava-se a residencia do senhor, olhando para os edificios da moagem, e tendo por traz, em uma ondulação do terreno, a capella sob a invocação de S. Matheus. Pelo declive do pasto arvores isoladas abrigavam sob sua umbella impenetravel grupos de gado somnolento. Na planicie extendiam-se os cannaviaes cortados pela alameda tortuosa de antigos ingás carregados de musgos e cipós, que sombreavam de lado a lado o pequeno rio Ipojuca. Era por essa agua quasi dormente sobre os seus largos bancos de areia que se embarcava o assucar para o Recife; ella alimentava perto da casa um grande viveiro, rondado pelos jacarés, a que os negros davam caça, e nomeado pelas suas pescarias. Mais longe começavam os mangues que chegavam até á costa de Nazareth... Durante o dia, pelos grandes calores, dormia-se a sesta, respirando o aroma, espalhado por toda a parte, das grandes taixas em que cozia o mel. O declinar do sol era deslumbrante, pedaços inteiros da planicie transformavam-se em uma poeira d’ouro; a bocca da noite, hora das boninas e dos bacuraus, era agradavel e balsamica, depois o silencio dos céos estrellados majestoso e profundo. De todas essas impressões nenhuma morrerá em mim. Os filhos de pescadores sentirão sempre debaixo dos pés o roçar das areias da praia e ouvirão o ruido da vaga. Eu por vezes acredito pisar a espessa camada de cannas que cercava o engenho e escuto o rangido longinquo dos grandes carros de bois...
Emerson quizera que a educação da creança começasse cem annos antes d’ella nascer. A minha educação religiosa obedeceu certamente a essa regra. Eu sinto a idéa de Deus no mais afastado de mim mesmo, como o signal amante e querido de diversas gerações. N’essa parte a serie não foi interrompida. Ha espiritos que gostam de quebrar todas as suas cadeias, e de preferencia as que outros tivessem creado para elles; eu, porém, seria incapaz de quebrar inteiramente a menor das correntes que alguma vez me prendeu, o que faz que supporto captiveiros contrarios, e menos do que as outras uma que me tivesse sido deixado como herança. Foi na pequena capella de Massangana que fiquei unido á minha.
As impressões que conservo d’essa edade mostram bem em que profundezas os nossos primeiros alicerces são lançados. Ruskin escreveu esta variante do pensamento de Christo sobre a infancia: «A creança sustenta muitas vezes entre os seus fracos dedos uma verdade que a edade madura com toda sua fortaleza não poderia suspender e que só a velhice tera novamente o privilegio de carregar.» Eu tive em minhas mãos como brinquedos de menino toda a symbolica do sonho religioso. A cada instante encontro entre minhas reminiscencias miniaturas que por sua frescura de provas _avant la lettre_ devem datar d’essas primeiras tiragens da alma. Pela perfeição d’essas imagens inapagaveis póde-se estimar a impressão causada. Assim eu vi a Creação de Miguel-Angelo na Sixtina e a de Raphael nas Loggie, e, apezar de toda a minha reflexão, não posso dar a nenhuma o relevo interior do primeiro paraiso que fizeram passar deante dos meus olhos em um vestigio de antigo Mysterio popular. Ouvi notas perdidas do Angelus na Campanha Romana, mas o muezzin intimo, o timbre que sôa aos meus ouvidos á hora da oração, é o do pequeno sino que os escravos escutavam com a cabeça baixa, murmurando o _Louvado seja Nosso Senhor Jesus-Christo_. Este é o Millet inalteravel que se gravou em mim. Muitas vezes tenho atravessado o oceano, mas si quero lembrar-me d’elle, tenho sempre deante dos olhos, parada instantaneamente, a primeira vaga que se levantou deante de mim, verde e transparente como um biombo de esmeralda, um dia em que, atravessando por um extenso coqueiral atraz das palhoças dos jangadeiros, me achei á beira da praia e tive a revelação subita, fulminante, da terra liquida e movente... Foi essa onda, fixada na placa mais sensivel do meu _kodak_ infantil, que ficou sendo para mim o eterno _cliché_ do mar. Sómente por baixo d’ella poderia eu escrever: _Thalassa! Thalassa!_
Meus moldes de idéas e de sentimentos datam quasi todos d’essa epocha. As grandes impressões da madureza não têm o condão de me fazer reviver que tem o pequeno caderno de cinco a seis folhas apenas em que as primeiras hastes da alma apparecem tão frescas como si tivessem sido calcadas n’esta mesma manhã... O encanto que se encontra n’esses _eidoli_ grosseiros e ingenuos da infancia não é sinão o sentimento de que só elles conservam a nossa primeira sensibilidade apagada... Elles são, por assim dizer, as cordas soltas, mas ainda vibrantes, de um instrumento que não existe mais em nós...
Do mesmo modo que com a religião e a natureza, assim com os grandes factos moraes em redor de mim. Estive envolvido na campanha da abolição e durante dez annos procurei extrahir de tudo, da historia, da sciencia, da religião, da vida, um filtro que seduzisse a dynastia; vi os escravos em todas as condições imaginaveis; mil vezes li a _Cabana do Pae Thomaz_, no original da dôr vivida e sangrando; no emtanto a escravidão para mim cabe toda em um quadro inesquecido da infancia, em uma primeira impressão, que decidiu, estou certo, do emprego ulterior de minha vida. Eu estava uma tarde sentado no patamar da escada exterior da casa, quando vejo precipitar-se para mim um jovem negro desconhecido, de cerca de dezoito annos, o qual se abraça aos meus pés supplicando-me pelo amor de Deus que o fizesse comprar por minha madrinha para me servir. Elle vinha das vizinhanças, procurando mudar de senhor, porque o d’elle, dizia-me, o castigava, e elle tinha fugido com risco de vida... Foi este o traço inesperado que me descobriu a natureza da instituição com a qual eu vivêra até então familiarmente, sem suspeitar a dôr que ella occultava.
Nada mostra melhor do que a propria escravidão o poder das primeiras vibrações do sentimento... Elle é tal, que a vontade e a reflexão não poderiam mais tarde subtrahir-se á sua acção e não encontram verdadeiro prazer sinão em se conformar... Assim eu combati a escravidão com todas as minhas forças, repelli-a com toda a minha consciencia, como a deformação utilitaria da creatura, e na hora em que a vi acabar, pensei poder pedir tambem minha alforria, dizer o meu _nunc dimittis_, por ter ouvido a mais bella nova que em meus dias Deus pudesse mandar ao mundo; e, no emtanto, hoje que ella está extincta, experimento uma singular nostalgia, que muito espantaria um Garrison ou um John Brown: a saudade do escravo.
É que tanto a parte do senhor era inscientemente egoista, tanto a do escravo era inscientemente generosa. A escravidão permanecerá por muito tempo como a caracteristica nacional do Brasil. Ella espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contacto foi a primeira fórma que recebeu a natureza virgem do paiz, e foi a que elle guardou; ella povoou-o, como si fosse uma religião natural e viva, com os seus mythos, suas legendas, seus encantamentos; insufflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pezar, suas lagrimas sem amargor, seu silencio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte... É ella o suspiro indefinivel que exhalam ao luar as nossas noites do Norte. Quanto a mim, absorvi-a no leite preto que me amamentou; ella envolveu-me como uma caricia muda toda a minha infancia; aspirei-a na dedicação de velhos servidares que me reputavam o herdeiro presumptivo do pequeno dominio de que faziam parte... Entre mim e elles deve ter-se dado uma troca continua de sympathia, de que resultou a terna e reconhecida admiração que vim mais tarde a sentir pelo seu papel. Este pareceu-me, por contraste com o instincto mercenario da nossa epocha, sobrenatural á força de naturalidade humana, e no dia em que a escravidão foi abolida, senti distinctamente que um dos mais absolutos desinteresses de que o coração humano se tenha mostrado capaz não encontraria mais as condições que o tornaram possivel.
Nessa escravidão da infancia não posso pensar sem um pezar involuntario... Tal qual o presenti em torno de mim, ella conserva-se em minha recordação como um jugo suave, orgulho exterior do senhor, mas tambem orgulho intimo do escravo, alguma coisa parecida com a dedicação do animal que nunca se altera, porque o fermento da desegualdade não póde penetrar n’ella. Tambem eu receio que essa especie particular de escravidão tenha existido sómente em propriedades muito antigas, administradas durante gerações seguidas com o mesmo espirito de humanidade, e onde uma longa hereditariedade de relações fixas entre o senhor e os escravos tivessem feito de um e outros uma especie de tribu patriarchal isolada do mundo. Tal approximação entre situações tão deseguaes perante a lei seria impossivel nas novas e ricas fazendas do Sul, onde o escravo, desconhecido do proprietario, era sómente um instrumento de colheita. Os engenhos do Norte eram pela maior parte pobres explorações industriaes, existiam apenas para a conservação do estado do senhor, cuja importancia e posição avaliava-se pelo numero de seus escravos. Assim tambem encontrava-se alli com uma aristocracia de maneiras que o tempo apagou, um pudor, um resguardo em questões de lucro, proprio das classes que não traficam.