Part 11
É possivel que seja aquella a lei biologica da mistura aryana, mas até hoje ainda nenhum galho americano de tronco europeu mostrou poder dar a mesma flôr de civilisação que a da velha estirpe. É possivel que a civilisação americana venha um dia a ser mais grandiosa do que qualquer que o mundo conheceu, mas eu consideraria perigoso, por emquanto, renunciar a Europa nos Estados-Unidos a tarefa de levar a cabo a obra da humanidade. Reduzida esta aos actuaes elementos americanos, muita nobre inspiração talvez nunca mais se pudesse renovar e o genio da raça humana não viesse nunca a reflorir. A educação americana parece a unica que não é convencional, que não é uma pura galvanisação de estados de espirito de outras epochas, de ideaes classicos e litterarios, que homens que vivem entre livros insinuam aos que não tem tempo para lêr. A idéa tem na America do Norte muito menor papel na vida do que nos outros paizes, onde tudo está escripto e convertido em regra, e dos quaes se póde dizer, invertendo a celebre phrase, que nada lhes cáe sob os sentidos que não tenha estado primeiro na intelligencia. Os Americanos, em grande escala, estão inventando a vida, como si nada existisse feito até hoje. Tudo isto suggere grandes innovações futuras, mas não existe ainda o menor signal de que a elaboração do destino humano ou a revelação superior feita ao homem tenha um dia que passar para os Estados-Unidos. A sua missão na historia é ainda a mais absoluta incognita. Si elle desapparecesse de repente, não se póde dizer o que é que a humanidade perderia de essencial, que raio se apagaria do espirito humano; não é ainda como si tivesse desapparecido a França, a Allemanha, a Inglaterra, a Italia, a Hespanha.
XVIII
MEU PAI
Por onde quer, entretanto, que eu andasse e quaesquer que fossem as influencias de paiz, sociedade, arte, auctores, exercidas sobre mim, eu fui sempre interiormente trabalhado por outra acção mais poderosa, que apezar, em certo sentido, de estranha, parecia operar sobre mim de dentro, do fundo hereditario, e por meio dos melhores impulsos do coração. Essa influencia, sempre presente por mais longe que eu me achasse d’ella, domina e modifica todas as outras, que invariavelmente lhe ficam subordinadas. É aqui o momento de fallar d’ella, porque não foi uma influencia propriamente da infancia nem do primeiro verdor da mocidade, mas do crescimento e amadurecimento do espirito, e destinada a augmentar cada vez mais com o tempo e a não attingir todo o seu desenvolvimento sinão quando posthuma. Essa influencia foi a que exerceu meu pae...
Quando eu o vi pela primeira vez, em 1857, elle tinha quarenta e quatro annos e acabava de deixar o ministerio da Justiça. O gabinete Paraná-Caxias (1853-57) fôra o mais longo que o Imperio até então tinha tido e ficou sendo a mais brilhante escola de estadistas do reinado. O grupo dos «moços» que o marquez de Paraná reuniu em torno de si, mostra de que maneira elle lia os homens e o futuro. Paranhos, Wanderley, Pedreira, Nabuco estavam todos destinados a representar primeiros papeis em politica. Esse gabinete foi conhecido como o ministerio da Conciliação. Elle correspondia ao pensamento, acceito pelo Imperador depois do choque da ultima guerra civil do Imperio, de abrir a politica aos elementos liberaes proscriptos, sem tirar a direcção d’ella ao espirito conservador. Antes de entrar para o ministerio, fôra Nabuco quem melhor definira o alcance e os limites d’essa nova politica, da qual devia ficar depois da morte de Paraná, e por muito tempo, quasi que o solitario continuador. Citarei um trecho d’esse seu discurso de 1853 como simples deputado, discurso-programma, póde-se dizer, pelo muito que será interpretado e invocado depois que por elle é feito ministro, porque basta esse trecho para dar idéa do seu modo de insinuar nos espiritos uma direcção nova, um rumo diverso do que se ia levando.
É dos seus discursos o chamado _a ponte de ouro_. Os discursos de Nabuco tinham entre os contemporaneos cada um o seu nome, ou, como esse, tirado pelos adversarios do alcance, da intenção que lhe attribuiam, ou dado pela imagem ou phrase mais expressiva, ou comprehensiva, de que elle se servira para caracterisar a situação. «Eu entendo, dizia elle fallando da idéa de conciliação, a qual estava no ar, que é preciso fazer alguma concessão no sentido que o progresso e a experiencia reclamam, para que mesmo o orgulho e o amor proprio não se embaracem ante a idéa da apostasia; para que a transformação seja explicada pelo novo principio, pela modificação das idéas. A conciliação como coalisão e fusão dos partidos, para que se confundam os principios, para que se obliterem as tradições, é impraticavel, e mesmo perigosa, e por todos os principios inadmissivel; porque, destruidas as barreiras do antagonismo politico que as opiniões se oppõem reciprocamente, postas em commum as idéas conservadoras e as exaggeradas, estas hão de absorver aquellas; as idéas exaggeradas hão de triumphar sobre as idéas conservadoras; as idéas exaggeradas têm por si o enthusiasmo, as idéas conservadoras somente a reflexão; o enthusiasmo é do maior numero, a reflexão é de poucos; aquellas seduzem e coagem, estas sómente convencem... A historia nos diz que n’estas coalisões a opinião exaggerada ganha mais que a opinião conservadora...» E em seguimento: «Ouvi com repugnancia uma idéa proferida n’esta casa, que os partidos por si é que se deviam conciliar. Entendo ao contrario que a conciliação deve ser a obra do governo e não dos partidos, porque no estado actual, si os partidos por si mesmos se conciliarem, será em odio e despeito ao governo, e a transacção, versando sobre o principio da auctoridade, não póde deixar de ser funestissima á ordem publica e ao futuro do paiz...»
Esses quatro annos de ministerio foram para elle extremamente trabalhosos, mas por egual fecundos. Meu pae vinha da magistratura e da Camara com uma reputação feita de jurisconsulto. No ministerio da Justiça elle a consolidou. Não tento agora um resumo de sua obra, que extensamente recompuz em _Um Estadista do Imperio_. Escolho alguns traços sómente para definir a sua individualidade e a sua influencia. Coube-lhe em primeiro logar acabar inteiramente com o trafico de Africanos que Eusebio de Queiroz, seu antecessor, ferira de morte, mas que não queria desapparecer sinão mui lentamente; a menor fraqueza da parte de uma futura administração fal-o-hia renascer com dobrada ancia de aproveitar a monção, porque seus quadros e material conservavam-se intactos no Brasil e em Africa. Nabuco propõe como recurso extremo tirar-se o julgamento do crime aos jurados. Esse golpe na «instituição popular» parecia uma enormidade aos idolatras do preconceito liberal: elle, porém, sustentou-o com razões de uma coerção moral e social absoluta. «Em 1850, vós o sabeis, disse elle á Camara, o grande mercado dos escravos era nas costas; é ahi que havia grandes armazens de deposito onde todos iam comprar; mediante essa lei de 4 de Setembro de 1850»,--a lei de Eusebio de Queiroz,--«essas circumstancias se tornaram outras, os traficantes mudaram de plano. Apenas desembarcados os Africanos são para logo, por caminhos impervios e por atalhos desconhecidos, levados ao interior do paiz. Á face d’estas novas circumstancias que póde o governo fazer com a lei de 4 de Setembro de 1850, cuja acção é sómente restricta ao littoral? Si desejamos sinceramente a repressão, si não queremos sophismal-a, devemos seguir os africanistas em seus novos planos... Não é para abusar que o governo quer estas disposições, porque para abusar eram bastantes e poderosos os meios que estão hoje á sua disposição... Um governo, a menos que desconheça a sua missão, não póde por amor de um interesse comprometter os outros interesses da sociedade: é na combinação de todos elles que consiste o grande problema da administração publica... Eu vos disse que o governo tinha o desejo sincero de reprimir o trafico e não queria sophismar a repressão: não será sophismar a repressão o encarregar ao jury o julgamento d’este crime?... Os africanistas não hão de deixar de procurar para o desembarque aquelles sitios em que a opinião fôr favoravel ao trafico; não hão de internar os africanos sinão para os logares em que acham protecção, e o jury d’esses logares, os cumplices, os interessados, os conniventes no crime, pódem julgal-o?...» O governo triumphou, a lei proposta foi votada pelas Camaras... Ter ousado propôr a derogação da competencia do jury quando o trafico estava expirante, era a coragem do verdadeiro homem de Estado, cuja divisa deve ser o _nil actum reputans_ de Cesar. A gloria não seria mais da repressão depois do golpe de Eusebio; este a tinha tirado toda a antecessores e successores egualmente; o que restava a quem viesse depois d’elle era sómente o dever. Mais de uma vez meu pae teve que fazer frente aos defensores theoricos da intangibilidade do jury para fazer triumphar o principio superior da defesa social. Assustava-o a estatistica da impunidade, e entre as causas d’esse estado de coisas elle contava o poderio das influencias do interior que dominavam o jury e por esse meio augmentavam e mantinham em obediencia a sua vassallagem. Como remedio propunha a concentração do jury nos logares povoados bastante para terem uma opinião independente.
Essa era a sua qualidade principal de politico: adaptar os meios aos fins e não deixar periclitar o interesse social maior por causa de uma doutrina ou de uma aspiração. Como se mostrou com o jury, mostrou-se, elle, magistrado, com a magistratura. A distribuição da justiça foi um de seus maiores empenhos na ordem administrativa; uma boa magistratura, efficiente, instruida, prestigiada, era para elle a solução de metade dos nossos problemas; levantar a vocação de juiz por todos os meios ao alcance do Estado seria o complemento do seu outro desideratum: levantar a vocação religiosa, formar um clero a cuja mãos se pudesse entregar a guarda dos dez mandamentos, o deposito da moral e dos costumes. No emtanto será elle o principal sustentador das aposentadorias forçadas de magistrados vitalicios; elle quem transformará em maxima do governo, em inspiração para os homens de Estado, as palavras de um antigo chanceller francez, quando disse: «Prefiro mil vezes ser julgado por um magistrado venal, porém, capaz, a sel-o por um magistrado honesto, porém, ignorante, porque o magistrado venal não faltará á justiça sinão nas causas em que tiver interesse em fazel-o, emquanto que o magistrado ignorante só por um mero acaso pronunciará uma boa sentença.»
Da mesma fórma com o clero. Como ministro da Justiça, elle dá um forte impulso á educação do clero, propõe a creação de faculdades theologicas; é d’elle o decreto que confere aos bispos o poder _ex-informata conscientia_ sobre os seus sacerdotes, sem o qual não seria praticavel a arregimentação passiva da milicia ecclesiastica; e no emtanto é elle quem interrompe no Brasil o noviciado monastico. Seu pensamento, longe de ser supprimir as ordens religiosas, era regeneral-as, restituil-as á desejada pureza, ou, como elle disse em uma phrase que se gravou na memoria de Pio IX, «levantar um muro de bronze entre o novo e o velho clero.» Assim tambem serviu a monarchia com lealdade e desinteresse; joven ainda, academico de Olinda, partiu d’elle o primeiro grito ouvido e repercutido no Norte contra as tendencias republicanas de 7 de Abril, mas a prerogativa monarchica não encontrou entre nós mais forte barreira do que fosse o seu espirito liberal fortemente imbuido do preconceito constitucional. É caracteristico do seu modo de comprehender a posição de Conselheiro de Estado a franqueza com que perante o proprio Imperador elle sustenta a maxima,--_o rei reina e não governa_.
De 1868 a 1871, em que a idéa foi abraçada pelo Visconde do Rio-Branco que a converteu em lei, meu pae foi o principal agitador da libertação das gerações futuras. Em 1866 elle votára por essa reforma em despacho de ministros e em 1867 fôra o seu mais estrenuo defensor no Conselho de Estado, como relator do projecto que depois se converteu na lei de 28 de Setembro. Distribuindo no dia da victoria os louros do triumpho, Francisco Octaviano render-lhe-á este tributo: «Ao seu nobre collega o sr. Nabuco de Araujo tambem é indisputavel a gloria pelo zelo com que no Conselho de Estado, na correspondencia com os fazendeiros e na tribuna por meio de eloquentes discursos, fez amadurecer a idéa e tomar proporções de vontade nacional.»
Essa foi a reforma a que elle se dedicou com maior interesse e amor... Tambem desde 1866 o meu sonho, minha ambição para elle era que o seu nome ficasse associado ao primeiro Acto de emancipação do reinado... Quantas cartas minhas escriptas da Academia, e conservadas, como elle fazia com todos os papeis que recebia, encontrei depois exprimindo aquella esperança intima de que elle viesse a ser o Lincoln brasileiro! E de certo de sua carreira nenhum traço me é mais precioso do que esse que reconstrui com fidelidade em sua _Vida_ e que faz d’elle, assim como Rio-Branco foi o Robert Peel, o Cobden d’aquelle primeiro movimento abolicionista. Assim, si ao entrar eu para a Camara em 1879 elle vivesse ainda, ao passo que sua presença no Senado, modificaria em muita coisa a minha liberdade de acção, em um ponto, tenho a mais completa certeza, o meu papel teria sido o mesmo, ainda mais accentuado: na questão dos escravos. N’essa elle não me corrigiria nem me conteria. A sua attitude seria, como havia de ser a de Rio-Branco si assistisse a mais uma Sessão Legislativa, francamente favoravel á abolição. Si um e outro vivessem, o caracter revolucionario do movimento teria talvez sido evitado, porque em ambos os partidos haveria no momento decisivo,--depois foi tarde,--quem se identificasse com a propaganda, impedindo assim no futuro a aspiração liberal humana de tornar-se em fermento politico... Eu não tenho, graças a Deus, duvida que esta seria a sua attitude, e posso assim dizer que em 1879 não fiz como deputado sinão continuar do ponto em que elle ficára, substituir-me a elle, com a differença natural entre minha mocidade e sua velhice, desenvolvendo em favor dos escravos existentes o pensamento que elle assignalára como um dever nacional, tanto no preparo como na discussão da lei que libertou as gerações futuras.
Para o fim da vida seu liberalismo tinha tomado um tom muito accentuado, mas era sempre sob fórmas concretas que elle encarava a liberdade. Assim occupava-se sobretudo das garantias judiciaes da liberdade individual. Elle tinha um certo numero de formulas constitucionaes, de maximas politicas, que faziam parte de sua lealdade tanto á causa monarchica como á causa liberal. Conservador na mocidade e em toda a parte da carreira em que a vida se expandia e a emulação o inspirava, foi na edade do retrahimento que elle rompeu com o partido da tradição, que a seu vêr se tornára uma oligarchia, tomando a fórma de um triumvirato; chefe liberal, porém, mostrou sempre preferir a maneira, o compasso, a compostura da velha escola á lufa-lufa, promiscuidade e indisciplina do seu novo campo.
Estes traços bastariam para desenhar o homem de Estado: era uma natureza liberal, com um impulso imaginativo muito pronunciado, vendo distinctamente o ideal politico, mas querendo realidades e não phantasmas, preferindo um pouco de liberdade que se pudesse deixar como a herança aos filhos, um bem-estar relativo, a grandes direitos illusorios, em cuja posse não se pudesse entrar, ou a grandes reformas do mechanismo politico que em nada melhorassem a condição do paiz. Tinha um fundo de idealismo, formado de principios inflexiveis, mas corrigido sempre pela intuição nitida dos effeitos praticos da lei. Era um chefe de partido alheio á pequena politica, o que quer dizer que exercia uma especie de auctoridade moral que os amigos e adversarios compararam por vezes ao poder espiritual dos antigos mikados.
Vivendo no meio de uma elite verdadeiramente notavel de homens de Estado, oradores, legisladores, a mais rica dos dois reinados em talento parlamentar, tradições politicas e conhecimentos administrativos, elle teve longo tempo entre elles por admissão geral o papel de oraculo. Para o fim fallava raramente e uma tristeza invencivel misturava-se ás suas adivinhações patrioticas. Hoje dir-se-ia, lendo-o, que a uma distancia de doze ou quinze annos o fim das instituições liberaes projectava na frente a sua sombra e que elle a via avançar sobre a tribuna do Senado.
Foi muitos annos depois da sua morte, estudando-lhe a vida, meditando sobre o que elle deixou do seu pensamento, compulsando o vasto archivo por elle accumulado, a sua correspondencia politica, os testemunhos, as controversias, suscitadas pela sua acção individual e as consequencias a ella attribuidas por amigos e adversarios, que abrangi a personalidade politica de meu pae. Na mocidade ser-me-ia impossivel ter d’elle a comprehensão que depois formei; eu não teria as faculdades para isso, a calma necessaria para admirar o que só falla á razão, o espirito de systema, o genio constructor. Mas si o estadista só podia ser medido e avaliado por mim em outra phase do meu desenvolvimento, não soffri, toda a vida, influencia directa e positiva como a admiração que tive pelo homem. Sua grande sciencia eu sabia bem, eu via, estar n’elle e não nos livros, que litteralmente não eram sinão auctoridades de que elle se servia para o publico, juizes, collegas... Mais, porém, do que sua sciencia, o que me dominava n’elle era a harmonia visivel da sua estructura mental e moral, manifestada por uma serenidade e uma doçura sem egual.
Em 1860 meu pae mudou-se do Cattete para a praia do Flamengo, onde residiu até á morte. A casa era uma d’essas construcções massiças ainda do bom tempo da edificação portugueza no Rio de Janeiro, com proporções no interior de um trecho de palacio ou de convento. Alli, n’aquelles salões, e quartos que eram salas, elle estava á vontade, tinha o espaço, e, com o mar em frente de suas janellas, a variedade e o movimento exterior, precisos a um recluso dos livros. A sociedade do Rio de Janeiro vinha ás suas partidas e recepções; vizinhos, nos domingos, á missa rezada em seu oratorio; durante a sessão das Camaras, deputados Pernambucanos, e sempre os intimos, como o Marquez de Abrantes, Quarahim, os antigos collegas. Isto, além das vezes que ia de carruagem ao Senado ou ao escriptorio, constituia toda a distracção que elle tinha fóra do seu gabinete. Sua vida, póde-se dizer, era exclusivamente cerebral, e nunca teve tempo, (nem um dia, talvez, em toda ella), de interromper, de suspender, esse labor continuo, que era todo elle um serviço forçado, nenhuma parte, nem a mais insignificante siquer, sendo de sua propria escolha ou inclinação... D’esse modo de viver, encerrado entre altas muralhas de livros, sahindo da sua cella sómente para se encontrar em presença da familia com os que a sympathia ou a fidelidade reunia em torno d’elle, resultou aquella bondade captivante, que foi o seu principal traço.
É para mim hoje uma causa de arrependimento e compuncção o não ter tido como principal aspiração saciar-me, saturar-me d’elle, fazer do meu espirito uma copia, um borrão mesmo, do que havia impresso e cravado no d’elle, quando mais não fosse, das notações que um instante retive, mas deixei apagar... Ha lacunas que não me seria possivel reparar... Estou-me lembrando agora dos grandes volumes encadernados que faziam companhia no degredo do escriptorio á duplicata dos velhos praxistas... Era a collecção dos periodicos em que collaborára ou que redigira no Recife... Estavam alli vinte annos de sua vida... Toda essa serie dispersou-se, desappareceu... Porque não coincidiu o interesse profundo, incomparavel, que tudo isso depois me inspirou com o tempo em que vivi ao lado d’elle? Este desejo de recolher os menores vestigios do seu pensamento, os traços mais fugitivos da sua reflexão, que sempre era, na esphera em que elle produzia, pessoal, creadora, transformadora do assumpto que tratava, só me veiu quando já não podia recorrer a elle, pedir-lhe esclarecimentos, fazel-o animar para mim aquella poeira com a vida que estava só n’elle, dar-me a chave, o espirito da epocha, o caracter, o alcance, a verdade real do que alli se representava, e de que só elle possuia as limitações, a escala, o padrão definitivo em que tudo devia ser tomado... E em relação aos personagens que conhecêra, com quem vivera. Porque não fiz passar deante d’elle, sem cançal-o nem forçal-o, a galeria dos seus contemporaneos para apanhar o vestigio que lhe ficára de cada um?... No emtanto, quanto não conversei com elle! Annos inteiros meu maior prazer eram as horas que elle nos dava cada dia e em que me embebia em ouvil-o e, ainda mais, em vêl-o... Hoje sinto não ter tido a ambição de não ser sinão o apparelho que recebesse para conservar o mais que fosse possivel d’elle, e cuja presença continua ao seu lado lhe fosse recolhendo as reminiscencias, os pontos de vista, as imagens representativas, que cincoenta annos de actividade cerebral traçaram em seu pensamento.
Feito este acto de contricção pelo que deixei de aproveitar d’elle para minha propria formação e pelo que deixei perder ao seu espolio intellectual, a verdade é que nenhuma sancção moral foi por muito tempo tão forte para mim como a consciencia da relação que me prendia a elle e que em todo o tempo estive sempre prompto a renunciar a uma palavra d’elle,--que a não disse,--a minha inspiração pela sua, o papel que eu ambicionasse pelo que elle me désse. Como eu disse, só muito mais tarde, vinte annos depois de o ter visto pela ultima vez, pude avaliar o que chamo hoje o seu genio politico e sentir por elle toda a admiração consciente, objectiva, de que sou capaz. Mas ainda assim o sentimento da sua superioridade no seu tempo foi para mim instinctivo. Longe d’elle, na minha esphera intellectual independente, eu exprimiria muitas opiniões, diversas das suas, teria muito exaggero da linha que elle levava; não haveria hypothese, porém, de não ceder eu á menor pressão que elle julgasse preciso exercer sobre a mim, a uma persuasão que me quizesse incutir. A pretenção da mocidade, que se inspira em si mesma e decreta a sua infallibilidade, porque só vê o lado das coisas ao seu alcance, desapparecia sem hesitação a um appello da sua ternura, a um toque da sua razão superior. Prouvéra a Deus tivesse sido assim nos primeiros annos da curiosidade intellectual insaciavel, quando primeiro travei conhecimento com a _terra incognita_ assignalada no mappa da fé como o limite da propria imaginação.