Part 4
Como é que em minutos nos poderia penetrar a impressão do artista que levou annos para realisar seu pensamento, e morreu ainda agitado por elle? Eu _olhei_, por exemplo, para a cathedral de Reims, com Rodolpho Dantas, em um dia que _roubámos_ a Pariz, linguagem do boulevard; parei para vêr a cathedral de Amiens; _roubei_ outro dia a Pariz para fazer a volta da cathedral de Rouen; fui a Strasburgo avistar o grande Münster de Erwin von Steinbach; com Arthur de Carvalho Moreira, um dos mais finos espiritos da nossa geração academica, fiz uma vez a _tournée_ dos castellos historicos do Loire: Chenonceaux, Amboise, Blois, Chambord. Horas para tudo isso! Para Francisco I, Diana de Poitiers, a Renascença Franceza! Mais tarde, por não querer apressar-me assim, não fiz com o mesmo companheiro, o qual deu annos de sua vida intellectual exclusivamente aos _goethekenners_, a visita ás cidades de Goethe: Frankfort, Leipzig,--Strasburgo, vi, mas sem pensar em Frederica,--Wetzlar e Weimar. Por toda a parte, posso dizer, passei, como passei em 1892, por Coimbra, Alcobaça, Mafra, a Batalha, sem deixar siquer ás impressões o tempo de se gravarem no espirito. Uma hora para a cathedral de Reims! só não foi um ultraje, uma offensa áquella divina fachada, porque lá estive em verdadeira humilhação, e não lancei olhares criticos ao seu sublime portal, a toda a sua incomparavel legenda, como o _gamin_ lhe atira pedras. Uma hora em Amiens! n’esse «_Parthenon da architectura gothica_», como lhe chamou Viollet-le-Duc, e levando na mão a _Biblia de Amiens_ de John Ruskin, o qual chega a invejar o humilde guarda, cuja funcção é espanar-lhe as esculpturas de madeira, como nunca outras foram talhadas!
De passagem, póde-se vêr muita coisa, mas não se tem a revelação de nada. A primeira condição para o espirito receber a impressão de uma grande creação qualquer, seja ella de Deus, seja das epochas,--nada é puramente individual,--é o repouso, a occasião, a passividade, o apagamento do pensamento proprio; dar á fórma divina o tempo que ella quizer para reflectir-se em nós, para deixar-nos comprehendel-a e admiral-a, para revelar-nos o pensamento originario donde nasceu.
De todos esses logares da Suissa ou da Italia, de Fontainebleau, de Pariz, de Londres, não trago sinão impressões de arte, impressões literarias, impressões de vida: o grande effeito em mim dessa viagem é assim apagar a politica; suspender durante um anno, inteiramente, a faculdade politica, que, uma vez suspensa, parada, está quebrada e não volta mais a ser a mola principal do espirito. Eu não podia entretanto estar em França, em uma epocha de transformação, como foi essa de 1873-74, e ás vezes, em contacto com homens politicos, nem penetrar na sociedade ingleza, sem que a grande politica européa exercesse uma influencia _positiva_ sobre o meu espirito, além da modificação operada negativamente, como eu disse, pelo meu afastamento do nosso scenario local e pela sensação d’arte. Apezar de tudo, eu tinha affinidades politicas inapagaveis, que poderiam, quando muito, ficar secundarias, subordinadas á attracção puramente intellectual. Dessa modificação _positiva_ fallarei agora.
VI
A FRANÇA DE 1873-74
A epocha em que eu pela primeira vez tinha Pariz por menagem, era historicamente tão interessante que um espirito sujeito como o meu a fortes tentações politicas não poderia deixar de voltar-se para o espectaculo dos acontecimentos, apezar dos meus deslumbramentos artisticos e litterarios. Comprehende-se, porém, que a attracção contraria á politica era ainda mais poderosa, pela novidade, pelo esplendor das suas revelações continuas, do que o proprio drama contemporaneo. No Rio de Janeiro ou em S. Paulo, quem se alimente de politica, quando a sensação de um grande acontecimento se apossa delle, não encontra nada em redor de si que a corrija ou lhe sirva de contrapeso; felizmente, os acontecimentos raro são _grandes_. Para um joven brasileiro, porém, que pela primeira vez chega a Pariz, é quasi impossivel imaginar acontecimento que possa tornal-o indifferente ao maravilhoso que o surprehende a cada passo, ou sensação politica que não fosse amortecida, dominada logo, pela sensação de arte.
Realmente, a lucta entre o duque de Broglie e _monsieur_ Thiers, o theatro do palacio de Versalhes convertido em Assembléa Nacional, o Trianon dando as suas salas para o conselho de guerra de Bazaine, attrahiam-me, e fui um dos mais anciosos espectadores que assistiram nessa epocha aos debates daquella assembléa, ou que participaram da emoção daquelle grande processo militar, apezar de tudo pouco generoso.
Nunca hei de esquecer as frias manhãs de novembro em que o meu querido amigo José Caetano de Andrade Pinto, depois conselheiro de Estado, e eu atravessavamos de carro aberto as alamedas de Versalhes para tomar os nossos logares na propria tribuna do marechal Bazaine, por detraz delle, quasi os unicos que, talvez por lhe sermos estranhos e sermos estrangeiros, tinhamos a coragem de acompanhar daquelle logar os interrogatorios, a accusação e a defesa. No ultimo momento, quando se mandou fechar a tribuna particular do marechal, passámos para o _prétoire_. Que emoção a nossa quando o duque d’Aumale, de pé, como todo o Conselho, que formava semi-circulo em torno delle, a fita vermelha da Legião de Honra passada sobre o grande uniforme, o chapéo de plumas na cabeça como em um campo de batalha, na mão uma grande folha de papel sobre a qual se projectava o reflector de uma lampada sustentada por traz delle por um imponente vulto de _huissier_, com a solemnidade de quem depois de um exilio de vinte e cinco annos representava outra vez perante a França, leu os tres _Oui, à l’unanimité_, que sibilaram pela sala toda como as balas de um pelotão!
Tambem me hei de lembrar sempre da sessão da Assembléa Nacional em que se votou o septennato de Mac-Mahon como medida provisoria, dilatoria, entre a restauração, temporariamente impossibilitada por causa da bandeira branca, e a republica, que não queriam proclamar. Si nesses sete annos morresse o conde de Chambord, _regnante_ ainda o duque de Magenta, quem sabe si o conde de Pariz não reuniria os votos dos _Chevaulégers_ e da alta finança do Centro Esquerdo! Afianço a quem me lê que, depois de um discurso pronunciado pelo duque de Broglie, com o seu accento nasal, a sua perfeição academica, sua maneira e suas maneiras _ancien régime_, vêr subir á tribuna o velho Dufaure e de improviso, sem phrases cadenciadas, sem periodos embutidos uns nos outros como um mosaico litterario, tomar entre as mãos o discurso do neto de Mme. de Staël, amassal-o, dar-lhe as fórmas que queria, até ninguem mais o poder reconhecer; assistir a um duello desses, da elegancia com a eloquencia, é um prazer que não se esquece mais. E não ouvi Berryer! Alli, em Versalhes, eu encontrava ainda os restos da grande geração parlamentar que começou na Restauração e que trouxe as suas tradições, a sua escola de oratoria, para as Camaras de Luiz Felippe. Tudo isto, não é preciso dizel-o, me interessava no mais intimo de mim mesmo, intellectualmente fallando, mas um simples relance sobre quaesquer paginas do meu diario n’essa epocha basta para mostrar quanto o meu interesse se dividia e o meu espirito era solicitado em direcções contrarias por sensações quasi do mesmo valor...
Assim, por exemplo (o italico é para mostrar as opposições repentinas): «19 de novembro. A sessão do Septennato (em que foi votada a prorogação dos poderes do marechal).--21 de novembro.--Começo a ir ao processo Bazaine.--22 de novembro. _Visita a Ernesto Renan._--2 de janeiro (1874) Chateauroux.--3 de janeiro. De manhã. Route de la Châtre. Bosques de álamos batidos pela ventania. Em Nohant ás 11 horas. Esperavam-me desde a vespera, tinham um aposento para mim. Maurice Sand, a mulher filha de Calamatta. Fazem-me almoçar. Ao meio-dia, vem George Sand. Conversámos até as 3 horas. Pediu-me para ficar algum tempo em Nohant. Fallámos de Renan, da Joconde, do theatro, de Bressant, do Imperador, que ella não viu.--4 de janeiro. Orleans. Cathedral. Casas de Jeanne d’Arc, Agnès Sorel, Diane de Poitiers. _Noticia da queda de Castelar..._--3 de janeiro. Fomos ao château de Chambord. Escadaria de pedra à double rampe. Os FF e as Salamandras de Francisco I. O _Bourgeois Gentilhomme_, 1670. Souvent femme varie. Château de Blois. Quarto de Henrique II. Escada exterior espiral. Renascença Franceza.--10 de janeiro. _Visita a monsieur Thiers_».
Talvez o dia em que viram pela primeira vez a Venus de Milo ou a Joconde tenha passado indifferente para muitos que notaram as suas menores impressões politicas. Eu, porém, não poderia siquer lembrar-me de que fôra politico deante do marmore dos marmores ou do colorido que se esvae e de um traço que se apaga de Leonardo. Na propria politica eu achava-me dividido pela mais positiva dualidade que se pudesse dar. De sentimento, de temperamento, de razão, eu era um tão exaltado partidario de Thiers como qualquer republicano francez; pela imaginação historica e esthetica era porém legitimista; isto é, perante o artista imperfeito e incompleto que ha em mim, a figura do conde de Chambord reduzia a de Thiers a proporções moralmente insignificantes. Quando em um mesmo homem ha um lyrico e um politico, a lenda tem para elle uma projecção duas vezes maior que a da historia.
Nesse espaço de tempo a que me refiro, a Republica estava ainda em questão em França; Thiers havia sido forçado a demittir-se, e a sua substituição, com surpresa delle, recahira no seu general em chefe, que dispunha, absolutamente, do exercito, o marechal de Mac-Mahon. A reconciliação do conde de Pariz com o chefe da casa de França tinha-se effectuado em Frohsdorf, em 5 de agosto; os cavallos para a entrada solemne do rei em Pariz estavam sendo negociados, quando o ministerio recuou, sentindo-se sem forças para impôr aos soldados a bandeira branca. A Restauração, póde-dizer, tinha abortado; mas, de um momento para outro, Henrique V podia inspirar-se no precedente de Henrique IV e acceitar a bandeira da Revolução. Ainda ha pouco, o general du Barail, que era o ministro da guerra do duque de Broglie, confessou que, si o conde de Chambord _tivesse querido_, não era o septennato, era sim, a monarchia que teria sido acclamada.
«O marechal, escreve elle, estava convencido de que o Principe cedêra a uma consideração patriotica: ao receio de attrahir sobre o seu paiz a animosidade e até as armas da Allemanha.» O testemunho recente do duque de Broglie e do embaixador em Berlim, o conde de Gontaut-Biron, indicam isso mesmo, que o conde de Chambord viu que a Restauração seria a guerra com a Allemanha e quiz poupar á França uma segunda e peior mutilação. Quem sabe, tambem, á vista dessas revelações diplomaticas, si não foi esse mesmo o motivo secreto superior de Thiers para desertar a monarchia?
Quem viu o velho estadista empenhar-se na consolidação da Republica com todo o seu prestigio e o seu poder de persuasão, desde que levantára a França dos campos de batalha onde jazia ferida e retirára do poder da Communa Pariz ainda em chammas, póde pensar que não se dá toda essa dedicação a uma causa que não se tenha intimamente a peito. A verdade é que, si Thiers tivesse empregado em restaurar a monarchia a metade do esforço e do trabalho que empregou em consolidar a Republica, a realeza provavelmente teria sido proclamada, talvez ainda em Bordéos. Durante muito tempo elle manteve-se como o fiel da balança entre os partidos. Não se póde lêr sem emoção esses seus discursos de 1871, quando elle se vê entre os dois lados da Assembléa e inventa distincções para impedir que elles se tratem como inimigos deante do invasor estrangeiro, todas essas distincções subtis, como entre _constituir_ e _reorganizar_, entre _renunciar_ e _reservar_ o poder constituinte.
Eu era como politico francamente thierista, isto é, em França, de facto republicano. Isto não quer dizer, porém, que me sentisse republicano de principio; pelo contrario. A terceira Republica em França foi fundada por monarchistas; foi uma transacção de estadistas monarchicos, como Thiers, Dufaure, Rémusat, Léon Say, Casimir Périer, Waddington, e todo o Centro Esquerdo.
«Sôa como um paradoxo, escreveu, com admiravel lucidez, um dos habeis redactores da _Quarterly Review_ em 1890, mas não é por isso menos exacto, que a principal barreira deante de uma restauração monarchica em França é o crescente conservatismo que foi sempre inherente ao caracter francez no meio de todas as ebullições do sentimento excitado. O povo sabe que uma mudança na fórma de governo só poderia ser realisada por meio de uma revolução ou como resultado de uma guerra, e recúa deante da perspectiva de uma e outra eventualidade, preferindo acceitar o presente estado de coisas, ainda que este não lhe desperte enthusiasmo.»
* * * * *
Esse espirito conservador da França, inimigo das mudanças bruscas, mesmo para melhorar, é bem caracterisado por esta anecdota, como a contou ha annos um correspondente do _Times_. Durante as barricadas de junho, quando se ouvia o canhão nas ruas de Pariz, mandaram uma companhia guardar o Ministerio de Estrangeiros. O official que commandava, de espada desembainhada, entrou na Secretaria, mas parou á porta de uma das salas, vendo que os empregados continuavam tranquillamente em suas mesas de trabalho, como si nada estivesse acontecendo. Vendo-o, o director levanta-se com uma porção de papeis, promptos para a assignatura do ministro, approxima-se d’elle e, inclinando-se, pergunta-lhe com a maior deferencia e naturalidade: «É ao novo governo que tenho a honra de dirigir-me?»
Era esse conservatismo que pelo orgão, principalmente, de Thiers fundava então a terceira Republica; o mesmo que não deixou ainda divorciar-se della o espirito da burguezia liberal,--espirito a que se póde chamar _Centre Gauche_,--e nenhum analysta negará que a quinta-essencia desse conservatismo fosse monarchica, mais sinceramente monarchica do que o espirito de _fronde_ das _côteries_ restauradoras.
Essa primeira grande escola estrangeira em que apprendi, não me podia fazer republicano de sentimento, como não fez republicano de sentimento a nenhum dos seus fundadores, como não fez, nem faz, republicanos aos liberaes e conservadores inglezes, ou ás testas corôadas da Europa, que, sem má vontade á França, preferem a Republica á Realeza ou ao Imperio; como não faz republicano ao Papa, que protege poderosamente o actual systema francez. O grande effeito sobre mim daquella attitude de Thiers e dos parlamentares da Monarchia de Julho era dar-me uma grande prova experimental de que a fórma de governo não é uma questão theorica, porém pratica, relativa, de tempo e de situação, o que em relação ao Brasil era um poderoso alento para a minha predilecção monarchica. O grande effeito era este: destruir o germen republicano latente, germen de intolerancia e de fanatismo. E esse foi o grande serviço de Thiers á França moderna: o de acabar com o antigo monopolio jacobino sobre a idéa republicana.
É o mesmo escriptor da _Quarterly_ quem finamente observa: «Ainda que, por um lado, o genuino sentimento realista esteja quasi extincto, por outro, o sentimento republicano tambem por sua vez esfriou. A nova geração é republicana no sentido de não acreditar na possibilidade de uma restauração monarchica; o ardente republicanismo dos velhos doutrinarios, esse, porém, está quasi tão morto como a advocacia do direito divino dos reis.» Essa modificação, que está hoje terminada, começou em 1871, e foi o resultado da adhesão, não foi conversão, do Centro Esquerdo á situação republicana creada para a França na Europa pela derrota de Sedan. Esse duplo e egual esfriamento do realismo e do republicanismo, póde-se dizer que fórma a atmosphera natural do liberalismo contemporaneo e da cultura politica moderna, e, assim como elle aproveitava em França á republica, devia aproveitar no Brasil á monarchia. Foi esta a grande influencia politica que exerceu sobre mim a minha estada em França de 1873-74. Agora resta-me precisar a influencia rival que soffri, e a que chamarei influencia litteraria, graças á qual voltei da Europa consideravelmente menos politico do que partira.
VII
ERNEST RENAN
Desde a Academia a litteratura e a politica alternaram uma com outra, occupando a minha curiosidade e governando as minhas ambições. Nos primeiros annos a politica teve o predominio; com a viagem á Europa em 1873 passou este para a litteratura, e esse meu periodo litterario, começado então, dura até 1879, quando entro para a Camara...
Eu tinha sempre lido muito e de tudo na epocha em que me sentia mais politico do que homem de lettras. Em philosophia tinha assimilado um pouco de Spinosa, Plotino, Kant e Hegel; a nota mais sonora e mais sustentada de cada um delles vibra a mesma em meu espirito ainda hoje que sinto a grandeza da Philosophia Catholica e colloco Santo Thomaz de Aquino entre Aristoteles e Platão. Em religião, eu estava sob a influencia de Strauss, Renan, Havet, e formava, tambem eu, com os fragmentos de todos elles a minha lenda pessoal de Jesus. Pelo espirito, posso dizer que habitei longos annos, da praia do Flamengo, as bordas solitarias e silenciosas do lago de Genezareth. Em critica litteraria, achava-me todo imbuido de Sainte-Beuve, Taine, Scherer, ainda que deste ultimo, de quem fallarei, não tanto como depois que o conheci. Em poesia, tinha passado de Lamartine para Victor Hugo, o de _Hernani_ quasi exclusivamente, e de V. Hugo para Musset, como devia depois passar de Musset para Shelley, de Shelley para Goethe, escala em que parei, mas onde não espero morrer, porque tenho deante de mim o Dante,... o que não quer dizer que não tenha nos ouvidos a resonancia das grandes rimas novas de um Banville, e não admire o cinzelado dos fortes relevos de José-Maria Heredia. Em prosa, Chateaubriand e Renan dividiam o imperio com Cicero, cujas cartas são talvez o livro mundano que eu levaria commigo, si tivesse de ficar encerrado em uma ilha deserta. A phrase, a eloquencia, o retrato e a enscenação historica de Macaulay foi tambem uma influencia permanente que se imprimiu em meu espirito; hoje eu teria de accrescentar Mommsen, Curtius, Ranke, Taine, Burckhardt. Quanto ao romance, que é a imaginação abrangendo e modelando a vida, eu ficára sob a impressão de Jules Sandeau; vivia á sombra dos seus castellos antigos reconstruidos pela moderna burguezia, entre as duas sociedades, a velha e a nova, que elle queria fundir pelo amor, e mais que a poesia d’alma de Sandeau, que foi muito grande e a que ainda um dia a França ha de voltar, era para mim indefinivel a impressão, aristocratica e feminina a um tempo, dos ultimos encantadores estudos de Cousin sobre a sociedade do seculo XVII.
Tudo isto formava o fundo do meu espirito, o humus da minha intelligencia, quando começou a phase litteraria, aquella em que senti uma impulsão interior irresistivel para entrar na litteratura. O periodo anterior era de receptividade, de plantio, de assimilações; a impressão, o prazer maior era o de lêr; agora, vinha a necessidade de produzir, de crear, e dava-se um facto singular, resultado desses annos de leituras francezas:--eu lia muito pouco o portuguez, ainda não começara a lêr o inglez e desapprendêra o allemão da _Maria Stuart_ e de _Wallenstein_, com verdadeira magua do meu velho mestre Goldschmidt. O resultado foi que me senti solicitado, coagido pela espontaneidade propria do pensamento, a escrever em francez.
Um brilhante frequentador da _Revista Brasileira_, que possúe entre outras qualidades talvez a mais preciosa de todas, uma boa quantidade do fluido sympathico, admira-se dessa minha affinidade franceza; com effeito, não revelo nenhum segredo, dizendo que insensivelmente a minha phrase é uma traducção livre, e que nada seria mais facil do que vertel-a outra vez para o francez do qual ella procede. O que me admira é que o mesmo não aconteça a todos os que têm lido tanto em francez como eu, mais do que eu, e cuja vida intellectual tem sido assim em sua parte principal, isto é, em toda a sua funcção acquisitiva, franceza. E talvez que elles têm uma força de assimilação maior do que a minha,--ou que eu tenho mais desenvolvida do que elles a faculdade imitativa? Não sei; mas essa susceptibilidade á influencia franceza parece natural em espiritos que recebem quasi tudo em francez e que têm horror á traducção; o purismo portuguez, esse, sim, é que, até tornar-se uma segunda natureza litteraria, exige uma constante vigilancia, a rectificação exacta de todo o trabalho de acquisição intellectual.
A verdade, para dizer tudo, é esta: admirando a força, o acabado, ás vezes a grandeza desse estylo vernaculo, em que ha uma peneira de furos imperceptiveis para impedir qualquer imperfeição estranha, e em que a nossa lingua modernisando-se parece conservar a tonalidade antiga, a minha phonographia cerebral adaptou-se comtudo ás leituras estrangeiras. Falta-me para reproduzir a sonoridade da grande prosa portugueza o mesmo echo interior que repete e prolonga dentro em mim, em gradações curiosamente mais intimas e profundas, á medida que se vão amortecendo, o sussurro indefinivel, por exemplo, de uma pagina de Renan. Tem ahi o dr. Graça Aranha a confissão da minha deficiencia em relação á nossa lingua, cuja fibra forte, resistente, primitivamente aspera, lastimo não possuir. Limito-me, talvez por isso mesmo, a escrever, como elle vê, com aquelles dos seus fios e dos seus matizes que se ajustam ao meu tear francez.
O momento em que me appareceu essa febre do verso francez,--era em verso, ainda por cima, que eu me sentia forçado a compôr,--foi caprichosamente mal escolhido, porquanto coincidiu com a minha primeira viagem á Europa. Não ha duvida tambem que foi um resultado della. Da impressão d’arte, da impressão historica, da impressão litteraria do Velho Mundo, jorrava em mim a fonte desconhecida das Musas, que em outros têm jorrado do amor e da mocidade. Eu trazia versos de tudo o que vira, como outros viajantes trazem pedras ou folhas de hera do Coliseu, do Forum, de Posilippo, de Sorrento, de Pompeia, do lago de Genebra, de Versalhes. Esses versos, reuni-os em um volume--_Amour et Dieu_. Deus no titulo era tudo o que restava de um longo poema da Eternidade que eu tinha pensado em Ouchy, uma especie de réplica theista ao _De Rerum Natura_. Quando comecei a escrever esses versos, eu ignorava regras fundamentaes da prosodia franceza, como a da alternação das rimas; em pouco tempo tinha-me familiarisado com os segredos dos hiatos e hemistichios. Os meus versos de _Amour et Dieu_ pareceram-me,--a illusão do auctor é um dos mais finos estratagemas da Creação,--não direi eguaes, mas semelhantes aos melhores da decadencia em que a França já tinha entrado. Esses versos valiam muito pouco. Não que fossem todos elles maus, mas, porque o que teria realmente valor nelles, si fosse um novo caminho aberto por mim á imaginação, era de facto uma estrada já muito percorrida por ella, uma especie de _via sacra_ das procissões antigas, na qual muito maiores espiritos tinham levantado por toda a parte columnas votivas. Isso por um lado, e por outro, porque o que nelles podia soar agradavelmente era declamação poetica, e não poesia: pertenceria á rhetorica, ou á eloquencia, e não á arte, que em tudo é creação.
Desde que toquei na illusão do auctor, vou abrir um parenthesis para uma reminiscencia, que talvez previna os jovens poetas contra uma das ciladas mais frequentes no caminho da mocidade, e até da velhice, a do elogio que de qualquer modo forçamos ou mesmo sómente desejamos.