Part 3
Sou antes um espectador do meu seculo do que do meu paiz: a peça é para mim a civilisação, e se está representando em todos os theatros da humanidade, ligados hoje pelo telegrapho. Uma affeição maior, um interesse mais proximo, uma ligação mais intima, faz com que a scena, quando se passa no Brasil, tenha para mim importancia especial, mas isto não se confunde com a pura emoção intellectual; é um prazer ou uma dôr, por assim dizer domestica, que interessa o coração; não é um grande espectaculo, que prende e domina a intelligencia. A abolição no Brasil me interessou mais do que todos os outros factos ou séries de factos de que fui contemporaneo; a expulsão do Imperador me abalou mais profundamente do que todas as quedas de thronos ou catastrophes nacionaes que acompanhei de longe; por ultimo, não experimentei nenhuma sensação tão cheia, tão prolongada, tão viva, durante mezes ininterrompidos, como durante a ultima revolta, quando se ouvia o canhão da guerra civil no mar e o silencio ainda peior do terror em terra. Em tudo isto, porém, ha muito pouca politica: nesses tres quadros, por exemplo, a politica suspende-se: o que ha é o drama humano universal de que fallei, transportado para nossa terra. Não se poderia dizer isto da lucta dos partidos, nem do que, exclusivamente, é considerado _politica_ pelos profissionaes. Esta é uma absorpção como a de qualquer habito, circumscreve a curiosidade a um campo visual restricto: é uma especie de occlusão das palpebras. Esse gozo especial do politico na lucta dos partidos não o conheci; procurei na politica o lado moral, imaginei-a uma especie de cavallaria moderna, a cavallaria andante dos principios e das reformas; tive nella emoções de tribuna, por vezes de popularidade, mas não passei d’ahi: do limiar; nunca o officialismo me tentou, nunca a sua deleitação me foi revelada; nunca renunciei a imaginação, a curiosidade, o dilettantismo, para prestar siquer os primeiros votos de obediencia; só vi de muito longe o véo jacintho e purpura do Sanctum Sanctorum,--(tão de longe, que me pareceu um velho reposteiro verde e amarello),--por traz do qual o Presidente do Conselho contemplava sósinho face a face a majestade do poder moderador.
Isto quer dizer que a minha ambição foi toda em politica de ordem puramente intellectual, como a do orador, do poeta, do escriptor, do reformador. Não ha, sem duvida, ambição mais alta do que a do estadista, e eu não pensaria em reduzir os homens eminentes que merecem aquelle nome em nossa politica ao papel de politicos de profissão; mas para ser um homem de governo é indispensavel fixar, limitar, encerrar a imaginação nas coisas do paiz e ser capaz de partilhar, si não das paixões, de certo dos preconceitos dos partidos, ter com elles a mais perfeita communhão de vida, _individuæ vitæ consuetuoinem_. Assim, quando eu tivesse, que não tive, as qualidades precisas, estava impedido para a politica pela incompressibilidade do meu interesse humano. Politicamente, receio ter nascido cosmopolita. Não me seria possivel reduzir as minhas faculdades ao serviço de uma religião local, renunciar a qualidade que ellas têm de voltar-se espontaneamente para fóra.
Assim, por exemplo, desses annos de minha vida, a que me refiro: em 1870, o meu maior interesse não está na politica do Brasil, está em Sedan. No começo de 1871, não está na formação do gabinete Rio-Branco, está no incendio de Pariz. Em 1871, durante mezes, está na lucta pela emancipação,--mas não será tambem nesse anno o Brasil o ponto da terra para o qual está voltado o dedo de Deus? Em 1872, o que me occupa o espirito é o centenario dos _Luziadas_; estou então imprimindo um livro sobre Camões, e a quem trabalha em um livro, apezar do seu nenhum valor litterario, como o mostrou Theophilo Braga, não sobra muita attenção ou interesse para dar ao que acontece em redor de si. 1873 é o meu anno, como disse, de fixação monarchica, mas tambem,--o que mostra que a razão amadurece por partes,--o anno em que me atiro contra a Egreja com o furor iconoclasta da mocidade, suppondo estar dizendo coisas novas, nunca ouvidas por ella em 19 seculos de lucta, pensando que ella vae gemer sob os golpes das terriveis hyperboles que lhe arrojo em pamphletos e artigos da _Reforma_: _theocracia_, _invasão ultramontana_, _conquista jesuita_!... Apezar disso, o anno de 1873 é no meu registro o anno da primeira viagem á Europa, facto de metamorphose pessoal, que é em minha vida a passagem da chrysalida para a borboleta.
Não posso mais,--si feliz, si infelizmente, é uma questão que me levaria muito longe deslindar,--não posso mais sentir o que sentia aos 24 annos, quando pela primeira vez me fiz de vapor, hoje eu preferiria fazer-me de vela, para a Europa. Como já vi Leão XIII carregado na _sedia gestatoria_ e tive a fortuna de fallar longamente a sós com um Papa, creio que não faria mais uma viagem para conhecer nenhum grande personagem, excepto, talvez, o imperador da China. Já que não vi um rei mouro em Granada, passo bem sem ter visto Abdul-Hamid no Bosphoro. Mesmo o imperador da China talvez eu me contentasse em conhecel-o pela imagem que me dariam delle, si eu os avistasse, dois _rising men_ da alta diplomacia européa, de quem sou amigo, que tiveram occasião de penetrar no recinto inviolavel e de estudar a infantil figura do Incognoscivel sob as afflições da guerra japoneza. O que me interessa nelle, bem se o póde imaginar, não é o seu throno de almofadas de seda, o seu porta-voz, os seus cachimbos, os seus perfumadores, os seus collares; é a originalidade que o envolve, maravilhosa como o proprio sobrenatural, é a psychologia accumulada de seculos.
Em 1873, porém, a minha ambição de conhecer homens celebres de toda ordem era sem limites; eu tel-os-ia ido procurar ao fim do mundo. Do mesmo modo, com os logares. O que eu queria, era vêr todas as _vistas_ do globo, tudo o que tem arrancado um grito de admiração a um viajante intelligente. Nessa qualidade de camara photographica só lastimava não ter o dom da ubiquidade. Esta febre itinerante passou-me tambem. Posso lêr, sem perigo, qualquer geographia nova, o Elisée Reclus inteiro; é só uma boa pagina de Pausanias ou de Strabão, com os seus nomes antigos, que me perturba ainda. Os mais preciosos livros da minha estante intima são os meus Baedekers; diversos logares ahi estão marcados com um signal, e si eu pudesse, tomaria ainda, para visital-os, o bilhete (hoje não se diz mais o bastão), do peregrino; mas são os logares sómente a que está associada,--ha annos eu teria dito uma impressão de minha vida,--uma das grandes impressões da humanidade, uma das suas revelações na arte, ou na religião.
O que em materia de viagem, de paizagens me tentaria hoje,--quem sabe si não é uma pura restituição de um atavismo longinquo? o meu avô materno, que se transplantou em 1530 para Pernambuco e fundou o Morgado do Cabo, João Paes Baretto, era de Vianna,--seria, talvez, o Lima, si eu tivesse certeza de ter deante delle a mesma impressão dos soldados romanos que chamaram ás suas margens Campos-Elyseos e lhe deram o bello nome de Lethes. A verdade é que sinto cada dia mais forte o arrocho do berço: cada vez sou mais servo da gleba brasileira, por essa lei singular do coração que prende o homem á patria com tanto mais força quanto mais infeliz ella é e quanto maiores são os riscos e incertezas que elle mesmo corre.
N’esse tempo, porém, na minha éra antes de Christo, em pleno polytheismo da mocidade, o mundo inteiro me attrahia por egual; cada nova fascinação da arte, da natureza, da litteratura e, tambem, da politica, era a mais forte; eu quizera conhecer as celebridades de todos os partidos. Depois do Papa, a mais nobre figura da Europa era para mim o conde de Chambord, que acabava de rejeitar a corôa de França para não repudiar a bandeira branca; um Henrique V, bem pouco parecido com Henrique IV, e, no emtanto, eu contava como uma boa fortuna a noite que passei no salão de Monsieur Thiers[1].
[1] A respeito dessa visita, eis a nota que encontro no meu jornal de 1874: «10 de Janeiro. Á noite fui com o Itajubá (o nosso arbitro em Genebra) á casa de Monsieur Thiers, hotel Bagration, faubourg Saint-Honoré. Apresentado a Monsieur Thiers, a Madame Thiers, a Mlle Dosne. Apresentado a Jules Simon. Itinerario que este me deu: vêr Pierrefonds. Coucy, Reims, Tarascon, Arles e a Grande Chartreuse. Conversei com Monsieur Thiers sobre o Brasil. _Opinião delle sobre a desegualdade da raça negra, de que provem o direito não de escravisal-a, mas de forçal-a ao trabalho, como a Hollanda, faz com os Javanezes._»
A viagem á Europa em taes condições não podia deixar de ser para mim, como foi, o eterno impulso dado ao pendulo imaginativo. Pelo sentimento, pela attitude, pelo emprego da vida, acredito ter sido, em meu plano inferior, uma das mais consistentes figuras de nossa politica; acredito mesmo que passarei nella como um homem de uma só idéa, _persona unius dramatis_, porquanto a minha fidelidade monarchica póde ser considerada, como a de André Rebouças, ainda um ultimo compromisso, uma gratidão, um episodio da libertação dos escravos. Quanto ás affinidades espontaneas, porém, ás sympathias naturaes, ao movimento interior do espirito, difficilmente se encontrará um pendulo que descreva um raio de oscillação mais largo do que a minha imaginação e a minha curiosidade. O que é um homem politico assim dilettante, viajante, a quem tudo attráe egualmente, que admira as grandes construcções sociaes, qualquer que seja o systema da architectura, convencido de que em todos ha o mesmo espirito, porque o espirito _creador_ é um só?
Nós, brasileiros, o mesmo póde-se dizer dos outros povos americanos, pertencemos á America pelo sedimento novo, fluctuante, do nosso espirito, e á Europa, por suas camadas estratificadas. Desde que temos a menor cultura, começa o predominio destas sobre aquelle. A nossa imaginação não póde deixar de ser européa, isto é, de ser _humana_; ella não pára na Primeira Missa no Brasil, para continuar d’ahi recompondo as tradições dos selvagens que guarneciam as nossas praias no momento da descoberta; segue pelas civilisações todas da humanidade, como a dos europeus, com quem temos o mesmo fundo commum de lingua, religião, arte, direito e poesia, os mesmos seculos de civilisação accumulada, e, portanto, desde que haja um raio de cultura, a mesma imaginação historica.
Estamos assim condemnados á mais terrivel das instabilidades, e é isto o que explica o facto de tantos sul-americanos preferirem viver na Europa... Não são os prazeres do rastaquerismo, como se chrismou em Pariz a vida elegante dos millionarios da Sul-America; a explicação é mais delicada e mais profunda: é a attracção de affinidades esquecidas, mas não apagadas, que estão em todos nós, da nossa commum origem européa. A instabilidade a que me refiro, provem de que na America falta á paizagem, á vida, ao horizonte, á architectura, a tudo o que nos cerca, o fundo historico, a perspectiva humana; e que na Europa nos falta a patria, isto é, a fôrma em que cada um de nós foi vasado ao nascer. De um lado do mar sente-se a ausencia do mundo; do outro, a ausencia do paiz. O sentimento em nós é brasileiro, a imaginação européa. As paizagens todas do Novo-Mundo, a floresta amazonica ou os pampas argentinos, não valem para mim um trecho da Via Appia, uma volta da estrada de Salerno a Amalfi, um pedaço do Caes do Sena á sombra do velho Louvre. No meio do luxo dos theatros, da moda, da politica, somos sempre _squatters_, como si estivessemos ainda derribando a matta virgem.
Eu sei bem, para não sahir do Rio de Janeiro, que não ha nada mais encantador _á vista_ do que, ao acaso, a escolha seria impossivel, os parques de S. Clemente, o caminho que margeia o aqueducto de Paineiras na direcção da Tijuca, a ponta de S. João, com o Pão de Assucar, vista do Flamengo ao cahir do sol. Mas tudo isto é ainda, por assim dizer, um trecho do planeta de que a humanidade não tomou posse; é como um Paraiso Terrestre antes das primeiras lagrimas do homem, uma especie de jardim infantil. Não quero dizer que haja duas humanidades, a alta e a baixa, e que nós sejamos desta ultima; talvez a humanidade se renove um dia pelos seus galhos americanos; mas, no seculo em que vivemos, _o espirito humano_, que é um só e terrivelmente centralista, está do outro lado do Atlantico; o Novo-Mundo para tudo o que é imaginação esthetica ou historica é uma verdadeira solidão, em que aquelle espirito se sente tão longe das suas reminiscencias, das suas associações de idéas, como si o passado todo da raça humana se lhe tivesse apagado da lembrança e elle devesse bulbuciar de novo, soletrar outra vez, como creança, tudo o que apprendeu sob o céo da Attica...
Em um soberbo livro hespanhol, que faz honra á Sociedade de Jesus, _Pequeñeces_, romance de um padre jesuita, que é um grande auctor, L. Coloma, ha um personagem que diz a cada instante--_Usted me entiende_. Todos nós temos algum conhecido que pontua as suas phrases com esse fatigante _entende?_ que os nervos do marquez de Paraná não podiam supportar. O _entende?_ do individuo que quer forçar o ouvinte a nada perder do que elle diz, é muito diverso da formula habitual com que o imbecil marquez de Villamelon exprimia o que lhe faltava força para pensar. Ha tambem pontos, idéas, modos de sentir que o escriptor desejaria expressar por um outro _Usted me entiende_, levantando apenas a ponta do véo ao seu pensamento, alludindo a elle vagamente, sem nada precisar, de facto, sem nada dizer. Cada um de nós é só o raio esthetico que ha no interior do seu pensamento, e, emquanto não se conhece a natureza desse raio, não se tem idéa do que o homem realmente é. Nesta confissão da minha formação politica, devo, para não deixar vêr sómente a mascara, o personagem, dar uma especie de photographia dos symbolos que se imprimiram e reproduziram mais profundamente no meu cerebro. Assim se reconhecerá que a politica não foi sinão uma refracção daquelle filete luminoso que todos temos no espirito.
A instabilidade a que me estou referindo, está grandemente modificada; a dualidade desappareceu em parte, não tão perfeitamente como em meu amigo Taunay... Este, apezar do seu sangue de Cruzado, apezar de ter escripto o seu livro classico em francez, e apezar da sua brilhante propaganda contra o nativismo, é o mais genuino _nativista_ que eu conheço, porque não comprehende siquer a vida em outra terra, em outra natureza. Brasileiro de uma só peça é aquelle que não póde viver sinão no Brasil. Na mocidade fui um erratico, como o proprio Imperador acabou na velhice... Quando, porém, entre a patria, que é o sentimento, e o mundo, que é o pensamento, vi que a imaginação podia quebrar a estreita fôrma em que estavam a cozer ao sol tropical os meus pequenos debuxos d’almas, _Ustedes me entienden_, deixei ir a Europa, a historia, a arte, guardando do que é universal só a religião e as lettras.
V
PRIMEIRA VIAGEM Á EUROPA
De diversos modos a minha primeira ida á Europa influiu para enfraquecer as tendencias republicanas que eu porventura tivesse, e fortificar as monarchicas. Antes de tudo, o republicanismo francez, que era e é o nosso, tem um fermento de odio, uma predisposição egualitaria que logicamente leva á demagogia,--a sua maior figura é Danton, o homem da Setembrisada,--ao passo que o liberalismo, mesmo radical, não só é compativel com a monarchia, mas até parece alliar-se com o temperamento aristocratico. Si fosse preciso personificar o liberalismo, poder-se-ia chamar-lhe Lafayettismo, por ter sido Lafayette o principal representante dos _gentilhommes libéraux_ de 1789. Esse estreito republicanismo, que confina nos dias de crise com a demagogia, e, exasperado pelo perigo ou excitado pela posse repentina, imprevista, do poder, chega á epidemia sanguinaria do Terror, é um facto, póde-se dizer, de reclusão mental: dá-se sómente quando o espirito se encerra em algum systema philosophico ou fanatismo religioso, em uma doutrina ou em uma previsão social qualquer, e ahi se isola inteiramente do mundo externo. A intolerancia é, ou era, o caracteristico do republicanismo aggressivo francez, e a intolerancia é uma _phobia_ da liberdade e do mundo; é um phenomeno de retracção intellectual, produzindo a hypertrophia ingenua da personalidade.
É provavel que em mim tambem existisse o embryão republicano; não duvido que, nascido em outra condição, si não tivesse meu pae na mais alta hierarchia da politica, si não descobrisse, como tantos outros que se revoltaram, modo de vencer o terrivel _multi sunt vocati, pauci vero electi_ da antiga _oligarchia_, eu tambem tivesse acompanhado o movimento republicano de 1870, do qual faziam parte alguns dos espiritos que me fascinavam. Si assim fosse, porém, estou certo que o movimento abolicionista me teria, mais tarde, destacado delle, e que o 13 de maio me identificaria com a sorte da monarchia libertadora. Si, apezar de tudo, eu me tivesse conservado republicano até 15 de novembro,--nascesse eu em que condição nascesse, uma vez que fosse o mesmo que sou, isto é, que tivesse recebido no berço os mesmos rudimentos d’alma,--não tenho a menor duvida de que o abalo, o choque do desterro do Imperador teria posto fim á minha phantasia republicana e restabelecido a sinceridade e a lucidez dos meus sentidos politicos. Como quer que fosse, a viagem de 1873 destruiu no germen toda e qualquer inclinação republicana, todo indicio de fanatismo que eu pudesse ter no segredo da minha natureza.
Não durou muito tempo essa viagem; foi apenas de um anno. A situação de espirito que ella creou já tinha antecedentes nas minhas relações com a pequena roda em que vivia então o corpo diplomatico em Petropolis e na Côrte, na convivencia com ministros e secretarios estrangeiros, alguns destes hoje ministros, e até embaixadores. A situação de espirito _cosmopolita_ ou, antes, _mundana_, caracterisa-se pela comprehensão das soluções oppostas dos mesmos problemas sociaes, pela tolerancia de todas as opiniões, pela egual familiaridade com correligionarios e adversarios, pela idéa, para dizer tudo, de que acima de quaesquer partidos está _a boa sociedade_. Esse modo de ser, em politica, não é necessariamente eclectico, nem, ainda menos, sceptico: é sómente incompativel com o fanatismo, isto é, com a intolerancia, qualquer que ella seja. Foi a viagem á Europa a grande deslocação que consolidou a tendencia anti-systematica em que eu já estava, amortecendo em mim o predominio da força politica até 1879, quando pela primeira vez entro para o Parlamento; mesmo no Parlamento, porém, depois do anno de estréa, em que as emoções da tribuna me fizeram tomar calor e interesse pela lucta dos partidos, desde 1880 até 1889, quando se fechou definitivamente para mim aquella carreira, posso dizer que continuou o effeito da minha deslocação, de 1873, da politica partidaria, porque todo o tempo que estive na Camara me acolhi sob uma bandeira mais larga e me colloquei em um terreno politicamente neutro, como era o da emancipação dos escravos.
Essa viagem que assim imprime á minha evolução politica o seu caracter definitivo, durou, como eu disse, pouco tempo. Partindo em agosto de 1873, volto ao Rio de Janeiro em setembro de 1874. É menos de um anno de Europa que tenho da primeira vez; desses onze mezes, mais ou menos, passo cinco em Pariz, tres na Itália, um mez no lago de Genebra, um mez em Londres, um mez em Fontainebleau. A razão desse mez de Ouchy e desse mez de Fontainebleau é que, em viagem, sempre que um logar me falla, eu me deixo prender por elle e me esqueço de viajar. É assim que, mais tarde, pretendendo dar ao Niagara a hora indispensavel para vêr as quedas, me deixo ficar vinte e tantos dias, sem poder arrancar-me daquelle espectaculo até o ter inteiramente absorvido.
O mez de Ouchy quer dizer, sem fallar de Lausanne, que os primeiros passeios a pé, á beira do lago, de um lado na direcção de Coppet, do outro, na direcção de Clarens, as visitas a Genebra com a romaria obrigada a Ferney, me collocavam no theatro litterario, talvez o mais interessante da Europa moderna, depois de Weimar, porque Clarens é o scenario da _Nova Heloisa_, e está cheio da eloquencia de Rousseau; Ferney, o dos ultimos annos de Voltaire; Coppet, o da realeza de Corinna com a sua côrte vinda de Pariz, da Allemanha, da Italia, não esquecendo Lord Byron. Mais do que tudo, porém, nessa faixa de terra que liga intellectualmente o seculo XVIII ao seculo XIX, o que me teria prendido eternamente a Ouchy, si eu dispuzesse de algumas eternidades nesta vida, é o lago, o seu córte, a sua moldura.
O mez de Fontainebleau tem outra explicação: não é o castello e a floresta só por si o que me prende; é que volto da Inglaterra, tendo pela primeira vez fallado inglez com todo o mundo, fascinado por Londres, tocado de um começo de anglomania, que foi a doença da sociedade em França, e, portanto, até isso, accusa a construcção _franceza_ do meu espirito, e Fontainebleau, com o repouso dos seus jardins symetricos, a frescura das suas aguas e das suas sombras, a tranquillidade do seu silencio, era o mais admiravel retiro que eu podia querer nesse mez da minha vida, que posso chamar o mez de Thackeray. Foi esse o claustro ideal em que, fechado com _Vanity Fair_, _Pendennis_, _The Newcomes_, não sei o que mais, sem diccionarios, adivinhando o que não podia traduzir, comprehendendo tudo, exgottei em mim mesmo até ás lagrimas a impressão do grande romancista inglez,--o que fiz depois com George Eliot e Trollope, mas nunca fiz, sinto dizel-o, com Dickens, nem com Sir Walter Scott.
De certo, em minutos póde abrir-se e fechar-se deante dos nossos olhos um espectaculo que não esqueceremos nunca. Percorri em mezes a Italia, as grandes capitaes antigas sómente, sinto tambem dizel-o: não fiz siquer a romaria de arte pela Umbria; estive duas horas deante dos quatro monumentos da velha Pisa, que inspiraram a Taine a sua pagina mais eloquente: como esquecer, no emtanto, essa revelação immorredoura? Keats não disse tudo com o seu verso:
_A thing of beauty is a joy for ever?_
Não só o que é verdadeiramente bello é «essa alegria», de que elle falla, «para sempre», um raio interior que se incorpora á vida para nunca mais se apagar, quaesquer que sejam as tempestades, d’ella, como tambem uma só _thing of beauty_, um unico fragmento da verdadeira belleza, basta para illuminar a existencia humana inteira. Nenhum homem terá comprehendido bem duas grandes obras d’arte: a columna grega e a ogiva gothica, um Miguel Angelo e um Piero della Francesca, nem tão pouco duas vistas differentes de natureza: o oceano e os lagos de montanha; as paizagens da neve e os céos do Oriente. Em caso algum, porém, póde-se sentir uma obra d’arte _de passagem_, isto é, sem que ella produza em nós uma vibração correspondente ao esforço, á sensação do creador quando a compoz.