Part 13
Fiz ha pouco menção de minha madrinha... Das recordações da infancia a que eclipsa todas as outras e a mais cara de todas é o amor que tive por aquella que me criou até aos meus oito annos como seu filho... Sua imagem, ou sua sombra, desenhou-se por tal modo em minha memoria, que eu a poderia fixar si tivesse o menor talento de pintor... Ella era de grande corpulencia, invalida, caminhando com difficuldade, constantemente assentada,--em um largo banco de coiro que transportavam de peça em peça da casa,--ao lado da janella que deitava para a praça do engenho, e onde ficava a estribaria, o curral, e a pequena casa edificada para o meu mestre e que me servia de escola... Ella não largava nunca suas roupas de viuva. Meu padrinho, Joaquim Aurélio de Carvalho, fôra conhecido na provincia pelo seu luxo e liberalidade, de que ainda hoje se contam diversos rasgos. Estou vendo, através de tantos annos, a mobilia da entrada, onde ella costumava passar o dia. Nas paredes algumas gravuras coloridas representando o episodio de Ignez de Castro, entre as gaiolas dos curiós afamados, pelos quaes seu marido costumava dar o preço que lhe pedissem... ao lado em um armario envidraçado as pequenas edições portuguezas dos livros de devoção e das novellas do tempo. Minha madrinha occupava sempre a cabeceira de uma grande mesa de trabalho, onde jogava cartas, dava a tarefa para a costura e para as rendas a um numeroso pessoal, provava o ponto dos doces, examinava as tisanas para a enfermaria defronte, distribuia as peças de prata a seus afilhados e protegidos, recebia os amigos que vinham todas as semanas attrahidos pelos regalos de sua mesa e de sua hospitalidade, sempre rodeiada, adorada por toda sua gente, fingindo um ar severo que não enganava a ninguem quando era preciso reprehender alguma mucama que deixava a miudo os bilros e a almofada para chalrear no gyneceu, ou algum morador perdulario que recorria demasiado á sua bolsa. Parece que seu maior prazer era trocar uma parte das suas sobras em moedas de ouro que ella guardava sem que ninguem o soubesse sinão o seu liberto confidente para me entregar quando eu tivesse edade. Era a isso que ella chamava o seu _invisivel_. Por occasião da morte do servo de sua maior confiança, ella escrevia á minha mãe pela mão de outros: «Dou parte a V. Ex. e ao meu compadre que morreu o meu Elias, fazendo-me uma falta excessiva aos meus negocios. De tudo tomou conta, e sempre com aquella bondade e humildade sem parelha, e ficou a minha casa com elle no mesmo pé em que era no tempo do meu marido. Nem só fez falta a mim como a nosso filhinho que tinha um cuidado n’elle nunca visto. Apezar d’eu ter parentes a elle era a quem eu o entregava, porque si eu morresse para tomar conta do que eu lhe deixava para entregar a VV. EEx... Mas que hei de fazer, si Deus quiz?» Em outra carta, mais tarde, a ultima que possúo, ella volta á morte de Elias:--«... o meu Elias, o qual fez-me uma falta sensivel, tanto a mim como ao meu filhinho, porque tinha um cuidado n’elle maior possivel, como pelas festas que elle gosta de passear ia sempre entregue a elle... Deus me dê vida e saúde até o vêr mais crescido para lhe dar alguma coisa invisivel, como dizia o defunto seu compadre, pois só fiava isso do Elias, apezar de ter ficado o Victor, mano d’elle, que faço tambem toda a fiança n’elle...» Ah! querida e abençoada memoria, o thesouro accumulado parcella por parcella não veiu a minhas mãos, nem teria podido vir por uma transmissão destituida das fórmas legaes, como talvez tenhas pensado... mas imaginar-te, durante annos, n’essa tarefa agradavel aos teus velhos dias de ajuntar para teu afilhado que chamavas teu filho um peculio que lhe entregarias quando homem, ou outrem por ti a meu pae, si morresses deixando-me menor; acompanhar-te em tuas conversas com o teu servo fiel, n’essa preoccupação de amor de teus derradeiros annos, será sempre uma sensação tão inexprimivelmente doce que só ella bastaria para destruir para mim qualquer amargor da vida...
A noite da morte de minha madrinha é a cortina preta que separa do resto de minha vida a scena de minha infancia. Eu não imaginava nada, dormia no meu quarto com a minha velha ama, quando ladainhas entrecortadas de soluços me accordaram e me communicaram o terror de toda a casa. No corredor, moradores, libertos, os escravos, ajoelhados, rezavam, choravam, lastimavam-se em gritos; era a consternação mais sincera que se pudesse vêr, uma scena de naufragio; todo esse pequeno mundo, tal qual se havia formado durante duas ou tres gerações em torno d’aquelle centro, não existia mais depois d’ella: seu ultimo suspiro o tinha feito quebrar-se em pedaços. A mudança de senhor era o que havia mais terrivel na escravidão, sobretudo si se devia passar do poder nominal de uma velha santa, que não era mais sinão a enfermeira dos seus escravos, para as mãos de uma familia até então estranha. E como para os escravos, para os rendeiros, os empregados, os pobres, toda a _gens_ que ella sustentava, a que fazia a distribuição diaria de rações, de soccorros, de remedios... Eu tambem tinha que partir de Massangana, deixado por minha madrinha a outro herdeiro, seu sobrinho e vizinho; a mim ella deixava um outro dos seus engenhos, que estava de fogo morto, isto é, sem escravos para o trabalhar... Ainda hoje vejo chegar, quasi no dia seguinte á morte, os carros de bois do novo proprietario... Era a minha deposição... Eu tinha oito annos. Meu pae pouco tempo depois me mandava buscar por um velho amigo, vindo do Rio de Janeiro. Distribui entre a gente da casatudo que possuia, meu cavallo, os animaes que me tinham sido dados, os objectos do meu uso. «O menino está mais satisfeito, escrevia a meu pae o amigo que devia levar-me, depois que eu lhe disse que a sua ama o acompanharia.» O que mais me pesava era ter que me separar dos que tinham protegido minha infancia, dos que me serviram com a dedicação que tinham por minha madrinha, e sobretudo entre elles os escravos que litteralmente sonhavam pertencer-me depois d’ella. Eu bem senti o contragolpe da sua esperança desenganada, no dia em que elles choravam, vendo-me partir espoliado, talvez o pensassem, da sua propriedade... Pela primeira vez sentiram elles, quem sabe, todo o amargo da sua condição e beberam-lhe a lia.
Mez e meio depois da morte de minha madrinha, eu deixava assim o meu paraiso perdido, mas pertencendo-lhe para sempre... Foi alli que eu cavei com as minhas pequenas mãos ignorantes esse poço da infancia, insondavel na sua pequenez, que refresca o deserto da vida e faz d’elle para sempre em certas horas um oasis seductor. As partes adquiridas do meu ser, o que devi a este ou áquelle, hão de dispersar-se em direcções differentes; o que, porém, recebi directamente de Deus, o verdadeiro eu sahido das suas mãos, este ficará preso ao canto de terra onde repousa aquella que me iniciou na vida. Foi graças a ella que o mundo me recebeu com um sorriso de tal doçura que todas as lagrimas imaginaveis não m’o fariam esquecer. Massangana ficou sendo a séde do meu oraculo intimo: para impellir-me, para deter-me e, sendo preciso, para resgatar-me, a voz, o fremito sagrado, viria sempre de lá. _Mors omnia solvit_... tudo, excepto o amor, que ella liga definitivamente.
Tornei a visitar doze annos depois a capellinha de S. Matheus onde minha madrinha, Dona Anna Rosa Falcão de Carvalho, jaz na parede ao lado do altar, e pela pequena sacristia abandonada penetrei no cercado onde eram enterrados os escravos... Cruzes, que talvez não existam mais, sobre montes de pedras escondidas pelas ortigas, era tudo quasi que restava da opulenta _fabrica_, como se chamava o quadro da escravatura... Em baixo, na planicie, brilhavam como outr’ora as manchas verdes dos grandes cannaviaes, mas a usina agora fumegava e assobiava com um vapor agudo, annunciando uma vida nova. A almanjarra desapparecera no passado. O trabalho livre tinha tomado o logar em grande parte do trabalho escravo. O engenho apresentava do lado do «porto» o aspecto de uma colonia; da casa velha não ficára vestigio... O sacrificio dos pobres negros que haviam incorporado as suas vidas ao futuro d’aquella propriedade, não existia mais talvez sinão na minha lembrança... Debaixo dos meus pés estava tudo o que restava d’elles, defronte dos _columbaria_ onde dormiam na estreita capella aquelles que elles haviam amado e livremente servido. Sosinho alli, invoquei todas as minhas reminiscencias, chamei-os a muitos pelos nomes, aspirei no ar carregado de aromas agrestes, que entretem a vegetação sobre suas covas, o sopro que lhes dilatava o coração e lhes inspirava a sua alegria perpetua. Foi assim que o problema moral da escravidão se desenhou pela primeira vez aos meus olhos em sua nitidez perfeita e com sua solução obrigatoria. Não só esses escravos não se tinham queixado de sua senhora, como a tinham até o fim abençoado... A gratidão estava do lado de quem dava. Elles morreram acreditando-se os devedores... seu carinho não teria deixado germinar a mais leve suspeita de que o senhor pudesse ter uma obrigação para com elles, que lhe pertenciam... Deus conservára alli o coração do escravo, como o do animal fiel, longe do contacto com tudo que o pudesse revoltar contra a sua dedicação. Esse perdão espontaneo da divida do senhor pelos escravos figurou-se-me a amnistia para os paizes que cresceram pela escravidão, o meio de escaparem a um dos peiores taliões da historia... Oh! os Santos pretos! seriam elles os intercessores pela nossa infeliz terra, que regaram com seu sangue, mas abençoaram com seu amor! Eram essas as idéas que me vinham entre aquelles tumulos, para mim, todos elles, sagrados, e então alli mesmo, aos vinte annos, formei a resolução de votar a minha vida, si assim me fosse dado, ao serviço da raça generosa entre todas que a desegualdade da sua condição enternecia em vez de azedar e que por sua doçura no soffrimento emprestava até mesmo á oppressão de que era victima um reflexo de bondade...
XXI
A ABOLIÇÃO
Quando a campanha da abolição foi iniciada, restavam ainda quasi dois milhões de escravos, emquanto que os seus filhos de menos de oito annos e todos os que viessem a nascer, apezar de _ingenuos_, estavam sujeitos até aos vinte e um annos a um regimen praticamente egual ao captiveiro. Foi esse immenso bloco que atacámos em 1879, acreditando gastar a nossa vida sem chegar a entalhal-o. No fim de dez annos não restava delle sinão o pó. Tal resultado foi devido a muitas causas... Em primeiro logar, á epocha em que foi lançada a idéa. A humanidade estava por demais adeantada para que se pudesse ainda defender em principio a escravidão, como o haviam feito nos Estados-Unidos. A raça latina não tem dessas coragens. O sentimento de ser a ultima nação de escravos humilhava a nossa altivez e emulação de paiz novo. Depois, á fraqueza e á doçura do caracter nacional, ao qual o escravo tinha communicado sua bondade e a escravidão o seu relaxamento. Compare-se nesse ponto o que ella foi no Brasil com o que foi na America do Norte. No Brasil, a escravidão é uma fusão de raças; nos Estados-Unidos, é a guerra entre ellas. Nossos proprietarios emancipavam aos centos os seus escravos, em vez de se unirem para lynchar os abolicionistas, como fariam os criadores do Kentucky ou os plantadores da Luisiana. A causa abolicionista exercia sua seducção sobre a mocidade, a imprensa, a democracia; era um _imperativo categorico_ para os magistrados e os padres; tinha affinidades profundas com o mundo operario e com o exercito, recrutado de preferencia entre os homens de côr; operava como um dissolvente sobre a massa dos partidos politicos, cujas rivalidades incitava com a honra que podia conferir aos estadistas que a emprehendessem, e á propria dynastia inspirava de modo espontaneo o sacrificio indispensavel para o successo.
Cinco acções ou concursos differentes cooperaram para o resultado final: 1.º a acção motora dos espiritos que creavam a opinião pela idéa, pela palavra, pelo sentimento, e que a faziam valer por meio do Parlamento, dos _meetings_, da imprensa, do ensino superior, do pulpito, dos tribunaes; 2.º a acção coerciva dos que se propunham a destruir materialmente o formidavel apparelho da escravidão, arrebatando os escravos ao poder dos senhores; 3.º a acção complementar dos proprios proprietarios, que, á medida que o movimento se precipitava, diminuiam diante delle as resistencias, libertando em massa as suas «fabricas»; 4.º a acção politica dos estadistas, representando as concessões do governo; 5.º a acção dynastica.
As duas primeiras categorias formavam circulos concentricos, compostos como eram em grande parte dos mesmos elementos. É a ellas que pertence o grosso do partido abolicionista, os _leaders_ do movimento. Para collocar cada figura no plano que lhe convem com seu tamanho relativo seria preciso outro juiz. Tendo visto na lucta e no esforço cada um dos veteranos dessa campanha, eu não me perdoaria a mim mesmo a menor injustiça involuntaria que fizesse a qualquer delles. Dissentimentos profundos me separaram de muitos depois da victoria, mas o espirito de imparcialidade que me anima a respeito de cada um faz ainda parte da lealdade que acredito ter mantido perfeita durante a abolição para com todos os auxiliares d’ella, os da primeira como os da undecima hora. Não farei tão pouco o livro d’ouro da grande propriedade brasileira nessa quadra. Na categoria dos chefes politicos posso destacar, porém, tres estadistas que prestaram ao movimento em epochas differentes um concurso decisivo: Dantas, que primeiro collocou ao serviço della um dos partidos constitucionaes do paiz, o liberal, serviço da ordem do que Gladstone prestou á causa irlandeza; Antonio Prado, que retirou o veto de S. Paulo á abolição, quebrando assim a resistencia até então compacta do Sul, a porção mais rica do paiz, e João Alfredo, que levou o partido conservador a apresentar a lei da extincção immediata, acto que mesmo nessa epocha foi uma grande audacia, e que pelo estado e disposição geral da politica só podia ter sido obra delle mesmo. José Bonifacio, cuja adhesão á idéa foi um contingente egual á libertação do Ceará, Christiano Ottoni, Silveira da Motta, e outros, eu os contaria na primeira classe, a dos propagandistas.
É-me quasi impossivel fallar hoje da abolição sinão por incidentes e figuras destacadas... Tudo o que digo é sob a resalva de que teria muito mais que dizer; quando pronuncio um nome está subentendido que é apenas um de um extenso calendario, e que os diptycos de um e outro lado estão cheios... Quem fará d’entre os contemporaneos essa historia com imparcialidade, justeza e penetração, sem deixar entrar nella a paixão politica, o preconceito sectario, a fascinação ou sujeição pessoal? Ninguem, de certo, o que quer dizer que haverá no futuro diversas historias. A minha contribuição para o assumpto ha de um dia ser o meu archivo, e alguns fragmentos a respeito de diversos factos em que estive envolvido ou de que tive conhecimento directo... Esse trabalho, essa desobriga, ao mesmo tempo que depoimento pessoal, espero que Deus me dará tempo e modo de o fazer como planejo. Seria uma especie de chave para o periodo que encerra a éra monarchica.
Dentre aquelles com quem mais intimamente lidei em 1879 e 1880 e que formavam commigo um grupo homogeneo, a nossa pequena egreja, as principaes figuras eram André Rebouças, Gusmão Lobo e Joaquim Serra... A egreja fronteira era a de José do Patrocinio, Ferreira de Menezes, Vicente de Souza, Nicolau Moreira, depois João Clapp com a Confederação Abolicionista. Si eu estivesse escrevendo neste momento um escorço do movimento abolicionista de 1879-1888, já teria citado Jeronymo Sodré, que foi quem pronunciou o _fiat_, e passaria a citar os meus companheiros de Camara Manoel Pedro, Corrêa Rabello, S. de Barros Pimentel, e outros, porque o movimento começou na Camara em 1879, e não, como se tem dito, na _Gazeta da Tarde_ de Ferreira de Menezes, que é de 1880, nem na _Gazeta de Noticias_, onde então José do Patrocinio, escrevendo a «Semana Politica», não fazia sinão nos apoiar e ainda não adivinhava a sua missão. De certo pelos escravos já vinham trabalhando Luiz Gama e outros, mesmo antes da lei de 1871, como trabalharam todos os collaboradores dessa lei; mas o movimento abolicionista de 1879 a 1888 é um movimento que tem o seu eixo proprio, sua formação distincta, e cujo principio, marcha, velocidade, são faceis de verificar; é um systema fluvial do qual se conhecem as nascentes, o volume d’agua e valor de cada tributario, as quedas, os _rapidos_, o estuario, e esse movimento começa, fóra de toda duvida, com o pronunciamento de Jeronymo Sodré em 1879 na Camara... Esse pronunciamento vem resolvido da Bahia e rebenta na Camara como uma manga d’agua, repentinamente. Nada absolutamente o fazia suspeitar... Ao acto de Jeronymo Sodré filia-se chronologicamente a minha attitude dias depois... Mais tarde é que entram Rebouças, Patrocinio, Gusmão Lobo, Menezes, Joaquim Serra... Isto não é apurar a data dos primeiros escriptos abolicionistas de cada um; os meus, por exemplo, datavam da Academia... É reivindicar para a Camara, para o Parlamento, a iniciativa que se lhe tem querido tirar nesta questão, dando-se-a ao elemento popular, republicano... É uma pura questão de datas; desde que se dér a data certa a cada facto allegado, verificar-se-á o _autem genuit_ acima... Reconheço que a minha inscripção vem na ordem do tempo depois da de Jeronymo Sodré... As outras, porém, vieram depois da minha... Foi o movimento popular talvez que mais tarde incubou o germen parlamentar, não o deixando morrer nas Sessões seguintes, mas que o germen foi parlamentar, que o _liber generationis_ começou em 1879 com Jeronymo Sodré, é o que se póde demonstrar com os proprios documentos, mesmo com aquelles em que se pretenda o contrario, uma vez que sejam authenticos... A questão de iniciativa aliás tem um interesse todo secundario, sobretudo quando a idéa está no ar e o espirito do tempo a agita por toda a parte. Não ha nada mais difficil do que avaliar a importancia relativa dos diversos factores de um movimento que se torna nacional. O ultimo dos apostolos póde vir a ser o primeiro de todos, como S. Paulo, em serviços e em proselytismo. Tudo na abolição prende-se, não se póde escrever-lhe a historia supprimindo qualquer dos seus élos... É um facto a reter: a compensação vae sempre além, muito além, dos prejuizos que ella soffre, e, d’esse modo, até elles a favorecem... Assim morre Ferreira de Menezes, mas Patrocinio toma a _Gazeta da Tarde_; a minoria abolicionista de 1879 não é reeleita, surge a Confederação Abolicionista; quando o Ceará conclue a sua obra, o Amazonas começa a d’elle; demittido um presidente de provincia (Theodureto Souto), é nomeado um Presidente do Conselho (Dantas); organizada a acção da policia, apparece a agitação no exercito; ás sevicias da Parahyba do Sul e de Cantagallo succede o combate do Cubatão; morto José Bonifacio, toma o seu logar em S. Paulo Antonio Prado; repellido pela Camara José Marianno, o Recife derrota o ministro do Imperio; vacillando o partido liberal, move-se o partido conservador; parte o Imperador, fica a Princeza... Ninguem afinal sabe quem fez mais pela abolição: si a propaganda, si a resistencia; si os que queriam tudo, si os que não queriam nada... Nada ha mais illusorio que as distribuições de gloria... As lendas hão de sempre viver, como raios de luz na treva amontoada do passado, mas a belleza d’ellas não está em sua verdade, que é sempre pequena; está no esforço que a humanidade faz para assim reter alguns episodios de uma vida tão extensa que para abrangel-a não ha memoria possivel...
Não posso sinão dar ao acaso algumas impressões por isso deixo, não sem constrangimento, de referir-me a nomes que entrariam em qualquer resumo, por mais curto que fosse, note-se bem, do começo da propaganda... Os dois grupos de que fallei, encontravam-se, trabalhavam juntos, misturavam-se, mas a linha divisoria era sensivel: um representava a acção politica, o outro a revolucionaria, ainda que cada um reflectisse por vezes a influencia do outro. Isso no tempo em que a idéa está sendo lançada, pois dentro de pouco o movimento torna-se geral, e então ha o influxo das provincias, ha o Ceará, o Amazonas, o Rio Grande do Sul, Pernambuco, a Bahia, S. Paulo, que surgem como grandes fócos de propaganda... O movimento abolicionista teve com effeito duas phases bem accentuadamente divididas: a primeira, de 1879 a 1884, em que os abolicionistas combateram sós, entregues aos seus proprios recursos, e a segunda, de 1884 a 1888, em que elles viram sua causa adoptada successivamente pelos dois grandes partidos do paiz. Em 1884 deu-se a conversão do partido liberal e em 1888 a do partido conservador. A phase puramente abolicionista da campanha,--por opposição á phase politica, que poderia entrar na historia dos dois partidos rivaes,--foi a primeira.
De todos, aquelle com quem mais intimamente vivi, com quem estabeleci uma verdadeira communhão de sentimento, foi André Rebouças... Nossa amizade foi por muito tempo a fusão de duas vidas em um só pensamento: a emancipação. Rebouças encarnou, como nenhum outro de nós, o espirito anti-esclavagista: o espirito inteiro, systematico, absoluto, sacrificando tudo, sem excepção, que lhe fosse contrario ou suspeito, não se contentando de tomar a questão por um só lado, olhando-a por todos, triangulando-a, por assim dizer,--era uma de suas expressões favoritas,--socialmente, moralmente, economicamente. Elle não tinha, para o publico, nem a palavra, nem o estylo, nem a acção; dir-se-ia assim que em um movimento dirigido por oradores, jornalistas, agitadores populares, não lhe podia caber papel algum saliente, no emtanto elle teve o mais bello de todos, e calculado por medidas estrictamente interiores, psychologicas, o maior, o papel primario, ainda que occulto, do motor, da inspiração que se repartia por todos,... não se o via quasi, de fóra, mas cada um dos que eram vistos estava olhando para elle, sentia-o comsigo, em si, regulava-se pelo seu gesto invisivel á multidão,... sabia que a consciencia capaz de resolver todos os problemas da causa só elle a tinha, que só elle entrava na sarça ardente e via o Eterno face a face... É-me tão impossivel resumil-o a elle em um traço como me seria impossivel figurar uma trajectoria infinita... Depois da abolição elle sempre teve o presentimento de que a escravidão causaria uma grande desgraça á dynastia, como assassinára a Lincoln. Seu maior amor talvez tenha sido pelos seus alumnos da Polytechnica, mas como todas as suas recordações d’ «a Escola» transformaram-se em outros tantos tormentos, quando os viu glorificando o 15 de Novembro, que para elle era a desforra de 13 de Maio!...
Do seu quarto no Hotel Bragança, em Petropolis, onde durante annos notára no seu diario a nossa pulsação commum, até o despenhadeiro do Funchal, que linha a que descreveu André Rebouças! Elle foi o cortezão do _Alagôas_... Um republicano, a quem veiu a tocar na hora da amargura o papel de discipulo amado do velho Imperador banido... Foi um industrial, um engenheiro ousado e triumphante, que acabou praticando o tolstoismo... Foi um genio mathematico, um sabio, que reduziu sua sciencia a uma serpentina em que de tudo distillava a abolição... Seu centro de gravidade foi verdadeiramente o sublime... Não posso ainda fallar d’elle em relação a mim, porque não o quizera fazer de modo incompleto... Prefiro mostral-o em relação ao Imperador. Aqui está uma dessas provas rapidas, photogenicas, que elle sabia tirar de si, e nas quaes os que viveram com elle reconhecem-lhe a physionomia, apanhada com toda a mobilidade da sua expressão e com a inalterabilidade do seu affecto humano. É por acaso que encontro esta carta d’elle:
«Cannes, 13 de maio de 1892.