Chapter 7 of 18 · 3978 words · ~20 min read

Part 7

Entre os intimos de Grosvenor Gardens eu vinha encontrar Rancés, marquez de Casa la Iglesia, o mais bello homem do seu tempo, que não sei si não terá fundado, em expiação do seu perfil, alguma Trappa na Andaluzia; o marquez Fortunato, que representava a realeza extincta de Napoles tão fielmente como si Francisco II ainda habitasse Capodimonte; o velho John Samuel, que nos contava historias do velho Brasil, tendo vivido e dirigido a moda no Rio de Janeiro no tempo de Pedro I; outro velho, Saraiva, o diccionario portuguez de Londres, verão e inverno em um casacão que lhe descia até os pés, a longa barba inculta, a pelle entalhada como um retabulo hespanhol, com um montão de livros debaixo do braço e em cada bolso, primeiro e ultimo amigo de Dom Miguel na Inglaterra, e que desde 1834 se consolava do desterro, da pobreza, do frio de Londres com os seus alfarrabios e os seus ouvintes.

Encontrei alli ainda Mr. Clark, o famoso correspondente do _Jornal do Commercio_, a quem depois succedi, a _bête noire_ de Zacharias, um desses _old gentlemen_ que a Inglaterra póde mandar ao estrangeiro, com certificado, como specimen nacional, porque nada do que é essencialmente inglez, perfil, caracter, tradição, maneira, preconceito, _humour_, orgulho insular, deixaria de estar representado nelles; Pellegrini, o caricaturista de _Vanity Fair_, um dos artistas napolitanos que invadiram com a sua loquacidade alegre, o seu riso communicativo, a sua mimica irresistivel, a fria e reservada sociedade ingleza e tomaram conta della.

Devo tambem citar Mr. Youle. Este ha cincoenta annos serve em Londres de correspondente aos seus amigos do Brasil e de Portugal; a todos hospeda, agasalha, enche de obsequios, dando-se o incommodo de ir até á Allemanha por um rapaz que o pae quer collocar em uma casa de Hamburgo; tomando o trem de Calais, mal acaba de chegar da Escossia ou de Manchester, para deixar no Sacré Cœur de Pariz uma menina que não quer continuar em Rohampton; indo a Lisboa, e, si preciso fôr, á Madeira para acompanhar um doente que foge do inverno inglez; prompto sempre, incançavel nas suas funcções de provedor de Brasileiros e Portuguezes na Inglaterra, ha meio seculo, e além d’isso o oraculo na City, nos grandes Bancos, quando se trata de interesses commerciaes dos dois paizes.

Esses eram alguns dos intimos de 1874-76, periodo a que me refiro, sem contar os Brasileiros que alli se achavam no Brasil. Em periodos anteriores sei que o foram entre outros Musurus Pachá e o infante Don Juan, pae de D. Carlos de Hespanha; o Dr. Gueneau de Mussy, medico fiel da familia de Orléans desterrada, e o republicano Dupont, proscripto do Imperio, companheiro de Ledru-Rollin e de Louis Blanc, o velho barão Leonel de Rothschild, o marquez do Lavradio, modelo dessa distincção e urbanidade portugueza que parece requintar sobre todas as outras aristocracias.

A Legação do Brasil estava naquelle tempo no seu maior brilho: pertencia ao numero das casas que tinham o privilegio de receber a realeza, isto é, o principe e a princeza de Galles. Muitos argumentos me foram apresentados na mocidade em favor da monarchia; nenhum, porém, teve para mim a força persuasiva, a evidencia, destes dois, um que me foi formulado no Pincio, outro que me foi formulado em Hyde Park: a princeza Margarida de Saboia e a princeza de Galles. A republicanos de boa fé esthetica,--ponhamos tanto os barbaros como os anachoretas de parte,--eu não quizera apresentar outros. A monarchia moderna faria bem para sustentar-se em promulgar a lei salica em sentido contrario, isto é, em neutralisar ainda mais o poder neutro, estabelecendo a realeza exclusiva das mulheres. Seria isso fazer politica experimental, que não se basearia sómente no esplendido e pacifico jubileu da rainha Victoria e na calma relativa em tempos crueis para a Hespanha da regencia de D. Maria Christina, mas no profundo interesse das massas pelos dramas de que a primeira figura é uma mulher. A entrada triumphal em Pariz dos restos de Napoleão nunca fará um quadro como o que Tacito nos deixou do Campo de Marte, no «_dia maravilhoso_» em que foram depositadas no tumulo de Augusto as cinzas de Germanico trazidas por Agrippina. Si ao prestigio da posição se allia na mulher a irradiação da mocidade e da belleza, póde-se dizer que ella tem no sceptro um condão de fada. A formosura das rainhas tem, quando é perfeita, um reflexo seu exclusivo, combinação de bondade e soberania, de encanto pessoal e grandeza nacional, de dependencia, tremor mesmo, do Destino, e protecção e amparo para os que se acolhem ao seu manto, que fórma a dupla projecção, ascendente e descendente, do povo para o throno e do throno para o povo, que na ordem espiritual fez a Rainha dos Anjos comparar-se a si mesma com o arco-iris. Além da familia real de Inglaterra e da alta sociedade de Belgravia e Mayfair que a cerca, vinham á Legação principes estrangeiros reinantes ou desthronados, como esse joven principe imperial, azagaiado na Cafraria, e cuja morte, tão ingloria que parece predestinada, me faz sempre lembrar a de Saldanha em Campo Osorio.

Era para tal sociedade que o famoso Cortais, inspirando-se nas glorias dos grandes cozinheiros, formava o cortejo dos seus pratos architectomicos, verdadeiras obras-primas com que depois pretendeu, segundo me disseram, arruinar a corôa de Italia. Ouvi tambem que elle, seguindo ainda nisso as tradições dos mestres da arte, mostrára uma vez o seu reconhecimento servindo em um dos banquetes do Quirinal uma composição sua inscripta no cartão real--_à la Penedo_. Naquelle dia o diplomata brasileiro ha de ter dito, como Chateaubriand, quando deram o seu nome a um beefsteak: «_Agora, sim, não posso mais morrer_.»

Uma dessas representações de Monsieur Cortais deante de testas coroadas com toda a enscenação que reclamava, inclusive o grupo de _bellezas profissionaes_ da alta sociedade ingleza, não podia deixar de apagar de todo no espirito de um joven addido de Legação brasileiro o prestigio, si o conservavam, das decapitações reaes da Convenção ou de Whitehall.

Não me tomem por um sybarita, porque me inclinei deante de um de um grande _chefe_ como deante de um artista. «_Il en faudrait au moins un à l’Institut_», dizia Talleyrand. Entre o festim de Trimalcião e um _menu_ composto por um estylista francez, ha, como entre a dansa das alméas e o minuete, a longa distancia de civilisação que separa a sensualidade da elegancia.

De todos os sentidos é realmente o paladar o menos intellectualisavel, o que admitte menor gráu de ascetismo. Mesmo a taça de bouillon servida a Madame de Maintenon em Saint-Cyr ou a taça de chá preto que conforta a rainha Victoria no terraço de Osborne é sempre um gozo material; não póde soffrer a transformação por que passa até tornar-se uma pura saudade o aroma das rosas e das violetas. O idealismo de que é susceptivel a cozinha artistica revela-se em não ser principalmente ao sabor que ella visa: a sua ambição seria deixar ao paladar uma sensação vaga, leve, immaterial, quasi apenas de um perfume, como a do bouquet no vinho, á vista, porém, a impressão duravel de um quadro, de uma natureza morta pintada por um mestre. Que ingrato colorido, porém, o dos seus molhos, dos seus cremes nevados, das suas gelatinas e _primeurs_!

Ha, entretanto, poesia real, verdadeira, no alimento são, natural, patrio; ha sentimento, tradição, culto de familia, religião, no prato domestico, na fructa ou no vinho do paiz. A nós, do norte do Brasil, creados em engenhos de canna, o aroma que rescende das grandes caldeiras de mel nos embriaga toda a vida com a atmosphera da infancia. E assim como ha poesia na cozinha de cada paiz, ha um _quid_ de arte na cozinha ornamental, cozinha de refinamento, que se procura elevar pelo desenho e pela fórma até o motivo do banquete,--e fazer historia, fazer politica...

* * * * *

O leitor me perdoará a confissão, mas eu não devia calar em minha formação politica a influencia mundana estrangeira, a influencia aristocratica, artistica, sumptuaria que descrevi. Assim como a notei em um banquete real em Grosvenor Gardens, poderia notal-a em um baile dos Astors em Nova-York; é a mesma impressão de uma tarde de _corso_ na Villa-Borghese, de uma manhã de _drawing room_ em Londres, do grande dia de corridas em Ascot; a mesma do jubileu da rainha em Westminster e do jubileu de Leão XIII no Vaticano. Não posso negar que soffri o magnetismo da realeza, da aristocracia, da fortuna, da belleza, como senti o da intelligencia e o da gloria; felizmente, porém, nunca os senti sem a reacção correspondente; não os senti mesmo, perdendo de todo a consciencia de alguma coisa superior, o soffrimento humano, e foi graças a isso que não fiz mais do que passar pela sociedade que me fascinava e troquei a vida diplomatica pela advocacia dos escravos.

O facto, entretanto, é este: si eu fosse sómente capaz da impressão politica, social, a escravidão, a oligarchia dos partidos, e minha falsa comprehensão do papel do Imperador e da funcção monarchica, ter-me-iam talvez, depois da morte de meu pae, feito queimar o meu Bagehot e alistar-me sob a bandeira norte-americana. Si, por outro lado, no momento de que dependia a minha carreira, eu tivesse tido exclusivamente a impressão de arte, teria, quem sabe, egualmente inclinado em politica para a republica. É como explico em Portugal o republicanismo de Ramalho Ortigão, Bordallo Pinheiro, Oliveira Martins, em suas estréas: como uma revolta contra o caracter inesthetico da instituição, do reinado em que desabrocharam; é assim que explico entre nós o republicanismo de Castro Alves, de Ferreira de Menezes, do meu Pedro de Meirelles, de Salvador de Mendonça, de Quintino Bocayuva, de Lafayette Rodrigues Pereira, de Pedro Luiz, e outros. O que me impediu de ser republicano na mocidade, foi muito provavelmente o ter sido sensivel á impressão aristocratica da vida.

XII

A INFLUENCIA INGLEZA

A impressão mundana, aristocratica, era para mim uma influencia politica puramente negativa, como o tinha sido a impressão artistica da Italia ou a impressão litteraria de Pariz. O effeito da sociedade, como o das artes e das lettras, não era outro sinão o de impedir o desenvolvimento do germen revolucionario que as leituras francezas dos vinte annos tinham deixado em meu espirito. Sem aquellas influencias, entregue a meus proprios impulsos, do mesmo modo que o meu liberalismo innato degenerou em radicalismo,--o qual foi em mim um puro phenomeno de estagnação em um espaço politico fechado,--o radicalismo teria degenerado em republicanismo.

Um distincto escriptor, que costumo encontrar na _Revista Brasileira_, o dr. Pedro Tavares, dessa ordem de republicanos a que chamarei _prematuros_, mais de uma vez me tem estranhado o que chama o desvio de minha evolução politica.

Para elle o liberalismo desenvolve-se, completa-se, termina, naturalmente, pelo republicanismo. Terá elle, porém, certeza de que Mirabeau, si vivesse, havia de figurar na Convenção? A critica é egual á que se fizesse, por exemplo, a Lafayette, por não ter abraçado a Republica em França depois de ter ajudado a fundal-a na America. O facto é que no republicanismo, fallo do sincero, do verdadeiro, ha um ideal, mas ha também um resentimento das posições alheias, como no socialismo, no communismo, no anarchismo ha ideal, mas ha tambem inveja, e desta é que parte, quasi sempre, o impulso revolucionario.

Sem as influencias _negativas_ da imaginação, eu teria sido talvez levado até á republica, como tantos que depois se arrependeram; aquellas influencias me contiveram sómente porque me desviaram, ou me distrahiram da politica. Eu era, porém, por natureza, um temperamento politico. Cedo ou tarde, a politica tornaria a seduzir-me, e só uma influencia positiva, que creasse em mim uma segunda natureza e modificasse o meu temperamento em suas tendencias absolutas, radicaes, podia tornar-me monarchico de razão e de sentimento, como fiquei. Essa influencia foi o contagio do espirito inglez, o que pude apropriar-me delle.

A minha passagem pela Inglaterra deixou-me a convicção, que depois se confirmou nos Estados-Unidos, de que só ha, inabalavel e permanente, um _grande_ paiz livre no mundo. A Suissa é um paiz livre, mas é um pequeno paiz; os Estados-Unidos são um grande paiz, mas ha nelle, sem fallar da sua justiça, da lei de Lynch, que lhe está no sangue, das abstenções em massa da melhor gente, do desconceito em que cahiu a politica, uma população de sete milhões, toda a raça de côr, para a qual a egualdade civil, a protecção da lei, os direitos constitucionaes, são continuas e perigosas ciladas. A França é um grande paiz e um paiz livre, mas sem espirito de liberdade arraigado, sujeito sempre ás crises das revoluções e da gloria.

O que deixa tão funda impressão na Inglaterra é, antes de tudo, o governo da Camara dos Communs: a susceptibilidade daquelle apparelho, ainda perante as mais ligeiras oscillações do sentimento publico, a rapidez dos seus movimentos e a força, em repouso, de reserva, que elle concentra. Mais ainda, porém, do que a Camara dos Communs, é a auctoridade dos Juizes. Sómente na Inglaterra, póde-se dizer, ha juizes. Nos Estados-Unidos a lei póde ser mais forte do que o poder; é isto que dá á Côrte Suprema de Washington o prestigio de primeiro tribunal do mundo, mas só ha um paiz no mundo em que o juiz é mais forte do que os poderosos: é a Inglaterra. O juiz sobreleva á familia real, á aristocracia, ao dinheiro, e, o que é mais do que tudo, aos partidos, á imprensa, á opinião; não tem o primeiro logar no Estado, mas tem-no na sociedade. O cocheiro e o _groom_ sabem que são criados de servir, mas não receiam abusos nem violencia da parte de quem os emprega. Apezar dos seus seculos de nobreza, das suas residencias historicas, da sua riqueza e posição social, o marquez de Salisbury e o duque de Westminster estão certos de que deante do juiz são eguaes ao mais humilde de sua criadagem. Esta é, a meu vêr, a maior impressão de liberdade que fica da Inglaterra. O sentimento de egualdade de direitos, ou de pessôa, na mais extrema desegualdade de fortuna e condição, é o fundo da dignidade anglo-saxonia.

Excepto essa idéa da justiça, que se foi formando e crescendo em mim, á medida que lia no _Times_ a secção dos tribunaes, curso pratico de liberdade que a nenhum outro se compara, posso dizer que não fiz na Inglaterra sinão verificar por mim mesmo a precisão, a penetração, a agudeza de espirito de Bagehot. O seu pequeno livro, cotejado com o que eu via, ouvia e sabia, explicava-se, tornava-se claro, sensivel, palpitante no que antes era obscuro, indifferente; fazia-me comprehender o mechanismo de que elle formulára a theoria: passava a ser para mim, em direito constitucional, um verdadeiro evangelho. Uma coisa era ter assimilado aquellas idéas logo ao sahir da Academia e outra vêr funccionar o proprio systema, receber a impressão viva do que apenas eu apprendêra ou decorára.

Essa dupla influencia do governo inglez e da liberdade ingleza era, por sua natureza, monarchica. Não podia deixar de inclinar-me interiormente á monarchia a idéa de que o governo mais livre do mundo era um governo monarchico. Ainda assim um estrangeiro intelligente não seria no seu paiz inabalavelmente monarchista sómente porque o governo chegou na Inglaterra a um gráu maior de perfeição do que nos Estados-Unidos, que tomaram a fórma republicana. Desde que não tinhamos no Brasil os elementos historicos que a liberdade ingleza suppõe, a não querer eu commetter o maior erro que se póde commetter em politica,--o de copiar de sociedades differentes instituições que _cresceram_,--eu não podia repellir a republica no Brasil sómente por admirar a monarchia ingleza de preferencia á Constituição Americana. Era preciso alguma coisa mais, no que respeita á fórma de governo, para eu não me deixar arrastar.

A transformação, ou, melhor, a modificação de ideal politico que soffri na Inglaterra era, todavia, a preliminar, o preparo para a impenetrabilidade que offereci depois á aspiração republicana. Até então, a fórma republicana me parecêra superior á monarchica pelo lado da dignidade humana. Foi na Inglaterra que senti que nunca a nossa raça attingiu ao mesmo ponto de altivez moral que em uma monarchia. Com o privilegio dynastico, que tambem o meu radicalismo rejeitava, eu agora o via bem, não se fazia no seculo XIX sinão aproveitar a tradição nacional mais antiga e mais gloriosa para neutralisar a primeira posição do Estado. A concepção monarchica ficava sendo esta: a do governo em que o posto mais elevado da hierarchia fica fóra de competição. Era uma concepção simples como a da balança, como a do eixo. Nenhum direito se transformou tanto no decurso deste seculo no Occidente como o direito real, que de divino passou a ser puramente historico, de activo passou a ser passivo. O rei da Inglaterra, si quizer influir na politica com as suas idéas proprias e a sua iniciativa, tem primeiro que abdicar e,--si a hypothese é admissivel,--fazer-se eleger á Camara dos Communs ou tomar a direcção da casa dos Lords. Entre o Czar e a rainha Victoria a differença de auctoridade é infinitamente maior do que entre a rainha Victoria e o Presidente dos Estados-Unidos. O governo pessoal é possivel na Casa Branca; é impossivel em Windsor Castle.

O chamado privilegio é assim um cargo honorifico, uma tradição nacional, uma conveniencia publica, quasi uma fórmula algebrica de equilibrio de forças, de conservação de energia, de moto continuo. É tão absurdo resentir-se alguem em sua dignidade da existencia desse ponto fixo no systema politico, como seria o resentir-se da existencia do eixo da terra ou da estrella polar. A muitos é impossivel deixar de vêr no occupante do throno o homem ou a mulher, o accidente, a pessôa, para vêr a funcção, a existencia tradicional, a lei do movimento politico. Desses póde-se dizer que são deficientes em imaginação symbolica; mas, desapparecendo o symbolismo, podemos estar certos de que desapparecerá tambem o ideal na religião, na poesia, na arte, na sociedade, no Estado.

A monarchia constitucional ficava sendo para mim a mais elevada das fórmas de governo: a ausencia de unidade, de permanencia, de continuidade no governo, que é a superioridade para muitos da fórma republicana, convertia-se em signal de inferioridade. Esse ideal republicano, de um Estado em que todos pudessem competir desde o collegio para a primeira dignidade, passava a ser a meus olhos uma utopia sem attractivo, o paraiso dos ambiciosos, especie de hospicio em que só se conhecesse a loucura das grandezas. Não era este, de certo, o termo da evolução humana, pelo qual rezamos todos os dias, quando repetimos o _adveniat regnum tuum_. Desistir da idéa monarchica não é tão facil como parece. _Mesmo o systema planetario é monarchico_, diz Schopenhauer. O Universo é a monarchia por excellencia. Em vez de _Cosmos_, Humboldt podia ter dado ao seu livro o titulo _De monarchia_. A idéa central do Infinito, isto é, Deus, não podia deixar de ser em toda a esphera da intelligencia e da actividade humana o verdadeiro ideal. Até hoje a força, transformada em direito e em tradição, terá sido a genese do ideal monarchico; um dia elle sahirá da sciencia, da intelligencia, da virtude, da santidade. O ideal humano, todo elle, toda a esthetica religiosa, social, artistica, podemos ficar certos, está inteiro na linha: «E creou Deus o homem á sua imagem.»

Eu encontrava republicanismo na Inglaterra em espiritos de primeira ordem; havia republicanismo, mais ou menos consciente, em Spencer, em Mill, em Bagehot, em Bright, em Morley, em George Eliot, em G. Henry Lewes, mas era republicanismo _sine die_, conservado no sentimento monarchico, para impedil-o de corromper-se. A Inglaterra não seria a nação livre que é si não houvesse no seu caracter uma fibra que impede a veneração dynastica de degenerar em superstição, a «loyalty» de tornar-se servilismo... No coração inglez a fidelidade á Camara dos Communs precede a fidelidade á Realeza, e dessa regra não faz excepção a propria dynastia, que sente como a nação. Esse fundo de republicanismo, latente, esquecido até, mas que a menor provocação faria resuscitar o mesmo que sob os Stuarts, longe de ser incompativel com o monarchismo, é que o tem conservado, restringindo, reduzindo o poder real á funcção que é hoje, puramente moderadora e, só raras vezes, provisoriamente arbitral. Esse republicanismo não impedirá,--pelo contrario,--os que o têm em reserva, de inclinar-se deante da rainha e defender a integridade da sua prerogativa esvaecente.

Como eu disse, porém, não me bastaria mesmo essa profunda modificação de ideal politico para impedir-me de acompanhar o movimento republicano entre nós, dadas certas contingencias. Eu podia ser monarchista de ideal e julgar a republica, em um momento dado, o melhor governo praticavel, como se póde ser republicano de ideal,--e muitos o são na propria Inglaterra,--e fazer da monarchia o seu _noli me tangere_. Além disso, eu podia deixar arrastar-me por uma corrente de enthusiasmo, por uma solidariedade de partido, por amizades politicas, ou, mesmo, por algum interesse que soubesse disfarçar-se e insinuar-se-me no espirito,--sob a fórma de um sacrificio á causa publica. As idéas para espiritos que vêm os lados oppostos das coisas, o que tudo tem de bom e de mau, são pobres, frageis, antemuraes. É preciso, para sustentar a fé politica, mais do que a lucidez da intelligencia; a não haver um sentimento que interesse o coração, ou uma especie de ponto de honra que se imponha ao caracter, é indispensavel um espirito uniforme de conducta, uma regra certa de direcção. No meu caso particular, o que me poupou da illusão republicana foi um toque apenas do espirito inglez.

XIII

O ESPIRITO INGLEZ

Sem elle a convicção da superioridade do typo politico da Inglaterra não teria bastado. Quanto á sensação aristocratica da vida, de que tambem fallei, essa, no combate dos partidos, não teria resistido ao primeiro choque. O que entendo por espirito inglez neste caso é a norma tacita de conducta a que a Inglaterra toda parece obedecer, o centro de inspiração moral que governa todos os seus movimentos. Vi quasi nada da Inglaterra, sinto dizel-o, mas vi pedaços que me impedem quasi de querer vêr o resto, excepto Oxford, cujo logar tenho vago em minha galeria interior, á espera do seu pequeno quadro. Vi, por exemplo, Cantuaria, e tenho no pensamento a calma, o silencio, a grandeza daquella imponente massa recolhida em si mesma. Vi, na semana de Cowes, Southampton e a ilha de Wight, pequena sombra da Inglaterra no mar, sombra colorida, movente e alegre. Fui em carruagem,--poderá haver um dia mais completo de romance?--de Stratford-on-Avon, atravessando Warwick, a Kenilworth. Passei dias á margem do Tamisa, entre Windsor e Henley, e creio que tive reminiscencias do paraiso terrestre. É realmente a vinheta mais perfeita que se podia imprimir á margem do capitulo II, v. 10 do Genesis: «Deste logar de delicias sahia um rio que regava o paraiso.» Em toda parte a impressão que tive da Inglaterra foi a mesma: ruinas cobertas de hera, antigas gravuras expostas em Pall Mall, montes de trigo nos campos ceifados, castellos recortados no meio de parques florestaes, velhas estalagens á beira da estrada, botes encostados ao arvoredo de Cliveden, grandes transatlanticos nas docas de Southampton, sempre a mesma impressão, o cunho inglez estampado em tudo. A sensação foi a mesma para mim da Inglaterra, vista de dentro, na segurança de seus recursos, e vista de fóra, inatacavel nos seus altos _cliffs_ brancos, a cujos pés o mar se abre como uma trincheira.

É, porém, na sua feição politica sómente que considero neste momento o espirito inglez, e, ainda mais restrictamente, o modo por que elle se manifesta nos movimentos reformistas, a influencia que tem sobre os espiritos innovadores. Politicamente, o espirito inglez póde decompôr-se em espirito de tradição, em espirito de realidade, em espirito de ganho, em espirito de força e generosidade, em espirito de progresso e melhoramento, em espirito de ideal: supremacia anglo-saxonia e supremacia christã no mundo.