Part 8
A veneração imprime na Inglaterra aos precedentes uma auctoridade quasi sagrada, e tira a tudo que tem caracter historico ou funcção nacional, a feição individual em que se fixa a vista de outros povos. A rainha Victoria é mais do que a _augusta_, cuja imagem cada familia venera no seu _lararium_ interior; é a realeza Normanda, Plantagenet, Tudor. Como a Rainha, a Constituição. Esta não é mais do que uma procuração em causa propria, dada pela nação ingleza á Camara dos Communs, e mesmo, assim, um mandato de que nunca se viu o instrumento. Nenhum grande legista a redigiu, nenhum homem de Estado a ideou: formou-se espontaneamente, inconscientemente, como a lingua ingleza, a architectura perpendicular, os contos da _nursery_. A tradição, como base do temperamento nacional, produz no Inglez a faculdade de admirar a massa historica de uma instituição, como o architecto admira a grandeza e o detalhe de uma cathedral gothica. Para o Inglez, si a liberdade é o grande attributo do homem, si elle a sente como o desenvolvimento da personalidade, a ordem é a verdadeira architectura social. Elle comprehende e penetra a grandeza do systema que se perpetúa mais do que a das revoluções, ao contrario do latino, que póde viver e ser feliz em um solo politico oscillante, sujeito a terremotos continuos. D’ahi, para elle o amor da lei e a sympathia, interesse, carinho mesmo, pela auctoridade encarregada de executal-a; d’ahi, tambem, o prestigio do juiz, a popularidade das sentenças que aterrorisam o criminoso, ao contrario das facilidades que este encontra nos paizes onde decáe o instincto de conservação.
Si n’uma organização assim formada existe, ao lado dessa quasi superstição do costume, o espirito de aperfeiçoamento e de progresso, o que resulta é que as reformas, as modificações serão governadas por algumas regras elementares. Uma destas será conservar do existente tudo o que não seja obstaculo invencivel ao melhoramento indispensavel; outra, que o melhoramento justifique,--e para justificar não basta só compensar,--o sacrificio da tradição, ou mesmo do preconceito que o embarga; outra regra é respeitar o inutil que tenha o cunho de uma epocha, só demolir o prejudicial; outra, substituir tanto quanto possivel provisoriamente, deixando ao tempo a incumbencia de experimentar o novo material ou a nova fórma, para consagral-o ou rejeital-o; uma ultima, esta rara e extrema, será reformar, no sentido originario da instituição, o mais antigo, procurando o traçado primitivo. Dessas regras resulta o dever de demolir com o mesmo amor e cuidado com que outras epochas edificaram. Nenhum explosivo é legitimo, porque a acção não póde ser de antemão conhecida; é preciso demolir a nivel e compasso, retirando pedra por pedra, como foram collocadas.
O que, porém, dirige o espirito de progresso é o espirito de realidade, espirito pratico, positivo, que se manifesta pela rejeição de tudo que é theorico, _a priori_, tentativo, logico, ou que pretenda á perfeição, á finalidade, á uniformidade, á symetria. A esse espirito corresponde, na ordem politica, a idéa de crescimento: as instituições têm o seu _habitat_ como as plantas, as suas latitudes e terreno proprios, condições especiaes de acclimação, obstaculos e perigos de transplantação. Não basta que a reforma seja indicada pela experiencia, baseada em uma forte verosimilhança; é preciso que tenha affinidade com as outras instituições. Esse espirito pratico, positivo, é a experiencia do utilitarismo, do espirito de crear e accumular riqueza, caracteristico da raça. O utilitarismo manifesta-se em que as reformas devem ter uma vantagem economica, pelo menos indirecta, e justificar-se por algarismos. Ao lado, porém, da corrente utilitaria, ha a corrente imaginatíva ou de ideal, moral, nacional, religiosa.
A varonilidade impõe ao reformador não fazer victimas emissarias, responsabilisando individuos ou instituições pelos erros communs da sociedade, não lavar as mãos como Pilatos das injustiças da multidão, não preferir o fraco para sobre elle descarregar o golpe, em uma palavra, o _fair-play_. O patriotismo manda não consentir que o espirito de partido supplante o de responsabilidade para com o paiz. O que, entretanto, na Inglaterra alimenta, renova e purifica o patriotismo, é outra especie de responsabilidade: a do homem para com Deus. Só quando o orgulho britannico e a consciencia christã estremecem juntos e se unem em uma mesma causa, é que o sentimento inglez desenvolve a sua energia maxima. A inspiração da vida publica na Inglaterra vem em grande parte da Biblia. A politica e a religião sentem que terão sempre muito que fazer em commum, que uma e outra têm o mesmo objectivo pratico--elevar a condição moral do homem, e o effeito desse ultimo e, talvez principal elemento do espirito inglez, em relação ás reformas, é fazer o argumento moral prevalecer sobre o argumento utilitario.
Tomando-se o espirito inglez, como acabo de delinear, que é que elle inspirará na Inglaterra a republicanos de ideal, que se subordinem, entretanto, como individuos, á consciencia collectiva, ao instincto nacional? Ha uma pagina interessante em _On Compromise_, livro typico de casuistica intellectual ingleza, escripto por John Morley. Essa pagina é a melhor illustração do que eu disse antes sobre o republicanismo que póde existir por baixo do sentimento monarchico, até para dar-lhe vida e calor. Elle figura um Inglez convencido de que a monarchia, mesmo meramente decorativa, tende a engendrar habitos sociaes degradantes. O dever desse republicano será deixar a monarchia de lado e abster-se de todos os actos, em publico e em particular, que possam, mesmo remotamente, alimentar o espirito de servilismo. «Tal politica não interfere, diz-nos Mr. Morley, com as vantagens que se diz ter a monarchia, e tem o effeito de tornar as suas suppostas desvantagens tão pouco prejudiciaes quanto possivel...»
Desse espirito inglez eu disse que tive apenas um toque. Na questão da abolição, entretanto, não me desviei delle. A abolição era uma reforma que o espirito inglez anteporia a todas as outras por toda ordem de sentimento. Si a abolição se fez entre nós sem indemnisação, a responsabilidade não cabe aos abolicionistas, mas ao partido da resistencia. O meu projecto primitivo, em 1880, era a abolição para 1890 com indemnisação. Si em qualquer tempo um ministro da corôa chegasse ás Camaras e dissesse: «A escravidão não póde mais ser tolerada no Brasil, o nosso gráu de civilisação repelle-a, e eu venho pedir que decreteis a liberdade immediata dos escravos existentes, votando os precisos recursos para a respectiva desapropriação», poderia haver abolicionista que quizesse prolongar a escravidão? Nenhum da nós assumiria a odiosa responsabilidade. Esse homem, porém, não surgiu d’entre os estadistas do Imperio; todos pensavam, ou que a abolição arruinaria a lavoura e o credito do paiz, ou que o Brasil não era rico bastante para pagar a libertação moral do seu territorio. Podia haver abolicionistas contrarios á indemnisação; de facto, os houve; mas podiam elles, acaso, votar nunca contra uma lei de abolição immediata? A responsabilidade foi assim dos partidos, que se comprometteram perante a lavoura a resistir ao movimento, e que teriam, do seu ponto de vista, feito melhor sacando sobre o futuro e desapropriando os escravos, quando o principio da não-indemnisação ainda não tinha triumphado no projecto Dantas e na segunda lei de 28 de setembro. Essa intuição só a teve o meu querido amigo José Caetano de Andrade Pinto no Conselho de Estado; não lhe deram, porém, valor. Com relação á lei de 13 de maio devo dizer que em 1888 era tarde para se pleitear a equidade da desapropriação deante de um movimento triumphante, quando já a maior parte dos escravos tinham sido liberalmente alforriados pelos senhores e o resto da escravatura estava em fuga, depois, sobretudo, de estar por lei consagrado o principio de que a escravidão era uma propriedade anomala, a que o legislador marcava sem onus para o Estado o prazo de duração que queria.
Em relação á monarchia do Brazil aquelle toque do espirito inglez bastou para traçar-me uma linha de que eu não poderia afastar-me, mesmo querendo. Era um ponto de honra intellectual, um caso de consciencia patriotico definitivamente resolvido em meu espirito, aos vinte e tres annos. Supprimir a monarchia que tinhamos, ficou claro para mim desde então, era uma politica a que eu não poderia nunca associar-me; eu poderia tanto banir, deportar o Imperador, como atirar ao mar uma creança ou deitar fogo á Santa Casa. Quebrar o laço, talvez providencial, que ligava a historia do Brasil á monarchia, era-me moralmente tão impossivel, como me seria no caso de Calabar entregar Pernambuco por minhas proprias mãos ao estrangeiro. Faltar-me-iam forças para uma intervenção dessas no destino do meu paiz. Seria attrahir sobre mim um golpe de paralysia, ferir-me eu mesmo de morte moral. Minha coragem recuava deante da linha mysteriosa do Inconsciente Nacional. O Brasil tinha tomado a fórma monarchica, eu não a alteraria.
O que vi dos Estados-Unidos não fez sinão calcar mais profundamente a impressão monarchica que eu levava da Inglaterra. Foi uma segunda chave, de segurança, que fechou em meu pensamento a porta que nunca mais se devia abrir. O espirito politico americano, com certas modalidades que não quero amesquinhar, mas que me parecem secundarias, é uma variedade do espirito inglez, o qual merece antes ser chamado espirito anglo-saxonio, porque é um espirito commum de raça, de grande familia humana, superior a fórmas e accidentes de instituições.
XIV
NOVA-YORK (1876-77)
Talvez o melhor modo de mostrar o que devo aos Estados-Unidos seja reproduzir paginas do meu diario de 1876-77. Cheguei pouco tempo depois da visita do Imperador; pude assim recolher o echo da impressão deixada por elle. O anno que passei na grande Republica foi um dos seus momentos politicos mais interessantes, porque foi o da eleição de Tilden. Como se sabe, os democratas ganharam as eleições de 1876, mas as Juntas Apuradoras Republicanas de alguns Estados do Sul manipularam as actas de fórma a dar maioria aos eleitores do seu partido. Ambos os lados reclamavam a victoria, e, como a Camara dos Representantes era Democrata e o Senado Republicano, a perspectiva era que o Congresso não chegaria a accordo até março, e que os Estados-Unidos teriam dois Presidentes com todas as probabilidades de uma guerra civil. O espirito pratico, o espirito de transacção da raça anglo-saxonia interveiu, e as duas Casas do Congresso concordaram em entregar o julgamento a uma Commissão especial, tirada de cada uma dellas e do Supremo Tribunal. A differença entre a Inglaterra e os Estados-Unidos não póde ser melhor apresentada do que nesse caso: a resolução americana foi como a ingleza, o accordo em vez da guerra civil dos paizes latinos, mas nos Estados-Unidos, ao contrario do que aconteceria na Inglaterra, a Commissão não se elevou acima do espirito de facção, as votações foram todas estrictamente partidarias, o que quer dizer, figurando nella cinco membros da Côrte Suprema, que o mais alto tribunal da União era composto de _politicians_. Com juizes inglezes a decisão teria, talvez, sido injusta, mas não seria nunca parcial, dada por motivo politico; não se contariam de antemão os votos dos juizes como os dos Congressistas. Em tão pouco tempo como tive, nenhum estudo comparativo da educação, da seriedade e dos costumes politicos dos dois paizes podia ser mais proveitoso para mim do que foi essa campanha eleitoral de 1876-1877 e o desenlace que ella teve. As qualidades e as deficiencias da politica americana estavam todas visiveis e patentes nessa lição de coisas. Eu tinha acompanhado a lucta dos partidos para a captura da cadeira presidencial com o maior interesse, cada _boss_ me era conhecido, como o era cada figura de senador, a opinião de cada jornal influente, cada nuança das duas Convenções.
É realmente o momento para o estrangeiro abranger n’um relance a vida politica dos Estados-Unidos, esse anno eleitoral. Eu tinha chegado a Nova-York a tempo de familiarisar-me com as questões, as allusões, a giria politica do formidavel _canvass_ que se ia travar e do qual a politica da reconstrucção no Sul devia ser o eixo. Interessava-me o Tammany Ring, o Whiskey Ring, o schisma dos Independentes, o Civil-Service Reform, o Railroad Land-Grants, como me interessava o encontro de Gladstone com Disraeli na questão do Oriente, ou a lucta de Thiers com o duque de Broglie. Durante mais de um anno fui um verdadeiro americano nos Estados-Unidos, como o proverbio manda ser romano em Roma. Era o meio de penetrar, de comprehender, de sentir a vida politica do paiz, si eu o queria, e este fôra o meu motivo ao desejar ir para os Estados-Unidos.
O meu diario desse anno é antes um registro de pensamentos do que de impressões americanas. Ha muito pouca politica nelle, o que mostra que eu vivia em uma atmosphera diversa da que os homens de partido respiram, mesmo no estrangeiro. Reproduzo algumas dessas notas para mostrar isto mesmo, que o meio norte-americano teve sobre mim o effeito que muita vez tem sobre os proprios americanos, de desinteressal-os da politica, excepto como espectadores. Posso dizer que vivi esses dois annos, de 1876 e 1867, na sociedade de Nova-York, onde se está tão longe da politica americana como em Londres ou em Pariz; mas o mundo exterior, que me cercava por toda parte, a rua, a praça publica com os seus cartazes e procissões eleitoraes, os jornaes com as scenas do Congresso e as torrentes de eloquencia dos _meetings_, não podia deixar de attrahir-me como todo espectaculo nacional curioso e unico, além, está visto, do interesse intellectual que eu tinha em saber como um tão grande paiz era governado e dirigido, as forças sociaes e influencias moraes que presidiam ao seu colossal desenvolvimento. Aqui estão ao acaso algumas das notas.
«22 de outubro. O discurso de Carl Schurz, pronunciado hontem no _Union League Club_, expõe o sentimento _republicano_ na melhor luz. O principal elemento da presente campanha começa a ser a Questão do Sul. Com a approximação do dia 7 de novembro esse ponto de vista tornar-se-á mais importante do que todos os outros. A _camisa ensanguentada_ (bloody-shirt) cahiu em completo descredito, mas é preciso contar com o receio de que o Sul, unido, composto dos antigos Estados rebeldes e onde os candidatos são todos soldados da Confederação, possa dominar o Norte tão cedo, depois da guerra, passando o governo americano a ser representado por antigos Separatistas. Esta idéa assusta os que põem acida de tudo a União, mesmo quando seja preciso reduzir os Estados impenitentes a territorios sujeitos ao despotismo militar e entregues politicamente ao dominio conjunto dos _carpet-baggers_ e dos negros. Este elemento decidirá, provavelmente, em favor de Hayes a lucta que de outra fórma seria facil de ganhar para Tilden, porque a situação do Sul nos ultimos annos deshonra a politica americana.»
«1 de janeiro. Cheguei a Washington, em Riggs House. Pela primeira vez ponho o uniforme. Á Casa Branca. Apresentação ao Presidente, depois á casa do Secretario de Estado, Mr. Fish. A chamada dynastia Grant, a filha de Mrs. Sartoris; a netinha recebendo os cumprimentos pelo avô. Vou com o capitão-tenente Saldanha de Gama visitar os membros da Côrte Suprema: através da _terrapine_ e das _baked oysters_ todo o dia, até que em casa do secretario da Marinha um solemne _the reception is over!_ põe termo á nossa peregrinação de _New-Year’s day_.»
Eu tinha conhecido Saldanha na Exposição de Philadelphia, depois ligámo-nos muito em Nova-York, onde moravamos no mesmo hotel, o Buckingham. Elle ria-se sempre muito daquelle: _the reception is over!_ Pobre Saldanha! nascido para o mundo, para o amor, para a gloria, quem imaginaria, ao vêl-o naquelle tempo em Nova-York, que o seu destino seria o que foi? A esphinge da vida que lhe déra, ainda adolescente, um dos seus enigmas indecifraveis para resolver, destruindo nelle a aspiração de ser feliz, reappareceu de novo a embargar-lhe o passo no momento em que podia disputar a primeira posição do paiz.
«11 de janeiro. Á casa de Mr. John Hamilton, filho de Alexandre Hamilton. Un homem do passado, voltado todo para elle. Diz-me que o Brasil deve conservar o mais tempo possivel a sua fórma monarchica. Este _Whig_ não acredita que paizes como os nossos possam durar unidos sob outra fórma de governo. Emoção ao mostrar-me o retrato de Luiz XVI, presente feito ao pae...
«22 de fevereiro. Almocei com Mr. Marshall no Knickerbocker Club, hoje anniversario de Washington; almoçavam Mr. Manton Marble, ex-redactor do _World_, Mr. Appleton, o grande editor, Mr. Stout, Mr. Robinson, Mr. Pell, e outros. Ao _toast_ feito ao Imperador respondi, como todas as saúdes eram humoristicas, com um ensaio de _humour_. Disse que nós tinhamos tido receio de que os Americanos o guardassem, lembrando-se de que uma grande auctoridade para elles, o general Lafayette, dissera da monarchia constitucional: «Aqui está a melhor das republicas». Mas, desde que elles tinham deixado o Imperador partir, eu fazia votos para que os dois paizes conservassem suas instituições como uma aposta de liberdade perpetua entre a monarchia e a republica. Quanto a Washington, fiz uma reserva á sua grande obra: a de ter fundado a capital em uma cidade, sem duvida, muito agradavel, mas para a qual sempre se vae a custo, quando se tem que deixar Nova-York.»
«Março, 2. Hoje fui ao Congresso vêr os destroços da vespera. (Hayes fôra proclamado Presidente por um voto.) Não ha alegria no lado republicano; no democrata a decepção é grande; mas, em pouco tempo, quando a ferida tiver cicatrizado e se pensar no futuro, esse partido ficará contente de se terem passado as coisas como vimos hontem. O general Banks, antigo _Speaker_ da Camara, cedeu-me a sua cadeira no proprio recinto do Congresso (em sessão), depois veiu sentar-se nella o meu ministro, e fomos apresentados a diversos deputados, notaveis, entre elles Lamar e Garfield.»
«8 de março. O Presidente propõe uma emenda constitutional, tornando o prazo da presidencia de seis annos, sem reeleição. Essa emenda provem do medo que se tem de que as eleições presidenciaes sejam tão disputadas pelos dois partidos, que dividem em duas metades o paiz, como foram as do outono passado, e que os negocios de tres em tres annos tenham um quarto anno de interrupção e de paralysia, como si tudo perigasse e a anarchia ou a guerra civil, talvez a separação, pudesse seguir-se a uma eleição duvidosa. Os interesses do commercio e os da propriedade conseguirão um dia alongar o prazo até seis annos, e como com a maior escassez de eleições ellas tendem a tornar-se mais renhidas, não ha razão para o paiz correr todos os seis annos um risco que não quer correr todos os quatro. Assim, a eleição critica do chefe do Estado irá sendo o mais possivel espaçada, e não é impossivel que a Republica americana se approxime tão de perto das monarchias electivas, que, vendo o perigo desta fórma, ella prefira a tranquillidade das longas dynastias...
«É curioso que o que ha de mais perfeito nesta democracia seja a mulher, que é aqui o ente mais aristocratico do mundo.»
«2 de abril. A idéa de governo hoje é inteiramente diversa da idéa de governo antigamente; tomemos, por exemplo, a liberdade de imprensa nos Estados-Unidos, que representam a nova educação politica, e a censura na Russia. Ha muito que dizer em favor de se deixar o pensamento inteiramente livre e sobre os inconvenientes da repressão; mas o certo é que se formam duas sociedades diversas pelo respeito forçado á auctoridade e pelo desprestigio della. A difficuldade que ha no caminho da tradição é que a dignidade, ou a altivez pessoal, não quer sacrificar-se aos grandes resultados moraes e que os homens se consideram todos eguaes por um sentimento que já é indestructivel. Eu sou seguramente egual a um rei, como individuo, mas, como do principio da monarchia vêm muitos bens para a sociedade, colloco-me em plano inferior. Isso não é quebra da dignidade _humana_, ainda que a altivez pessoal tenha que _se curvar_.»
«13 de maio. Diz-se que Tilden não reconhece Hayes como presidente. É o caso de algum amigo lêr-lhe o _Kriton_. Quando Kriton quer convencer a Socrates de que deve fugir para evitar uma morte injusta, Socrates nega-se com o fundamento de que a sentença, injusta como é, é todavia inteiramente legal. Si os juizes fizeram mal em pronuncial-a, elle faria peior em não se sujeitar ás leis de Athenas, porque o cidadão que goza da protecção e dos direitos que uma cidade lhe offerece, tem com ella o pacto tacito de respeitar as suas leis. Socrates recusava a vida por ser illegal, ainda que soubesse que adviria da sua fuga mais bem do que mal á democracia atheniense. Não devia Tilden relêr esse dialogo? Injusta como foi a decisão contra elle, foi estrictamente legal, não no sentido de estar de accordo com o direito, mas por ser dada pelos interpretes competentes da lei. Elle só póde chamar para si e o seu partido as sympathias de todos, sujeitando-se á decisão proferida, salvo o seu direito de brandir contra o novo Presidente as fraudes pelas quaes chegou ao poder.»
«Junho, 13. Hontem realisou-se no Manhattan Club a recepção dos _swallow-tails_ aos candidatos democraticos eleitos e _counted out_. Tilden fallou pela primeira vez depois da inauguração de Hayes, á qual chamou «_o mais portentoso acontecimento na historia da America_». America quer dizer os Estados-Unidos, porque no Mexico e no Perú ha, cada dia, acontecimentos d’esses muito mais _portentosos_. «_Os males no governo crescem com o exito e com a impunidade. Não se restringem a si mesmos voluntariamente. Não pódem ser nunca limitados sinão por forças externas. Uma grande e nobre nação não separa a sua vida politica da sua vida moral._» Tudo isto é muito exacto. O Brasil é a prova. Deve o povo, ou não, fazer politica? O adeantamento de um paiz prova-se pela extensão da idéa de que a politica é inseparavel dos mais vitaes interesses da sociedade, e por ahi, dos de cada um. No Brasil, essa idéa não se derramou, pelas condições especiaes em que nos achamos, de territorio, população, trabalho escravo, etc. Aqui ella está em cada cabeça. O que mais me surprehendeu nessa reunião de Manhattan, foi o Governador de Nova-York, este _de jure_ e _de facto_, Mr. Robinson, chamar em publico ao Presidente dos Estados-Unidos _um Presidente fraudulento_. Depois de ter dito que não teriam que esperar até 1880 para pôl-o fóra da Casa Branca, terminou assim, referindo-se a Tilden e a Hendricks: «_Fellow citizens_, tivestes a primeira opportunidade de saudar o Presidente e o Vice-Presidente dos Estados-Unidos depois da sua eleição. Eu vos felicito e acredito que este é apenas um presagio de factos que se hão de succeder.» A allocução do Governador do principal Estado da União proclamando a rebellião, _legal_ ou illegal, é caracteristico do regimen politico americano, e do _laissez-faire, laissez-passer_ de que goza neste paiz a palavra. As revoluções de lingua e penna não são nunca um delicto; são um desabafo. A bocca do _politician_ é a valvula de segurança das instituições. É o paiz das valvulas automaticas.»
«19 de junho. Os jornaes têm hoje um facto interessante: a visita feita por Frederic Douglass ao seu velho senhor, que deixou na adolescencia, para começar a vida de aventuras que o levou até ser _marshall_ em Washington e o grande orador da abolição que foi. «_Vim antes de tudo_, disse Douglass, _vêr meu velho senhor, de quem estive separado 41 annos, apertar-lhe a mão, contemplar-lhe o velho rosto bondoso, brilhando com o reflexo da outra vida_.»
«Esta scena dá uma idéa mais tocante da escravidão no Sul do que a _Cabana do Pae Thomaz_. O logar é St. Michael, Talbot County, Md. O nome do senhor Capt. Thomas Aould. Marshall Douglass ouviu a sua verdadeira edade da bocca do seu senhor, em cujos livros elle figura assim: «Frederic Balley, fevereiro 1818.» Provavelmente, o senhor não registrou mais a carreira agitada de Frederico desde a edade de 18 annos (1836). Esse facto é, do que tenho lido, uma das mais profundas e penetrantes apresentações do facto moral complexo da escravidão, o laço entre escravo e senhor.»
XV
O MEU DIARIO DE 1877