Part 5
Em 1872, quando Alexandre Dumas Filho escreveu a brochura _L’Homme-Femme_ terminando pelo famoso _Tue-la!_, publiquei no Rio de Janeiro uma carta em francez a Ernesto Renan com o titulo _Le droit au Meurtre_. Um amigo entregou de minha parte um exemplar dessa brochura ao grande escriptor, a quem só me faltou tratar de _divin maître_. Hoje descubro, mesmo litterariamente fallando, os lados fracos da _maneira_ renaniana; naquelle tempo eu era o mais inteiramente suggestionado dos nossos renanistas. O meu emissario foi Arthur de Carvalho Moreira, de quem já fallei, e a carta que elle me escreveu dando conta da sua missão, podia ter a assignatura de Chamfort. _L’Homme-Femme_, segundo Renan, não era sinão _un méchant paradoxe_, que não valia a pena refutar; _une plaisanterie_, que não se devia tomar ao sério. Quando no anno seguinte fui a Pariz, uma das minhas primeiras visitas foi a Renan. Elle lembrava-se do meu nome e não se demorou em responder ao pedido que lhe fiz de alguns momentos para apresentar-lhe as minhas homenagens. Ainda conservo esses curtos pequenos autographos: «C’est moi qui serai enchanté de causer avec vous. Tous les jours vers 10 heures ¹⁄₂ ou onze heures, vous êtes sûr de me trouver. Votre très affectueux et dévoué--_E. Renan_. Rue Vanneau, 29.» Tres dias depois, eu subia os quatro andares do n. 29 da rua Vanneau e penetrava no mesmissimo modesto «apartamento» que Carvalho Moreira me havia photographado em sua carta. Dentro de minutos me apparecia Renan. Na minha vida tenho conversado com muito homem de espirito e muito homem illustre; ainda não se repetiu, entretanto, para mim, a impressão dessa primeira conversa de Renan. Foi uma impressão de encantamento; imagine-se um espectaculo incomparavel de que eu fosse espectador unico, eis ahi a impressão. Eu me sentia na pequena bibliotheca, deante dos deslumbramentos daquelle espirito sem rival, prodigalisando-se deante de mim, litteralmente como Luiz II da Baviera na escuridão do camarote real, no theatro vazio, vendo representar os _Nibelungen_ em uma scena illuminada para elle só.
Dessa entrevista não sahi só fascinado, sahi reconhecido. Renan deu-me cartas para os homens de lettras que eu desejava conhecer: para Taine, Scherer, Littré, Laboulaye, Charles Edmond, que devia apresentar-me a George Sand, Barthélemy Saint-Hilaire, por intermedio de quem eu conheceria Monsieur Thiers. As nossas relações tornaram-se desde o primeiro dia affectuosas, e, naturalmente, quando imprimi o meu _Amour et Dieu_, mandei-lhe um dos primeiros exemplares. Aqui está a carta que elle me escreveu:
«Sèvres, 15 août 1874. Cher Monsieur, J’ai tardé plus que je n’aurais dû à vous dire tout ce que je pense de vos excellents vers. Je voulais les relire et, puis, j’espérais quelque vendredi vous voir à Paris. Oui, vous êtes vraiment poète. Vous avez l’harmonie, le sentiment profond, la facilité pleine de grâce. Si vous voulez venir après demain, lundi, vers trois ou quatre heures, rue Vanneau, vous serez sûr de me trouver; nous causerons. Je suis prêt à faire tout ce que vous voudrez pour la _Revue_ et les _Débats_. Malheureusement ces recueils sont depuis longtemps brouillés avec la poésie. Ce sont des vers comme les vôtres qui pourraient les réconcilier. Croyez à mes sentiments les plus affectueux et les plus dévoués.--_E. Renan._»
Não é verdade que, para um joven brasileiro que escrevia pela primeira vez o francez, uma carta assim devia ser uma sensação de fazer epocha na vida? Leiam agora esta traidora pagina dos _Souvenirs d’Enfance et de Jeunesse_, que seguramente não fui o unico a inspirar. Vou commetter o crime de traduzir Renan:
«Desde 1851 acredito não ter praticado uma só mentira, excepto, naturalmente, as mentiras alegres de pura eutrapelia, as mentiras officiosas e de polidez, que todos os casuistas permittem, e tambem os pequenos subterfugios litterarios exigidos, em vista de uma verdade superior, pelas necessidades de uma phrase bem equilibrada ou para evitar um mal maior, como o de apunhalar um auctor. Um poeta, por exemplo, nos apresenta os seus versos. É preciso dizer que são admiraveis, porque sem isso seria dizer que elles não têm valor e fazer uma injuria mortal a um homem que teve a intenção de nos fazer uma civilidade.»
A meu respeito, si uma vaga lembrança dos meus versos lhe occorreu tanto tempo depois ao escrever essa graciosa ironia, o grande escriptor enganou-se em um ponto: elle não me teria apunhalado dizendo que os meus versos não valiam nada, em vez de dizer-me que eram admiraveis. George Sand escreveu-me tambem a respeito do meu livro: «Il est d’une rare distinction et les nobles pensées y parlent une noble langue», e, curiosamente, Madame Caro egualmente se referia a «l’œuvre qui exprime dans un noble style la plus noble sympathie pour notre malheureuse patrie.» Todos esses cumprimentos, toda essa _nobreza_, eu a recolhia e guardava preciosamente como provas da generosa amabilidade e cortezia do caracter francez. Quanto ao valor dos meus versos, porém, a impressão que me ficou e apagou todas as outras, foi o silencio frio, impenetravel, entretanto polido, attencioso, sympathico, de Edmond Scherer. Contei esse episodio para acautelar o talento que se estréa contra a perigosa seducção da _eutrapelia_ litteraria. Conheço entre nós um mestre dessa arte do espirito, Machado de Assis, mas este, espero, não fará confissões. «Quem se não póde conformar á perda da propria honra, diz S. Felippe Neri, nunca avançará na vida espiritual.» O escriptor juvenil que não se resignar ao sacrificio da sua «honra» litteraria, não fará progressos em litteratura.
VIII
A CRISE POETICA
Agora, as razões pelas quaes eu naufragaria sempre no verso. Si o que estava nas paginas de _Amour et Dieu_ fosse novo, eu poderia, de certo, orgulhar-me do meu pensamento; ainda assim, entretanto, não seria poeta. Não era novo, porém. Tomem-se essas quadras:
La terre est une triste et bien sombre demeure: Pour que l’homme s’attache à ce terrible lieu, Il faut que le poète avec lui souffre et pleure, Et lui fasse espérer l’adoption de Dieu.
Car Dieu toujours est loin, et notre humble prière Ne le fait point descendre à ce séjour du mal; En vain nous l’appelons et crions: Notre Père! Il n’est encore pour nous qu’un soupir, l’idéal.
Si ninguem tivesse dito o mesmo antes, essa _humanidade esperando a adopção de Deus_, que é ainda, por emquanto, _um suspiro do seu coração_, seria o germen de uma seductora philosophia; aquelle trecho, porém, é a traducção, em verso fraco e mal trabalhado, do que Renan mesmo tomára aos allemães e tinha expressado de modo perfeito na mais elegante das prosas. O que me enganava nos meus versos, parecendo-me sonoro e elevado, não pertencia á poesia, pertenceria á eloquencia. Aqui está uma ode á França; é a Alsacia-Lorena que falla á Allemanha:
Tu penses arrêter le sang de notre vie, En t’emparant des rails de nos chemins de fer; Nous avons cinquante ans pour changer de patrie, Pour nous enrôler, tous, contents, dans la landwehr?
Ah! la force t’inspire autant de confiance Que nous en puiserons dans le droit éternel? Nous sommes les deux bras mutilés de la France, Qu’elle tend toujours vers le ciel!
Mme. Caro, no agradecimento que me manda, escreve: «Os dois braços mutilados levantados para os Céos, acabarão, tenho confiança, por vencer o destino.» Os _dois braços mutilados_ podiam ser os dois joelhos dobrados em oração, os dois pés acorrentados, ou o figado do Prometheu dos Vosges devorado pela aguia negra da Prussia e renascendo sempre. Tudo isto é do dominio da rhetorica e do pamphleto politico: é um libello em hemistichios como a _Nemésis_ de Barthélemy. Nada é mais contrario á poesia do que a emphase, o logar-commum e o pathetico da oratoria. Onde começa o advogado ou o tribuno, acaba o poeta.
O facto é que não possúo a fórma do verso, na qual a idéa se modela por si mesma e donde sáe com o timbre proprio da verdadeira rima, que nenhum artificio nem esforço póde imitar. Isto, por um lado, quanto á pequena poesia, á poesia solta, ao que se póde chamar a musica da poesia. Quanto á grande poesia, á poesia de imaginação e creação, poema, romance, bailada que fosse, para essa eu seria incapaz, além da insufficiencia do talento, pela falta de coragem para habitar a região solitaria dos espiritos creadores, os quaes vivem naturalmente entre figuras tiradas de si mesmos, sem vida propria, automatos da sua intelligencia e da sua vontade, como em um sonho accordado. Nessa altura, onde tudo é ficticio, tudo irreal, tudo phantastico, a poesia tem para mim o terror do _adytum_ da Pythia. Mesmo quando as figuras sejam meigas, suaves, humanas, a creação envolve sempre alguma coisa de mysterioso e terrivel; a completa abstracção, que ella suppõe, da realidade exterior, do mundo dos sentidos, me daria vertigem.
Ha, além da poesia de sentimento e da poesia de creação, outra poesia. O verso é a mais nobre fórma do pensamento, a mais pura crystallisação da idéa, e, como se tem dito, o que não se póde expressar em verso não vale quasi a pena ser conservado. Essa poesia, porém, que engasta as bellas idéas na mais duravel e perfeita da cravações, pertence quasi á especie dos proverbios, em que se condensa e perpetúa a sabedoria humana. Em Homero ella confunde-se com a historia; em Dante com o catholicismo; em Gœthe com a arte e com a sciencia. Essa é do dominio dos mais altos genios.
A poesia ao meu alcance só podia ser a humilde nota individual; mas, como eu disse, não encontrei em mim a tecla do verso, cuja resonancia interior não se confunde com a de nenhum timbre artificial. Quando mesmo, porém, eu tivesse recebido o dom do verso, teria naufragado, porque não nasci artista. Acredito ter recebido como escriptor, tudo é relativo, um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um pouco de poesia, o que tudo junto póde dar, em quem não teve o verso, uma certa medida de prosa rhythmica; mas da arte não recebi sinão a aspiração por ella, a sensação do orgão incompleto e não formado, o pezar de que a natureza me esquecesse no seu côro, o vacuo da inspiração que me falta... _Ustedes me entienden._ «O artista, disse Novalis, deve querer e poder representar tudo.» Dessa faculdade de _representar_, de crear a menor _representação_ das coisas,--quanto mais uma realidade mais alta do que a realidade, como queria Gœthe,--fui inteiramente privado. Nem todos os que têm o dom do verso são por natureza artistas, e nem todos os artistas têm o dom do verso: a prosa os possúe como a poesia; a mim, porém, não coube em partilha nem o verso nem a arte.
É singular como entre nós se distribue o titulo de artista. Muitas vezes tenho lido e ouvido fallar de Ruy Barbosa como de um _artista_, pelo modo por que escreve a prosa. No mesmo sentido poder-se-ia chamar a Krupp artista: a fundição é de alguma fórma uma arte, uma arte cyclopica, e de Ruy Barbosa não é exaggerado dizer, pelos blocos de idéas que levanta uns sobre outros e pelos raios que funde, que é verdadeiramente um cyclope intellectual. Mas o artista? Existirá nelle a camada da arte? Si existe, e é bem natural, ainda jaz desconhecida delle mesmo por baixo das superposições da erudição e das leituras. Eu mesmo já insinuei uma vez: ninguem sabe o diamante que elle nos revelaria, si tivesse a coragem de cortar sem piedade a _montanha de luz_, cuja grandeza tem offuscado a Republica, e de reduzil-a a uma pequena pedra. Aqui está outro, José do Patrocinio, que não é tambem um _artista_, ainda que em sua prosa se encontre o veio de ouro da poesia, filão, é certo, fugitivo, e que se perde a cada instante na rocha politica. Della poder-se-ia extrahir verdadeira poesia; fazer com as palhetas da sua phrase pelo menos uma imagem, a da _loura mãe dos captivos_, assim como com o sopro da sua eloquencia de combate se faria um baixo-relevo para um arco de triumpho: o _Chant du Depart_ da abolição. Tambem elle não tem a faculdade do verso, no qual naufragaria como naufragou no romance, porque o seu reflexo intellectual tem a vibração e a rapidez do relampago, e o verso é por natureza diamantino. Por isso mesmo tambem sua prosa, em que por vezes ha o toque da poesia, e quasi o calor do sentimento creador, ainda não pertence á arte, como pertence a de Chateaubriand, a de Renan, por exemplo, porque não é um estylo. Não tem governo, tem apenas medida; reflecte a acção confusa, a agitação perpetua de uma epocha desequilibrada, sem um instante de calma, de eternidade, em sua obra, no todo, genial. Agora outro muito diverso. Haverá quem não sinta a musica innata de Constancio Alves? Este é bem da ordem dos passaros, tem o canto; a prosa delle gorgeia, sobe, trina; no emtanto, si quizesse reduzir a uma obra d’arte a ironia melodiosa que tem em si, que restaria della?
Eu disse que me faltava o dom do verso. O timbre do verso reconhece-se em qualquer quadra. Tome-se Olavo Bilac, por exemplo. Não posso fallar de Luiz Murat, que tem maior voadura de imaginação, porque tenho até hoje respeitado instinctivamente o cháos da sua arte; sinto que ha no seu talento os elementos da poesia, menos a ordem, o principal de todos, mas que, felizmente para elle, se adquire, ao passo que os outros são de herança. Suas fórmas confusas e intricadas parecem-me de muda, e eu o aguardo na epocha em que a mocidade tiver gastado a sua violencia e elle entrar no bosque das Musas levando o silencio e a tranquillidade na alma. «Elle ensinou-me, disse Gœthe fallando de Oeser, que a belleza é simplicidade e repouso, do que se segue que nenhum joven póde tornar-se un mestre.» De Murat esperarei para fallar que primeiro elle encontre o seu Oeser. Tome-se Bilac, porém. Basta lêr a _Profissão de Fe_ em _Panoplias_, para vêr que o verso nasceu com elle, que não é um esforço, um trabalho, mas a expressão livre, franca, natural do pensamento:
Invejo o ourives quando escrevo; Imito o amor Com que elle em ouro o alto relevo Faz de uma flôr.
Não me cabe inquirir si o artifice se cingiu sempre em sua obra ás regras do officio, que tão perfeitamente esculpiu; o buril da rima, porém, está em sua mão e ninguem se póde enganar sobre a especie de metal que elle é digno de lavrar.
O facto que eu quería assignalar, é sómente que contrahi em França neste anno de 1873-74 a aspiração de auctor, a qual se desenvolveu ao contacto de grandes espiritos da epocha, que me acolheram como eu podia desejar, especialmente Renan, Scherer, George Sand.
Renan me déra o conselho, que transmitto á nova geração de litteratos, de entregar-me a estudos historicos. Não ha em regra nada mais ingrato, mais futil, do que a producção que o individuo tira toda de si, e é o que acontece quando o talento não tem uma profissão litteraria séria. Ha estudos, como as humanidades, que são apenas a habilitação do espirito para a carreira das lettras; quem os tem póde dizer que possúe a ferramenta do seu officio; além da ferramenta, ha, porém, que escolher o material. O material em que trabalham os nossos homens de lettras, são os costumes, a sociedade, quando são romancistas ou dramaturgos; as leituras, quando são criticos, a propria vida ou impressões, quando são poetas.
O material preferido é, como se vê, todo elle pouco consistente, ephemero, em parte grosseiro, em parte imprestavel ou insufficiente, e assim a producção é quasi toda facil, improvisada, sem trabalho anterior, sem investigações, sem esforço, sem tempo, sem nenhum elemento que revele continuidade, ambição. Faltando a disciplina e a emulação de uma especialidade, que acontece? A intelligencia contráe o habito da dissipação, da indolencia, do parasitismo; o talento relaxa-se, perde todo o peso especifico. Temos por isso uma litteratura desoccupada; o nosso campo litterario é composto de _flâneurs_. A verdade é que vae augmentando consideravelmente em nosso tempo o que Matthew Arnold traduziu por _inaccessibilidade ás idéas_, e que esse novo Philistinismo reduzirá a arte dos nossos banquetes litterarios a um só genero de iguarias, o genero _nature_. O publico, o protector moderno das lettras, cuja generosidade tem sido tão decantada, não passa de um Mecenas de meia-cultura, mesmo em França e na Inglaterra. Aconselhar a jovens brasileiros que se dediquem a estudos historicos desinteressados, é aconselhar-lhes a miseria; mas as leis da intelligencia são inflexiveis e a producção do espirito que não se alimenta sinão de sua propria imaginação, tem que ser cada dia mais frivola e sem valor.
Não me aproveitei do conselho de Renan sinão tarde de mais na vida, quando comecei a preparar a biographia de meu pae, que é uma perspectiva da epocha toda de D. Pedro II. O aviso, porém, ahi fica para os que quizerem desenvolver e aperfeiçoar o talento litterario que possuem, em vez de dispersal-o e nada apurar delle. O conselho não deixou, entretanto, de influir no meu espirito, si não para me disciplinar a mim mesmo, ao menos para me fazer aquilatar o valor do trabalho e da indagação e sentir a inutilidade, a vacuidade do que é puramente pessoal e espontaneo, desde que não seja caracteristico.
Das minhas conversas com Scherer, o que me contagiou foi a sua admiração pelo romance inglez, que parecia ser a litteratura da casa.--_Adam Bede_, _Jane Eyre_, etc. Em mim a conquista anglo-saxonia começou por Thackeray, que li então, como já disse, no retiro de Fontainebleau. A respeito dos meus versos, o grande critico manteve esse silencio desanimador dos medicos que não sabem enganar, quando os doentes ingenuos que se fizeram auscultar, querem surprehender e penetrar com perguntas insidiosas a realidade do seu estado.
A febre poetica que se tinha apossado de mim com esse primeiro ensaio de _Amour et Dieu_, não devia ceder facilmente; eu queria resgatar esse esboço, que me parecia inferior e imperfeito, substituil-o, e uma idéa, que estava em germen em uma de suas poesias, desprendeu-se delle e tomou em meu espirito as proporções extravagantes de um grande drama em verso. Deste fallarei mais tarde. Como se vê, bem pouco do politico militante restava depois dessa primeira viagem á Europa; eu trocára em Pariz e na Italia a ambição politica pela litteraria: voltava cheio de idéas de poesia, arte, historia, litteratura, critica, isto é, com uma espessa camada _européa_ na imaginação, camada impermeavel á politica local, a idéas, preconceitos e paixões de partido, isoladora de tudo o que em politica não pertencesse á esthetica, portanto tambem do republicanismo,--porque a minha esthetica politica tinha começado a tornar-se exclusivamente monarchica.
IX
ADDIDO DE LEGAÇÃO
Durante os cinco annos que seguem (1873-78), a politica é para mim secundaria, quasi indifferente, mas esse mesmo estado de espirito é, com relação á monarchia, um processo de consolidação, porquanto, graças a todas essas fascinações de arte e de poesia, a minha esthetica politica, segundo a expressão de que me servi, encerrava-se, isolava-se, ciystallisava-se na fórma monarchica. Quem me acompanha póde estar certo de que não existe no que vou dizendo nenhuma sombra dessa admiração pela propria imagem, a que Jules Lemaître deu o nome de _narcisismo moral_. A verdade é que, entre as molas do meu mechanismo, nenhuma teve a elasticidade e a força da que eu chamaria a mola esthetica. O meu juizo esthetico foi, em todas as epochas, ainda o é hoje, imperfeito, instinctivo, oscillante, como uma agulha que girasse por todo o mostrador: para seguir algumas das suas indicações, faltou-me a resolução, a força de caracter, a coragem e o espirito de sacrificio precisos; mas, em compensação, posso dizer que, através da vida, aspirei ao Absoluto, naufragando sempre, porque na vida da intelligencia, ao contrario da vida espiritual, onde, no dizer de um de seus grandes guias, não ha nada que se pareça com ancoradouro, ha um ancoradouro, mas esse é a religião, e a religião me pareceu, até bem pouco atraz, o remanso das mulheres e das creanças. Durante toda a minha carreira movi-me sempre por algum magnete moral; meus erros foram desvios de idealisação; eu nunca teria podido confessar uma idéa, uma crença, um principio, que não fosse para mim um iman esthetico. Sendo assim, si a minha esthetica fosse republicana, isto é, atheniense, romana, florentina, nunca a monarchia me teria feito despregar a sua bandeira no campo da imaginação, como um cavalleiro andante. Para sentir, sempre que a hasteei, a minha dignidade, a minha altivez, o meu espirito expandir-se, era preciso que o signo monarchico actuasse em mim, como uma parcella da arte que está misturada com a historia e que de algum modo a divinisa.
Esse processo de idealisação, pelo qual a fórma monarchica se incorporou á minha consciencia esthetica, se associou á minha idéa de arte, é o principal trabalho politico que se opera em mim desde o anno de 1873 até o anno de 1879, em que tomei assento na Camara. Nesse intervallo, eu tinha voltado á Europa e vivido um anno nos Estados-Unidos. Entram neste periodo as influencias da Inglaterra e da sociedade ingleza, da America do Norte e da carreira diplomatica, além do desenvolvimento da influencia litteraria, sob a qual voltei de Pariz em 1874.
Esta ultima foi tão forte que, nos dois annos que passei novamente no Rio de Janeiro, não me occupei de politica; fiz, a pedido do Imperador, algumas conferencias na Escola da Gloria sobre o que tinha visto de Miguel-Angelo, de Raphael e dos grandes pintores venezianos; fui collaborador litterario do _Globo_ e travei com José de Alencar uma polemica, em que receio ter tratado com a presumpção e a injustiça da mocidade o grande escriptor,--(digo _receio_, porque não tornei a lêr aquelles folhetins e não me recordo até onde foi a minha critica, si ella offendeu o que ha profundo, _nacional_, em Alencar: o seu brasileirismo); escrevi numa revista que appareceu e logo morreu no genero da _Vie Parisienne_, a _Epocha_, e, desde os fins de 1875, entreguei-me á composição de um drama, em verso francez, cuja factura me absorveu durante mais de dois annos.
A idéa do meu drama era o problema da Alsacia-Lorena. Isso revelava bem o fundo politico da minha imaginação. A politica, felizmente para a intelligencia que nasceu com essa diathese, tem lados ainda indefinidos que confinam com a arte, a religião e a philosophia, isto é, para fallar a linguagem hegeliana, com as tres espheras em que se manifesta o espirito do mundo. O meu drama com ser francez, de procedencia, de motivo sentimental, elevava-se, como composição litteraria, acima do espirito de nacionalidade, visava á unidade da justiça, do direito, do ideal entre as nações, e baseava-se no seu entrecho sobre as affinidades e sympathias que ligaram a França intellectual moderna á Allemanha de Klopstock, Wieland, Lessing, Schiller, Gœthe e Heine, de Herder, Winckelmann, Jean Paul Richter, Johannes Muller, de Novalis e dos Schlegel, de Kant, Fichte, Hegel, Schelling, de Bach, Gluck, Haydn, Mozart, Schubert, Schumann e Beethoven, em uma palavra, á _alma parens_ do seculo XIX.
Por uma apparente anomalia, ao passo que eu era politicamente, como disse, thierista ou republicano em França, o meu drama sahia todo legitimista e catholico; os personagens eram tirados para mim, não por mim (a producção intellectual é involuntaria), da _velha rocha_ em que se estratificaram as grandes tradições francezas. Isso quer dizer que o inconsciente, que é em qualquer de nós o nosso unico talento, o nosso unico poder creador, era em mim, qualquer que fosse a causa, fosse ella o instincto, fosse a cultura, distinctamente monarchico.