Part 9
Darei ainda alguns trechos do meu diario dos Estados-Unidos; não são tanto impressões americanas que pretendo reproduzir, já antes o disse, como o meu modo de sentir naquella epocha:
«20 de junho. Hoje foram enforcados 11 criminosos de uma associação da Pensylvania, os Molly Maguires. Onze pessôas enforcadas em um dia no Brasil! Quantos discursos isso não daria na Camara dos Deputados? Aqui só faz vender maior numero de _extras_ dos jornaes.»
«Junho, 8. Ha duas especies de movimento em politica: um, de que fazemos parte suppondo estar parados, como é movimento da terra que não sentimos; outro, o movimento que parte de nós mesmos. Na politica são poucos os que têm consciencia do primeiro, no emtanto esse é, talvez, o unico que não é uma pura agitação.»
«Julho, 8. A temperatura moral do futuro, a julgar pela americana, deve ser muito baixa. O sentimentalismo resfria aqui diariamente. A Inglaterra é um forno em comparação.»
«Junho, 26. A França parece-me a casa de Ulysses cheia de _pretendentes_ a consumirem entre si a fortuna de Telemaco, á espera que Penelope se decida por um delles. Cada um está certo de ser o preferido e, emquanto ella pede a Minerva que acabe com os seus insupportaveis perseguidores, elles continuam a devorar os bois e os carneiros, repetindo: «_Não ha duvida que ella se está preparando para o casamento._» Infelizmente não parece provavel que Ulysses volte para exterminal-os e tomar conta da casa.»
Essa nota é, quasi, puramente litteraria. Ulysses ahi era o conde de Chambord, e os pretendentes os partidos que arrastavam a França, depois da derrota nacional, talvez para a guerra civil. Eu pensava escrever um acto, intitulado _Os Pretendentes_, com a idéa do arco de Ulysses. Era, como o drama de que fallei, um caso da falta de coincidencia que se dava em mim, entre a imaginação litteraria e a sympathia politica.
Ha outras notas, com relação aos Pretendentes. Em 16 de julho:
«O conde de Chambord representa a theoria de que a politica é uma arte religiosa, e um reinado uma especie de monumento das crenças de uma epocha. A concepção de que governar é um acto religioso, como o confessar, e tem um fim religioso, destróe toda liberdade de pensamento. Um homem póde fazer da sua vida uma fórma de arte, mas não da vida de todo o mundo, que quer viver a seu modo. A politica, si é uma arte, não é arte ascetica, religiosa,--nem mesmo no seu periodo hieratico. A politica, arte religiosa, converte em crime de sacrilegio o menor acto de liberdade individual.»
Em 30 de julho: «Estive a pensar nos _Pretendentes_. O _appel au peuple_ é feito pelo candidato respectivo ás rans, e a prova real é tirada por outro, que appella tambem para ellas. A tudo ellas respondem: _couac_.»
«Julho, 5. A posição do Presidente Hayes é a mais singular que já se viu neste paiz. Elle chegou ao poder por fraudes eleitoraes sem exemplo, empurrado até a Casa Branca pelos _carpet-baggers_ do sul e _wire-pullers_ do Senado, depois de uma campanha de que os empregados publicos fizeram os gastos: deve, assim, a sua eleição, ou, melhor, o seu posto, a um sem numero de _politicians_ de todos os matizes, desde os fabricadores de actas falsas até os juizes da Côrte Suprema, que as apuraram. Chegando ao poder, porém, tem vergonha de tudo isso e torna-se elle o representante da pureza administrativa e eleitoral. Os ultimos _carpet-baggers_ do Sul, com a amputação da membrana que os ligava ao Presidente eleito com elles e por elles, desapparecem para sempre da scena politica. Os politiquistas são enxotados, os senadores _snubbed_; os empregados publicos, senhores da machina eleitoral e que se cotisavam para a eleição solidaria, intimados a mudar de vida e a não subscrever mais um _cent_. De tudo isso se conclue que Hayes, assim como não quer outra vez ser eleito, entende que ninguem mais deve ser eleito Presidente como elle foi. Poucos homens teriam feito tão bom uso de um poder tão mal adquirido. Isto resgata, quasi, a falta de coragem civica que o levou a acceital-o.»
«Julho, 19 e Agosto 9. Não se póde dizer deste paiz que tenha ideal. É o paiz pratico por excellencia, e que tem a admiravel qualidade, de bem ou mal, governar-se a si mesmo. Não lhe falta _manhood_, mas tudo nelle preenche um fim material. O americano é, acima de tudo, um homem positivo, em cuja vida a metaphysica tem pequena parte; reconhece a cada instante que a vida é um _business_, que é preciso um lastro para não afundar nella; põe a arte, a sciencia, a cultura, a _polity_, depois do que é essencial, isto é, do _dollar_, indo sempre _ahead_ como a locomotiva, tratando a mulher com o maior respeito, mas na vida pratica como uma _obstruction_, por isso entregando-a a ella mesma, ambicionando, acima de tudo, a riqueza de um grande _operator_ de Wall Street, depois a influencia de um _boss_, insensivel á inveja, á má vontade, ao commentario, a tudo o que em outros paizes emmaranha, complica e, ás vezes, inutilisa grandes carreiras; nunca procurando o prazer para si, dando-o aos hospedes em sua casa, como se dão brinquedos ás creanças, superior ás contrariedades, sobrio de dôr, calmo na morte dos seus, e tratando a propria apenas como uma questão de seguro... «_A vida privada_» aqui é apenas uma expressão conservada do inglez. Todo o homem é um homem publico, e elle todo.»
São impressões de simples transeunte. Eu hoje não escreveria dos Estados-Unidos que é uma nação _sem ideal_; diria que é uma nação cujo ideal se está formando. Assim como o Inglez trata de adquirir fortuna e independencia antes de entrar para a Camara dos Communs, dir-se-ia que a nação americana trata de crescer, de povoar o seu immenso territorio, de chegar ao seu completo desenvolvimento, _her full size_, para depois fazer fallar de si e pensar no nome que deve deixar. Até hoje os Estados-Unidos têm feito vida á parte e se têm occupado de si só; mas um paiz que caminha para ser, si já não é, o mais rico, o mais forte, o mais bem apparelhado do mundo, tem, pela força das coisas, que ligar a sua historia com a das outras nações, que se associar e luctar com ellas.
«Agosto, 18. Gladstone, por ter attendido ás reclamações da guerra civil, é ainda mais impopular no Sul do que na Inglaterra entre os conservadores. O tempo em que se assignou o tratado de Washington, era entretanto para o estrangeiro, de perfeita unificação americana. Ha entre o Norte e o Sul mais que uma desintelligencia politica, ha reserva tacita de uma má vontade hereditaria, um estado de guerra latente.
«O que torna os dois grandes partidos nacionaes colligações accidentaes e impossibilita a unidade de vistas em cada um delles, é a divergencia dos interesses dos Estados. O partido Democrata, por exemplo, tem que conciliar em uma formula negativa a politica dos Estados de Leste, dos pagamentos em ouro e do resgate do papel, com a politica dos Estados do Oéste, dos _green-backs_; e o partido Republicano tem que harmonisar a politica de intervenção de Grant com a politica de Hayes de completo _self-government_ para os Estados do Sul.»
«Julho, 25. As scenas destes ultimos dias (a parede das estradas de ferro) dão muito que pensar... Victor Hugo diz que o culpado de terem os communistas pegado fogo a Pariz é quem não lhes ensinou a lêr. Cada um dos incendiarios, porém, era provavelmente assignante do _Rappel_. Que povo calmo, o americano! A grande excitação de que se falla, não passa de uma conversa particular no _bar-room_ de um hotel. Nova-York está, talvez, a ponto de se tornar o theatro de um _riot_ amanhã, e as auctoridades concedem um parque aos communistas para o seu _meeting_. Tudo fraternisa: a tropa com os _strikers_, grevistas, os _citizens_ com a _mob_, e ninguem perde a calma. O pessimista francez não existe neste paiz de optimistas que dizem sempre: «_Não haverá nada_», e si ha: «Isto passa logo», e si dura: «Podia ser peior.» A barba do vizinho, de que falla o dictado, não se entende aqui de cidade a cidade, nem de bairro a bairro, mas quasi de casa a casa. Os proprios que perdem tudo não acham meio de queixar-se sinão de si mesmos.»
«1.º de setembro. Ha poucos homens em politica que prefiram cahir por seus principios a sophismal-os para ficar de pé. O ministro que sustenta a preeminencia da Camara dos Deputados, procurará, si a Camara lhe fôr contraria, provar que ella não representa o paiz e apoiar-se na Camara alta. Durante o Imperio, Gambetta não fallaria do suffragio universal com o enthusiasmo de hoje, e nenhum bonapartista se submetteria agora, como sob os Napoleões, a um _appello ao povo_. No fundo só ha duas politicas: a politica de governo e a politica de opposição.»
«Setembro, 8. Bradley, o juiz da Côrte Suprema, que de facto fez a Hayes Presidente, tendo sido atacado pelos jornaes democratas e accusado de ter mudado de opinião depois de ouvir os directores do caminho de ferro do Pacifico, entendeu dever justificar-se pela imprensa. Nessa justificação, admittindo a possibilidade de ter expressado a seus collegas durante o processo uma opinião diversa da que deu, elle conta que escrevia razões ora em um sentido, ora em outro, sobre o voto da Florida, tendo chegado ao voto que deu, depois de muita duvida. Esta carta a um jornal de Nova-York é curiosa em muitos pontos de vista. Um juiz que vacilla, que chega a conclusões differentes durante muitos dias, deveria considerar definitiva a opinião que occasionalmente predomina em seu espirito no momento de ser tomado o voto? Não será provavel, pelo menos possivel, que elle mude ainda de juizo, depois de emittido o seu voto, isto é, de irreparavel? Por outro lado, essas duvidas não provarão a sinceridade do processo logico de investigação, e poder-se-á exigir do juiz que tenha, desde o começo de uma causa, opinião formada? A vacillação quadra menos com a distribuição da justiça, a qual deve sempre proceder de uma convicção inabalavel e inabalada, do que a obstinação, que muitas vezes é falta de percepção e exclusivismo de juizo. Quanto á força que a reflexão posterior tem dado em seu espirito ao voto que emittiu, é esse um phenomeno de assentimento da consciencia, muito commum na magistratura. Commettido o erro, a intelligencia o toma como verdade, porque é o interesse do bom nome do juiz.»
«Setembro 4. Thiers morreu hontem. Por toda a parte a noticia vae produzindo a mesma impressão. Pobre França! é o que se exclama. A perda é irreparavel. O leme fica sem homem. A confiança que a Europa toda tinha no velho conselheiro da França não acha a quem se entregar... O ultimo em França dos grandes homens do passado não nomeou successor...»
«Setembro, 11. Muito se tem dito sobre as mudanças de Thiers. Quando se procura saber porque esse pequeno marselhez, nascido pobre, sem familia, exposto ao ridiculo e ao desdem dos seus competidores aristocratas, atravessou tantos governos diversos, sem nunca perder a sua importancia politica, até vir a ser, na extrema velhice, o «Libertador do Territorio», encontra-se a explicação dessas mudanças. Quando tantos homens de talento, caracter, fortuna e prestigio social representavam o seu papel em um regimem e desappareciam, Thiers era sempre contado como um poder politico. Foi seu destino fundar e destruir governos, mas não se póde accusal-o de se ter divorciado da França em nenhum desses momentos. Mudou sempre com o paiz. A sua grande mudança final de monarchista para republicano concidiu com o seu interesse pessoal como primeiro Presidente da Republica, mas coincidiu tambem com a conversão das classes médias, não ao principio republicano, mas á idéa de que só a Republica era possivel. Sempre a França, nos seus movimentos liberaes, o encontrou ao seu lado. Durante o Imperio, elle fez uma opposição patriotica, que teria, talvez, evitado Sedan e conservado a dynastia, si o não considerassem orleanista. Quando concorreu para collocar Luiz Felippe no throno, o pensamento era que uma monarchia republicana dispensava a republica. A fraqueza da monarchia de 1830 foi que o principio da hereditariedade a minou desde o começo. Luiz Felippe destruiu o direito divino para subir e, depois, quiz servir-se delle para durar, transformando-o em bom senso, principio de auctoridade, etc. O que faz a unidade da carreira de Thiers, é que elle foi sempre pelo governo parlementar, pelo direito popular representado nas assembléas legislativas. Por esse principio renunciou a presidencia da Republica em mãos suspeitas. O segredo da sua fortuna politica consistiu em guardar fidelidade á França.
«Muitas vezes um paiz percorre um longo caminho para voltar, cançado e ferido, ao ponto donde partiu. É possivel que a França volte ainda á monarchia legitima, e si Thiers tivesse vivido mais tempo e a Republica trouxesse novas desgraças para a França, como a Communa, talvez fosse o mesmo Thiers quem entregasse a França ao herdeiro dos seus reis. Mesmo assim, quando a França comparar os dois typos de estadistas: Berryer, que não mudou nunca, fosse por uma convicção monarchica sempre renovada, fosse por um cavalheirismo digno do seu caracter, e ficou sempre no mesmo logar á espera de que a França voltasse ahi, e Thiers, que a acompanhou nas suas vicissitudes, eu acredito que ella se reconhecerá a si mesma no homem que encontrou sempre como seu conselheiro, que por vezes mudou para ficar ao lado della e poder valer-lhe com a sua consummada experiencia nos dias em que viesse a precisar de uma palavra amiga.»
Ao relêr hoje esta pagina do meu diario de 1871, vejo que a minha explicação da unidade da carreira politica de Thiers se parece muito com a que, ha alguns annos, foi publicada de Talleyrand, justificando-se em suas _Memorias_ de só ter mudado com a França e por causa da França.
Esses trechos mostram que em Nova-York eu não me achava sob a influencia americana, mas que continuava em mim a influencia européa e eu era o espectador, que tinha sido em Londres, quasi desinteressado da politica, desinteressado pelo menos de toda a politica que não pudesse converter em assumpto litterario, ou em nota critica e observação. Agora direi a minha impressão geral dos Estados-Unidos, o que é hoje a minha idéa da _democracia na America_.
XVI
TRAÇOS AMERICANOS
Dos Estados-Unidos não vi sinão muito pouco, como da Inglaterra, por isso as impressões que reproduzo devem ser entendidas como impressões de Nova-York e Washington, quasi exclusivamente. Por uma circumstancia fortuita pude ficar em Nova-York quasi todo o tempo que passei na legação do Brasil. O meu ministro, o barão de Carvalho Borges, de quem conservo a mais grata recordação, estava de luto, por isso ausentára-se de Washington e vivia em Nova-York, incognito, ao contrario de outros collegas seus, contra cujo realce aos bailes e recepções da Quinta Avenida os jornaes de Washington em vão reclamavam. Além das duas grandes capitaes da União, a politica e a cosmopolita, conheci sómente Philadelphia, durante o centenario, Saratoga, durante uma Convenção Nacional, e Niagara e Boston, que me fizeram perder Newport. A idéa, porém, que tenho é que quem viu Nova-York e Washington viu tudo que ha que vêr nos Estados-Unidos, exceptuando sómente as poucas cidades a que se pódem chamar cidades historicas, que têm o cunho das suas tradições proprias. Quem viu Buffalo, St. Louis, S. Francisco, Chicago, não viu porém Nova York, como quem viu Saratoga não viu Newport, ao passo que Boston, Nova-Orleans, não têm semelhantes.
Para o engenheiro, para o inventor, para o architecto, para todo economisador de tempo e trabalho, para quem admira acima de todos o genio industrial deste seculo, os melhoramentos que elle tem introduzido na ferramenta humana, os Estados-Unidos são de uma extremidade a outra um paiz para se visitar e conhecer. É elle, talvez, o paiz onde melhor se póde estudar a civilisação material, onde o poder dynamico ao serviço do homem parece maior e ao alcance de cada um. Em certo sentido, póde-se dizer delle que é uma torre de Babel bem succedida. Na ordem intellectual e moral, porém, comprehendendo a arte, os Estados-Unidos não têm o que mostrar, e certa ordem de cultura, toda cultura superior quasi, não precisa para ser perfeita e completa de adquirir nenhum contingente americano.
Da politica, a impressão geral que tive e conservo é a de uma lucta sem o desinteresse, a elevação de patriotismo, a delicadeza de maneiras e a honestidade de processos que tornam na Inglaterra, por exemplo, a carreira politica acceitavel e mesmo sympathica aos espiritos mais distinctos. O que caracterisa essa lucta é a crueza da publicidade a que todos que entram nella estão expostos. Como antes eu disse, não ha vida particular nos Estados-Unidos. Para a reportagem não existe linha divisoria entre a vida publica e a privada. O adversario está sujeito a uma investigação sem limites e sem escrupulos, e não elle, sómente,--todos que lhe dizem respeito. Si um candidato á Presidencia tiver tido na mocidade a menor aventura, terá o desgosto de vêl-a photographada, apregoada nas ruas, colorida em cartazes, cantada nos _music-halls_, por todos os modos e invenções que o ridiculo suggerir e parecerem mais proprios para captar o eleitorado. A campanha contra Tilden foi feita com uma revelação de que elle tinha uma vez illudido o fisco, a respeito do seu rendimento profissional. O politico é entregue sem piedade aos _reporters_; a obrigação destes é rasgar-lhes, seja como fôr, a reputação, reduzil-a a um andrajo, rolar com elle na lama. Para isso não ha artificio que não pareça legitimo á imprensa partidaria; não ha espionagem, corrupção, furto de documentos, intercepção de correspondencia ou de confidencia, que não fosse justificada pelo successo.
O effeito de tal systema póde ser moralisar a vida privada, pelo menos a dos que pretendem entrar para a politica, si ha moralidade no terror causado por um desses formidaveis _exposures_ eleitoraes, os Francezes diriam _chantage_. A vida politica, porém, elle não tem moralisado. A consciencia publica americana é muito inferior á privada, a moral do Estado á moral de familia.
De certo, nos Estados-Unidos, os chamados _rings_, nós diriamos quadrilhas, os roubos publicos, os syndicatos administrativos, são denunciados e investigados como não o seriam talvez em nenhum paiz, o americano não tendo pena dos adversarios, julgando-se obrigado para com o seu partido a reduzil-os á condição mais humilhante, a expellil-os um por um, sendo possivel, da vida publica. Mas, desde que a corrupção reina nos dois partidos, que ambos têm as suas chagas conhecidas, as suas ligações compromettedoras, todas as campanhas a favor da pureza administrativa têm muito de insincero, de simulado, de convencional, o que não acontece com as investigações da vida privada. Estas, sim, encontram em toda a parte a unidade do sentimento e da educação religiosa do paiz para echoal-as. A consciencia em voga entre os _politicians_ tem a sua casuistica especial.
Isto não quer dizer que na politica americana não haja um typo muito differente do do _politician_, ou, como os antigos lhe chamariam, do demagogo; que, ao lado da consciencia elastica, insensibilisada para todas as especies de fraude, de corrupção, de chicana, como males inevitaveis da democracia, não exista a honra, o decoro, a immaculabilidade. Ha homens na politica respeitados em todo o paiz, e que ambos os partidos reputam incapazes da menor indelicadeza no que toca á honestidade pessoal. Não ha um só, na actividade e na lucta partidaria porém, a quem se attribúa o caracter preciso para repudiar e condemnar os seus correligionarios ainda nos peiores recursos que tiverem empregado. O homem da mais pura reputação no Senado americano votará _solido_, sempre que se tratar do interesse geral do partido.
Não havia nada que me désse na America do Norte idéa da superioridade de suas instituições sobre as inglezas. A atmosphera moral em roda da politica era seguramente muito mais viciada; a classe de homens a quem a politica attrahia, inferior, isto é, não era a melhor classe da sociedade, como na Inglaterra; pelo contrario, o que a sociedade tem de mais escrupuloso afasta-se naturalmente da politica. A lucta não se trava no terreno das idéas, mas no das reputações pessoaes; discutem-se os individuos; combate-se, póde-se dizer, com raios Rœntgen; escancaram-se as portas dos candidatos; expõe-se-lhes a casa toda como em um dia de leilão. Com semelhante regimen, sujeitos ás execuções summarias da calumnia e aos lynchamentos no alto das columnas dos jornaes, é natural que evitem a politica todos os que se sentem improprios para o pugilato na praça publica, ou para figurar em um _big show_.
A grandeza do espectaculo que dão os Estados-Unidos é tanto maior, eu sei bem, quanto mais baixo o nivel do politico de profissão. A degradação dos costumes publicos do paiz, coincidindo com o seu desenvolvimento e cultura, com a sua accumulação de riqueza e de energia, com os seus recursos illimitados, não quer dizer outra coisa sinão que a nação americana não se importa que administrem mal os seus negocios, porque não tem tempo para tomar contas. É como uma fazenda de immensa safra, em que o proprietario ausente fechasse os olhos ás dilapidações do administrador, levando-as á conta de lucros e perdas, inevitavel em todo genero de negocios. Os Americanos deixam-se tratar pelos seus _politicians_ do mesmo modo que os reis de França pelos seus _fermiers-géneraux_. Sejam causados pela ignorancia e incapacidade, ou pela corrupção e venalidade, prejuizos ha de sempre haver em toda administração; para impedil-os seria preciso montar um systema de fiscalisação ruinoso para o paiz, não só pelo seu custo, como porque seria preciso distrahir para elle dos negocios e de outras profissões o que o paiz tivesse de melhor.
Que póde acontecer de peior entregando-se o paiz á direcção de partidos organizados como associações de seguro mutuo e que para isso recolhem uma porcentagem do rendimento nacional? Uma aggravação de impostos? Que importa ao Americano pagar mais alguns _cents_ no dollar e não se incommodar com a politica? Envolverem os _politicians_ a nação em uma guerra estrangeira? O perigo é muito problematico e a varonilidade do paiz não teme que o envolvam em uma guerra sem elle a querer e a achar legitima ou vantajosa. O Americano sabe que ha no seu paiz uma opinião publica, desde que cada Americano tem uma opinião sua. É uma força latente, esquecida, em repouso, que não se levanta sem causa sufficiente, e esta raro se produz; mas é uma força de uma energia incalculavel, que atiraria pelos ares tudo o que lhe resistisse, partidos, legislaturas, Congresso, Presidente.
É nesse sentido um grande espectaculo. O governo tem uma capacidade limitada de fazer mal; a parte de influencia e de lucros que a nação abandona á classe politica, está circumscripta a uma escala movel, isto é, proporcional ao rendimento publico, o que permitte á profissão vantagens crescentes e progressivas, mas, como quer que seja, está circumscripta; a nação deixa-se dividir em partidos, fórma e manobra em campos eleitoraes, e, apezar da massa das abstenções, acompanha os maus administradores dos seus interesses; mas todos sentem que de repente a opinião póde mudar, tornar-se unanime, adquirir a força de um impulso irresistivel, destruir tudo. Nos Estados-Unidos o governo não tem assim a importancia que tem nos paizes onde elle governa; o governo na America é uma pura gestão de negocios, que se faz, mal ou bem, honesta ou deshonestamente, com a tolerancia e o conhecimento do grande capitalista que a delega. A corrupção politica é, por isso, na America do Norte, já uma vez citei esta imagem de Boutmy, uma simples erupção na pelle, emquanto em outros paizes ella é um mal profundo, visceral.