Chapter 16 of 18 · 3720 words · ~19 min read

Part 16

«Referi-me á brilhante acção do Sr. Prado e ao effeito moral do nobre pronunciamento do Sr. Moreira de Barros como factos do maior alcance. Expuz como não havia na historia do mundo exemplo de humanidade de uma grande classe egual á desistencia feita pelos senhores brasileiros dos seus titulos de propriedade escrava. Disse que essa era a prova real de que a escravidão no Brasil tinha sido sempre uma instituição _estrangeira_, alheia ao espirito nacional, o que é ainda confirmado, (isto não disse ao Papa), pelo facto de que os estrangeiros no Brasil foram, e são ainda hoje, de toda a communhão, os que menos sympathia mostraram ao movimento libertador. Quanto á Familia Imperial, repeti ao Summo Pontifice que o que ha feito em nossa lei a favor dos escravos, é devido á iniciativa e imposição do Imperador, ainda que seja pouco. «--Uma dynastia, accrescentei, tem interesses materiaes que dependem do apoio de todas as classes e não póde affrontar a má vontade de nenhuma, muito menos da mais poderosa de todas. O Papado, porém, não depende de nenhuma classe, por isso colloca-se no ponto de vista da moral absoluta, que nenhuma dynastia póde tomar sem destruir-se». Fallando do actual Presidente do Conselho, disse a Sua Santidade que elle era um homem a quem a Egreja no Brasil devia muito por ter sido elle o principal auctor da amnistia, que poz termo ao conflicto de 1873, mas que, nessa questão, não tinhamos motivo para suppôr que elle quizesse ir além da lei actual, o que era positivamente contrario ao desejo unanime da nação.--«Eu, porém, accrescentei, não peço a Vossa Santidade um acto politico, ainda que as consequencias politicas que a nação ha de sem duvida tirar do acto que imploro, sejam incontestaveis. Felizmente, Vossa Santidade está em uma posição donde não vê os partidos, mas só os principios. O que nós queremos é um mandamento moral, é a lição da Egreja sobre a liberdade do homem. Não ha governo no mundo que possa ter a pretenção de que o Papa, ao estabelecer um principio de moral universal, pare para considerar si esse principio está de accordo ou em conflicto com os interesses politicos d’esse governo. Agora mesmo um sacerdote brasileiro foi preso por acoitar escravos. Nós, abolicionistas, por toda parte acoitamos escravos. Fazemos o que faziam os bispos da média edade com os servos. O sentimento da nação, isto posso affirmar a Vossa Santidade, é _unanime_, e a palavra do chefe da Egreja não encontraria ninguem para disputal-a.»

«O Papa então repetiu-me que a sua encyclica abundaria nos sentimentos do Evangelho, que a causa era tão sua como nossa, e que o governo mesmo veria que era de boa politica reconhecer a liberdade a que todo o filho de Deus tem direito pelo seu proprio nascimento, e que o Papa fallaria ao mesmo tempo que da liberdade, da necessidade de educar religiosamente essa massa de infelizes, privados até hoje de instrucção moral.

«O cardeal Czacki me tinha fallado egualmente no dever de dar educação moral aos libertos, e n’esse sentido parece que na America do Norte e nas Antilhas o catholicismo vae tentar um grande esforço. Sympathisando com o principio da nossa propaganda abolicionista e pondo em relevo a responsabilidade que nós, abolicionistas, haviamos contrahido, o cardeal Czacki poz o dedo no que é a ferida da raça negra, ainda mais degradada talvez do que opprimida, e, do ponto de vista catholico, me disse que não havia outro meio para fazer d’esses escravos de hontem homens moralisados, sinão espalhar largamente entre elles a educação religiosa que não tiveram nunca. Como respondi ao cardeal, assim respondi ao Papa. «--Antes de começar o movimento abolicionista em 1879, disse eu ao Summo Pontifice, o partido liberal a que pertenço, em consequencia da lucta com os bispos em 1873, lucta sobre a qual os conservadores haviam pronunciado a amnistia, achava-se principalmente voltado para medidas de secularisação dos actos da vida civil, quasi todos ainda confiados entre nós á Egreja. Com essas medidas desenvolveu-se mesmo um estado de guerra entre o liberalismo e a Egreja. Desde que começou o movimento abolicionista, entretanto, morreram todas as outras questões, e litteralmente ha nove annos não se tem tratado de outra coisa no paiz. Estabeleceu-se então uma verdadeira _tregua de Deus_ entre homens de todos os modos de sentir e pensar a respeito das outras questões. O primeiro que na Camara elevou a voz para pedir a abolição immediata, o deputado Jeronymo Sodré, é um catholico proeminente. O co-proprietario do jornal abolicionista de Pernambuco, que sustenta a minha politica, é o presidente de uma sociedade catholica, o Sr. Gomes de Mattos. Os bispos e os abolicionistas trabalham agora de commum accordo. Essa tregua tem durado até hoje sem perturbação, e espero que dure por muito tempo ainda. Abolida a escravidão, resta proteger o escravo livre. Nesse campo nada em nossas leis impede que a Egreja entre em concurrencia para obter a clientela da raça que tiver ajudado a resgastar. Não seremos nós, abolicionistas, que havemos de impedir a approximação entre os novos cidadãos e a unica religião capaz de os conquistar para a civilisação. As vistas do paiz voltar-se-ão para as outras questões do melhoramento da condição do povo, da creação da vida local, em que póde e deve continuar a tregua, ou melhor, a alliança. Si a Egreja conseguir recommendar-se ao reconhecimento da raça escrava, concorrendo para o seu resgate, os abolicionistas por certo não lhes hão de aconselhar a ingratidão.»

«O Papa ouviu-me todo o tempo com a maior sympathia e justificou-me de ter pedido mais do que o cardeal Manning julgára razoavel que eu pedisse. Sua Eminencia, cora effeito, aconselhou-me a pedir ao Papa a repromulgação das Bullas de alguns dos seus antecessores e eu pedi um acto _pessoal_ de Leão XIII.--«As circumstancias mudam, disse-me o Papa, os tempos não são os mesmos; quando essas Bullas foram publicadas, a escravidão era forte no mundo, hoje ella está felizmente acabada.»

«--O acto de Vossa Santidade, disse-lhe eu, terminando, será uma pagina da historia da civilisação christã que illustrará o seu pontificado... Sua encyclica levantar-se-á tão alto aos olhos do mundo, dominando o movimento da abolição como a cupula de S. Pedro sobre a Campanha Romana.»

«Ahi está mais ou menos reproduzida a longa audiencia particular que Leão XIII me fez a excelsa honra de conceder-me, e que Sua Santidade terminou com uma benção especial para a causa dos escravos. Eu antes havia enviado ao sub-secretario de Estado, monsenhor Mocenni, a recente pastoral do bispo do Rio, sentindo não ter podido encontrar os numeros do _Paiz_ em que appareceram as dos outros prelados. Assim mesmo tive a fortuna de achar em retalho as pastoraes dos bispos de Marianna, do Rio Grande do Sul e do arcebispo da Bahia, que todas foram enviadas ao cardeal Rampolla. A admiravel carta do bispo de Diamantina, á qual especialmente me referi, quando fallei ao Papa, não a pude encontrar. Com a encyclica promettida e já annunciada por toda a Europa, essas pastoraes formariam um bello livro de fraternidade humana.

«A demora que tive em Roma impede-me de voltar pelos Estados-Unidos, porque não teria mais tempo de preencher qualquer dos fins com que ia á grande Republica. Mas estou satisfeito, contente. A palavra do Papa terá para todos os catholicos maior influencia do que poderia ter qualquer outra manifestação em favor dos escravos. Nenhuma consciencia recusará ao chefe da religião o direito de pronunciar-se sobre um facto como a escravidão, que estabelece um vinculo entre o senhor e o escravo, equivalente a entrelaçar-lhes para sempre as almas e as responsabilidades. Na maneira de se exprimir de Leão XIII não vi a minima vacillação, a mais leve preoccupação de torcer o ensinamento moral para adaptal-o ás circumstancias politicas. Vi tão sómente a consciencia moral brilhando, como um pharol, com uma luz indifferente aos naufragios dos que não se guiarem por ella.

«_Roma, 10 de Fevereiro de 1888._»

* * * * *

Como o cardeal Czaki tinha tido razão de dizer que eu ia levar ao Papa um verdadeiro _bon-bon!_... Infelizmente, a diplomacia envolveu-se na questão, o ministerio conservador alarmou-se com a intenção manifestada pelo Papa, e conseguiu demorar a _Encyclica_... A curta demora foi bastante para ella só apparecer depois de abolida a escravidão no Brasil... Entre a queda de Cotegipe e a abolição o espaço foi tão pequeno que a bella obra de Leão XIII só veiu a ser publicada quando não havia mais escravos no Brasil. A benção, porém, do Santo Padre á nossa causa, a palavra que elle ia proferir, essas desde os fins de Fevereiro, ainda sob o gabinete Cotegipe, o paiz as conheceu pelas minhas revelações... A surpreza da emancipação total foi tão agradavel a Leão XIII que, como _post-scriptum_ á sua carta lapidaria sobre a escravidão, elle mandou á Princeza Imperial a Rosa de Ouro.

Meu papel foi, como se viu, muito humilde. Simples portador para o cardeal Rampolla e monsenhor Mocenni das cartas de apresentação do cardeal Manning, eu não fiz, apresentando a Leão XIII as pastoraes dos nossos bispos sobre o seu jubileu, sinão offerecer-lhe um assumpto a todos os respeitos digno d’elle... A imaginação do Papa abrangeu logo toda a grandeza do serviço que elle podia prestar á humanidade, o thema incomparavel proporcionado ás suas lettras... Si de alguma coisa me posso lisonjear é de ter ligado como uma aspiração commum á causa dos escravos no Brasil a causa da Africa... Poucos mezes depois do pronunciamento que suppliquei ao Santo Padre, chegará a Roma o cardeal Lavigerie e o Papa o investirá na cruzada africana que foi a nobre coroação da sua vida... Em uma carta da _Anti-Slavery Society_ Mr. Charles Allen fez-me a honra de dizer que fui eu que preparei junto ao Papa o caminho para Mgr. Lavigerie... Nos discursos do grande apostolo d’Africa, no que elle disse tantas vezes ex _abundantia cordis_, o que se vê é que, quando elle chegou a Roma, Leão XIII estava possuido, dominado, inflammado do fervor anti-esclavagista... A parte que me coube em tudo isso foi apenas a de ser quem,--na occasião do seu jubileu sacerdotal e da canonisação de São Pedro Claver, occasião tão favoravel para o desabrochar d’essa e de outras generosas iniciativas e aspirações de reinado,--teve a fortuna de attrahir o grande espirito de Leão XIII, disputado por tantas solicitações, para o problema que mais o podia fascinar.

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Foi bem forte a impressão que eu trouxe de Roma... Nos fins de Abril, não se sabendo ainda até onde iria a reforma annunciada pelo novo gabinete João Alfredo, assisto á festa da libertação em massa de uma fazenda do Parahyba e a lembrança que me occorre é a das maravilhas do Vaticano... Que emoções essas da abolição! Como tudo se fundia em uma mesma nota, mysteriosa e intima, como si tivessemos em nós nesses momentos o coração dos escravos em vez do nosso proprio! É este o trecho em que descrevi aquella emoção da Bella Alliança...

«Ha tres mezes tive a fortuna de assistir á missa do Papa na Capella Sixtina. Nesse tempo eu não esperava que a hora da abolição estivesse tão prestes a soar, e tinha ido pedir a Leão XIII, na desconfiança de que a Regencia era um vice-reinado e o vice-reinado da escravidão, uma palavra que movesse o sentimento religioso da Princeza... Como eu estava enganado e quem não estava a começar pelo proprio Presidente do Conselho! Durante aquella missa, em que tudo para mim era novo, e quando o vulto do Papa entre os cardeaes prendia todas as attenções, por entre a musica da Sixtina, ouvindo a qual sente-se que a voz humana é o unico de todos os instrumentos que sóbe além da terra, eu pelo menos não podia tirar os olhos d’esse tecto, que é a maior pagina do bello escripta pelo homem... Que opportunidade unica a de tal cerimonia e de tal acompanhamento para relêr a biblia de Miguel-Angelo e decorar o seu poema da creação!... Pois bem, a missa da Bella Alliança renovou-me a emoção infinita da Sixtina... Havia n’ella outros tantos elementos de grandeza combinados... Não havia o Summo Pontifice, nem o côro angelico, nem os frescos de Miguel-Angelo... Estava alli, porém, o representante do Papa abençoando em nome d’elle a reconciliação das duas raças; havia lagrimas em todos os olhos, a anciedade, egualmente apprehensiva para todos, os que iam dar e os que iam receber a liberdade, e para nós a mais suave de todas as sensações possiveis: a de vêr recuar as trevas da escravidão do rosto de uma raça, esse grande _fiat lux_, vêr o barro hontem informe, o escravo, accordar homem, como o Adão de Miguel-Angelo, na claridade matinal da creação... O pensamento voltava quasi quatro seculos atraz, á primeira missa dita no Brazil, quando elle tomou o nome de Terra de Santa-Cruz... Quatro seculos para a cruz recuperar o seu verdadeiro sentido de symbolo da redempção e para a missa significar o sacrificio de Deus pelo homem!... Vendo deante d’elles aquella a quem iam dever a liberdade, e olhando para a Senhora da Piedade no nicho do altar, os escravos na confusão dos seus dois grandes reconhecimentos deviam ter sentido os rubis, como lagrimas de sangue, do resplendor da mãe de Deus, baixar um momento sobre a cabeça da sua redemptora ajoelhada[4]...»

[4] A senhora a quem me referia era uma compatriota nossa, que casára em Pariz com um joven e elegante russo. Ha della um admiravel retrato em tamanho natural, obra de Richter. A suavidade e doçura de Madame Haritoff, a tão popular Dona Nicota, emprestavam-lhe uma belleza toda de expressão, que com seus longos cabellos pretos, seus grandes olhos luminosos, sua tez de um moreno mate, e a graça de seu corpo, tinha para os estrangeiros um caracter especial, distinctamente brasileiro.

Ah! os tempos em que se escrevia assim! em que o coração, e só o coração, era que fazia o dictado, e tão rapido que a penna não o podia acompanhar. Para mim teria sido uma diminuição sensivel da emoção humana que a campanha abolicionista me causou, si eu não tivesse essa pagina da minha ida a Roma para relêr, esse encontro comnosco da sympathia e do fervor de Leão XIII. Porque tão tarde tive eu a idéa d’esse appello, que devêra talvez ter sido o primeiro? Quero crer que na abolição, tão subita foi ella, tudo veiu a tempo... A lembrança d’essa visita a Roma seguida tão de perto do fim da escravidão e da queda da monarchia, que era o termo forçado da minha carreira politica, não podia deixar de crescer no vazio da minha tarefa acabada e da impossibilidade de assumir outra equivalente... Uma nova vida vae datar d’aquellas impressões religiosas assim assimiladas no ardor de um combate que devia encerrar e resumir a minha vida militante... Uma nova camada de minha formação desenha-se insensivelmente desde esse meu momentaneo contacto com Leão XIII,--ou por outra a camada primitiva começa a descobrir-se depois de perdido por tão longos annos o veio de ouro da infancia... Qualquer que seja a verdade theologica, acredito que Deus nos levará de algum modo em conta a utilidade pratica de nossa existencia, e emquanto o captiveiro existisse, estou convencido de que não eu poderia dar melhor emprego á minha do que combatendo-o. Essa vida exterior, eu sei bem, não póde substituir a vida interior, mesmo quando o espirito de caridade, o amor humano, nos animasse sempre em nosso trabalho. A satisfação de realisar, por mais humilde que seja a esphera de cada um, uma parcella de bem para outrem, de ajudar a illuminar com um raio, quando não fosse sinão de esperança, vidas escuras e subterraneas como eram as dos escravos, é uma alegria intensa que apaga por si só a lembrança das privações pessoaes e preserva da inveja e da decepção. Essa alegria todos que tomaram parte no movimento abolicionista devem tel-a sentido por egual. Emquanto a lucta contra a escravidão durasse, penso que a religião não sahiria para mim do estado latente de acção humanitaria... Muitas vezes mesmo, a religião não consegue desprender-se da tarefa ordinaria da vida, e é sómente quando essa tarefa acaba ou se interrompe que as perquisições interiores começam, que se quer penetrar o mysterio, que se sente a necessidade de uma crença que explique a vida. Até lá basta o proprio papel que desempenhamos; o critico não apparece sob o actor; a duvida não distráe da acção exterior continua. Emquanto se é um simples instrumento, por pequeno que seja o circulo traçado em torno de nós, a imaginação se encerra nelle, e a vida interior não se insinua siquer á consciencia... A acção é uma distracção. E só acabada ella que em certa ordem de espiritos as affinidades superiores se pronunciam... Quero crer, para os que succumbem nessa phase, que o beneficio que elles possam fazer elimine parte da impureza que carregam em sua inconsciencia moral, ou religiosa,--o que é o mesmo, e aida peior... Não posso hoje pensar na minha ida a Roma em 1888 sem sentir que então germens esquecidos nos primeiros sulcos da meninice reviveram, para germinar mais tarde ao calor de outras influencias... Não fui em vão a Roma, do ponto de vista do meu sentimento religioso...

XXV

O BARÃO DE TAUTPHŒUS

Nenhuma influencia singular actuou sobre mim mais do que a de meu mestre, o velho barão de Tautphœus. Com sua imaginação toda tomada pela historia, elle costumava nos annos de meu ardente liberalismo chamar-me Alcibiades. Certamente elle realisava para mim o typo de Socrates. Si não trazia a mascara de Sileno emprestada ao grande atheniense, mesmo physicamente, sobretudo para a velhice, elle tinha muitos dos traços socraticos: a coragem fria, a calma imperturbavel, a resistencia á fadiga, o gosto da palestra, da conversação intellectual, da companhia dos moços, a completa abstracção de si, a modestia, a alegria de viver como espectador do Universo, cedendo sempre todavia aos outros o melhor logar, o forte espiritualismo, a indifferença pelo ridiculo, o respeito da ordem social, quem quer que a encarnasse. Sua mocidade é um tanto legendaria ainda, e nada seria mais interessante do que apurar os factos a respeito d’ella. O que ouvi por vezes a meu irmão Sizenando,--esse tinha por Tautphœus uma admiração enthusiastica e conviveu com elle muito mais intimamente do que eu, a quem em compensação elle deu o melhor de seus ultimos dias, suas derradeiras tardes,--foi que, joven, Tautphœus, antes forçado a expatriar-se da Baviera por motivo revolucionario, acompanhára o rei Othon á Grecia, depois viera viver em Pariz, nas vizinhanças do anno 30, e frequentava a pleiade liberal do _Journal des Débats_ até que emigrou para o Brazil.

Muito myope, usava de um vidro quadrado, que pelo habito continuo da leitura como que se collocava automaticamente; e ainda menos do que o monoculo, deixava elle o charuto... Sempre com um grosso volume allemão debaixo do braço, caminhava horas inteiras no mesmo andar, alheio ao mundo exterior... Era um homem que sabia tudo. Sua conversação era inexgottavel, e raro elle mesmo a dirigia. O assumpto lhe era indifferente, e até o fim, annos seguidos, dia após dia, nunca elle se encontrou sinão com interlocutores curiosos de ouvil-o sobre os pontos que mais lhes interessavam. Era litteralmente como um diccionario que a cada instante alguem manuseasse, ou uma encyclopedia que um abrisse no artigo Babylonia, logo outros nos artigos Invasão dos Barbaros, Adam Smith, Luthero, Hieroglyphos, Logarithmos, Amazonas, Architectura Gothica, Liberdade de Testar, Raizes Gregas, Papel-Moeda, Culturas Tropicaes, Alberto Dürer, _Divina Comedia_, ao acaso. Era sómente ferir a tecla, pôr a pergunta no apparelho, e esperar o desenrolar da resposta, como a que daria o Lexicon de Meyer, ou a Historia Universal de Cesar Cantu. Elle fallava de um modo uniforme, sem emphase, sem colorido, sem expressão mesmo, mas era um jorrar sem fim de sciencia, de erudição, como si n’aquelle mesmo dia tivesse estado a estudar o assumpto. Nada mais differente da ostentação frivola de sciencia com que tanta gente se apraz em deslumbrar o ouvinte que lhe offerece inadvertidamente um assumpto ao seu alcance, do que essas dissertações scientificas, _up to date_, a que Tautphœus se entregava perante os seus discipulos, que todos o ficavam sendo, para sempre, jornalistas, professores, ministros de Estado que fossem...

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A abundancia de idéas geraes, de pontos de vista suggestivos, de materia para reflexão em sua conversa, era notavel. Póde-se dizer que esse homem que não escreveu nunca, pelo menos no Brasil, publicou maior numero de ensaios, de theses historicas e outras, do que todos os nossos escriptores juntos: unicamente suas continuas edições tiradas a pequeno numero de exemplares dissipavam-se como a palavra, quando não eram convertidas em trabalho alheio. Que lhe importava isto? Elle era destituido de ambição. Esse respeitador por systema da ordem hierarchica e da pragmatica social, que nunca levou a mal que os poderes de um dia se considerassem seus superiores, que os afidalgados da vespera olhassem com desdem para o seu titulo hereditario, vendo-o mestre de meninos, era um sabio da Grecia, praticando com o espirito e a inteireza pagã a philosophia do Ecclesiaste: _Vanitas vanitatum_... Desde muito cedo elle adquiriu a esse respeito a perfeita immunidade. Tendo que ganhar a vida em paiz estrangeiro por meio de lições, enterrou tudo que pudesse restar-lhe dos velhos preconceitos aristocraticos de seu paiz, das aspirações á elegancia, á vida de prazer, ostentação, e successos mundanos da sua mocidade em Pariz, entrou no papel que lhe fôra distribuido com a mesma simplicidade como si o recebesse por herança... em uma palavra, sem resentimento, sem queixa, sem murmurio. Bebeu a agua da Carioca com o mesmo espirito de conformação com que teria bebido a agua do Lethes... Esqueceu-se de si mesmo para entrar em seu novo destino... Mas tambem desde logo como elle penetrou os mais intimos refolhos e singularidades do paiz que devia ser sua segunda patria, e que elle amou como tal! Sua posição era involuntariamente considerada subalterna ainda pelos mais capazes de comprehender,--o que não é o mesmo que sentir,--a profissão do creador intellectual como essencialmente nobre. Elle, porém, movia-se indifferente no meio da arlequinada social, sabendo bem que no mundo, ninguem o disse melhor do que Calderon, _todos sonham o que são_.