IV.
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Era o vulto de um homem morto que afastando o sudario se hia erguer do tumulo para revelar alguns dos temerosos mysterios, que encerra a apparente quietação dos sepulchros. O PRESBYTERO.
O negrume da noite avulta; e cresce Mais feia a escuridão Á luz da sacra pyra que derrama Frouxo e tibio clarão.
Calou-se o canto, a prece,--é mudo o templo; Apenas fraco sôa Da torre o bronze, que a nocturna brisa De rumores povôa.
Mas eis que de um sepulchro a pedra fria S’ergue e sobre outras cáe. Não se escuta rumor!--da campa livre Medroso espectro sáe.
O rosto ossificado em torno volve, Volve a suja caveira; Do liso craneo os longos dedos varrem A funebre poeira.
Mas inda inteiro o coração se via Do peito nas cavernas, Inda sangrento lagrimas chorava De negro sangue eternas.
E caminhando, qual se move a sombra, Ao orgão e assentou! Já não dormem os sons, não dormem echos... --O triste assim cantou:
«Onde estás, meo amor, meos encantos Por quem só me pezava morrer, Doce encanto que a vida me prendes, Que inda em morto me fazes soffrer?
«Doce amor, minha vida no mundo, Desse mundo em que parte serás; Em que scismas, que pensas, que fazes, Onde estás, meo amor, onde estás?
«Ah! debalde na campa gelada Fria morte me poude deitar! Foi debalde,--que eu sinto, que eu ardo; Foi debalde, que eu amo a penar.
«Ah! si eu triste no mundo podesse Como outr’ora viver, respirar.... Não soubera dizer-te os ardores Que o sepulchro não poude apagar.
«Onde estás?--Já da morte o bafejo Por teo rosto divino roçou; Já na campa descanças finada, Que o teo corpo sem vida tragou?
«Mas a morte não poude impiedosa Crua foice vibrar contra ti! Ah! tu vives, que eu sinto, que eu soffro Crús ardores quaes sempre soffri.
«E eu não posso o teo nome á noitinha Entre as folhas saudoso cantar, Nem seguir-te nas azas da brisa, Nem teo somno de sonhos doirar.
«Nem lembrar-te os queridos instantes Que a teo lado arroubado passei, Sem cuidados de incerto futuro, Só cuidoso da vida que amei.
«Não te lembras da noite homicida Em que um ferro meo peito varou, Quando a facil conversa de amores Teo marido cioso quebrou?!
«Desde então hei penado sósinho, Verte sangue meo peito--de então; Poude a morte acabar-me a existencia, Mas delir-me não poude a paixão!
«Nosso adultero affecto no mundo Não se acaba;--assim quiz o Senhor! Não se acaba...--qu’importa?--hei gozado Teos encantos gentis, teo amor.
«Por te amar outras fragoas soffrera, Outros transes e dôr e penar; Oh! poder que eu podesse outra vida E outro inferno soffrer por te amar!»
Mas da aurora ja raiava Macio e brando clarão; Macia e branda a canção Do negro espectro soava.
E medroso se collava Ao orgão seo negro véo, Que imiga não se ajuntava Ao seo vulto a luz do céo.
Pouco a pouco se perdia O negro espectro; a canção Pouco a pouco enfraquecia: Do dia ao tenue clarão,
Era o cantar um soído Fraco, incerto e duvidoso; Era o vulto pavoroso D’uma sombra vão tremido.
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