Chapter 124 of 141 · 1398 words · ~7 min read

IV.

SENHOR, se na afflicção que te consome, Na dôr immensa, que teu peito acanha, Póde erguer-se do bardo a voz sentida E aos teus soluços misturar seu pranto; Se a dôr do pae não absorve inteiro O peito augusto do Monarcha excelso, Enxuga as tristes lagrimas que vertes! Melhor, talvez, que o throno é ver chorando Um povo inteiro em torno de um sepulchro, Um vacuo berço de seu pranto enchendo! Á sorte pois te curva, e á lei d’aquelle (Involta em seus reconditos designios) A quem aprouve nivelar, cortando Co’o mesmo golpe as esperanças de ambos, --A dôr de um pae e as afflicções de um povo!--

JANEIRO 10 de 1850.

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OLHOS VERDES.

Elles verdes são: E tem por usança, Na côr esperança, E nas obras não. CAM., _Rim._

São uns olhos verdes, verdes, Uns olhos de verde-mar, Quando o tempo vai bonança; Uns olhos côr de esperança, Uns olhos por que morri; Que ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

Como duas esmeraldas, Iguaes na forma e na côr, Tem luz mais branda e mais forte, Diz uma--vida, outra--morte; Uma--loucura, outra--amor. Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

São verdes da côr do prado, Exprimem qualquer paixão, Tão facilmente se inflammão, Tão meigamente derramão Fogo e luz do coração; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes, Que podem tambem brilhar; Não são de um verde embaçado, Mas verdes da côr do prado, Mas verdes da côr do mar. Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

Como se lê n’um espelho Pude lêr nos olhos seus! Os olhos mostrão a alma, Que as ondas postas em calma Tambem reflectem os céos; Mas ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

Dizei vós, ó meos amigos, Se vos perguntão por mi, Que eu vivo só da lembrança De uns olhos côr de esperança, De uns olhos verdes que vi! Que ai de mi! Nem já sei qual fiquei sendo Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo! Deixou-se de amor finar! Vio uns olhos verdes, verdes, Uns olhos da côr do mar: Erão verdes sem espr’ança, Davão amor sem amar! Dizei-o vós, meus amigos, Que ai de mi! Não pertenço mais a vida Depois que os vi!

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CUMPRIMENTO DE UM VOTO

Feito ás Sras. de Itapacorá, que abrilhantarão a festa do Illm. Sr. ANTONIO JOSÉ RODRIGUES TORRES.

PORTO DAS CAIXAS--25 de agosto 1850.

Se ao misero cantor vos praz mandar-lhe Cantar voltas de amor, á graça tanta Será mudo o cantor, nem ha de aos echos A cythara incivil fallar de amores? Mandaes, que sois, senhoras, minhas musas; Quando a senhora manda, o escravo cumpre E ás supplicas da musa o vate cede! Afinada por vós a lyra humilde, Já desafeita aos sons que o peito abrandão, Á nova esphera se remonta agora. O frescor juvenil dos vossos annos, E as, que vos ornão, deleitosas graças, Hão de ameigar-lhe as cordas, perfumal-as, Dictar-lhe os faceis, inspirados carmes.

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A estrella, que fulge no céo anilado, Com placido brilho de noite s’inflamma; Na fonte e no prado Reflexos luzentes esparge e derrama.

Nos ramos cobertos de ameno rocio As aves descantão á luz da alvorada, E a meiga toada Repetem aos echos do bosque sombrio.

Na gleba virente, do sol bafejada, Recende perfumes a flôr matutina, Que á luz da alvorada Ao sopro da brisa de leve s’inclina.

A flôr que trescala perfumes suaves, A estrella que brilha no céo anilado, E o canto das aves, Que sôa no bosque virente e copado;

Se cantão, perfumão, despedem fulgores, É tal o seu fado:--vós sois qual são ellas, Sois como as estrellas, Na graça e no canto, sois aves, sois flôres.

Como ellas, pagai-vos de ver quão fugaces Encurtão-se as horas de nosso viver, De ver como as faces, Que tendes em torno, resumbrão prazer.

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Estes versos na mente susurravão Do vate, cuja lyra merencoria Foi por vós de festões engrinaldada; Por vós, cujo sorriso mavioso Melhor perfume exhala, do que as notas Concertadas com arte; dai um riso Dos vossos, um volver dos brandos olhos, Aos alegres convivas; e um reflexo Do vosso meigo olhar e brando riso Venha morrer na lyra do poeta, Como do astro-rei, quando no occaso Doura no campo as folhas mais humildes.

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LYRA QUEBRADA.

Ah! ya agostada Siento mi juventud, mi faz marchita, Y la profunda pena que me agita Ruga mi frente de dolor nublada. HEREDIA.

Pede cantos aos ledos passarinhos, Pede clarão ao sol, perfume ás flores, Ás brisas suspirar, murmurio aos ventos, Doces querelas ao correr das fontes;

E o sol, a ave, a flôr, a brisa, os ventos E as fontes que murmurão docemente, Na festa da tua alma hão de seguir-te, Como um som pelos echos repetido.

Mas não peças á lyra abandonada Um alegre cantar,--já murchas pendem As grinaldas gentis, de que a toucárão Donzeis louçãos, enamoradas virgens.

Hoje mal partem roucos sons dos nervos, Que amargo pranto destendeu sem custo; Quem ha que se não dóe de ouvir cantados Uns versos de prazer entre soluços?

Não peças pois um hymno ao triste bardo! Verde ramo d’uma arvore gigante O raio no passar queimou-lhe o viço, Deixando-o por escarneo entre verdores.

Uma febre, um ardor nunca apagado, Um querer sem motivo, um tedio á vida Sem motivo tambem,--caprichos loucos, Anhelo d’outro mundo e d’outras coisas;

Desejar coisas vãs, viver de sonhos, Correr após um bem logo esquecido, Sentir amor e só topar frieza, Scismar venturas e encontrar só dores;

Fizerão-me o que vês: não canto, soffro! Lyra quebrada, coração sem forças De poetico manto os vou cobrindo, Por disfarçar desta arte o mal que passo.

Mas se inda tens prazer á luz da aurora, Se te ameiga fitar longos instantes, Sentada á beira mar, na paz de um ermo, Uma flôr, uma estrella, os céos e as nuvens;

Pede cantos aos ledos passarinhos, Á brisa, ao vento, á fonte que murmura; Mas não peças canções ao triste bardo, A quem té para um ai já falta o alento.

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A PASTORA.

Forão as trevas fugindo, E luzindo Nasce o sol sobre o horisonte; Quando a pastora formosa E mimosa Já caminho vai do monte!

A relva tenra e molhada, Orvalhada, Que de noite despontou, Se levanta melindrosa, Mais viçosa Depois que o sol a afagou!

Nos ramos cantão, trinando E saltando, As aves seu casto amor; Aqui, alli, scintillante E brilhante Desabrocha a linda flôr.

E a pastorinha engraçada, Bem fadada, Na fresca manhã de abril, Vai cantando maviosa, E saudosa Pensando no seu redil.

Para as serras do Gerez Toca a rez, Toca a rez, gentil pastora; Lá te aguarda o bom pastor, Teu amor, Que te chama encantadora.

Vai, pastora, vai depressa, Já começa O sol no valle a brilhar; Vai, que as tuas companheiras, Galhofeiras, Lá ’stão com elle a folgar!

Pela aldeia entre os pastores Vão rumores De que tens uma rival, Nessa Alteia, a tua antiga, Doce amiga, Que te quer hoje tão mal!

Tu não sabes que os amores São traidores, Que o homem não sabe amar; E que diz: Esta é mais bella; Mas aquella É que me sabe agradar!

Tenho d’Alteia receios, Que tem meios De prender um coração; É viva, bella, engraçada, Festejada Nos cantares do serão.

Como a neve em seus lavores, Nos amores Que caprichosa não é! Zomba delle quando o topa, E o provoca De mil maneiras, á fé!

Té dizem--será mentira-- Que lhe atira Seus motetes muita vez; Dizem mais, que ha prendas dadas E trocadas:... Não sei; mas será talvez!

Triste de ti, se assim fôra, Ó pastora, Triste de ti sem amor! Foras alvo dos festejos, Dos motejos, E do canto mofador!

Cheia de pudico medo, Ao folguedo Do domingo festival, Não irias, ó formosa, Vergonhosa Dos olhos d’uma rival!

Para as serras do Gerez Toca a rez, Toca a rez, gentil pastora; Lá te aguarda o bom pastor, Teu amor, Que te chama encantadora!

GEREZ....

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A INFANCIA.

A M^{lle} J. PICOT.