Chapter 11 of 141 · 1103 words · ~6 min read

V.

A MORTE.

Dans sa douleur elle se trouvait malheureuse d’être immortelle. FÉNÉLON.

Da aurora vinha nascendo O grato e bello clarão; Eu sonhava! já mais brandos Erão meos sonhos então.

Condensou-se o ar n’um ponto, Cresceo o subtil vapor; Vi formada uma belleza, Cheia de encantos, de amor.

Mas na candura do rosto Não se pintava o carmim; Tinha um quê de cera juncto Á nitidez do marfim.

--Quem es tu, visão celeste, Bello Archanjo do Senhor? Respondeo-me:--Sou a Morte, Cru phantasma de terror!

--Ah! lhe tornei: Es a morte, Tão formosa e tão cruel! --Correndo o mundo sósinha No meo pallido corsel,[3]--

Assim dizia--«Tu julgas Que não tenho coração, Que executo os meos deveres Sem pesar, sem afflicção?

--Que inda em flôr da vida arranco Ao joven, sem compaixão, Á donzella pudibunda Ou ao longévo ancião?

--Oh! não, que eu soffro martyrios Do que faço aos mais soffrer, Soffro dôr de que outros morrem, De que eu não posso morrer;

--Mas em parte a dôr me cura Um pensamento, que é meo,-- Lembro aos humanos que a terra É só passagem pr’a o céo.

--Faço ao triste erguer os olhos Para a celeste mansão; Em labios que nunca orárão Derramo pia oração.

--É meo poder quem apura Os vicios que a mente encerra, Ao fogo da minha dôr; Sou quem prendo aos céos a terra, Sou quem prendo aos céos a terra, Ao ser do seo Creador.

--Mas qu’importa? Sem descanço É-me forçoso marchar, Abater impías frontes, Regias frontes decepar.

--Passar ao travez dos homens Como um vento abrasador; Como entre o feno maduro A foice do segador.

--E prostrar uma após outra Geração e geração, Como peste que só reina Em meio da solidão.»--

Desponta o sol radioso Entre nuvens de carmim; Cessa o canto pesaroso, Como corda aurea de Lyra; Que se parte, que suspira Dando um gemido sem fim.

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O VATE.

NO ALBUM DE UM POETA.

Moi ... j’aimerai ta victoire; Pour mon coeur, ami de toute gloire, Les triomphes d’autrui ne sont pas un affront. Poète, j’eus toujours un chant pour les poètes, Et jamais le laurier qui pare d’autres têtes Ne jeta d’ombre sur mon front. V. HUGO.

Vate! vate! que es tu?--Nos seos extremos Fadou-te Deos um coração de amores, Fadou-te uma alma accesa borbulhando Hardidos pensamentos, como a lava Que o gigante Vesuvio arroja ás nuvens.

Vate! vate! que es tu?--Foste no principio Sacerdote e propheta; Erão nos céos teos cantos uma prece, Na terra um vaticinio. E elle cantava então:--Jehovah me disse, Magestoso e terrivel.

«Vês tu Jerusalém como orgulhosa «Campêa entre as nações, como no Libano «Um cedro a cuja sombra a hyssope cresce? «Breve a minha ira transformada em raios «Sobre ella cahirá; «Um fero vencedor dentro em seos muros «Tributaria a fará; «E quando escravos seos filhos, sobre pedra «Pedra não ficará.»

E os reprobos de sacco se vestião; Em pó, em cinza involtos; E collando co’a terra os torpes labios, E açoitando co’as mãos o peito imbelle, Senhor! Senhor!--clamavão.

E o vate emtanto o pallido semblante Meditabundo sobre as mãos firmava, Supplicando ao Senhor do interno d’alma.

Forão sanctos então.--Homero o mundo Creou segunda vez,--o inferno o Dante,-- Milton o paraiso,--forão grandes!

E hoje!... em nosso exilio erramos tristes, Mimosa esp’rança ao infeliz legando, Maldizendo a soberba, o crime, os vicios; E o infeliz se consola, e o grande treme. Damos ao infante aqui do pão que temos, E o manto além ao misero rachitico; Somos hoje Christãos.

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Á MORTE PREMATURA DA ILL^{ma} S^{ra} D.....

(No album de seo Irmão Dr. J. D. Lisboa Serra.)

Il semble que le ciel aux coeurs les plus magnanimes Mesure plus de maux. LAMARTINE.

Perfeita formosura em tenra idade Qual flôr, que anticipada foi colhida, Murchada está da mão da sorte dura. CAMÕES, _Soneto_.

Lá, bem longe d’aqui, em tarde amena, Gozando a viração das frescas auras, Que do Brazil os bosques brandamente Fazião balançar,--e que espalhavão No ether encantado odor, pureza-- Do que a rosa mais bella,--meiga e casta, Como as virgens do sol, Que de vezes não foi ella pendente Dos braços fraternaes em meigo abraço; Como mimosa flôr presa, enlaçada A tenro arbusto que a vergontea debil Lhe ampara docemente!...

E o Irmão que só n’ella se revia, O Irmão que a adorava, qual se adora Um mimo do Senhor; Que a tinha por pharol, conforto e guia, Os seos dias contava por encantos; E as virtudes co’os dias pleiteavão.

E ella morreo no viço de seos annos!... E a lagem fria e muda dos sepulchros Se fechou sobre o ente esmorecido Ao despontar de vida Tão rica de esperanças e tão cheia De formosura e graças!...

Campa! campa! que de terror incutes! Quanto esse teo silencio me horrorisa! E quanto se assemelha a tua calma A do cruel malvado que impassivel Contempla a sua victima torcer-se Em convulsões horriveis, desesp’radas; Crúas vascas da morte!... Quem tão má te creou? Tu que tragas o ente que esmorece Ao despontar de vida Tão rica de esperanças e tão cheia De formosura e graças?!

O pharol se apagou! a luz sumio-se! Como o fugaz clarão do meteóro, Extinguio-se a esperança;--e o mal-fadado Sobre a terra deserta em vão procura Traços d’essa que amou, que tanto o amára; Da joven companheira de seos brincos, Pezares e alegrias. Elle a procura!... o viajor pasmado Nos campos de Pompéia, alonga a vista Pela amplidão do praino, Destroços e ruinas encontrando, Onde esperava movimento e vida.

Não poder eu a troco de meu sangue Poupar-te dessas lagrimas metade! Oh! poder que eu podesse!--e almo sorriso, Que tanto me compraz ver-te nos labios, Inda uma vez brilhasse! E essa existencia, Que tão cara me é, t’a visse eu leda, E feliz como a vida dos Archanjos! Infeliz é quem chora: ella finou-se, Porque os anjos á terra não pertencem; Mas lá dos immortaes sobre os teos dias A suspirada irmã vela incessante.

Vinde, candidas rosas, açucenas, Vinde, roxas saudades; Orvalhai, tristes lagrimas, as c’roas, Que hão de a campa adornar por mim depostas Em holocausto á victima da morte. Innocencia, pudor, belleza e graça Com ella n’essa campa adormecêrão. Anjo no coração, anjo no rosto, Devera o amor chorar sobre o teo seio, Que não grinaldas funebres tecer-te; Devera voz d’esposo acalentar-te O somno da innocencia,--não grosseira Canção de trovador não conhecido.

COIMBRA, Junho de 1841.

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A MENDIGA.

Donnez:-- Et quand vous paraîtrez devant le juge austère, Vous direz: J’ai connu la pitié sur la terre, Je puis la demander aux cieux! TURQUETY.