VI.
Sê antes flôr bemfadada, Suspirada, Bafejada Pela brisa que a namora, Pela frescura da aurora, Que a colora: Á luz do sol se recreia, E de noite se retrata Da fonte na lisa prata, Quando o céo de luz se arreia.
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AS DUAS AMIGAS.
....... Vivamos juntas N’um só logar! N’um só logar, ou sejão mansos ares, Se alli te exaltas; Ou sejão campos, se é alli que a relva De pranto esmaltas. V. HUGO. TRAD.
Já vistes sobre a flôr de manso lago Duas aves brincando solitarias, Já pousadas na lisa superficie, Já levantando o vôo?
Já vistes duas nuvens no horisonte, Brancas, orladas com listões de fogo, A deslumbrante alvura cambiando Ao pôr de sol estivo?
Já vistes duas lindas mariposas, Abrindo ao romper d’alva as longas azas, Onde reflecte o sol, como um prisma, Bellas, garridas côres?
Nem as pombas que vagão solitarias, Nem as nuvens do occaso, nem as vagas Borboletas gentis que adejão livres Em valle ajardinado; Tanto não prazem, como doces virgens, Airosas, bellas, com sorrir singelo, Da vida negra e má duros abrólhos Impróvidas calcando.
Quanto ha no mundo d’illusões fagueiras, De perfume e de amor, guardão no peito, Quanto ha de luz no céo mostrão nos olhos, Quanto ha de bello--n’alma.
Como um jardim seo coração se mostra, Seos olhos como um lago transparente, Sua alma como uma harpa harmoniosa, Seu peito como um templo!
Mas um fraco arruido espanta as aves, Uma brisa ligeira as nuvens rasga, E uma gota de orvalho ensopa as azas Das leves mariposas.
Desgarradas voando as aves fogem, Dos castellos dos céos perdem-se as nuvens, Nem mais adejão borboletas vagas Sobre o esmalte das flôres.
Pois quem resiste ao perpassar do tempo? Depois que derramou grato perfume Sobre as azas dos ventos que a bafejão, A flôr tambem definha.
Mas um nobre sentir que se enraiza No peito da mulher, que menos ame, É como essencia preciosa e grata, Que se lacrou n’um vaso.
Repassa-o: depois embora o esgotem; Leves emanações, gratos effluvios Ha de eterno verter da mesma essencia, Talvez porêm mais doces.
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SONHO.
Ah! frown not, sweet lady, unbend your soft brow Nor deem me too happy in this! If I sin in my dream, I atone for it now, Thus doom’d but to gaze upon bliss. BYRON.
Sonhava esta noite, Donzella formosa, Já quando as estrellas tombavão no mar, Que eu via a meu lado uma esbelta figura Divina e mimosa.... Sonhar é ventura; Deixai-me sonhar!
Divina e mimosa, co’um véo se cobria D’estrellas fulgentes de brilho sem par; O rosto era vosso, era vossa a estatura, E o anjo dizia.... Sonhar é ventura; Deixai-me sonhar!
E o anjo dizia co’um geito celeste: «Affectos que em outro não pude encontrar «Por fim me rendérão,--paixão lisa e pura.» Que tanto soffreste... Sonhar é ventura; Deixai-me sonhar!
«Pois tanto soffreste, não devo impiedosa «Fineza tão grande por fim mal pagar!» Eis sinto um abraço estreitar-me a cintura, E uns labios de rosa... Sonhar é ventura; Deixai-me sonhar!
E uns labios de rosa cobrirem-me a fronte Com tepidos beijos de férvido amar! Prazer tão subido após tanta amargura. Não sei como o conte!... Sonhar é ventura; Deixai-me sonhar!
Não sei como o conte!--nos labios de rosa Vivi encantado sem ver, nem pensar, Em quanto apertava a ligeira cintura, Cintura mimosa.... Sonhar é ventura; Deixai-me sonhar!
Cintura mimosa!--depois vos tecia Grinalda que a fronte vos fosse adornar, E um cinto de amores com bróche esmaltado De meiga poesia!... Quem tão bem fadado Vivera a sonhar!
De meiga poesia, meo bem, minha amada, Já pago de quanto me fazeis penar, Então vos tangia descantes na lyra, Na lyra afinada! O sonho é mentira; Não quero sonhar!
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SOLIDÃO.
Solo e pensoso i più deserti campi Vo misurando a passi tardi e lenti E gli occhi porto per fuggire intenti Ove vestigio human l’arena stampi. PETRARCA. _Sonetti._
Se queres saber o meio Por que as vezes me arrebata Nas azas do pensamento A poesia tão grata; Por que vejo nos meos sonhos Tantos anginhos dos céos; Vem commigo, ó doce amada, Que eu te direi os caminhos, Donde se enxérgão anginhos, Donde se trata com Deos.
Fujamos longe das villas, Das cidades populosas, Do vegetar entre as vagas Destas côrtes enganosas; Fujamos longe, bem longe, Deste viver cortesão! Fujamos desta impureza, Só vês cordura por fóra; Mas nunca o vicio que mora Nas dobras do coração!
Fujamos! que nos importa Rodar do carro que passa, Esta orgulhosa vã gloria, Que se resolve em fumaça? Estas vozes, estes gritos, Este viver a mentir? Fujamos, que em taes logares Não ha prazer innocente, Só alegria que mente, Só labios que sabem rir!
Fujamos para o deserto; Vivamos alli sosinhos, Sosinhos, mas descuidados Destes cuidados mesquinhos; Tu o azul do espaço olhando E eu só a rever-me em ti! Quando depois nos tomarmos Á terra serena e calma, Aqui acharei tua alma, E tu me acharás aqui.
Ou corramos o oceano Que d’immenso a vista cança; Dormirei no teu regaço Quando o tempo for bonança, Quando o batel for jogando Em leve ondular sem fim. Mas nos roncos da procella, Nossos olhos encontrados, Nossos braços enlaçados, Hei de cantar-te, inda assim!
Ou se mais te praz, zombemos Das setas que arroja a sorte; Vivamos nas minhas selvas, Nas minhas selvas do norte, Que gemem nenias sentidas No seio da escuridão. Não tem doçura o deserto, Não têm harmonia os mares, Como o rugir dos palmares No correr da viração!
Tu verás como a luz brinca Nas folhas de côr sombria; Como o sol, pintor mimoso, Seos accidentes varia; Como é doce o romper d’alva, Como é fagueiro o luar! Como alli sente-se a vida Melhor, mais viva, mais pura, N’aquella eterna verdura, N’aquelle eterno gozar!
Vem commigo, oh! vem depressa, Não se esgota a natureza; Mas desbota-se a innocencia, Divina e sancta pureza, Que dá vida aos objectos, Feituras da mão de Deos! Vem commigo, ó doce amada, Que são estes os caminhos, Donde eu enxergo os anginhos, Que tu vês nos sonhos meus.
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A UM POETA EXILADO.
Il accuse et son siècle, et ses chants, et sa lyre, Et la coupe enivrante où, trompant son délire, La gloire verse tant de fiel, Et ses voeux, poursuivant des promesses funestes, Et son coeur, et la Muse, et tous ces dons célestes, Hélas! qui ne sont pas le ciel! V. HUGO.
Tão bem vaguei, Cantor, por clima estranho, Vi novos valles, novas serranias, Vi novos astros sobre mim luzindo; E eu só! e eu triste!
Ao sereno Mondego, ao Doiro, ao Tejo Pedi inspirações,--e o Doiro e o Tejo Do misero proscripto repetirão Sentidos carmes.
Repetio-mos o placido Mondego; Talvez em mais de um peito se gravárão, Em mais de uns meigos labios murmurados, Talvez soárão.
Os filhos de Minerva, novos cysnes, Que a fonte dos amores meigos cria, E alguns de Lyzia sonorosos vates, Sisudos mestres;
Ouvindo aquelle canto agreste e rudo Do selvagem guerreiro,--e a voz do piaga Rugindo, como o vento na floresta, Prenhe d’augurios;
Benignos me olharão, e aos meos ensaios Talvez sorrirão; porém mais prendeo-me, Quem soffrendo como eu, chorou commigo; Quem me deo lagrimas!
Eu pois, que nesta vida hei aprendido Só cantar e soffrer, não vejo embalde Ao conto a dôr unida,--e os repassados Versos de pranto.
Do triste poleá choro a desdita, Choro e digo entre mim: «Pobre Canario Que fado máo cegou, por que soltasse Mais doce canto;
Pobre Orpheo, nestes tempos mal nascido, Atraz d’um bem sonhado pelo mundo A vagar com lyra--um bem que os homens Não podem dar-te!
Se quer esta lembrança a dôr te abrande: A vida é breve, e o teo cantar simelha Vagido fraco de menino enfermo, Que Deos escuta.
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PALINODIA.
O céo não te dotou de formosura, De attractivo exterior, e a natureza Teo peito inficionou co’a vil torpeza D’ingrata condição fallaz e impura! BOCAGE.
Se só por vós, Senhora, corpo e alma, Apezar da aversão que tenho ao crime, Inteiro me embucei nos seos andrajos, Em tremedal de vicios;
Se só por vós descri do que era nobre, Por que involto em torpeza immunda e feia, As vestes da virtude immaculada Rebolquei-as no lodo;
Se só por vós persegue-me o remorso, Que os dias da existencia me consome, E entre angustias crueis minha alma anceia, --Ludibrio dos meos erros:
Consenti que a moral os seos direitos Reivendique uma vez, e que a minha alma Das lições que bebeo na pura infancia Uma hora se recorde!
Agora, agro censor, hão de os meos labios, Duras verdades trovejando em verso, Fazer de vós, o que a razão não pôde, --Mulher ou estatua!
Mentistes quando amor tinheis nos labios, Mentistes a compor meigos sorrisos, Mentistes no olhar, na voz, no gesto... Fostes bem falsa!...
Falsa, como a mulher que em bruta orgia Finge extremos de amor que ella não sente, E o rosto off’rece á osculos vendidos, Ao sigillo da infamia.
Quantas vezes, Senhora, não cahistes Humilhada, á meos pés, desfeita em pranto, Chorando--e que choraveis?--a jurar-me... --Que juraveis então?
Se pois sentistes compaixão amiga A cahir gota a gota dos meos labios No que eu suppunha cicatriz recente, E que era ulcera funda;
Se me vistes os olhos incendidos, Sangrar-me o coração no peito afflicto Ao fel das vossas dôres, que azedaveis Co’o pranto refalsado.
Ouvi!--não ereis bella,--nem minha alma Vos amou, que um modello de virtudes, --Um sublime ideal--amou somente; Vós o não fostes nunca.
Que uma alma como a vossa, já manchada, Aos negros vicios mais que muito affeita, Já feia, já corrupta, já sem brilho.... Amal-a eu, Senhora!
Deitar-me sob a cópa traiçoeira, Que ao longe espalha a sombra, o engano, a morte; Recostar-me no seio onde outros dormem, Que por ninguem palpita!
Beijar faces sem vida, onde se enxerga Visgo nojento d’osculos comprados; Crêr no que dizem olhos mentirosos, Em prantos de loureira!
Antes curvar o collo envilecido Ao jugo vil da escravidão nefanda; Beijar humilde a mão que nos offende, Que nos cobre de opprobrio!
Antes, possesso d’imprudencia estupida, Brincando remecher no açafate, Onde por baixo de mimosas flores, O aspide se esconde!
Mas eu, nos meos accessos de delirio, Voz importuna de continuo ouvia, Cá dentro em mim, a repr’hender-me sempre De vos amar ... tão pouco!
Assim o cego idolatra se culpa, Nos espasmos d’ascetica virtude, De não amar assaz o vão phantasma, De suas mãos feitura.
Porém se luz melhor de cima o aclara, Cóspe affronta e desdem, e á chamma entrega O cepo vil, que não merece altares, Nem d’offrendas é digno!
Releva-se a imprudencia feminina, Inda um erro, uma culpa se perdôa, Se a desvaira a paixão, se amor a cega No mar de escolhos cheio.
O Deos, que mais perdôa a quem mais ama, Talvez da vida a negra mancha apaga A quem as azas de algum anjo orvalha De lagrimas contritas.
Mas não á aquella, em cujo peito móra Torpeza só,--onde o amor se cobre De vicios--a nutrir-se d’impurezas, Como vermes de lodo.
Se porém te aproveita o meo conselho, Á quem, mais do que a mim, tens offendido, Que entre os risos do mundo, vê tua alma E lê teos pensamentos;
Se não crês n’outra vida alem da morte, Roga se quer a Deos, que te não rompa Á luz do sol divino da Justiça A mascara d’enganos!
Que a rainha da terra inamolgavel, --A dura opinião--te não entregue, Sosinha, e núa, e d’irrisão coberta, Á popular vindicta!
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OS SUSPIROS.
Mucha pena ¿verdad? mucha amargura Guardaba allá en sus senos escondida A despedir-te el alma dolorida, Hijo de su cariño y su ternura. ROMEA.
Muitas vezes tenho ouvido, Como languidos gemidos, Frouxos suspiros partidos D’entre uns labios de coral: A fina tez lhes deslustrão, Bem como o alento que passa Sobre o candor d’uma taça De transparente crystal.
Ouvido os tenho mil vezes Do coração arrancados, Sobre labios desmaiados Susurrando esvoaçar! Como flôr submarinha Da funda gleba arrancada, De vaga em vaga arrastada, Correndo de mar em mar!
Ouvido os tenho mil vezes, Em quanto a lúa fulgura, Quando a virgem d’alma pura Fita seos olhos no céo: Notas de mundo longinquo Repassadas de harmonia, Diamante que alumia A tela de um fino véo!
Tu, virgem por que suspiras? Quando suspiras que scismas? Em que reflexões te abysmas? --Do passado ou do porvir; Mas não tens _passado_ ainda, Tudo é flores no presente, Brilha o porvir docemente, Como do infante o sorrir.
Tu, virgem, por que suspiras? --Murmura trepida a fonte, De relva se cobre o monte, As aves sabem cantar; O ditoso tem sorrisos, O desgraçado tem pranto, A virgem tem mais encanto No seo vago suspirar!
Suspirar, ó doce virgem, É da alma a voz primeira, A expressão mais verdadeira Da sina e do fado teo! Vago, incerto, indefinido, Tem um quê de inexplicavel, Como um desejo insondavel, Como um reflexo do céo.
Eu amo ouvir teos suspiros, Ó doce virgem mimosa, Como nota harmoniosa, Como um cantico de amor; Mais do que a flôr entre as vagas Sem destino fluctuando, Folgo de os ver expirando Em labios de rubra côr.
Mais que a longinqua harmonia, Que o alento fraco, incerto, Que o diamante coberto, Scintillando almo fulgor; Fólgo de ouvir teos suspiros, Ó doce virgem mimosa, Como nota harmoniosa, Como um cantico de amor!
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QUEIXUMES.
Onde estás, meo senhor, meos amores? A que terras--tão longes!--fugiste? Onde agora teos dias se escoão? Por que foi que de mim te partiste?
Não te lembras! quando eu te rogava Não te fosses de mim tão azinha, Prometteste-me breve ser minha Tua vida, que o mar me roubava.
Tão amigo do mar foste sempre, Por que amigos talvez não achaste! Nem carinhos, nem prantos te ameigão? Nem por mim, que te amava, o deixaste?
Vejo além o logar onde estava Tua esbelta fragata ancorada, Mal soffrida jogando afagada Do galerno que amigo a chamava.
Da partida era o funebre instante, Breve instante de afflictos terrores, Quando o mar traiçoeiro, inconstante, Me roubava meos puros amores!
Inda chóro essa noite medonha, Longa noite de má despedida! Teo amor me deixaste nos braços, Nos teos braços levaste-me a vida!
Oh! cruel, que então foste commigo, Que te hei feito que punes-me assim? Teo navio que tantos levava, Não podia levar mais a mim?
Mas a mim!--que importava que eu fosse? Não me ouvira a tormenta chorar, E morrer me seria mais doce Junto a ti,--que o meo triste penar!
Junto a ti me era a vida bem cara, Oh! bem cara!--se ledo sorrias, Se pensavas sosinho e profundo, Se agras dôres comtigo curtias;
Eu te amava, senhor!--Nem podia Dentro em mim, convencer-me que fosse Outra vida melhor, nem mais doce, Nem que o amor se acabasse algum dia!
Mas o mar tem lindezas que encantão, Tem lindezas, que o nauta namora, Tão bem dizem que vozes descantão No silencio pacato desta hora!
São de nymphas os mares pejados, Tão bem dizem, que sabem magia, Que suscitão cruel calmaria, Só d’em torno dos seos namorados!
Alta noite, bem perto, apparece, Como leiva juncada de flôres, Ilha fertil em faceis amores, Onde o nauta da vida se esquece!
Não te esqueças de mim!--Por Sevilha Quando o peito de branco marfim Perceberes na preta mantilha, Sombreado por leve carmim;
Quando vires passar a Andalusa Pelos montes, com ar magestoso, Decantando nas modas de que usa As loucuras do Cid amoroso;
Quando vires a molle Odalisca. De belleza e de extremos fadada, Respirando perfumes da Arabia, Em sericos tapises deitada;
Quando a vires co’a fronte bem cheia De riquezas, de graças ornada, Pelo andar do elefante embalada, Que alta escolta de eunuchos rodeia;
Quando vires a Grega vagando Pelas Ilhas de Cós ou Megára, Em sua lingoa, tão doce, cantando Seos amores que o Turco roubara;
Quando a vires no Carro de Homero, Bella e grave e sisuda lavrando, Pelos montes melifluos do Hymeto A parelha de bois aguilhando;
Não te esqueção meos duros pesares, Não te esqueças por ellas de mim, Não te esqueças de mim pelos mares, Não me esqueças na terra por fim!
Se eu fosse homem, tão bem desejára Percorrer estes campos de prata, E este mundo, na tua fragata, Co’uma esteira cingir d’onda amara.
Qu’ria ver a andorinha coitada Nos meos mastros fugida poisar, E achar no convez abrigada, Quando o vento começa a reinar!