V.
Nem só prazeres medita, Nem só pensa em bellas flores; Muitas ha que almejão dores, Como outras buscão amor: É que as punge atra amargura, Que o peito anceia e fatiga; É sêde que só mitiga Talvez afflicção maior.
Quasi gozão, quando vertem Um pranto cançado e lento; Quando um comprido tormento Lhes derrete o coração: Não é martyrio de sangue, Como nas eras passadas; Mas ha lagrimas choradas, Que tambem martyrio são.
Ha dores que melhor ralão Que provas d’agua ou de fogo, Que ver apinhado o povo N’um banquete canibal; Que sentir no amphitheatro As vivas carnes rasgadas Pelas presas navalhadas De um fero lobo cerval.
Quem me dera saber quaes são teus sonhos, Aventar teus mais fundos pensamentos, E ser o genio bom que t’os cumprisse, Quando fossem de amor teus meigos sonhos!