II.
De um vasto edificio nas frias escadas Eu vi-a sentada;--era um templo, dizião Secreto concilio de socios piedosos, Que o bem tinha juntos, que bem só fazião.
Defronte um palacio soberbo se erguia, E d’elle partia confuso rumor: --A dança girava, e a orchestra sonora Cantava alegria, prazeres e amor.
E quando ao palacio um conviva chegava, Rugindo-se abria o ruidoso portão; Effluvios de incenso nos ares corrião Da rua esteirada com vivo clarão.
E a triste mendiga alli ’stava ao relento, Com fome, com frio, com sede e com dôr; E eu vi o seo anjo, mais triste no aspecto, Mais baço, mais turvo da gloria o fulgor.
E á porta do vasto sombrio edificio Um vulto chegou. --Senhor, uma esmola!--bradou-lhe a mendiga: E o vulto parou.
E rude no accento, no aspecto severo, Lhe disse:--O teo nome?-- Tornou-lhe a mendiga:--Senhor, uma esmola, Que eu morro de fome.
--Não dizes teo nome?--lhe torna o soberbo. --Sou orphã, sosinha; Meo nome qu’importa, se eu soffro, se eu gemo, Se eu chóro mesquinha!
Em vís meretrises não cabe esse orgulho, Tornou-lhe o Senhor, Que á noite, nas trevas, contractão no crime, Vendendo o pudor.
E a porta do templo--erguido á piedade Com força batia; Co’o peso do insulto accrescido a crueza A triste gemia.