II.
Quem me dera nas azas d’este vento, Que agora tão saudoso aqui murmura, Agitando as cortinas, que me encobrem Do teo rosto o fulgor, que me não cegue, Subir além dos sóes, além das nuvens Ao teo throno, ó meo Deos; ou quem me désse Ser este incenso que se arroja em ondas A subir, a crescer, em rolo, em fumo, Até perder-se na amplidão dos ares! Não qu’ria aqui viver!--Quando eu padeço, Surdez fingida a minha voz responde; Não tenho voz de amor, que me console, Corre o meo pranto sobre terra ingrata, E dôr mortal meo coração fragoa. Só tu, Senhor, só tu, no meo deserto Escutas minha voz que te supplica; Só tu nutres minha alma de esperança; Só tu, ó meu Senhor, em mim derramas Torrentes de harmonia, que me abrasão. Qual orgão, que resôa mavioso, Quando segura mão lhe opprime as teclas, Assim minha alma, quando a ti se achega Hymnos de ardente amor disfere grata: E, quando mais serena, inda conserva Effluvios d’esse canto, que me guia No caminho da vida aspero e duro. Assim por muito tempo reboando Vão no recinto do sagrado templo Sons, que o orgão soltou, que o ouvido escuta.
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TE DEUM.
Nós, Senhor, nós te louvamos, Nós, Senhor, te confessamos.
Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto, Immenso é o teo poder, tua força immensa, Teos prodigios sem conta;--e os céos e a terra Teo ser e nome e gloria preconisão.
E o archanjo forte, e o serafim sem mancha, E o côro dos prophetas, e dos martyres A turba eleita--a ti, Senhor, proclamão Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes sancto.
Na innocencia do infante es tu quem fallas; A belleza, o pudor--es tu que as gravas Nas faces da mulher,--es tu que ao velho Prudencia dás,--e o que verdade e força Nos puros labios, do que é justo, imprimes.
Es tu quem dás rumor á quieta noite, Es tu quem dás frescor á mansa brisa, Quem dás fulgor ao raio, azas ao vento, Quem na voz do trovão longe rouquejas.
Es tu que do oceano á furia insana Pões limites e cobro,--es tu que a terra No seo vôo equilibras,--quem dos astros Governas a harmonia, como notas Acordes, simultaneas, palpitando Nas cordas d’Harpa do teo Rei Propheta, Quando elle em teo louvor hymnos soltava, Qu’ ião, cheios de amor, beijar teo solio.
Sancto! Sancto! Sancto!--teos prodigios São grandes, como os astros,--são immensos Como arêa delgada em quadra estiva.
E o archanjo forte, e o serafim sem mancha, E o côro dos prophetas, e dos martyres A turba eleita--a ti, Senhor, proclamão, Senhor Deos Sabbaoth, tres vezes grande.
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ADEOS
AOS MEOS AMIGOS DO MARANHÃO.
Meos Amigos, Adeos! Já no horizonte O fulgor da manhã se empurpurece: É puro e branco o céo,--as ondas mansas, --Favoravel a brisa;--irei de novo Sorver o ar purissimo das ondas, E na vasta amplidão dos céos e mares De vago imaginar embriagar-me! Meos Amigos, Adeos!--Verei fulgindo A lua em campo azul, e o sol no occaso Tingir de fogo a implacidez das agoas; Verei horridas trevas lento e lento Descerem, como um crepe funerario Em negro esquife, onde repoisa a morte; Verei a tempestade quando alarga As negras azas de bulcões, e as vagas Soberbas encastella, esporeando O curto bojo de ligeiro barco, Que geme, e ruge, e empina-se insoffrido Galgando os escarceos,--bem larga esteira De phosphoro e de luz traz si deixando: Generoso corsel, que sente as cruzes Agudas de teimosos acicates Lacerarem-lhe rabidas o ventre.
Inda uma vez, Adeos! Curtos instantes De ineffavel prazer--horas bem curtas De ventura e de paz frui comvosco: Oasis que encontrei no meo deserto, Tepido valle entre fragosas serras Virente derramado, foi a quadra Da minha vida, que passei comvosco. Aqui de quanto amei, do que hei soffrido, De tudo quanto almejo, espero, ou temo Deslembrado vivi!--Oh! quem me dera Que entre vós outros me alvejasse a fronte, E que eu morresse entre vós! Mas força occulta, Irresistivel, me persegue e impelle. Qual folha instavel em ventoso estio Do vento ao sopro a esvoaçar sem custo; Assim vou eu sem tino,--aqui pegadas Mal firmes assentando--além pedaços De mim mesmo deixando. Na floresta O lasso viandante extraviado Por todo o verde bosque estende os olhos, E cançado esmorece,--cáe, medita, Respira mais de espaço, cobra alento, E nas solidões de novo eil-o se entranha. Vestigios mal seguros sopra o vento, Ou nivella-os a chuva, ou relva os cobre: Talvez que folhas asperas de arbusto Mordão vellos da tunica, e denotem (Duvída o viajor, que os vê com pasmo) Que errante caminheiro alli passasse.
E eu parti!--Não chorei, que do meo pranto A larga fonte jaz de ha muito exhausta; Ha muito que os meos olhos não gotejão O repassado fel d’acre amargura; E o pranto no meo peito represado Em cinza o coração me ha convertido. É assim que um vulcão se torna fonte De lympha amarga e quente; e a fonte em ermo, Onde não crescem perfumadas flôres, Nem tenras aves seos gorgeios soltão, Nem triste viajor encontra abrigo.
Rasgado o coração de pena acerba, Transido de afflicções, cheio de magoa, Miserando parti! tal quando reprobo, Adão, cobrindo os olhos coas mãos ambas, Em meio a sua dôr só descobria Do Archanjo os candidissimos vestidos, E os lampejos da espada fulminante, Que o Eden tão mimoso lhe vedava. Porém quando algum dia o colorido Das vivas illusões, que inda conservo, Sem força esmorecer,--e as tão viçosas Esp’ranças, que eu educo, se afundarem Em mar de desenganos;--a desgraça Do naufragio da vida ha de arrojar-me Á praia tão querida, que ora deixo. Tal parte o desterrado: um dia as vagas Hão de os seos restos regeitar na praia, D’onde tão novo se partira, e onde Procura a cinza fria achar jazigo.
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SEGUNDOS CANTOS.
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CONSOLAÇÃO NAS LAGRIMAS.
Las lágrimas puras que entónces se vierten, Acaso divierten En vez de doler. ZORRILLA.
Como é bello á meia noite O azul do céo transparente, Quando a esphera d’alva lua Vagueia mui docemente, Quando a terra não ruidosa Toda se cala dormente, Quando o mar tranquillo e brando Na areia chora fremente!
Como é bello este silencio Da terra todo harmonia, Que aos céos a mente arrebata Cheia de meiga poesia! Como é bella a luz que brilha Do mar na viva ardentia! Este pranto como é doce Que entorna a melancolia!
Esta aragem como é branda Que enruga a face do mar, Que na terra passa e morre Sem nas folhas susurrar! Os sons d’aereo instrumento Quizera agora escutar, Quizera magoas pungentes Neste silencio olvidar!
O azul do céo, nem da lua A doce luz reflectida, Nem o mar beijando a praia, Nem a terra adormecida, Nem meigos sons, nem perfumes, Nem a brisa mal sentida, Nem quanto agrada e deleita, Nem quanto embelleza a vida;
Nada é melhor que este pranto Em silencio gotejado, Meigo e doce, e pouco e pouco Do coração despegado; Não soro de fel, mas sancto Frescor em peito chagado; Não espremido entre dores, Mas quasi em prazer coado!
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CANÇÃO.
Yo no soy mas que un poeta, Sin otro bien que mi lira. ZORRILLA.
Tenho uma harpa religiosa, Toda inteira fabricada De madeira preciosa Sobre o Libano cortada. Foi o Senhor quem m’a deo, De sanctas palmas coberta, Que as notas suas concerta Aos sons do salterio hebreo!
Tenho alaúde polido Em que antigos Trovadores, Em tom de guerra atrevido, Cantavão trovas de amores. Mas chegando a Sancta Cruz, De volta do meo desterro, Cortei-lhe as cordas de ferro, Cordas de prata lhe puz.
Tenho tão bem uma lyra De festões engrinaldada, Onde minha alma afinada Melindres d’amor suspira. Nas grinaldas, nos festões, Nas rosas com que s’inflora, Goteja o orvalho da aurora Dictámo dos corações.
Eis o que tenho, ó Donzella, Só harpa, alaúde e lyra; Nem vejo sorte mais bella, Nem coisa que lhe eu prefira. Votei assim ao meo Deos A minha harpa religiosa, A ti a lyra mimosa, O grave alaúde aos meos!
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LYRA.
Coeur sans amour est un jardin sans fleur. L. HALLEVY.
Se me queres a teos pés ajoelhado, Ufano de me ver por ti rendido, Ou já em mudas lagrimas banhado; Volve, impiedosa, Volve-me os olhos; Basta uma vez!
Se me queres de rojo sobre a terra, Beijando a fimbria dos vestidos teos, Calando as queixas que meo peito encerra, Dize-me, ingrata, Dize-me: eu quero! Basta uma vez!
Mas se antes folgas de me ouvir na lyra Louvor singelo dos amores meos, Por que minha alma ha tanto em vão suspira; Dize-me, ó bella, Dize-me: eu te amo! Basta uma vez!
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AGORA E SEMPRE.
Pone me pigris ubi nulla campis Arbor aestiva recreatur aura, ......................... Dulce ridentem Lalagen amabo, Dulce loquentem. HORACIO. OD.
Ponhão-me embora na crestada Libya, Ou lá nas zonas em que o gelo mora, Alli tua alma viverá commigo, Alli teo nome!
Ponhão-me em terras que leões só crião, Nas altas serras que o condor habita; Alli ainda viverá comtigo Minha alma ardente.
Faminto e triste na região deserta, Co’os pés em sangue de esfarpada estilha, Cortado o rosto de gelado vento, Madida a coma:
Alli aos urros do leão sedento, Aos crebros gritos do condor alpestre, Ardendo em chamas deste amor sem termo Direi: Eu te amo!
Duros ferrolhos de prisão medonha Escute embora sepultar-me em vida; Embora sinta roxear-me os pulsos Ferreas algemas;
Embora malhos de tortura infame Quebrem-me os ossos no medroso equuleo; Agudos dentes de tenaz raivosa Mordão-me as carnes:
Nas feias sombras da cruel masmorra, Nos duros tratos da tortura bruta, Quer só commigo, quer em meio ás gentes, Direi: Eu te amo!
Mas nunca o gelo, nem a fragoa ardente, Nem brutas feras, nem crueza humana Farão que eu soffra mais agudas dôres, Nem mais penadas!
Reclina-se outro em teo nevado seio, Cinge-te o corpo em divinaes caricias, Beija-te o collo, beija-te o sorriso, Goza-te e vive!
E eu no entanto extorso com dores! Praguejo o inferno que nos poz tão longe, Louco bravejo, misero soluço... Desejo e morro!
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A VIRGEM.
--Tiene mas de vaporosa sombra, De inefable vision que de mujer. ZORRILLA.
Linda virgem simelha a linda rosa, Que se abre ao romper d’alva; Encapellão-se as petalas mimosas, Lacradas de pudor com rubro sello: Cego mortal só lhe respira o incenso; Mas della a abelha extrahe seo mel mais puro.
Seo nobre coração é como um templo, Onde só Deos habita; Alli reina o misterio involto em sombras, E maga placidez involta em cantos: Só vê isto o profano; mas o antiste De Deos a sombra vê, e a voz lhe escuta.
É como um lago de marmoreo leito Sua alma ingenua e bella: No fundo não se enxerga o verde limo, E a lisa face nos amostra os astros. E onde o humilde pastor só vê luzeiros, Os anjos la dos céos contemplão mundos.
E se eu a vejo nos saráos ruidosos, C’roada de belleza, E a sombra da tristeza irresistivel Tingir-lhe o rosto, e desbotar-lhe o riso; Na mulher, que outros vêm, descubro o anjo, Que as azas d’oiro, que perdeo, lamenta!
Então como que sinto arrebatar-me, Sympathica attracção! Quizera doces carmes de ternura Nas mais delgadas cordas da minha Harpa Cantar-lhe, e assim dizer-lhe: «Um canto ao menos O acerbo exilio teo torne mais brando!»
Baldado empenho! Começado apenas, Afrouxa-se-me o canto; Debaixo dos meos dedos mal palpita A corda melindrosa da minha Harpa; E como em espaço, que até d’ar carece, Tangida, o extremo som morre sem echo!
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ROSA NO MAR!
Rosa, rosa de amor purpurea e bella, Quem entre os goivos te esfolhou da campa! GARRETT.
Por uma praia arenosa, Vagarosa Divagava uma Donzella; Dá largas ao pensamento, Brinca o vento Nos soltos cabellos della.
Leve ruga no semblante Vem n’um instante, Que n’outro instante se alisa; Mais veloz que a sua ideia Não volteia, Não gira, não foge a brisa.
No virginal devaneio Arfa o seio, Pranto ao riso se mistura; Doce rir dos céos encanto, Leve pranto, Que amargo não é, nem dura.
Nesse logar solitario, --Seo fadario,-- De ver o mar se recreia; De o ver, á tarde, dormente, Docemente Suspirar na branca areia.
Agora, qual sempre usava, Divagava Em seo pensar embebida; Tinha no seio uma rosa Melindrosa, De verde musgo vestida.
Ia a virgem descuidosa, Quando a rosa Do seio no chão lhe cahe: Vem um’onda bonançosa, Qu’impiedosa A flôr comsigo retrahe.
A meiga flôr sobrenada; De agastada, A virge’ a não quer deixar! Bóia a flôr; a virgem bella, Vai trás ella, Rente, rente--á beiramar.
Vem a onda bonançosa, Vem a rosa; Foge a onda, a flôr tão bem. Se a onda foge, a donzella Vai sobre ella! Mas foge, se a onda vem.
Muitas vezes enganada, De enfadada Não quer deixar de insistir; Das vagas menos se espanta, Nem com tanta Presteza lhes quer fugir.
N’isto o mar que se encapella A virgem bella Recolhe e leva comsigo; Tão fallaz em calmaria, Como a fria Polidez de um falso amigo.
Nas agoas alguns instantes, Fluctuantes Nadárão brancos vestidos: Logo o mar todo bonança, A praia cança Com monotonos latidos.
Um doce nome querido Foi ouvido, Ia a noite em mais de meia: Toda a praia perlustrárão, Nem achárão Mais que a flôr na branca areia.
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O AMOR.
Amare amabam. S. AGOST.
Amor! enlevo d’alma, arroubo, encanto Desta existencia misera, onde existes? Fino sentir ou magico transporte, (O quer que seja que nos leva a extremos, Aos quaes não basta a natureza humana;) Sympathica attracção d’almas sinceras Que unidas pelo amor, no amor se apurão, Por quem suspiro, serás nome apenas?
A inutil chamma reseccou meos labios, Mirrou-me o coração da vida em meio, E á terra fez baixar a mente errada Que entre nuvens, amor, por ti bradava! Não te pude encontrar!--em vão meos annos No louco intento esperdicei; gelados, Uns após outros á cahir precipites Na urna do passado os vi; eu triste, Amor, por ti clamava;--e o meo deserto Aos meos accentos reboava embalde.
Em vão meo coração por ti se fina, Em vão minha alma te compr’hende e busca, Em vão meos labios sofregos cubição Libar a taça que aos mortaes off’reces! Dizem-na funda, inexgotavel, meiga; Em quanto a vejo rasa, amarga e dura! Dizem-na balsamo, eu veneno a sorvo: Prazer, doçura,--eu dôr e fel encontro!
Dobrei-me ás duras leis que me impozeste, Curvei ao jugo teo meo collo humilde, Feri-me aos teos ardentes passadores, Prendi-me aos teos grilhões, rojei por terra... E o lucro?... forão lagrimas perdidas, Foi roxa cicatriz qu’inda conservo, Desbotada a illusão e a vida exhausta!
Celeste emanação, gratos effluvios Das roseiras do céo; bater macio Das azas auri-brancas d’algum anjo, Que roça em noite amiga a nossa esphera, Centelha e luz do sol que nunca morre; Es tudo, e mais do qu’isto:--es luz e vida, Perfume, e vôo d’anjo mal sentido, Peregrinas essencias trescalando!... Tão bem passas veloz,--breve te apagas, Como d’uma ave a sombra fugitiva, Desgarrada voando á flôr de um lago!
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SEMPRE ELLA.
Per noctem quaesivi, quam diligit anima mea, et non inveni illam. CANT. CANT.
Eu amo a doce virgem pensativa, Em cujo rosto a pallidez se pinta, Como nos céos a matutina estrella! A dôr lhe ha desbotado a côr das faces, E o sorriso que lhe roça os labios Murcha ledo sorrir nos labios d’outrem.
Tem um timbre de voz que n’alma echôa, Tem expressões d’angelica doçura, E a mente do que as ouve, se perfuma De amor profundo e de piedade sancta, E exala effluvios d’um odor suave De aloes, de myrrha ou de mais grato incenso.
E nessas horas, quando a mente afflicta, De dôr occulta remordida, anceia Desabrochar-se em confidencia amiga, «Neste mundo o que sou?--triste clamava; «Pérsica involta em pó, entre ruinas, «Erma e sosinha a resolver-me em pranto!
«Flôr desbotada em hastea já roída, «De cujo tronco as outras amarellas «Já rójão sobre o pó, já murchas pendem! «É sentir e soffrer a minha vida!» Merencoria dizia, erguendo os olhos Aos céos d’um claro azul, que lhes sorrião.
Náda o mudo alcyon por sobre os mares, E proximo a seo fim desata o canto; A rosa do Sarão lá se despenha Nas agoas do Jordão: e como a rosa, Como o cysne, do mar entre os perfumes, Aos sons d’uma Harpa interna ella morria!
E como o pastor que avista a linda rosa Nas agoas da corrente, e como o nauta Que vê, que escuta o cysne ir-se embalado Sobre as agoas do mar, cantando a morte; Eu tambem a segui--a rosa, o cysne, Que lá se foi sumir clima estranho.
E depois que os meos olhos a perdérão, Como se perde a estrella em céos infindos, Errei por sobre as ondas do oceano, Sentei-me a sombra das florestas virgens, Procurando apagar a imagem della, Que tão inteira me ficára n’alma!
Embalde aos céos erguendo os olhos turvos Meo astro procurei entre os mais astros, Qu’outr’ora amiga sina me fadára! Com brilho embaciado e luz incerta Nos ares se perdeo antes do occaso, Deixando me sem norte em mar d’angustias.
* * * * *
MIMOSA E BELLA. N’UM ALBUM.
De anno em anno se torna mais formosa, E novo brilho, novas graças cria. CALDAS.