Chapter 23 of 141 · 657 words · ~3 min read

VIII.

Só aquelle que da morte Soffreo o terrivel córte, Não tem dôres que supporte, Nem sonhos o acordarão: Gentil infante, engraçado, Que vives tão sem cuidado, Serás homem--mal peccado! Findará teo sonho então.

* * * * *

O PIRATA.

(EPISODIO.)

Nas azas breves do tempo Um anno e outro passou, E Lia sempre formosa Novos amores tomou.

Novo amante mão de esposo, De mimos cheia, lh’off’rece; E bella, apesar de ingrata, Do que a amou Lia se esquece.

Do que a amou que longe pára, Do que a amou, que pensa n’ella, Pensando encontrar firmeza Em Lia, que era tão bella!

N’esse palacio deserto Já luzes se vêm luzir, Que vem nas sedas, nos vidros Cambiantes reflectir.

Os echos alegres sôão, Sôa ruidosa harmonia, Sôão vozes de ternura, Sons de festa e d’alegria.

E qual ave que em silencio A face do mar desflora, Á noite bella fragata Chega ao porto, amaina, ancóra.

Cáe da popa e fere as ondas Inquieta, esguia falua, Que resvala sobre as agoas Na esteira que traça a lua.

Já na vacua praia toca; Um vulto em terra saltou, Que na longa escadaria Preságo e torvo enfiou.

Malfadado! por que aportas A este sitio fatal! Queres o brilho augmentar Das bodas do teo rival?

Não, que a vingança lhe range Nos duros dentes cerrados, Não, que a cabeça referve Em mãos projectos damnados!

Não, que os seos olhos bem dizem O que diz seo coração; Terriveis, como um espelho, Que retratasse um vulcão.

Não, que os labios descorados Vociferão seo rival; Não, que a mão no peito aperta Seo pontagudo punhal.

Não, por Deos, que taes affrontas Não as sóe deixar impunes, Quem tem ao lado um punhal, Quem tem no peito ciumes!

Subio!--e vio com seus olhos Ella a rir-se que dançava, Folgando, infame! nos braços Porque assim o assassinava.

E elle avançou mais avante, E vio ... o leito fatal! E vio ... e cheio de raiva Gravou no meio o punhal.

E avançou ... e á janella Sosinha a vio suspirar, --Saudosa e bella encarando A immensidade do mar.

Como se vira um espectro, De repente ella fugio! Tal foge a corça nos bosques Se leve rumor sentio.

Que foi?--Quem sabe dizel-o? Forão vislumbres de dôr; Coração, que tem remorsos, Sente continuo terror!

Elle á janella chegou-se, Horrivel nada encontrou... Sómente, ao longe, nas sombras, Sua fragata avistou.

Então pensou que no mundo Nada mais de seo contava! Nada mais que essa fragata! Nada mais de quanto amava!

Nada mais!...--que lh’importava De no mundo só se achar? Inda muito lhe ficava-- Agoa e céos e vento e mar.

Assim pensava, mas n’isto Descortina o seo rival, Não visto;--a mão na cintura Cingio raivosa o punhal!

Mas pensou...--não, seja d’ella, E tenha zelos como eu!-- Larga o punhal, e um retrato Na dextra mão estendeo.

Porém sentio que inda tinha Mais que branda compaixão; Miserando! inda guardava Seo amor no coração.

Infeliz! não foi culpada; Foi culpa do fado meo! Nada mais de pensar n’ella; Finjamos que ella morreo.

Por entre a turba que alegre No baile--a sorrir-se estava, Mudo, triste, e pensativo Surdamente se afastava.

De manhã--quando o saráu Apagava o seo rumor, Chegava Lia a janella, Mais formosa de pallor.

Chegou-se;--e além--no horisonte Uma vela inda avistou; E co’a mão tremula e fria O telescopio buscou!

Um pavilhão vio na pôpa, Que tinha um globo pintado; E no mastro da mesena Um negro vulto encostado.

Erão chorosos seos olhos, Os olhos seos enxugou; E o telescopio de novo Para essa vela apontou.

Quem em o vulto tão triste Parece reconheceo; Mas a vela no horisonte Para sempre se perdeo.

* * * * *

A VILLA MALDICTA, CIDADE DE DEOS.

AO SEO QUERIDO E AFFECTUOSO AMIGO

A. T. DE CARVALHO LEAL.

Peccata peccavit Jerusalem, et propter ea instabilis facta est; omnes qui glorificabant eam, spreverunt illam, quia viderunt ignominiam ejus; ipsa autem gemens conversa est retrorsum. LAMENT.