Chapter 40 of 141 · 755 words · ~4 min read

III.

Elle mandou que o sol fosse principio, E razão de existencia, Que fosse a luz dos homens--olho eterno Da sua providencia.

Mandou que a chuva refrescasse os membros, Refizesse o vigor Da terra hiante, do animal cançado Em praino abrasador.

Mandou que a brisa susurrasse amiga, Roubando aroma á flôr; Que os rochedos tivessem longa vida, E os homens grato amor!

Oh! como é grande e bom o Deos que manda Um sonho ao desgraçado, Que vive agro viver entre miserias, De ferros rodeado;

O Deos que manda ao infeliz que espere Na sua providencia; Que o justo durma, descançado e forte Na sua consciencia!

Que o assassino de continuo vele, Que trema de morrer; Em quanto lá nos céos, o que foi morto, Desfructa outro viver!

Oh! como é grande o Senhor Deos, que rege A maquina estrellada, Que ao triste dá prazer; descanço e vida Á mente atribulada!

* * * * *

O ROMPER D’ALVA.

Quand ta corde n’aurait qu’un son, Harpa fidèle, chante encore Le Dieu que ma jeunesse adore, Car c’est un hymne que son nom. LAMARTINE.

Do vento o rijo sopro as mansas ondas Varreo do immenso pego,--e o mar rugindo Ás nuvens se elevou com furia insana; Ennovelladas vagas se arrojárão Ao céo co’a branca espuma! Raivando em vão se encontrão soluçando Na base d’erma rocha descalvada; Em vão de furias crescem, que se quebra A força enorme do impotente orgulho Na rocha altiva ou na arenosa praia. Da tormenta o furor lhe accende os brios, Da tormenta o furor lh’enfreia as iras, Que em teimosos gemidos se descerrão; Da quieta noite despertando os echos Além, no valle humilde, onde não chega Seo sanhudo gemer, que o dia abafa.

Mas a brisa susurrando A face do céo varreo, Tristes nuvens espalhando, Que a noite em ondas verteo.

Além, atraz da montanha, Branda luz se patenteia, Que d’alma a dôr afugenta, Se dentro sentida anceia.

Branda luz, que afaga a vista, De que se ama o céo tingir, Quando entre o azul transparente Parece alegre sorrir;

Como es linda!--Como dobras Da vida a força e do amor! --Que tão bem luz dentro d’alma Teo luzir encantador!

No teo ameno silencio A tormenta se perdeo, E do mar a forte vida Nos abysmos se escondeo!

Porque assim de novo agora Que o vento o não vem toldar, Parece que vai queixoso Mansamente a soluçar?

Porque as ramas do arvoredo, Bem como as ondas do mar, Sem correr sopro de vento, Começão de murmurar?

Sobre o tapiz d’alta relva, --Rocio da madrugada-- Destilla gotas de orvalho A verde folha inclinada.

Renascida a natureza Parece sentir amor; Mais brilhante, mais viçosa O calix levanta a flôr.

Por entre as ramas occultas, Docemente a gorgear, Acordão trinando as aves, Alegres, no seo trinar.

O arvoredo n’essa lingoa Que diz, porque assim susurra? Que diz o cantar das aves? Que diz o mar que murmura?

--Dizem um nome sublime, O nome do que é Senhor, Um nome que os anjos dizem, O nome do Creador.

Tão bem eu, Senhor, direi Teo nome--do coração, E ajuntarei o meo hymno Ao hymno da creação.

Quando a dôr meo peito acanha, Quando me rala a afflicção, Quando nem tenho na terra Mesquinha consolação;

Tu, Senhor, do peso insano Livras meo peito arquejante, Seccas-me o pranto que os olhos Vertendo estão abundante.

Tu pacificas minha alma, Quando se rasga com pena, Como a noite que se esconde Na luz da manhã serena.

Tu es a luz do universo, Tu es o ser creador, Tu es o amor, es a vida, Tu es meo Deos, meo Senhor.

Direi nas sombras da noite, Direi ao romper da aurora: --Tu es o Deos do universo, O Deos que minha alma adora.

Tão bem eu, Senhor, direi Teo nome--do coração, E ajuntarei o meo hymno Ao hymno da creação.

* * * * *

A TARDE.

Ave Maria! blessed be the hour! The time, the clime, the spot where I so oft Have felt that moment in its fullest power Sink o’er the earth so beautiful and soft.... BYRON.

Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores, Mãe da meditação, meo doce encanto! Os rogos da minha alma emfim ouviste, E grato refrigerio vens trazer-lhe No teo remansear prenhe de enlevos! Em quanto de te ver gostão meos olhos, Em quanto sinto a minha voz nos labios, Em quanto a morte me não rouba á vida, Um hymno em teo louvor minha alma exhale, Oh tarde, oh bella tarde, oh meos amores!