III.
Ouvi depois um rodar que a todo o instante Mais distincto se ouvia; e logo um forte, Fascinador clarão por toda a rua Se derramou soberbo.--Infindos pagens Ricas librés trajando, mil archotes Nos ares revolvião;--fortes, rapidos, Fumegantes corseis, sorvendo a terra, Tiravão rica sege melindrosa. Sobre a terra saltou airosa e bella A dona, em frente do festivo paço; E a mendiga bradou:--Senhora minha, Dai uma esmola, dai!--Á voz dorida Volveo-se o rosto d’anjo, porém d’anjo Não era o coração;--foi-lhe importuno, Mais que importuno ... da mesquinha o grito! E da mendiga o protector celeste Parecia fallar em favor d’ella; E a rica dona o escutava, como Se ouvisse a interna voz que dentro mora. E eu dizia tambem:--Ó bella Dona, Dai-lhe uma esmola, dai;--de que vos serve Um óbolo mesquinho, que não póde Siquer um diche sem valor comprar-vos? Ah! bella como sois, que vos importão Custosas flôres, com que ornais a fronte? Para a salvar do vortice do crime, O preço d’ellas, de uma só, da coisa, Que sem valor julgardes, é bastante. Sabeis?--Além da vida, além da morte, Quando deixardes o oiropel na campa, Quando subirdes do Senhor ao throno, Sem andrajos siquer, tambem mendiga, Alli tereis as lagrimas do pobre, A benção do affligido, a prece ardente Do que soffrendo vos bemdice,--ó Dona... ........................................ Fechou-se a porta festival sobre ella! E a donzella se ergueo, córou de pejo, Lançando os olhos pela rua escusa, E segura no andar, e firma, á porta Do palacio bateo--entrou--sumio-se.
E o anjo, como afflicto sob um peso, Um gemido soltou; era uma nota Melancolica e triste,--era um suspiro Mavioso de virgem,--um soído Subtil, mimoso, como d’Harpa Eolia, Que a brisa da manhã roçou medrosa.