Chapter 140 of 141 · 430 words · ~2 min read

IV.

Largo espaço de terras estrangeiras E de climas inhospitos e duros Interpoz-se entre nós!--Ao ver nublado Um céo d’inverno e as arvores sem folhas, De neve as altas serras branqueadas, E entre esta natureza fria e morta A espaços derramadas pelos valles Triste oliveira, ou funebre cypreste, O coração se me apertou no peito. Arrasados de lagrimas os olhos, Segui no pensamento as andorinhas, Nos invejados vôos!--procuravão, Como eu tambem nos sonhos que mentião, A terra que um sol calido vigora, E em frouxa languidez estende os nervos. Patria da luz, das flores!--nunca eu veja O sol, que adoro tanto, ir afundar-se Nestes da Europa revoltosos mares; Nem tibia lua, involta em nuvens densas, Luzindo mortuaria sobre os campos De frios sues queimados.--Ai! dizia, Ai d’aquelle que um fado aventureiro, Qual destroço de misero naufragio, A longinqua e remota plaga arroja! Ai d’aquelle que em terras estrangeiras Corta nas azas do desejo o espaço, Em quanto a realidade o vexa entorno E oppresso o coração de dôr estala! Onde a pedra, onde o seio em que descance? Que arbusto ha de prestar-lhe grata sombra E olentes flores derramar co’a brisa Na fronte encandecida? Peregrino, Em toda a parte forasteiro o chamão! Insensivel a dôr, na sua marcha, Não, não attende ao termo da jornada; Mas volta atraz o rosto,--e entre as sombras Confusas do horisonte--encherga apenas O debil fio da esperança teso, E da ingrata distancia adelgaçado!

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E todavia amei! pude um momento Vêr perto a doce imagem debruçada Nas aguas do Mondego,--ouvir-lhe um terno Suspiro do imo peito, mais ameno, Mais saudoso que as auras encantadas, Que entre os seus salgueiraes morão loquaces! Foi um momento só!--talvez agora Nas mesmas aguas se repete imagem Dos meus sonhos de então!--talvez a brisa, Nas folhas dos salgueiros murmurando, Meu nome junto ao seu repete aos echos, Que eu, triste e longe della, escuto ainda!

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Sim, amei; fosse embora um só momento! Meu sangue, requeimado ao sol dos tropicos, Em vivas labaredas conflagrou-se. Feliz n’aquelle incendio ardeo minha alma, Um anno, talvez mais! Qual foi primeiro A soltar, a romper tão doces laços Não podera dizel-o, em que o quizesse. Tão louco estava então,--dores tão cruas, Magoas tantas depois me acabrunharão, Que desse meu passado extincta a idéa, Deixou-me apenas um soffrer confuso, Como quem de um máo sonho se recorda! Assim, depois de arder um denso bosque Dos ventos a mercê revôa a cinza N’um paramo deserto! Nada resta; Nem se quer a vereda solitaria, A cuja extremidade o amor velava!