III.
Pelas ondas do mar sem limites Basta selva, sem folhas, hi vem; Hartos troncos, robustos, gigantes; Vossas matas taes monstros contêm.
Trás embira dos cimos pendente --Brenha espessa de vario cipó-- Dessas brenhas contêm vossas matas, Taes e quaes, mas com folhas; é só!
Negro monstro os sustenta por baixo, Brancas azas abrindo ao tufão, Como um bando de candidas garças, Que nos ares pairando--lá vão.
Oh! quem foi das entranhas das aguas, O marinho arcabouço arrancar? Nossas terras demanda, fareja... Esse monstro...--o que vem cá buscar?
Não sabeis o que o monstro procura? Não sabeis a que vem, o que quer? Vem matar vossos bravos guerreiros, Vem roubar-vos a filha, a mulher!
Vem trazer-vos crueza, impiedade-- Dons crueis do cruel Anhangá; Vem quebrar-vos a maça valente, Profanar Manitôs, Maracás.
Vem trazer-vos algemas pesadas, Com que a tribu Tupi vai gemer; Hão de os velhos servirem de escravos, Mesmo o Piaga inda escravo ha de ser!
Fugireis procurando um asilo, Triste asilo por invio sertão; Anhangá de prazer ha de rir-se, Vendo os vossos quão poucos serão.
Vossos Deoses, ó Piaga, conjura, Susta as iras do fero Anhangá. Manitôs já fugirão da Taba, Ó desgraça! ó ruina! ó Tupá!
* * * * *
O CANTO DO INDIO.
Quando o sol vae dentro d’agoa Seos ardores sepultar, Quando os passaros nos bosques Principião a trinar;
Eu a vi, que se banhava.... Era bella, ó Deoses, bella, Como a fonte cristallina, Como luz de meiga estrella.
Ó Virgem, Virgem dos Christãos formosa, Porque eu te visse assim, como te via, Calcára agros espinhos sem queixar-me, Que antes me dera por feliz de ver-te.
O tacápe fatal em terra estranha Sobre mim sem temor veria erguido; Dessem-me a mim sómente vêr teo rosto Nas agoas, como a lua, retratado.
Eis que os seos loiros cabellos Pelas agoas se espalhavão, Pelas agoas, que de vel-os Tão loiros se enamoravão.
Ella erguia o collo eburneo, Porque melhor os colhesse; Niveo collo, quem te visse, Que de amores não morresse!
Passára a vida inteira a contemplar-te, Ó Virgem, loira Virgem tão formosa, Sem que dos meos irmãos ouvisse o canto, Sem que o som do Boré que incita á guerra Me infiltrasse o valor que m’has roubado, Ó Virgem, loira Virgem tão formosa.
As vezes, quando um sorriso Os labios seos entreabria, Era bella, oh! mais que a aurora Quando a raiar principia.
Outra vez--d’entre os seos labios Uma voz se desprendia; Terna voz, cheia de encantos, Que eu entender não podia.
Que importa? Esse fallar deixou-me n’alma Sentir d’amores tão sereno e fundo, Que a vida me prendeo, vontade e força. Ah! que não queiras tu viver commigo, Ó Virgem dos Christãos, Virgem formosa!
Sobre a areia, já mais tarde, Ella surgio toda núa; Onde ha, ó Virgem, na terra Formosura como a tua?
Bem como gotas de orvalho Nas folhas de flôr mimosa, Do seo corpo a onda em fios Se deslizava amorosa.
Ah! que não queiras tu vir ser rainha Aqui dos meos irmãos, qual sou rei delles! Escuta, ó Virgem dos Christãos formosa. Odeio tanto aos teos, como te adóro; Mas queiras tu ser minha, que eu prometto Vencer por teo amor meo odio antigo, Trocar a maça do poder por ferros E ser, por te gozar, escravo delles.
* * * * *
CACHIAS.
Quanto es bella, ó Cachias!--no deserto, Entre montanhas, derramada em valle De flores perennaes, Es qual tenue vapor que a brisa espalha No frescor da manhã meiga soprando Á flor de manso lago.
Tu es a flor que despontaste livre Por entre os troncos de robustos cédros, Forte--em gleba inculta; Es qual gazella, que o deserto educa, No ardor da sésta debruçada exangue Á margem da corrente.
Em molle seda as graças não escondes, Não cinges d’oiro a fronte que descanças Na base da montanha;
Es bella como a virgem das florestas, Que no espelho das aguas se contempla, Firmada em tronco annoso.
Mas dia inda virá, em que te pejes Dos, que ora trajas, simplices ornatos E amavel desalinho: Da pompa e luxo amiga, hão de cahir-te Aos pés então--da poesia a c’roa E da innocencia o cinto.
* * * * *
DEPRECAÇÃO.
Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto Com denso velamen de pennas gentis; E jazem teos filhos clamando vingança Dos bens que lhes déste da perda infeliz!
Tupan, ó Deos grande! teo rosto descobre: Bastante soffremos com tua vingança! Já lagrimas tristes chorárão teos filhos, Teos filhos que chórão tão grande mudança.
Anhangá impiedoso nos trouxe de longe Os homens que o raio manejão cruentos, Que vivem sem patria, que vagão sem tino Tras do ouro correndo, voraces, sedentos.
E a terra em que pisão, e os campos e os rios Que assaltão, são nossos; tu es nosso Deos: Por que lhes concedes tão alta pujança, Se os raios de morte, que vibrão, são teos?
Tupan, ó Deos grande! cobriste o teo rosto Com denso velamen de pennas gentis; E jazem teos filhos clamando vingança Dos bens que lhes déste da perda infeliz.
Teos filhos valentes, temidos na guerra, No albor da manhã quão fortes que os vi! A morte pousava nas plumas da frexa, No gume da maça, no arco Tupi!
E hoje em que apenas a enchente do rio Cem vezes hei visto crescer e baixar... Já restão bem poucos dos teos, qu’inda possão Dos seos, que já dormem, os ossos levar.
Teos filhos valentes causavão terror, Teos filhos enchião as bordas do mar, As ondas coalhavão de estreitas igáras, De frexas cobrindo os espaços do ar.
Já hoje não cáção nas matas frondosas A corça ligeira, o trombudo coati... A morte pousava nas plumas da frexa, No gume da maça, no arco Tupi!
O Piaga nos disse que breve seria, A que nos infliges cruel punição; E os teos inda vagão por serras, por valles, Buscando um asilo por invio sertão!
Tupan, ó Deos grande! descobre o teo rosto: Bastante soffremos com tua vingança! Já lagrimas tristes chorárão teos filhos, Teos filhos que chórão tão grande tardança.
Descobre o teo rosto, resurjão os bravos, Que eu vi combatendo no albor da manhã; Conheção-te os feros, confessem vencidos Que es grande e te vingas, qu’es Deos, ó Tupan!
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POESIAS DIVERSAS.
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A LEVIANA.
Souvent femme varie, Bien fol est qui s’y fie. FRANCISCO I.
Es engraçada e formosa Como a rosa, Como a rosa em mez d’Abril; Es como a nuvem doirada Deslisada, Deslisada em céos d’anil.
Tu es vária e melindrosa, Qual formosa Borboleta n’um jardim, Que as flores todas afaga, E divaga Em devaneio sem fim.
Es pura, como uma estrella Doce e bella, Que treme incerta no mar; Mostras nos olhos tua alma Terna e calma, Como a luz d’almo luar.
Tuas formas tão donosas, Tão airosas, Formas da terra não são; Pareces anjo formoso, Vaporoso, Vindo da etherea mansão.
Assim, beijar-te receio, Contra o seio Eu tremo de te apertar; Pois me parece que um beijo É sobejo Para o teo corpo quebrar.
Mas não digas que es so minha! Passa azinha A vida, como a ventura, Que te não vejão brincando, E folgando Sobre a minha sepultura.
Tal os sepulcros colora Bella aurora De fulgores radiante; Tal a vaga maripôsa Brinca e pousa D’um cadaver no semblante.
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A MINHA MUSA.
Gratia, Musa, tibi; nam tu solatia praebes. OVIDIO.
Minha Musa não é como nympha Que se eleva das agoas--gentil-- Co’um sorriso nos labios mimosos, Com requebros, com ar senhoril.
Nem lhe pouza nas faces redondas Dos fagueiros anhelos a cor; N’esta terra não tem uma esp’rança, N’esta terra não tem um amor.
Como fada de meigos encantos, Não habita um palacio encantado, Quer em meio de matas sombrias, Quer á beira do mar levantado.
Não tem ella uma senda florida, De perfumes, de flores bem cheia, Onde vague com passos incertos, Quando o céo de luzeiros se arreia.
* * * * *
Não é como a de Horacio a minha Musa; Nos soberbos alpendres dos Senhores Não é que ella reside; Ao banquete do grande em lauta mesa, Onde gira o falerno em taças d’oiro, Não é que ella preside.
Ella ama a solidão, ama o silencio, Ama o prado florido, a selva umbrosa E da rola o carpir. Ella ama a viração da tarde amena, O susurro das agoas, os accentos De profundo sentir.
D’Anacreonte o genio prazenteiro, Que de flores cingia a fronte calva Em brilhante festim, Tomando inspirações á doce amada, Que leda lh’enflorava a eburnea lyra; De que me serve, a mim?
Canções que a turba nutre, inspira, exalta Nas cordas magoadas me não pousão Da lyra de marfim. Correm meos dias, lacrimosos, tristes, Como a noite que estende as negras azas Por céo negro e sem fim.
É triste a minha Musa, como é triste O sincero verter d’amargo pranto D’orfã singela; É triste como o som que a brisa espalha, Que cicia nas folhas do arvoredo Por noite bella.
É triste como o som que o sino ao longe Vai perder na extensão d’ameno prado Da tarde no cahir, Quando nasce o silencio involto em trevas, Quando os astros derramão sobre a terra Merencorio luzir.
Ella então, sem destino, erra por valles, Erra por altos montes, onde a enchada Fundo e fundo cavou; E pára; perto, jovial pastora Cantando passa--e ella scisma ainda Depois que esta passou.
Alem--da chóça humilde s’ergue o fumo Que em risonha spiral se eleva ás nuvens Da noite entre os vapores; Muge solto o rebanho; e lento o passo, Cantando em voz sonora, porém baixa, Vêm andando os pastores.
Outras vezes tambem, no cemiterio, Incerta volve o passo, soletrando Recordações da vida; Roça o negro cipreste, calca o musgo, Que o tempo fez brotar por entre as fendas Da pedra carcomida.
Então corre o meo pranto muito e muito Sobre as humidas cordas da minha Harpa, Que não resôão; Não chóro os mortos, não; chóro os meos dias, Tão sentidos, tão longos, tão amargos, Que em vão se escôão.
Nesse pobre cemiterio Quem já me dera um logar! Esta vida mal vivida Quem já m’a dera acabar!
Tenho inveja ao pegureiro, Da pastora invejo a vida, Invejo o somno dos mortos Sob a lage carcomida.
Se qual pegão tormentoso, O sopro da desventura Vae bater potente á porta De sumida sepultura;
Uma voz não lhe responde, Não lhe responde um gemido, Não lhe responde uma prece, Um ai--do peito sentido.
Já não têm voz com que fallem, Já não têm que padecer; No passar da vida á morte Foi seo extremo soffrer.
Que lh’importa a desventura? Ella passou, qual gemido Da brisa em meio da mata De verde alecrim florido.
Quem me dera ser como elles! Quem me dera descansar! Nesse pobre cemiterio Quem me dera o meo logar, E co’os sons das Harpas d’anjos Da minha Harpa os sons casar!
* * * * *
DESEJO.
E poi morir. METASTASIO.
Ah! que eu não morra sem provar, ao menos Siquer por um instante, nesta vida Amor igual ao meo! Dá, Senhor Deos, que eu sobre a terra encontre Um anjo, uma mulher, uma obra tua, Que sinta o meo sentir; Uma alma que me entenda, irmã da minha, Que escute o meo silencio, que me siga Dos ares na amplidão! Que em laço estreito unidas, juntas, presas, Deixando a terra e o lodo, aos céos remontem N’um extasis de amor!
* * * * *
SEOS OLHOS.
Oh! rouvre tes grande yeux dont la paupière tremble, Tes yeux pleins de langueur; Leur regard est si beau quand nous sommes ensemble! Rouvre-les; ce regard manque à ma vie, il semble Que tu fermes ton coeur. TURQUETY.
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, De vivo luzir, Estrellas incertas, que as agoas dormentes Do mar vão ferir;
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, Tem meiga expressão, Mais doce que a briza,--mais doce que o nauta De noite cantando,--mais doce que a frauta Quebrando a soidão,
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, De vivo luzir, São meigos infantes, gentis, engraçados Brincando a sorrir.
São meigos infantes, brincando, saltando Em jogo infantil, Inquietos, travêssos;--causando tormento, Com beijos nos págão a dôr de um momento, Com modo gentil.
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, Assim é que são; A vezes luzindo, serenos, tranquillos, As vezes vulcão!
As vezes, oh! sim, derramão tão fraco, Tão frouxo brilhar, Que a mim me parece que o ar lhes fallece, E os olhos tão meigos, que o pranto humedece, Me fazem chorar.
Assim lindo infante, que dorme tranquillo, Desperta a chorar; E mudo e sisudo, scismando mil coisas, Não pensa--a pensar.
Nas almas tão puras da virgem, do infante, As vezes do céo Cae doce harmonia d’uma Harpa celeste, Um vago desejo; e a mente se véste De pranto co’um véo.
Quer sejão saudades, quer sejão desejos Da patria melhor; Eu amo seos olhos que chórão sem causa Um pranto sem dôr.
Eu amo seos olhos tão negros, tão puros, De vivo fulgor; Seos olhos que exprimem tão doce harmonia, Que fallão de amores com tanta poesia, Com tanto pudor.
Seos olhos tão negros, tão bellos, tão puros, Assim é que são; Eu amo essos olhos que fallão de amores Com tanta paixão.
* * * * *
INNOCENCIA.
Sans nommer le nom qu’il faut bénir et taire. S. BEUVE.
Ó meo anjo, vem correndo, Vem tremendo Lançar-te nos braços meos; Vem depressa, que a lembrança Da tardança Me aviva os rigores teos.
Do teo rosto, qual marfim, De carmim Tinge um nada a côr mimosa; É bello o pudor, mas chóro, E deploro Que assim sejas tão medrosa.
Por innocente tens medo De tão cedo, De tão cedo ter amor; Mas sabe que a formosura Pouco dura, Pouco dura, como a flôr.
Corre a vida pressurosa, Como a rosa, Como a rosa na corrente. Amanhã terás amor? Como a flôr, Como a flôr fenece a gente.
Hoje ainda es tu donzella Pura e bella, Cheia de meigo pudor; Amanhã menos ardente De repente Talvez sintas meo amor.
* * * * *
PEDIDO.
Hontem no baile Não me attendias! Não me attendias, Quando eu fallava.
De mim bem longe Teo pensamento! Teo pensamento, Bem longe errava.
Eu vi teos olhos Sobre outros olhos! Sobre outros olhos, Que eu odiava.
Tu lhe sorriste Com tal sorriso! Com tal sorriso, Que apunhalava.
Tu lhe fallaste Com voz tão doce! Com voz tão doce, Que me matava.
Oh! não lhe falles, Não lhe sorrias, Se então só qu’rias Exp’rimentar-me.
Oh! não lhe falles, Não lhe sorrias, Não lhe sorrias, Que era matar-me.
* * * * *
O DESENGANO.
Já vigilias passei namorado, Doces horas d’insomnia passei, Já meos olhos, d’amor fascinado, Em vêr só meo amor empreguei.
Meo amor era puro, extremoso, Era amor que meo peito sentia, Erão lavas de um fogo teimoso, Erão notas de meiga harmonia.
Harmonia era ouvir sua voz, Era ver seo sorriso harmonia; E os seos modos e gestos e ditos Erão graças, perfume e magia.
* * * * *
E o que era o teo amor, que me embalava Mais do que meigos sons de meiga lyra? Um dia o decifrou--não mais que um dia-- Fingimento e mentira!
Tão bello o nosso amor!--foi só de um dia, Como uma flôr! Porque tão cedo o talisman quebraste Do nosso amor?
Porque n’um só instante assim partiste Essa annosa cadeia? De bom grado a soffreste! essa lembrança Inda hoje me recreia.
Quão insensato fui!--busquei firmeza, Qual em ondas de areia movediça, Na mulher,--não achei! E da esp’rança, que eu via tão donosa Sorrir dentro em minha alma, as longas azas Doido e nescio cortei!
E tu vás caprixosa proseguindo Essa esteira de amor, que julgas cheia De flôres bem gentis; Pódes ir, que os meos olhos te não vejão; Longe, longe de mim, mas que em minha alma Eu sinta qu’es feliz.
Pódes ir, que é desfeito o nosso laço, Pódes ir, que o teo nome nos meos labios Nunca mais soará! Sim, vai;--mas este amor que me atormenta, Que tão grato me foi, que me é tão duro, Commigo morrerá!
Tão bello o nosso amor!--foi só de um dia Como uma flôr! Oh! que bem cedo o talisman quebraste Do nosso amor!
* * * * *
MINHA VIDA E MEOS AMORES.
Mon Dieu, fais que je puisse aimer! S. BEUVE.
Quando, no albor da vida, fascinado Com tanta luz e brilho e pompa e gallas, Vi o mundo sorrir-me esperançoso: --Meo Deos, disse entre mim, oh! quanto é doce, Quanto é bella esta vida assim vivida!-- Agora, logo, aqui, além, notando Uma pedra, uma flôr, uma lindeza, Um seixo da corrente, uma conxinha A beiramar colhida!
Foi esta a infancia minha; a juventude Fallou-me ao coração:--amemos, disse, Porque amar é viver. E esta era linda, como é linda a aurora No fresco da manhã tingindo as nuvens De rosea côr fagueira; Aquella tinha um quê de anhelos meigos Artifice sublime; Feiticeiro sorrir dos labios della Prendeo-me o coração;--julguei-o ao menos.
Aquella outra sorria tristemente, Como um anjo no exilio, ou como o calix De flôr pendida e murcha e já sem brilho. Humilde flôr tão bella e tão cheirosa, No seo deserto perfumando os ventos. --Eu morrêra feliz, dizia eu d’alma, Se podesse enxertar uma esperança N’aquella alma tão pura e tão formosa, E um alegre sorrir nos labios della.
A fugaz borboleta as flôres todas Elege, e liba e uma e outra, e foge Sempre em novos amores enlevada; N’este meo paraiso fui como ella, Inconstante vagando em mar de amores.
O amor sincero e fundo e firme e eterno, Como o mar em bonança meigo e doce, Do templo como a luz perenne e sancto, Não, nunca o senti;--somente o viço Tão forte dos meos annos, por amores Tão faceis quanto indi’nos fui trocando.
Quanto fui louco, ó Deos!--Em vez do fructo Sasonado e maduro, que eu podia Como em jardim colher, mordi no fructo Putrido e amargo e rebuçado em cinzas, Como infante glotão, que se não senta Á mesa de seos paes.
Dá, meo Deos, que eu possa amar, Dá que eu sinta uma paixão, Torna-me virgem minha alma, E virgem meo coração.
Um dia, em qu’eu sentei-me junto della, Sua voz murmurou nos meos ouvidos, --Eu te amo!--Ó anjo, que não possa eu crer-te! Ella, certo, não é mulher que vive Nas fezes da deshonra, em cujos labios Só mentira e traição eterno habitão. Tem uma alma innocente, um rosto bello, E amor nos olhos...--mas não posso crê-la.
Dá, meo Deos, que eu possa amar, Dá que eu sinta uma paixão; Torna-me virgem minha alma, E virgem meo coração.
Outra vez que lá fui, que a vi, que a medo Terna voz lhe escutei:--Sonhei comtigo! Ineffavel prazer banhou meo peito, Senti delicias; mas a sós commigo Pensei--talvez!--e já não pude crê-la. Ella tão meiga e tão cheia de encantos, Ella tão nova, tão pura e tão bella... Amar-me!--Eu que sou? Meos olhos enxérgão, em quanto duvída Minha alma sem crença, de força exhaurida, Já farta da vida, Que amor não doirou.
Máo grado meo, crer não posso, Máo grado meo que assim é; Queres ligar-te commigo Sem no amor ter crença e fé?
Antes vai collar teo rosto, Collar teo seio nevado Contra o rosto mudo e frio, Contra o seio d’um finado.
Ou supplíca a Deos commigo Que me dê uma paixão; Que me dê crença á minha alma, E vida ao meo coração.
* * * * *
RECORDAÇÃO.
Nessun maggior dolore.... DANTE.
Quando em meo peito as afflicções rebentão Eivadas de soffrer acerbo e duro; Quando a desgraça o coração me arrocha Em circulos de ferro, com tal força, Que delle o sangue em borbotões golfeja; Quando minha alma de soffrer cançada, Bem que affeita a soffrer, siquer não pode Clamar: Senhor piedade;--e que os meos olhos Rebeldes, uma lagrima não vertem Do mar d’angustias que meo peito opprime:
Volvo aos instantes de ventura, e penso Que a sós comtigo, em pratica serena, Melhor futuro me augurava, as doces Palavras tuas, sofregos, attentos Sorvendo meos ouvidos,--nos teos olhos Lendo os meos olhos tanto amor, que a vida Longa, bem longa, não bastára ainda Porque de os ver me saciasse!... O pranto Então dos olhos meos corre espontaneo, Que não mais te verei.--Em tal pensando De martyrios calar sinto em meo peito Tão grande plenitude, que a minha alma Sente amargo prazer de quanto soffre.
* * * * *
TRISTEZA.
Que leda noite!--Este ar embalsamado, Este silencio harmonico da terra Que sereno prazer n’alma cançada Não expreme, não filtra, não diffunde? A brisa lá susurra na folhagem D’espessas matas, d’arvores robustas, Que velão sempre e sós, que a Deos elevão Mysterioso côro, que do Bardo A crença quasi morta inda alimenta. É esta a hora magica de encantos, Hora d’inspirações dos céos descidas, Que em delirio de amor aos céos remontão.
Aqui da vida as lastimas infindas, Do myrrado egoismo a voz ruidosa Não chegão; nem soluços, risos, festas, --Hilaridade vã de turba incauta, Nescia de ruim futuro; ou queixa amarga Do decrepito velho, enfermo, exangue, Nem do mancebo os ais doídos, preso Ao leito do soffrer na flôr da vida.
Aqui reina o silencio, o religioso, Morno socego, que povôa as ruinas, E o mausoléo soberbo, carcomido, E o templo magestoso, em cuja nave Suspira ainda a nota maviosa, O derradeiro arfar d’orgão solemne.
Em puro céo a lua resplandece, Melancolica e pura, simelhando Gentil viuva que pranteia o extincto, O bello esposo amado, e vem de noite, Vivendo pelo amor, máo grado a morte, Ferventes orações chorar sobre elle.
Eu amo o céo assim, sem uma estrella, Azul sem mancha,--a lua equilibrada N’um céo de nuvens, e o frescor da tarde, E o silencio da noite adormecida, Que imagens vagas de prazer desenha. Amo tudo o que dá no peito e n’alma Tregoas ao recordar, tregoas ao pranto, Á v’hemencia da dôr, á pertinacia Tenaz e acerba de crueis lembranças; Amo estar só com Deos, porque nos homens Achar não pude amor, nem pude ao menos Signal de compaixão achar entre elles.
Menti!--um inda achei; mas este em ocio Feliz descança agora, em quanto aos ventos E ao cru furor das verde-negras ondas Da minha vida a barca aventureira Insano confiei; em céo diverso Luzem com luz diversa estrellas d’ambos. Ai! triste, que houve tempo em que eu julgava As duas uma só,--co’o mesmo brilho Uma e outra nos céos meigas brilhavão! Hoje scintilla a delle, em quanto a minha Entre nuvens, sem luz, se perde agora. Meo Deos, foi bom assim! No immenso pégo Mais uma gota d’amargor que importa? Que importa o fel na taça do absyntho, Ou uma dôr de mais onde outras reinão?
* * * * *
O TROVADOR.
Elle cantava tudo o que merece de ser cantado; o que ha na terra de grande e de sancto--o amor e a virtude.--
N’uma terra antigamente Existia um Trovador; Na Lyra sua innocente Só cantava o seo amor.
Nenhum saráo se acabava Sem a Lyra de marfim, Pois cantar tão alto e doce Nunca alguem ouvira assim.
E quer donzella, quer dona, Que sentira commoção Pular-lhe n’alma, escutando Do Trovador a canção;
De jasmins e de açucenas A fronte sua adornou; Mas só a rosa da amada Na Lyra amante poisou.
E o Trovador conheceo Que era trahido--por fim; Poz-se a andar, e só se ouvia Nos seus labios: ai de mim!
Enlutou de negro fumo A rosa de seo amor, Que meia occulta se via Na gorra do Trovador;
Como virgem bella, morta Da idade na linda flôr, Que parece, o dó trajando, Inda sorrir-se de amor.
No meio do seo caminho Gentil donzella encontrou: Canta--disse; e as cordas d’oiro Vibrando, a triste cantou.
«Teo rosto engraçado e bello «Tem a lindeza da flôr; «Mas é risonho o teo rosto: «Não tens de sentir amor!
«Mas tão bem por esse dia «Que viverás, como a flôr, «Mimosa, engraçada e bella, «Não tens de sentir amor!
«Oh! não queiras, por Deos, homem que tenha «Tingida a larga testa de pallor; «Sente fundo a paixão,--e tu no mundo «Não tens de sentir amor!
«Sorriso jovial te enfeita os labios, «Nas faces de jasmim tens rosea côr; «Fundo amor não se ri, não é corado... «Não tens de sentir amor;
«Mas se queres amar, eu te aconselho, «Que não guerreiro, escolhe um trovador, «Que não tem um punhal, quando é trahido, «Que vingue o seu amor.»
Do Trovador pelo rosto Torva raiva se espalhou, E a Lyra sua, tremendo, Sem cordas d’oiro ficou.
Mais além no seo caminho Donzel garboso encontrou: Canta--disse; e argenteas cordas Pulsando, o triste cantou.
«Aos homens da mulher enganão sempre «O sorriso, o amor; «É este breve, como é breve aquelle «Sorriso enganador.
«Teo peito por amor, Donzel, suspira, «Que é de jovens amar a formosura; «Mas sabe que a mulher, que amor te jura, «Dos lindos labios seos cospe a mentira!
«Já frenetico amor cantei na lyra, «Delicias já sorvi n’um seo sorriso, «Já venturas fruí do paraiso, «Em terna voz de amor, que era mentira!
«O amor é como a aragem que murmura «Da tarde no cahir--pela folhagem; «Não volta o mesmo amor á formosura, «Bem como nunca volta a mesma aragem.
«Não queiras amar, não; pois que a ’sperança «Se arroja além do amor por largo espaço. «Tens, brillando ao sol, a forte lança, «Tens longa espada scintillante d’aço.
«Tens a fina armadura de Milão, «Tens luzente e brillante capacete, «Tens adága e punhal e bracelete «E, qual lúcido espelho, o morrião.
«Tens fogoso corsel todo arreiado, «Que mais veloz que os ventos sorve a terra; «Tens duellos, tens justas, tens torneios, «Que os fracos corações de medo cerra; «Tens pagens, tens varletes e escudeiros «E a marcha afoita, apercebida em guerra «Do luzido esquadrão de mil guerreiros.
«Oh! não queiras amar!--Como entre a neve «O gigante volcão borbulha e ferve «E sulfurea chamma pelos ares lança, «Que após o seo cahir torna-se fria; «Assim tu acharás petrificada, «Bem como a lava ardente do volcão, «A lava que teo peito consumia «No peito da mulher--ou cinza ou nada-- «Não frio mas gelado o coração!»
E o Trovador despeitoso De prata as cordas quebrou, E nas de chumbo seo fado A lastimar começou.
«Que triste que é n’este mundo «O fado d’um Trovador! «Que triste que é!--bem que tenha «Sua Lyra e seu amor.
«Quando em festejos descanta, «Rasgado o peito com dôr, «Mimoso tem de cantar «Na sua Lyra--o amor!
«Como a um servo vil ordena «Um orgulhoso Senhor, «Canta, diz-lhe; quero ouvir-te: «Quero descantes de amor!
«Diz-lhe o guerreiro, que apenas «Lidou em justas de amor: «--Minha dama quer ouvir-te, «Canta, truão trovador!--
«Manda a mulher que nos deixa «De beijos murchada flôr: «--Canta, truão, quero ouvir-te, «Um terno canto de amor!
«Mas se a mulher, que elle adora «Atraiçôa o seo amor; «Embalde busca a seo lado «Um punhal--o Trovador!
«Se escuta palavras della, «Que a outros jurão amor; «Embalde busca a seo lado «Um punhal--o Trovador!
«Se vê luzir de alguns labios «Um sorriso mofador; «Embalde busca a seo lado «Um punhal--o Trovador!
«Que triste que é n’este mundo «O fado d’um Trovador! «Pezar lhe dá sua Lyra, «Dá-lhe pezar seo amor!»
E o Trovador n’este ponto A corda extrema arrancou; E n’um marco do caminho A Lyra sua quebrou: Ninguem mais a voz sentida Do Trovador escutou!
* * * * *
AMOR! DELIRIO--ENGANO.
Y el llanto que en su cólera derrama, La hoguera apaga del antiguo amor! ZORRILLA.
Amor! delirio--engano.... Sobre a terra Amor tão bem fruí; a vida inteira Concentrei n’um só ponto--ama-la, e sempre. Amei!--dedicação, ternura, extremos Scismou meo coração, scismou minha alma, --Minha alma que na taça da ventura Vida breve d’amor sorveo gostosa. Eu e ella, ambos nós, na terra ingrata Oásis, paraiso, eden ou templo Habitámos uma hora; e logo o tempo Com a foice roaz quebrou-lhe o encanto, Doce encanto que o amor nos fabricára.
E eu sempre a via!... quer nas nuvens d’oiro, Quando ia o sol nas vagas sepultar-se, Ou quer na branca nuvem que velava O circulo da lua,--quer no manto D’alvacenta neblina que baixava Sobre as folhas do bosque, muda e grave, Da tarde no cahir; nos céos, na terra, A ella, a ella só, vião meos olhos.
Seo nome, sua voz--ouvia eu sempre; Ouvia-os no gemer da parda rola, No trepido correr da veia argentea, No respirar da brisa, no susurro Do arvoredo frondoso, na harmonia Dos astros ineffavel;--o seo nome! Nos fugitivos sons de alguma frauta, Que da noite o silencio realçavão, Os ares e a amplidão divinisando, Ouvião meos ouvidos; e de ouvil-o Arfava de prazer meo peito ardente.
Ah! quantas vezes, quantas! junto d’ella Não senti sua mão tremer na minha; Não lhe escutei um languido suspiro, Que vinha lá do peito á flor dos labios Deslisar-se e morrer?! Dos seos cabellos A magica fragrancia respirando, Escutando-lhe a voz doce e pausada, Mil venturas colhi dos labios d’ella, Que instantes de prazer me futuravão. Cada sorriso seo era uma esp’rança, E cada esp’rança enlouquecer de amores. E eu amei tanto!--Oh! não! não hão de os homens Saber que amor, á ingrata, havia eu dado; Que affectos melindrosos, que em meo peito Tinha eu guardado para ornar-lhe a fronte! Oh! não,--morra commigo o meo segredo; Rebelde o coração murmure embora.
Que de vezes, pensando a sós commigo, Não disse eu entre mim:--Anjo formoso, Da minha vida que farei, se acaso Faltar-me o teo amor um só instante; --Eu que só vivo por te amar, que apenas O que sinto por ti a custo exprimo? No mundo que farei, como estrangeiro Pelas vagas crueis á praia inhóspita Exanime arrojado?--Eu, que isto disse, Existo e penso--e não morri,--não morro Do que outr’ora senti, do que ora sinto, De pensar nella, de a revêr em sonhos, Do que fui, do que sou e ser podia!
Existo; e ella de mim jaz esquecida! Esquecida talvez de amor tamanho, Derramando talvez n’outros ouvidos Frases doces de amor, que dos seos labios Tantas vezes ouvi,--que tantas vezes Em extasis divino aos céos me alçárão, --Que dando á terra ingrata o que era terra Minha alma além das nuvens transportárão. Existo! como outr’ora, no meo peito Férvido o coração pular sentindo, Todo o fogo da vida derramando Em queixas mulherís, em molles versos. E ella!... ella talvez nos braços d’outrem Com sua vida alimenta uma outra vida, Com o seo coração o de outro amante, Que mais feliz do que eu, inferno! a goza. Ella, que eu respeitei, que eu venerava Como a reliquia sancta!--a quem meus olhos, Receiando offendel-a, tantas vezes De castos e de humildes se abaixárão! Ella, perante quem sentia eu presa A voz nos labios e a paixão no peito! Ella, idolo meo, a quem o orgulho, A força d’homem, o sentir, vontade Propria e minha dediquei,--sugeita Á voz de alguem que não sou eu,--desperta, Talvez no instante em que de mim se lembra, Por um osculo frio, por caricias Devidas dum esposo!... Oh! não poder-te, Abutre roedor, cruel ciume, Tua funda raiz e a imagem d’ella No peito em sangue espedaçar raivoso!
Mas tu, cruel, que es meo rival, n’uma hora, Em que ella só julgar-se, has de escutar-lhe Um quebrado suspiro do imo peito, Que d’éras ja passadas se recorda. Has de escutal-o, e ver-lhe a côr do rosto Enrubecer-se ao deparar comtigo! Preza serás tambem d’átros cuidados, Terás ciume, e soffrerás qual soffro: Nem menor que o meo mal quero a vingança.
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DELIRIO.
Quando dormimos nosso espirito véla. ESCHYLO.
A noite quando durmo, esclarecendo As trevas do meu somno, Uma etherea visão vem assentar-se Junto ao meu leito afflicto! Anjo ou mulher? não sei.--Ah! se não fosse Um qual véo transparente, Como que a alma pura alli se pinta Ao travez do semblante, Eu a crêra mulher...--E tentas, louco, Recordar o passado, Transformando o prazer, que desfructaste, Em lentas agonias?!
Visão, fatal visão, porque derramas Sobre o meo rosto pallido A luz de um longo olhar, que amor exprime E pede compaixão? Porque teo coração exhala uns fundos, Magoados suspiros. Que eu não escuto; mas que vejo e sinto Nos teos labios morrer? Porque esse gesto e morbida postura De macerado espirito, Que vive entre afflicções, que já nem sabe Desfructar um prazer?
Tu fallas! tu que dizes? este accento, Esta voz melindrosa, N’outros tempos ouvi, porém mais leda; Era um hymno d’amor. A voz, que escuto, é magoada e triste, --Harmonia celeste, Que á noite vem nas azas do silencio Humedecer as faces Do que enxerga outra vida além das nuvens. Esta voz não é sua; É accorde talvez d’harpa celeste, Cahido sobre a terra!
Balbucias uns sons, que eu mal percebo, Doridos, compassados, Fracos, mais fracos;--lagrimas despontão Nos teos olhos brilhantes... Choras! tu choras!... Para mim teos braços Por força irresistivel Estendem-se, procurão-me; procuro-te Em delirio afanoso. Fatídico poder entre nós ambos Ergueo alta barreira; Elle te enlaça e prende ... mal resistes... Cédes emfim ... acórdo!
Acórdo do meo sonho tormentoso, E chóro o meo sonhar! E fecho os olhos, e de novo intento O sonho reatar. Embalde! porque a vida me tem preso; E eu sou escravo seo! Acordado ou dormindo, é triste a vida Desque o amor se perdeo. Ha comtudo prazer em nos lembrarmos Da passada ventura, Como o que educa flôres vicejantes Em triste sepultura.
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EPICEDIO.
Passa la bella donna e par che dorma. TASSO.
Seo rosto pallido e bello Já não tem vida nem côr! Sobre elle a morte descança, Involta em baço pallor.
Cerrárão-se olhos tão puros, Que tinhão tanto fulgor; Coração que tanto amava Já hoje não sente amor;
Que o anjo bello da morte A par desse anjo baixou! Trocárão brandas palavras, Que Deos sómente escutou.
Ventura, prazer, ledice D’uma outra vida cantou; E o anjo puro da terra Prazer da terra engeitou.
Depois co’as azas candentes O formoso anjo do céo Roçou-lhe a face mimosa, Cubrio-lhe o rosto co’um véo.
Depois o corpo engraçado Deixou a terra sem vida, De tenue pallor coberto, --Verniz de estatua esquecida.
E bella assim, como um lirio Murcho da sésta ao ardor, Teve a innocencia dos anjos, Tendo o viver d’uma flôr.
Foi breve!--mas a desgraça A testa não lhe enrugou, E aos pés do Deos que a creára Alma inda virgem levou.
Sáe da larva a borboleta, Sáe da rocha o diamante, De um cadaver mudo e frio Sáe uma alma radiante.
Não choremos essa morte, Não choremos casos taes; Quando a terra perde um justo, Conta um anjo o céo de mais.
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SOFFRIMENTO.
Meo Deos, Senhor meo Deos, o que ha no mundo Que não seja soffrer? O homem nasce, e vive um só instante, E soffre até morrer!
A flôr ao menos, nesse breve espaço Do seo doce viver, Encanta os ares com celeste aroma, Querida até morrer.
É breve o romper d’alva, mas ao menos Traz comsigo prazer; E o homem nasce e vive um só instante: E soffre até morrer!
Meo peito de gemer já está cançado, Meos olhos de chorar; E eu soffro ainda, e já não posso alivio Sequer no pranto achar!
Já farto de viver, em meia vida, Quebrado pela dôr, Meos annos hei passado, uns após outros, Sem paz e sem amor.
O amor que eu tanto amava do imo peito, Que nunca pude achar, Que em balde procurei, na flôr, na planta, No prado, e terra, e mar!
E agora o que sou eu?--Pallido espectro, Que da campa fugiu; Flôr ceifada em botão; imagem triste De um ente que existio...
Não escutes, meo Deos, esta blasfemia; Perdão, Senhor, perdão! Minha alma sinto ainda,--sinto, escuto Bater-me o coração.
Quando roja meo corpo sobre a terra, Quando me afflige a dôr, Minha alma aos céos se eleva, como o incenso, Como o aroma da flôr.
E eu bemdigo o teo nome eterno e sancto, Bemdigo a minha dôr, Que vai além da terra aos céos infindos Prender-me ao creador.
Bemdigo o nome teo, que uma outra vida Me fez descortinar, Uma outra vida, onde não ha só trevas, E nem ha só penar.
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VISÕES.
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