I.
Eu sonhei durante a noite... Que triste foi meo sonhar! Era uma noite medonha, Sem estrellas, sem luar.
E ao travez do manto escuro Das trevas, meos olhos vião Triste mendiga formosa, Qu’infortunios consumião.
Era uma pobre mendiga, Porém candida donzella; Pudibunda, affavel, doce, Amorosa, e casta, e bella.
Vestia rotos andrajos, Que o seo corpo mal cubrião; Por vergonha os olhos d’ella Sobre ella se não volvião.
Pelas costas descobertas Cortador o frio entrava; Tinha fome e sede,--e o pranto Nos seus olhos borbulhava.
E qual vemos dos céos descendo rapido Um fugaz meteóro, vi descendo Um anjo do Senhor;--parou sobre ella, E mudo a contemplava.--Uma tristeza Sympathica, indizivel pouco e pouco Do anjo nas feições se foi pintando: Qual tristeza de irmão que a irmã mais nova Conhece enferma e chóra.--Ella no peito Menor sentiu a dôr, e humilde orava.