V.
Houve tempo, em que possivel Eu julguei no mundo achar Dois amigos extremosos, Dois irmãos do meu pensar;
Amigos que compr’hendessem Meo prazer e minha dôr, Dos meos labios o sorriso, Da minha alma o dissabor;
Amigos, cuja existencia Vivesse eu co’o meo viver: Unidos sempre na vida, Unidos--té no morrer.
Amizade!--união, virtude, encanto-- Consorcio do querer, de força e d’alma-- Dos grandes sentimentos cá da terra Talvez o mais reciproco, o mais fundo! Quem ha que diga: Eu sou feliz!--se acaso Um amigo lhe falta?--um doce amigo, Que sinta o seo prazer como elle o sente, Que soffra a sua dôr como elle a soffre? Quando a ventura lhes sorri na vida, Um a par d’outro--ei-los lá vão felizes; Quando um sente afflicção, nos braços do outro A afflicção, que é só d’um, carpindo juntos, Encontra doce alivio o desditoso No thesouro que encerra um peito amigo. Candido par de cysnes, vão roçando A face azul do mar co’as niveas azas Em deleite amoroso;--acalentados Pelo sereno espreguiçar das ondas, Aspirando perfumes mal sentidos, Por vesperina arajem bafejados, É jogo o seo viver;--porém se o vento No frondoso arvoredo ruge ao longe, Se o mar, batendo irado as ermas praias, Crusadas vagas em novello enrola, Com grito de terror o par candente Sacode as niveas azas, bate-as,--fogem.