Chapter 136 of 141 · 5681 words · ~28 min read

VII.

Mas donde mana essa fonte De inexplicavel ternura, Que os golpes da desventura Não podem nunca estancar; Essa vida toda extremos, Esse ardor de todo o instante, Esse amor sempre constante, Que nunca se vê mingoar?

Quizera, virgem donosa, Saber a origem divina Dessa fonte peregrina De tanta luz e calor; Então pudera em meus cantos, Tratar dos teus meigos sonhos, Formar uns quadros risonhos De quanto sentes de amor.

Roubando as cores do Iris, Das estrellas os fulgores, O aroma que tem as flores, O vago que tem o mar; Talvez pudera os mysterios, As douradas phantasias, As singelas alegrias D’um peito virgem cantar.

* * * * *

MEU ANJO, ESCUTA.

Le mal dont j’ai souffert s’est enfui comme un rêve, Je n’en puis comparer le lointain souvenir Qu’à ces brouillards légers que l’aurore soulève Et qu’avec la rosée on voit s’évanouir. MUSSET.

Meu anjo, escuta: quando junto á noite Perpassa a brisa pelo rosto teu, Como suspiro que um menino exhala; Na voz da brisa quem murmura e falla Brando queixume, que tão triste cala No peito teu? Sou eu, sou eu, sou eu!

Quando tu sentes luctuosa imagem D’afflicto pranto com sombrio véo, Rasgado o peito por acerbas dores; Quem murcha as flores Do brando sonho?--Quem te pinta amores D’um puro céo? Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguem te acorda do celeste arroubo, Na amenidade do silencio teu, Quando tua alma n’outros mundos erra, Se alguem descerra Ao lado teu Fraco suspiro que no peito encerra; Sou eu, sou eu, sou eu!

Se alguem se afflige de te ver chorosa, Se alguem se alegra co’um sorriso teu, Se alguem suspira de te ver formosa O mar e a terra a ennamorar e o céo; Se alguem definha Por amor teu, Sou eu, sou eu, sou eu!

* * * * *

OS BEIJOS.

Amo uns suspiros quebrados Sobre uns labios nacarados A gemer, a soluçar; Como a onda bonançosa, Que n’uma praia arenosa Vem tristemente expirar!

Amo ouvir uma voz pura, Uns accentos de ternura, Que trazem vida e calor; Que se derramão a medo, Como temendo o segredo Revelar do occulto amor!

Amo a lagrima que chora Tema virgem que descora, Presa d’interna afflicção; Amo um riso, um gesto vivo, Um olhar honesto, esquivo, Que alvoroça o coração.

Porêm mais que o olhar honesto, Mais que o riso e brando gesto, Mais do que o pranto a correr, Mais que a voz, quando amor jura, Que um suspiro de ternura, Que vem aos labios morrer;

Amo o leve som de um beijo, Quando rompe o véo do pejo, Mal sentido a murmurar: É viva flôr de esperança, Que nos promette bonança, Como a flôr do nenuphar.

Mente o olhar, mesmo em donzella, Mente a voz que amor assella, Mente o riso, mente a dôr; Mente o cançado desejo; Só não mente o som de um beijo, Primicias de um longo amor!

Beijos que são? Duas vidas, São duas almas unidas, Que o mesmo fogo consume: São laço estreito de amores; Porque são os labios flores De que os beijos são perfume!

Beijos que são?--Ai do peito, Sello breve, laço estreito D’um cançado bem querer; Saibo dos gozos divinos, Que nos labios femininos Quiz Deos bondoso verter.

Já por feliz me tivera, Triste de mim! se eu pudera Dizer o que os beijos são: Sei que inspirão luz e calma, Sei que dão remanso á alma, Que trazem fogo a paixão.

Sei que são flôr de esperança; Que nos promettem bonança, Como a flôr do nenuphar: Quem fruio um ledo beijo, Ter não póde outro desejo, Nada já póde gozar.

Sei que delles não se esquece Triste velho, que esmorece Á mingoa de coração: Viva estrella em noite escura, Viva braza em cinza pura, Em neve algente um vulcão.

Sei que fruil-os uma hora De ventura seductora, É subir em vida aos céos, É fugir da vida escassa, Roubar ao tempo que passa Um dos momentos de Deos.

Sei que são flôr de esperança, Que nos promettem bonança, Como a flôr do nenuphar! Quem os fruio, o que espera? Já gozou, já não tem era, Já não tem mais que esperar.

* * * * *

DESESPERANÇA.

Antes d’espirar el dia, Vi morir á mi esperanza. ZARATE.

Que m’importa do mundo a inclemencia E esta vida cruel, amargada? Des’que os olhos abri á existencia Um vislumbre de amor não achei! Nem uma hora tranquilla e fadada, Nem um gozo me foi lenitivo; Mas no mundo maldicto, em que vivo, Quantas ancias, meu Deos, não provei!

Já bastante lutei com meu fado! Quando outr’ora corri descuidoso Traz de um bem, não real, mas sonhado, Transbordava de sonhos gentis: Eu julgava que a um peito brioso Ou que a uma alma, que facil s’inflamma Por virtudes, por gloria, ou por fama, Era facil aqui ser feliz.

Via o mundo ao travez dos meos prantos A sorrir-se p’ra mim caroavel, Reflectindo celestes encantos, Que era visto d’um prysma ao travez: Hoje trevas em manto palpavel Me circundão,--nem já por acerto Vejo triste nos prantos, que verto, Luz do céo reflectida outra vez!

Que me resta na terra?--Estas flores, Afagadas do sopro da brisa, Disputando do sol os fulgores, Balançadas no debil hastil! Estas fontes de prata, que frisa Brando vento,--estas nuvens brilhantes, Estas selvas sem fim, susurrantes, Estes céos do gigante Brasil;

Nada já me renova a esperança, Que jaz morta, qual flôr resequida; Só me resta a querida lembrança Que o martyrio se acaba nos céos: Foge pois, ô minha alma, da vida; Foge, foge da vida mesquinha, Leva timida esp’rança, caminha, Té parar na presença de Deos!

Qu’estes gozos de ethereos prazeres, Que esta fonte de luz que illumina, Que estes vagos phantasmas de seres, Que scismando só posso enxergar; Que os amores de essencia divina, Que eu concebo e procuro e não vejo, Que este fundo e cançado desejo, Deos somente t’os póde fartar.

Vai assim a medrosa donzella, Pura e casta na ingenua belleza, Buscar luz á remota capella, Branca cera na pallida mão: Tudo é sombra, silencio e tristeza! Mas ao toque do fogo sagrado, Arde em chammas o cirio apagado, Já rutila brilhante clarão.

* * * * *

SE QUERES QUE EU SONHE.

Sur mon front, où peut-être s’achève Un songe noir qui trop longtemps dure, Que ton regard comme un astre se lève, Soudain mon rêve Rayonnera. V. HUGO.

Tu queres que eu sonhe!--que ao menos dormido Conheça alegrias, desfructe prazeres; Que nunca provei; Que ao menos nas azas de um sonho mentido Perdido--arroubado, tambem diga: amei!

Tu queres que eu sonhe!--não sabes que a vida Me corre penosa,--que amarga por vezes A propria illusão! No pallido riso d’uma alma affligida, Qu’invída--ser leda, que dores não vão!

Se o pranto, que os olhos cançados inflamma, Nos olhos de estranhos sympathico brilha; Mais agro penar Do triste o sorriso nos peitos derrama, Se a chamma--revela, que almeja occultar.

Sonhando, percebo na mente agitada Um mar sem limites, areas fundidas Aos raios do sol; E um marco não vejo perdido na estrada Cançada,--não vejo longinquo farol!

E queres qu’eu sonhe!--Nas aguas revoltas O nauta, ludibrio d’horrenda procella, Se póde dormir, As vagas cruzadas, em sustos involtas, As soltas--escuta raivosas bramir.

Talvez porêm sonha que as ondas mendaces O levão domadas á terra querida, Qu’entrou em seus lares!... E triste desperta, que os ventos fugaces Nas faces--a espuma lhe atirão dos mares.

Se queres que eu sonhe,--que alguma alegria Dormido conheça,--que frua prazeres D’um placido amor; Vem tu como estrella da noite sombria, Que enfia--seus raios das selvas no horror,

Brilhar nos meus sonhos.--Então socegado, Scismando prazeres, que n’alma s’entranhâo; D’um riso dos teos Coberto o meo rosto,--fugira o meu fado Quebrado--aos encantos de um anjo dos céos.

Vem junto ao meu leito, quando eu for dormido, Que eu sinta os perfumes que exhalas passando; Não soffro--direi: E ao menos nas azas de um sonho mentido, Perdido--arroubado, talvez diga:--amei!--

* * * * *

O BAILE.

Sonemos gozando Fortuna tan vana, Y el sol de mañana Que ven al salir Que al son de la orquesta Danzando en la fiesta, No es carga funesta La vida feliz. ZORRILLA.

As salas vão-se enchendo, as luzes brilhão Nos prysmas de crystal repercutidas, Em quanto as flores Dos bufetes nas jarras coloridas Acres odores Soltão; ao mar de luzes misturando D’innocente perfume outro mar brando. Com requebros e amor gentis donzellas, Em riso e festa, Medindo os passos Aos sons da orchestra, Pendem dos braços Do namorado, lepido galan! Esta risonha, aquella pensativa, Outra menos esquiva, Attenta ás vozes, que o prazer lhe entranhão, E á fraze cortezã, Que lhe entorna a lisonja nos ouvidos; Vão descuidosas, Nos labios risos, Nas faces rosas, Dando fé a protestos fementidos.

Triunfo ás bellas! o prazer começa: Correm nas taças vinhos espumosos, Gratos licores; Tangida pela mão dos Trovadores Desfaz-se a lyra em sons melodiosos, Em cantico de amores Soltão mais viva luz as brancas velas, Melhor perfume as flores. Activa-se o prazer; triunfo ás bellas! Aqui, alli, alem, mil rostos meigos,

Da walsa ao gyro rapido se mostrão, De gemmas ennastrados os cabellos; E o peito que anhelante Palpita entumecido Nas ondas do prazer ebrifestante, D’um leve colorido Banha o semblante, Que mais e mais co’a noite se enrubece: Triunfo ás bellas,--o prazer recresce!

Perdido emtanto neste mar de luzes, Mar de amor, de perfumes, que me inunda, Contemplo indifferente Quanto em redor diviso; E entre tanto ruido e tanta gente, Nem um sorriso Verdadeiro, innocente! Nem um sincero raio de alegria, Nem um peito contente Neste mar de perfumes e harmonia!

Então digo entre mim:--Talvez aquella, Que tem melhores cores, Que mais leda se mostra, Que mais feliz no gesto se revela, Sente mais finas dores; O intimo desgosto, A febre que a devora Lhe dá calor ao rosto, E no silencio chora; Presa de uma afflicção devoradora.

Uma tristeza funda, inexprimivel O coração me anceia; E triste e solitario n’um recanto, Nunca mais solitario, nem mais triste Do que entre a multidão que me rodeia, Não encontro maior, mais doce encanto Que deixar-me arrastar por uma ideia, Que me avassalla a mente. Que m’importa esta gente, Estes rostos que vejo e não conheço, E o riso a que mil outros dão apreço? Esta fingida alegria, Esta ventura que mente, Que serão dellas ao romper do dia? Destas virgens louçãs as mais mimosas Mortas serão talvez antes que murchem Do branco rosto as encarnadas rosas! Grinaldas festivaes, que a morte espalha No lugubre terreiro; O pó as enxovalha, Murchas aos pés do esquallido coveiro!

* * * * *

DESALENTO.

Without a hope in life! CRABBE.

Nascer, lutar, soffrer!--eis toda a vida: D’esperança e de amor um raio breve Se mistura e confunde Ás cruas dores d’um viver cançado, Como raio fugaz que luz nas trevas Para as tornar mais feias!

Da verde infancia os sonhos melindrosos, Nobres aspirações da juventude, Amor de gloria stulto, Com que mais alto a mente se extasia; São vãos phantasmas, que produz a febre, São illusões que mentem!

São as folhas virentes arrancadas D’um arbusto viçoso, antes que brotem Da primavera as flores; A pennugem que nasce antes das azas, Um esteril botão, que não dá flores, Ou flôr que não dá fructos!

Foge, mancebo, lá te espreita o mundo! Como areas d’um paramo deserto, Resequido, abrasado; Provoca o teo soffrer, teo pranto espreita, Sedento almeja as lagrimas, qu’entornas Nos areaes da vida.

S’inda tens coração, hão de esmagar-te; As setas da calumnia irão cravar-t’o Na parte mais sensivel: Se tens alma, se electrico palpitas De patria e de virtude aos nomes sanctos, Foge outra vez ao mundo.

Não queiras, n’um accesso doloroso, Ás mãos ambas ferindo o peito credulo Exclamar delirante: «Minha patria onde está?--Onde estes homens, «Que a par de meos irmãos amar devera, «Da mesma patria filhos?

«E a virtude tambem, onde hei de achal-a? «Se é mais que nome vão, onde é que existe? «Onde é que se pratica? «Se os modernos Catões a graça esmolão «Do rei--ou, cortesãos da populaça, «Rojão por terra ignobeis!

«Se a mão do poderoso, a mão dourada «Do crime impune--esbofeteia as faces «Do homem vil, que a beija! «Oh! meos irmãos não são, não são os filhos «Desta patria, que eu amo;--torce o rosto «De os vêr a humanidade.»

Despe-se a vida então dos seos encantos, E o homem na lembrança revivendo O percorrido estadio, Tem por marcos de estrada o monumento, Com que os mais fortes laços se desatão, --A pyramide e a campa!

Do sonho juvenil murchas as cores, Sem illusões, sem fé--nublado, escuro O presente e o porvir, No crepe d’abortadas esperanças S’involve--e os olhos tesos no sepulchro, A tarda morte aguarda!

Mas eu, qual viajor, vago perdido Pela face da terra!--amigo lume Não me convida ao longe; E ao sentar-me na mesa dos estranhos, Digo:--longe serei antes do occaso;-- E a divagar prosigo.

Mal aceito conviva me despeço!... As calumnias que soffro, a dôr que passo, Não me ferem profundas; Bem como a rola, que das matas desce, E nas azas recebe o pó da estrada, Que voando sacode.

Minha hora derradeira sôe em breve, A só esperança que aos mortaes não falha! Morrerei tranquillo; Bem como a ave, ao por do sol, deitando Debaixo d’aza a timida cabeça, Da noite o somno aguarda.

* * * * *

A QUEDA DE SATANAZ.

(TRADUCÇÃO.)

Eis que tomba da abobada celeste O archanjo audaz, o seraphim manchado, Desenrolando o corpo volumoso, Despenhado precipite,--qual mundo Dos eixos arrancado,--como um vivo Dos céos fragmento enorme, eil-o cahindo! Cahia lá d’aquelles céos brilhantes, Donde inda os seos iguaes lançavão raios; Cahia!--e a cerviz no espaço ardendo As espheras dos sóes de côr de sangue, Passando, avermelhava.

Eil-o, o maldicto, o archanjo da blasfemia, Rival do creador!--té o imo peito Pelas frechas da anáthema varado, Como n’um turbilhão, desce rodando; Ondas d’um mar de fogo o vem cercando, E elle occulta a cabeça, Como que procurasse Nas entranhas da noite Esconder seu desdoiro. Clamavão--longe--os mundos com voz forte: «Que insensato! onde vae? Nesse arrojado, Frenetico voar, que vento o impelle, Que de astro em astro vae, d’um céo em outro? Vede como é sombrio! Oh! quão outro que está d’aquelle archanjo De tão bello semblante, Lucifer radiante, Cujo sopro era como o romper d’alva, Que as portas da manhã nos céos abria, Trazendo comsigo a aurora, Que o seo alento accendia! Acaso o reconhecestes? Era hontem brilhante, novo e bello; E hoje é feio e nu e descalvado, Nas azas da tormenta balouçado, Nas azas dos bulcões; E os seos olhos fulminados Já sem pupillas fumegão, Quaes crateras de vulcões!»

O archanjo os escutava, ameaçando-os Co’o olhar fulminante; Que cheio d’impio orgulho já sentia Uma c’rôa de rei cingir-lhe a fronte. Todos os astros que no espaço gyrão Seos olhos d’irritados fascinavão; E os astros todos de terror tremião, Saudando a coruscante realeza. E já os céos sem fim, estrellas, mundos Traz delle se perderão; E nas profundas solidões do espaço O archanjo abandonado apenas via A noite, e sempre a noite! Tem medo, olha, procura....--Um astro! um astro! Transviado nos céos!--O archanjo o avista! Estende a mão convulsa arrepellando-o: Segura, arrasta-o, e d’um só pulo hardido Tral-o potente ao limiar do inferno, Alentando açodado.

O errante cometa duas vezes Ao tetro boqueirão levou comsigo, E duas vezes, como um negro abutre, Lutando corpo a corpo, de cançaço Sentio-se esmorecer. Duas vezes tambem o astro victima, Supplicando medroso, as igneas azas Bateu, sublime grito aos céos mandando. O nome do Senhor por duas vezes O rebelde venceo,--elle sosinho Cahio no fundo abysmo.

* * * * *

CANÇÃO DE BUG-JARGAL.

(TRADUCÇÃO.)

Maria, porque me foges, Porque me foges, donzella? Minha voz! o que tem ella, Que te faz estremecer; Tão temivel sou acaso? Sei amar, cantar, soffrer.

E quando ao travez dos troncos Descubro d’altos coqueiros, Junto as margens dos ribeiros, A sombra tua a vagar; Julgo vêr passar um anjo, Que os meos olhos faz cegar.

E dos labios teos se escuto Deslisar-se a voz, Maria, Cheio de estranha harmonia Pulsa o peito meo queixoso, Que mistura aos teos accentos, Tenue suspiro afanoso.

Tua voz! eu quero ouvir-t’a Mais do que as aves cantando, Que vem da terra voando, Em que eu a vida provei; Da terra onde eu era livre, Da terra onde eu era rei!

Liberdade e realeza, Hei de perder da lembrança; Familia, dever, vingança... Té a vingança m’esquece, Fructo amargo e deleitoso, Que tão tarde amadurece!

Es, Maria, qual palmeira, Altiva, esbelta, engraçada, No tronco seo balançada Por leve brisa fagueira; No teo amante a rever-te, Como na fonte a palmeira.

Mas não sabes?--Do deserto A tempestade valente Corre as vezes de repente Por acabar apressada Com seo halito de fogo A palmeira, a fonte amada!

E a fonte já mais não corre! Sente a verdura sumir-se A palmeira, e contrahir-se A palma sua ao redor, Que de cabellos dava ares, De c’rôa tendo o esplendor.

D’Hespaniola, ó branca filha, Teme por teo coração; Teme a força do vulcão Que vai breve rebentar! Que, depois, amplo deserto Só poderás contemplar!

Talvez que então te arrependas De me haveres desdenhado, Porque houveras encontrado Salvação no meo amor; Como o kathá leva á fonte O sedento viajor.

Porque assim tu me desdenhas, Não, Maria, não o sei; Que d’entre as frontes humanas, Entre as frontes soberanas, Levanto a fronte; sou rei.

Sou preto, sim, tu es branca; Mas qu’importa? Junto ao dia A noite o poente cria E cria a aurora tambem, Que mais luzentes bellezas, Mais doces do que ambos tem.

* * * * *

AGAR NO DESERTO.

Et abiit, seditque e regione procul quantum potest arcus jacere: dixit enim: non videbo morientem puerum: et sedens contra, levavit vocem suam et flevit. _Genesis, Cap._ 21, 16.

Pallido o rosto e queimado Pelo sol do Egypto ardente, Sahia a escrava innocente Co’ o filho innocente ao lado Da tenda patriarchal. A pobresinha chorava! Alguns pães e um frasco d’agoa E um peito cheio de magoa!... Vê, contempla, ó triste escrava, Teo sepulchro no areal.

Abrahão se compadece; Mas debalde o sollicita Piedade sancta,--de afflicta Sem queixar-se, lhe obedece A triste escrava do amor. Quizera talvez detel-a... Porêm que?--Sarai lh’implora, Deos lhe ordena:--vae-te embora, Vae-te escrava; e a tua estrella Te depare outro senhor.

O sol brilhante nascia Sobre as tendas alvejantes; E n’outros pontos distantes Combros d’areia feria, Outr’ora leito d’um mar; Esse caminho procura, Que nas ondas do deserto Talvez ache por acerto Patria, abrigo, amor, ventura A prole infausta d’Agar.

Vae, caminha; mas ao passo Que no deserto s’entranha, Arde o sol com furia estranha, Racha a areia o pé descalço, Cresta o vento os labios seos; E ao lado o filho innocente Soltava tristes gemidos, Co’os olhos humedecidos Fitando a mãe ternamente, Que os olhos tinha nos céos!

Procura terras do Egypto; Porêm debalde as procura: Vae a triste, sem ventura, Lento o passo, o rosto afflicto, Pela inculta Bersabé. Seo Ismael desfallece; No deserto immenso, adusto, Não encherga um só arbusto: Jehovah delles s’esquece! Cresce a dôr, e mingua a fé.

Pede sombra o triste infante: Não ha sombra,--agoa supplíca; Exhaurido o vaso fica, Pede mais d’instante a instante.... Pobre escrava, oh! quanto dó! Podesses rasgar as veias, Tomar agoas innocentes Tuas lagrimas ardentes; Mas só vês d’um lado areias, D’outro lado areias só.

Pois não ha quem o proteja, Diz a escrava lá comsigo, Vendo o fado seu imigo, Meu filho morrer não veja, Bem qu’eu tenha de morrer. A um tiro d’arco distante Se arrasta com lento passo, Tomba o corpo infermo e lasso, E amargo pranto abundante Deixa dos olhos correr.

Deos porêm ouvira a prece Da escrava, da mãe coitada, E da celeste morada Librado um archanjo desce Nas azas da compaixão. Expira em torno ar de vida, Um aroma deleitoso, E n’um sonho aventuroso Agar seus males olvida, Olvida a sua afflicção.

Dorme e sonha, ó triste escrava, Deos senhor sobre ti vela! Dorme e sonha:--a tua estrella Nasce como um romper d’alva Sobre os netos d’Ismael. Esquece a sorte mesquinha, Que te vexa,--esquece tudo; Deos senhor é teu escudo; Já não es serva, es rainha D’outro reino d’Israel.

* * * * *

Como quando elevados nas alturas Descobrimos incognitas paisagens, Densas florestas, aridas planuras E de rios caudaes virentes margens;

Assim da vida o sonho te arrebata, Rasgando o veo do tempo e do infinito, E uma scena vistosa te retrata, Que vai da Arabia ao portentoso Egypto.

Vê como o filho teu, feroz guerreiro, Nos prainos do deserto eleva as tendas, E, posto a seus irmãos sempre fronteiro, Provoca e trama asperrimas contendas!

São doze os filhos--doze reis potentes-- Com elles Ismael tudo avassalla; Sua espada é a lei das outras gentes, Seus decretos os campos da batalha.

A sorte seus designios favoneia, Segue seus passos a benção divina, Povôa-se Faran, surge d’areia De Meca o templo, os paços de Medina.

Crescem, dominão: largo reino ingente Mesquinha habitação presta a seus netos, Convertida em nação a grei potente, Que opprime a cerviz mobil dos desertos.

Mas entre os filhos seus de nomeada, Sup’rior dos heróes á grande altura, Na sinistra o alkorão, na dextra a espada, A effigie torva de Mahomet fulgura.

Curva-se a Arabia emtanto, a Palestina Á sua lei, da Persia o reino antigo; Escutão Asia e Africa a doutrina Do embusteiro que em Meca achou jazigo:

Mensageiro divino se declara Aquelle que illudido o mundo adora; Agar é mãe,--pela vergontea cara, Entre orgulhosa e triste, a Deos implora.

Peccou; porêm da gloria que o circunda A roxa luz, que o meteóro imita, De vivo resplendor a fronte inunda, Commove o peito a misera proscripta.

Curvado ao jugo seu todo o oriente, Inda cubiça a Europa o Ismaelita; E em frente á cruz, o pallido crescente Apparece nas torres da mesquita.

Oh! quanto humano sangue derramado! Que de prantos e lagrimas vertidas! Entre irmãos o combate é porfiado, A raiva intensa, as lutas mal feridas.

De avistar esse quadro tão medonho, Embora no porvir todo escondido, A escrava tenta orar; porêm no sonho Resume a prece em languido gemido.

Geme de vêr em furia carniceira A esposa de Mahomet desrespeitada, E do seu genro a dynastia inteira Por duro asar de guerra contrastada.

Succedem-se os Omiades valentes; Do seu ultimo rei, oh dôr! se coalha O sangue na mesquita: entre essas gentes Vinga o punhal a sorte da batalha.

O vencedor então, não poucas vezes, Chegando á bocca a taça corrompida, Exp’rimenta os tristissimos revezes, De quem sobre os tropheos exhala a vida!

Tudo é silencio e luto:--um só evita O negro olvido,--ao templo da memoria Vôa Al-Reschid,--unindo á gloria avita O louro da sciencia e o da victoria.

Com seu vizir á noite, pelas ruas Escuta dos estranhos mercadores A gloria d’outros reis, menor que as suas, E espreita do seu povo occultas dores!

Se ouviu a narração d’uma desgraça, Se o pobre vê curvado a prepotencia, Se o convidão a entrar, quando elle passa, No abrigo do infortunio e da innocencia,

Entrou e viu! mas o fulgor crastino Ri-se mais brando aos peitos soffredores; Passa o rei, como orvalho matutino, E, por onde passou, rescendem flores!

Mudado o sonho, a fugitiva escrava Estranhos povos nota, estranhas terras, Que o Darro ensopa e o Guadalete lava, Nadando em sangue de cruentas guerras.

* * * * *

Quem foi que as altas portas Abriu d’Hespanha aos mouros; Que poz os verdes louros, Dos reis godos conquista, Ás plantas do infiel? De tantos males causa Tu foste, ó rei Rodrigo, Tornando infesto, imigo, O nobre conde, outr’ora Vassallo teo fiel.

Debalde o affecto encobres Do refalsado peito, Se vais furtivo ao leito Da virgem, que se mostra Rebelde ao teo amor: Qu’es godo e rei t’esqueces! E o nobre resentido Da offensa que ha soffrido, No teu exemplo aprende A ser tão bem traidor.

Em quanto pois devassas, Com torpes pensamentos, Os regios aposentos Da nobre moça,--a c’rôa Te cae da fronte ao chão; E o pae, que a affronta punge, Turbado, ardendo em ira, Aos pés do mouro a atira. O rei, que planta crimes, Recolha vil traição.

Sus, ó rei, ás armas! Empunha a larga espada, E a fronte sombreada Co’o negro elmo--deixa Tingir-se em nobre pó: D’encontro as alas densas Do barbaro inimigo Debalde, ó rei Rodrigo, Te arrojas!--vence á força, Foges vencido e só!

Vai só; mas occultando No manto d’um soldado O rosto demudado, Emquanto passa o campo, Escasso leito aos seos: Ai! triste rei cahido! Na solitaria ermida, Que abriga a inutil vida, No pó collada a fronte, Lembra-te emfim de Deos.

Lembrem-te os muitos erros E o crime grave, emquanto As mães godas em pranto O nome teu maldizem, E ao céo clamando estão. Emquanto pela Iberia O arabe audaz e forte, Espalha o susto, a morte, Por onde quer que solta Ao vento o seu pendão.

Passão avante, calcão Dos Pyrenêos as serras, Levando cruas guerras Ao dilatado imperio Do intrepido gaulez. Debalde o grande Carlos Oppõe-se-lhes,--que a historia Nos traz inda á memoria Dos tristes Roncesvalles O misero revez.

Porêm do largo imperio De Cordova e Granada A c’rôa cahe pesada Na fronte amollecida Do moço Boabdil. O fraco teme os echos Ouvir da accesa guerra, E perde a nobre terra Ganhada em mil batalhas Com pranto feminil.

Depois, inda outros quadros Enxerga no futuro; Mas é um ponto escuro, São formas vagas, postas Em duvidosa luz. Já naves são, já hostes, Tropel de varia gente, Que parte do occidente, Em cujos peitos brilha De Christo a roxa cruz.

Agar emfim acorda! Sustendo o filho caro, Pelo deserto avaro S’entranha novamente, Mais solto o coração. Parece que já sente No rosto ao bello infante A gloria radiante, Que espera os descendentes Da forte geração.

E como Deos lhe ha dito, Seus filhos são guerreiros, Que a seus irmãos fronteiros Cruentos prelios movem: Temidos são; porêm As filhas desses bravos, Da vida sequestradas, Escravas são coitadas, Que da materna origem Recordão-se no Harem.

* * * * *

Vai, caminha, oh triste escrava, Deos Senhor sobre ti vela; Vai, caminha: a tua estrella Nasce como um romper d’alva Sobre os netos d’Ismael. Esquece a sorte mesquinha Que te vexa, esquece tudo, Deos Senhor é teu escudo: --Já não es serva, es rainha D’outro reino d’Israel.

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HYMNO.

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O MEU SEPULCHRO.

Elève-toi, mon ame, au-dessus de toi-même, Voici l’épreuve de ta foi! Que l’impie, assistant à ton heure suprême, Ne dise pas: Voyez, il tremble comme moi! LAMARTINE--_Harmonies._

Quando, os olhos cerrando á luz da vida, O extremo adeus soltar ás esperanças, Que na terra nos guião, nos confortão E espação do porvir a senda estreita; Quando, isento de miseros cuidados, Disser adeus ás illusões douradas, Mas com ellas tambem ás dores cruas Da existencia--aos espinhos ponteagudos, Com que a verdade o coração nos roça; Quando tocada não sentir minha alma Da luz, dos sons, das cores, das magias, Que a natureza prodiga derrama No regaço da terra--mais ditoso Serei acaso então?--Quando o meu corpo Á terra, mãe commum, pedindo abrigo Dos sepulchros no valle em paz descance;

Hei de ser mais feliz porque m’o cobre Pomposo mausoleu, em vez da pedra Sem nome, em vez do tumulo de cespedes, Que s’ergue junto á estrada, e ao viandante Ao que alli passa, uma oração supplíca? Oh! não!--ao encalmado é grata a sombra; Grato descanço aos membros fatigados Presta igualmente a relva das campinas E os torrões pelo sol enrigicidos. Como o trabalhador que a sésta aguarda, O meu termo fatal sem medo espero! Eu então pedirei silencio á morte, E fresca sombra á sepultura humilde, Que me receba,--e á cuja superficie Morrão sem echo da existencia as vagas.

Humilde seja embora! Que m’importa Que a mão d’habil artista me não talhe Mentiroso epitaphio em preto marmor! O moimento faustoso, que se erige, Arranco da vaidade, sobre a campa De um corpo transitorio, acaso empece Aos que alli pascem, vermes esfaimados De roerem-lhe as visceras?!--Solemnes São da campa os mysterios; mas terrivel É da morte a rasoura, que nivela O rico ao pobre, e os berços differentes Torna um féretro, um leito de Procusto, Capaz de quanta dôr os homens soffrem: Tão depressa o cadaver se corrompe Nas amplas dobras do velludo involto, Como embrulhado na mortalha exigua, Que a religiosa caridade amiga, O pudor dos sepulchros venerando, Lança do pobre aos restos desprezados.

Os felizes do mundo, acobardados Ante a imagem da morte, que os assalta, Temem deixar a terra, onde tranquilla, Quasi livre de dôr, entre delicias, Como um rio caudal lhes corre a vida. Horrorisão-se timidos,--supplicão Á cruel, que os não leve, que os não roube Á senda matisada, onde os seus passos Deslisão-se macios--ás caricias D’um seio, que lhes presta brando encosto. O fio da esperança os liga forte A um corpo que declina, como os lios De enrediça tenaz prendida á copa D’uma arvore comida: amedrontados, Como das fauces negras d’um abysmo, Do pavoroso tumulo recuão.

Mas eu, que vago solto, como a folha, Como o fumo subtil; que não limito Nos terminos da terra os meus desejos, Folgo de vêr os renques dos sepulchros No chão da morte largamente esparsos! Quasi me alegra vel-os. Tal no exilio Contempla á beira-mar o degradado Devolverem-se as vagas,--e saudoso Da patria sua tão distante--as conta; Uma por uma as interroga, e pensa Qual d’aquellas será que o leve e atire, Naufrago embora e semimorto, ás praias, Porque chorão seus olhos.--No desterro Me contemplo tambem,--como elle, choro A patria, o íman dos meus sonhos gratos. Abra-se funda a cova ante os meus passos: Um só delles da morte me separe!... E esse passo andarei, como quem pisa, Depois de viajar remotos climas, O patrio solo, e as auras perfumadas Do bosque, amigo seu na leda infancia, Bebe de novo, e de as gozar se applaude.

Hora do passamento! es da existencia O momento mais sancto, o mais solemne: Assim o rubro sol, quando no occaso Em turbilhões de purpura se afunda, Nos morredouros, despontados raios Saudoso, extremo adeos á terra envia. Tal o esposo se aparta suspiroso E nas azas da brisa manda um beijo Á esposa, que de o ver partir se enluta, Rola que vaga na amplidão das selvas.

Cheio de melancholica incerteza, Dir-te-hei: bem vinda,--ó morte! quando os olhos Voltar atraz na percorrida estrada; E chorarei talvez, como quem deixa O carcere medonho, onde engastada Nas escamas da dôr gemeu sua alma Largos annos de antigo soffrimento; O carcer qu’inda as lagrimas lhe verte Das humidas paredes, cujos echos Inda parecem, na soidão da noite, Repetir seus tristissimos accentos.

Oh! quão formosa a vida se revela A quem já bate as portas do infinito, Encostado aos umbraes da eternidade, A vez extrema contemplando o mundo! A folha já myrrada, a pedra solta, A flôr agreste, a fonte que murmura E as cantoras do céo, as ledas aves De variado esmalte, e as suspirosas Brisas da noite e as do romper da aurora, A estrella, o sol, o mar, o céo, a terra, A planta, os animaes, tudo então vive, Tudo comnosco sympathisa,--tudo, Como orchestra afinada por nossa alma, Acorde aos nossos sentimentos vibra, Revelando ao que morre os fins da vida. Dalli melhor compr’hende-se a existencia, Mais vasta perspectiva se desdobra Ante os olhos, que a extrema vez lampejão: E as scenas que a illusão junca de flores, Que o desejo nos mostra, que nos pinta Cubiçoso, irisante,--que a esperança Fugaz de varios modos nos matisa; Gloria, ambição, prazer, fallaz ventura, Tudo se olvida e apaga--semelhante Á fugitiva estrella ou clarão breve D’um relampago estivo, que um momento Se mostra e fulge, logo immerso em trevas.

Que importa que eu não tenha uma só c’rôa, Um myrrado laurel, uma só folha, Que ás novas gerações diga o meu nome E sollicite as attenções futuras? Sou como o passarinho, quando passa Á flôr de um lago e a sombra vacillante No liquido crystal debalde estampa. Ou semelhante ao viajor que bate Da vida a estrada pulvurenta, e nota Como os seus rastos mal impressos cobre O pó que de seus passos se levanta. Ah! que dos louros me não dóe a ausencia Mas de lagrimas, sim, que me orvalhassem A sepultura humilde,--á cujas gotas Meus ossos de prazer estremecidos De as sentir se alegrassem...--mas em troco Dessa pia oblação, que tantas vezes Mente ao finado, que as espera eterno, As lagrimas terei da noite fria, O fresco humor da chuva, que me eduquem A agreste flôr, que a natureza obriga A despontar na solitaria campa. Ninguem virá com titubantes passos E os olhos lacrimosos, procurando O meu jazigo; e em falta de epitaphio, «Elle aqui jaz!» o coração lhe diga, E alli se curve então, fundos suspiros Dando aos echos do funebre recinto, Involtos na oração que alegra os mortos. Certo, ninguem virá; porêm tão pouco Ouvirei maldições, onde escondido, Já pasto aos vermes, jazerá meu corpo. Se deixo sobre a terra alguma offensa, Se alguma vida exacerbei, se acaso Alguma simples flôr trilhei passando; Essas, depois d’eu morto, convertidos Os odios em piedade--«Em paz descança» Dirão ante o meu tumulo, e voltando A um lado o rosto,--deixarão dos olhos Compassiva uma lagrima fugir-lhes!

Tu, Senhor, tu, meu Deos, tu me recebe Na tua sancta gloria: alarga as azas Do teu sancto perdão, que ao teu conspecto Humilhado me sinto, como a grama, Que o pé do viajor sem custo abate. A ti volvo, ó Senhor,--bem como o filho, Que ao sopro paixões soltando as velas Da juventude ardente, foge ao tecto E ao lar paterno, onde por fim se acolhe, Consumido o thesouro da innocencia, Com rubor dos andrajos da pobreza, Que o vexa,--para ver do pae o rosto, Para escutar-lhe a voz, embora tenha Sobre a cabeça a maldição pendente.

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SAUDADES.

A MINHA IRMÃ.

J. A. de M.