II.
A CRUZ.
Era um templo d’arabica structura, Magestoso, elegante;--alem das nuvens Se entranhava nos céos subtil a agulha; Sobre o zimborio retumbante e vasto Ondas e ondas de vapor crescião. Dentro corrião tres compridas naves Sobre dois renques de columnas, onde Baixos relevos da sagrada historia Da base ao capitel se emmaranhavão. Ardia a luz na alampada sagrada; No sagrado instrumento o som dormia.
Junto á cruz--da fachada egregia pompa-- Muitos homens eu vi de torvo aspecto; Muitos outros, servís, com mão armada Profundos golpes entalhavão nella. Um daquelles no emtanto assim fallava:
«Quando esta humilde cruz rojar por terra; «Levando a crença de Jesus comsigo «Nós outros, da verdade Sacerdotes, «Nós Doutores do mundo, nós Luzeiros «Que desvendamos a impostura, o erro, «A mentira sagaz, a crença louca, «Entrada facil da razão no templo «Teremos todos; e de então no throno, «Do nescio vulgo imparciaes sob’ranos, «Sanctos juises da verdade sancta, «Pregaremos o justo, a paz, concordia «E os seus deveres que dimanão faceis «Do amor do lucro e do interesse; todos «--Vasallos da razão, nossos vassallos-- «Um eden terreal farão do mundo.»
No emtanto aos crebros golpes do machado A cruz pendia obliqua sobre a terra. Creando novas forças com tal vista, Os operarios mais frequentes golpes Repetem, vibrão, continuão;--sôa Por toda a parte o echo,--o som, mais longe, Retumba, morre--e novamente echôa. Nisto a cruz--geme--estrala; um grito sóbe Unisono e geral!... Como sois grande, Senhor, Senhor meo Deos!--Eu vi, morrendo Os obreiros cahir; e a cruz erguer-se, Como aos raios do sol a flor mimosa Que a raiva do tufão vergára insana.
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