Chapter 45 of 141 · 336 words · ~2 min read

I.

Estou só n’este mudo sanctuario, Eu só, com minha dôr, com minhas penas! E o pranto nos meos olhos represado, Que nunca vio correr humana vista, Livremente o derramo aos pés de Christo, Que tão bem suspirou, gemeo sosinho, Que tão bem padeceo sem ter conforto, Como eu padeço, e soffro, e gemo, e choro.

Remorso não me punge a consciencia, Vergonha não me tinge a côr do rosto, Nem crimes perpetrei;--porque assim choro? E direi eu por que?--Antes meu berço, Que vagidos de infante vividouro, Os sons finaes de um moribundo ouvisse! Que esperanças que eu tinha tão formosas, Que mimosos enlevos de ternura, Não continha minha alma toda amores! Esperanças e amor, que é feito d’elles? Um dia me roubava uma esperança, E sosinho, uma e uma, me deixárão. Morrerão todas, como folhas verdes Que em principios do inverno o vento arranca.

E o amor!--podia eu sentil-o ao menos; Quando eu via a desdita de bem perto Co’ um sorriso infernal no rosto squalido, Com fome e frio a tiritar demente, Acenando-me infausta?--quando vinda Minha hora já sentia, em que os meus labios, Tremendo de vergonha, soluçassem Ao f’liz com que eu na rua deparasse, De mãos erguidas: Meo Senhor, piedade! Eis porque soffro assim, porque assim gemo, Porque meo rosto pallido se encova, Porque sómente a dôr me ri nos labios, Porque meo coração já todo é cinzas.

Menti, Senhor, menti!--porque te adoro. No altar profano de belleza esquiva Não queimo incenso vão;--tu só me occupas O coração, que eu fiz hostia sagrada, Apuro de elevados sentimentos, Que o teo amor somente asilão, nutrem. Quando ao sopé da cruz me chego afflicto, Sinto que o meo soffrer se vae mingoando, Sinto minha alma que de novo existe, Sinto meo coração arder em chammas, Arder meos labios ao dizer teo nome. Assim a cada aurora, a cada noite, Virei consolações beber sedento Aos pés do meo Senhor;--virei meo peito Encher de religião, de amor, de fogo, Que além de infindos céos minha alma exalte.