I.
De côr azul brilhante o espaço immenso Cobre-se inteiro; o sol vivo luzindo Do bosque a verde coma esmalta e doira, E na corrente dardejando á prumo Scintilla e fulge em laminas doiradas. Tudo é luz, tudo vida, e tudo cores! Nos céos um ponto só negreja escuro!
Eis que das partes, onde o sol se esconde, Brilha um clarão fugaz pallido e breve: Outro vem apoz elle, inda outro, muitos; Succedem-se frequentes,--mais frequentes, Assumem côr mais viva,--inda mais viva, E em breve espaço conquistando os ares Os horisontes co’o fulgir roxeião.
Qual mancha d’oleo em tela assetinada Que os fios todos lhe repassa e embebe; Ou qual abutre do palacio aereo Tombando acinte,--no descer sem azas Um ponto só,--até que em meia altura Abrindo-as, paira magestoso e horrendo: Assim o negro ponto avulta e cresce, E a cupola dos céos de côr medonha Tinge, e os céos alastra, e o espaço occupa. A abobada de trevas fabricada Descança em capiteis de fogo ardente!
De quando em quando o vento na floresta Silva, ruge, e morre; e o vento ao longe Rouqueja, e brama, e cava-se empolado, E aos pincaros da rocha ennegrecida De iroso e mal soffrido a espuma arroja! Raivoso turbilhão comsigo arrastra O argueiro, a folha em vortice espantoso; No valle arranca a flôr, sacode os troncos, Na serra abala a rocha, e move as pedras, No mar os vagalhões incita e crusa.