V.
Assim, meo Deos, assim será no dia Do final julgamento, quando o anjo Soprar a tromba que desfez os muros De Jerichó soberba!
O mar sobrepujando os seos limites, Com roncos temerosos, nunca ouvidos, Virá para sorver, com furia brava, Ilhas e continentes.
O sol, perdendo o brilho e a natureza, Não luz, mas puro fogo, ha de accender-se, Como o fogo sagrado, que se prende Nas cortinas do templo.
Os orbes dos seos eixos desmontados, No abysmo hão de cahir com grande estrondo, E, redomas de vidro, hão de partir-se Em pedaços sem conto.
Do abysmo as solidões hão de acordar-se! Flammivomos vapores condensados, Té nós, e alem de nós, hão de elevar-se Em pavoroso incendio.
O ar ha de accender-se, a terra em fogo Tornar-se, como o ferro ardendo em fragoa. Coalhar-se o mar e em aspera seccura Converterem-se as ondas.
E nesta confusão de fumo e chammas, Neste cháos, que a mente mal alcança, Quando nada existir de quanto existe, Será vencida a morte.
Logo, á um só dizer do Omnipotente, O pó segunda vez ha de animar-se, E os mortos, mal soffrendo a luz da vida, Attonitos, pasmados;
Hão de erguer-se na campa, inteiros, vivos, E como Adão, a tatear os membros, Estranhos a existencia já vivida, Perguntarão: Quem somos?
Então, Senhor, então,--tu o disseste-- Virás cheio de gloria e magestade, Em solio de luzeiros resplendente, E em celeste cortejo!
Virás, sol da justiça, em fins do mundo Acalmar a procella, e quando aos mortos Disseres tu, quem es,--lembrar-nos-hemos, Senhor, do que já fomos.
Feliz então quem só viveo comtigo, Quem n’ancora da fé prendeu sua alma, Quem só em ti fundou sua esperança, Pequeno e humilde!
Feliz então quem tua lei guardando, Seos passos graduou nos teos caminhos; Quem dia e noite revolveo comsigo, Como aplacar-te.
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NOVOS CANTOS.
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O HOMEM FORTE.
Impavidum ferient... HORAT.
O modesto varão constante e justo Pensa e medita nas licções dos sabios E nos caminhos da justiça eterna Gradúa firme os passos.
O brilho da sua alma não mareia A luz do sol, nem do carvão se tisna; Morre pelo dever, austero e crente, Confessando a virtude.
Pode a calumnia denegrir seos feitos, Negar-lhe a inveja o merito subido; Pode em seo damno conspirar-se o mundo E renegal-o a patria!
Tão modesto nos paços de Locullo, Como encerrado no tonel do Grego, Nem o transtorna a aragem da ventura, Nem a desgraça o abate.
A tyrannos preceitos não se humilha, Ante o ferro do algoz não curva a fronte, Não faz callar da consciencia o grito, Não nega os seus principios.
Antes, seguro e firme e confiado No tempo, vingador das injustiças, Co’os pés no cadafalso e a vista erguida Se mostra imperturbavel.
Soffre martyr e expira! A patria emtorno Do seo sepulchro o chora, onde a virtude, Affeita ao luto e á dor, de novo carpe Do justo a flebil morte!
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DIES IRAE.
Jaz o mundo corrupto!--a terra ingrata Fructos de maldicção produz somente; E em quanto os homens ao mercado affluem, Vazio o templo do Senhor se enluta, Empoeira-se o altar, e pelas naves, Gretadas, rotas pela mão do tempo, De canticos e preces deslembradas, A voz de Deos já não rebôa immensa!
Tudo porêm conserva o mesmo aspecto: O sol gyrando, e na apparencia o mesmo, Do anno as quadras compassado alterna; E os astros, seos irmãos, gravitão sempre D’abobada celeste. A terra é a mesma; As aguas pelos valles se deslisão, Ou d’alpestres montanhas se despenhão Co’os mesmos sons, co’a mesma queda: as brisas Inda conversão nos soturnos bosques; A mulher, a mais bella creatura, Nas suas proprias perfeições compraz-se, Como quando, no Eden, as pulchras formas Pasmou de ver representadas n’agua, E de as ver se ufanou. Inda conserva O mesmo orgulho e intelligencia o homem, O rei da creação, o deos creado, De quando vinhão, por pedir-lhe os nomes, Cetaceos, aves e os reptis e aquellas Creaturas-montanhas, que passárão Entre Adão e Noé á flor da terra!
Tudo o mesmo se mostra; mas a alma, Esse mundo interior, esse outro templo, Onde gravára o proprio Deos seo nome, Como os templos de pedra, jaz sem lume, Jaz como o predio a desfazer-se em ruinas, Onde um guarda solicito não móra, E entregue as aves más, que em chilros pregão, Que alli na ausencia do senhor imperão.
Da divina bondade cheio o vaso Já transborda de cholera e justiça E o largo rio do perdão saudavel, Que mais não corra, impece: Sanctas aguas Por cuja causa os seculos já virão, Sem justa punição, offensas graves; Que o Senhor consentisse persistirem Os máos no mal, á espera d’emmendal-os; Que triumphasse a malvadeza; e o crime, Vexando os bons, senhoreasse a terra.
Mas Deos, que fôra outrora pae clemente, Dando começo ao reino da justiça, Em austero juiz se ha convertido. Como um carro, que vae d’encontro ao abysmo, Perfaz o sol precipite o seo gyro, Indo a tocar a temerosa méta Prevista dos prophetas. Um archanjo Com mão robusta inda retem os élos Da cadeia do tempo, em quanto a outra Da vida o livro volumoso sélla Com sete bronzeos sellos. Deos offeso Tira os olhos do mundo, e o mundo ha sido! Quem podera pintar as discordancias Em que labora a natureza! Crescem Da terra igneos vapores, suffocando O que respira, o que tem vida: os montes Em crateras se rásgão, que vomitão Fumo e lava incessante; o mar s’empola E em furia ardendo, arroja aos altos cimos Crusados vagalhões, qual se tentára Sôvertel-os: os ventos se contrastão! Novos prodigios, novos monstros surgem! O mar se torna em sangue, o sol em fogo, O Universo em mansão d’afflictas dores, O homem soffre, blasphema e desespera, E vendo os mundos desabar precipites, Um grito sólta d’horroroso transe, Como de náo, que em alto mar s’afunda E rola os restos n’amplidão das aguas.
Satisfez-se o Senhor. Que resta?--O cháos, O horror, a confusão, o vulto enorme Do tempo, que escurece o fundo abysmo, Onde por todo o sempre jaz captivo; E da morte o cadaver gigantesco Quasi occupando a superficie inteira D’um mar de chumbo, escuro e sem rumores. Da gloria do Senhor um raio apenas, Lá dos confins do espaço despedido, Fere da morte o rosto macilento De tudo quanto foi, e quanto existe!
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ESPERA!
Quem ha no mundo que afflicções não passe, Que dores não supporte? Mais ou menos d’angustias cabe a todos, A todos cabe a morte.
A vida é um o negro d’amarguras E de longo soffrer; Simelha a noite; mas fagueiros sonhos Podem de noite haver.
Por que então maldiremos este mundo E a vida que vivemos, Se nos tornamos do Senhor mais dignos, Quanto mais dôr soffremos?
Quantos cabellos temos, elle o sabe; Elle póde contar As folhas que ha no bosque, os grãos d’areia Que sustentão o mar.
Como pois não será elle comnosco No dia da afflicção? Como não ha de computar as dores Do nosso coração?
Como ha de ver-nos, sem piedade, o rosto Coberto d’amargura; Elle, senhor e pae, conforto e guia Da humana creatura?
Se o vento sopra, se se move a terra, Se iroso o mar fluctúa; Se o sol rutila, se as estrellas brilhão, Se gyra a branca lúa;
Deos o quiz, Deos que mede a intensidade Da dôr e da alegria, Que cada ser comporta--n’um momento D’arroubo ou d’agonia!
Embora pois a nossa vida corra Alheia da ventura! Alem da terra ha céos, e Deos protege A toda creatura!
Viajor perdido na floresta á noite, Assim vago na vida; Mas sinto a voz que me dirige os passos E a luz que me convida.
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A SAUDADE.
Saudade, ó bella flor, quando te faltem Coração ou jardim, onde tu cresças; Vem, vem ter commigo; Deixa os que te não seguem, Terás em peito amigo Lagrimas, que te reguem, Espaço, em que floresças.
Das pegadas da ausencia tu despontas, Entre as memorias cresces do passado, Quando um objecto amado Quando um logar distante, Noite e dia, Nos enluta e apouquenta a fantasia. Vem, ó Saudade, vem A mim tambem Consolar de gemidos suspirosos E de partidos ais! Oh! seja a punição dos insensiveis Não te sentir jamais!
Propicia Deosa, e se não fosse a esperança, Deosa melhor da vida; qu’insensato, A quem mitigas turbidos pezares Haverá tão ingrato Que te não queime incenso em teos altares? O _presente_ o que é?--Breve momento D’incommodo ou desgraça Ou de prazer, que passa Mais veloz que o ligeiro pensamento. Véo escuro, Que nem sempre a illusão nos adelgaça, Nos encobre os caminhos do futuro. O que nos resta pois?--Resta a saudade, Que dos passados dias De magoas e alegrias Balsamo sancto extrahe consolador! Resta a saudade, que alimenta a vida Á luz do facho que adormenta a dôr!
Hera do coração, memoria delle, Ó Saudade, ó rainha do passado, Simelhas a romantica donzella De roupas alvejantes Nas ruinas de castello levantado: Grinaldas fluctuantes, Que das fendas brotarão, Movem-se do nordeste Ao sopro agudo e frio; Em quanto vendo-o ao longe o senhorio, De posses decahido, D’invernos alquebrado, Recorda triste os annos que passarão!
Em que plagas inhospitas e duras Não me tens sido companheira e amiga? Em que hora, em que instante De folga ou de fadiga Já deixei de sentir o penetrante Espinho teo, a repassar-me todo D’um prazer melancholico e suave?
Pois nasces nos desertos da tristeza, Ó Saudade, ó rainha do passado! Quando te falte gleba, onde tu cresças, Vem, vem ter commigo; Deixa os que te não seguem, Terás em peito amigo Lagrimas, que te reguem, Espaço, em que floresças!
Entra em meo coração, occupa-o todo, Fibra por fibra enlaça-te com elle, Desce com elle á sepultura; e quando Jazer eu na eternidade, Minha flôr, minha saudade, Tu procura a aura celeste, Rompe a terra, transforma-te em cypreste, Qu’enlute o meo jazigo; E ao meneio das ramas funerarias, Meo derradeiro amigo, Descance morto quem viveo comtigo.
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NÃO ME DEIXES!
Debruçada nas aguas d’um regato A flôr dizia em vão Á corrente, onde bella se mirava.... «Ai, não me deixes, não!
«Commigo fica ou leva-me comtigo «Dos mares á amplidão, «Limpido ou turvo, te amarei constante; «Mas não me deixes, não!»
E a corrente passava; novas aguas Após as outras vão; E a flôr sempre a dizer curva na fonte: «Ai, não me deixes, não!»
E das aguas que fogem incessantes Á eterna successão Dizia sempre a flôr, e sempre embalde: «Ai, não me deixes, não!»
Por fim desfallecida e a côr murchada, Quasi a lamber o chão, Buscava inda a corrente por dizer-lhe Que a não deixasse, não.
A corrente impiedosa a flôr enleia, Leva-a do seo torrão; A afundar-se dizia a pobrezinha: «Não me deixaste, não!»
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ZULMIRA.
Sonhara-te eu na veiga de Granada, Tapetada de flores e verdura, Onde o Darro e Xenil no lento gyro Volvem a lympha pura.
Alli te vejo em leda comitiva Dos gentis cavalleiros do oriente, Quando, deposta a malha do combate, Vestem da paz a seda reluzente.
Alli te vejo n’um balcão sentada, Grande preço da maura architectura, Pejando as azas das nocturnas brisas D’um canto de ternura.
Alli te vejo, sim; mas mais me agrada O que se m’afigura n’outro instante, Ver-te em vistosa tenda d’ouro e sedas, Levantada no dorso do elefante.
E em roda, ao largo, o sequito pomposo D’eunuchos a teo gesto vacillantes Em cujas frontes negras se destacão Alvissimos turbantes.
E pergunto quem es?--Então me dizem Ciosos de guardar o seo thesouro, Nome tão doce aos labios, que parece Escrever-se em setim com letras d’ouro.
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A UMA POETIZA.
--Donde vens, viajor?-- --De longe venho. --Que viste? --Muitas terras. --E qual dellas Mais te soube agradar? --São todas bellas; Fundas recordações de todas tenho.
E admiraste o que? --Ah! onde as flores Cada vez a manhã tornão mais linda, Onde gemeo Paraguassú de amores E os echos fallão de Moema ainda;
Alli, Sapho christã, virgem formosa, A vida aos sons da lyra dulcifica: D’escutar a sereia harmoniosa Ou de vel-a, a vontade presa fica!
BAHIA--1852.
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ANGELINA.
É gentil e linda e bella, E eu sei que m’arrouba o vel-a Tão divina: A lyra seos cantos cesse; Mas minha alma não s’esquece D’Angelina!
Outro louve os seos cabellos, Cante a luz dos olhos bellos Que fascina; E o leve sorrir donoso Que irradia o rosto airoso D’Angelina!
Os dotes diga que apura, Quando em languida postura Se reclina; Que s’ergue, se acaso passa, Susurro que applaude a graça D’Angelina!
Que de amor quando suspira O bardo quebrara a lyra, De mofina; Que jamais poderão cantos Pintar ao vivo os encantos D’Angelina.
Que da sua alma a pureza Equipara-se á belleza Peregrina; Que amor seo throno tem posto N’alma, no talhe e no rosto D’Angelina.
Eu que não sei descrevel-a, Só sei que me arroubo ao vel-a Tão divina; A lyra seos cantos cesse, Mas minha alma não s’esquece D’Angelina!
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ROLA.
Desque amor me deo que eu lêsse Nos teos olhos minha sina, Ando, como a peregrina Rola, que o esposo perdeo! Seja noite ou seja dia, Eu te procuro constante: Vem, oh! vem, ó meo amante, Tua sou e tu és meo!
Vem, oh vem, que por ti clamo; Vem contentar meos desejos, Vem fartar-me com teos beijos, Vem saciar-me de amor! Amo-te, quero-te, adoro-te, Abraso-me quando em ti penso, E em fogo voraz, intenso, Anceio louca de amor!
Vem, que te chamo e te aguardo, Vem apertar-me em teos braços, Extreitar-me em doces laços, Vem pousar no peito meo! Que, se amor me deo que eu lêsse Nos teos olhos minha sina, Ando, como a peregrina Rola, que o esposo perdeo.
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AINDA UMA VEZ--ADEOS!--