IV.
MARABÁ.
Eu vivo sosinha; ninguem me procura! Acaso feitura Não sou de Tupá! Se algum d’entre os homens de mim não se esconde, --Tu es, me responde, --Tu es Marabá!
--Meus olhos são garços, são côr das saphiras, --Tem luz das estrellas, tem meigo brilhar; --Imitão as nuvens de um céo anilado, --As cores imitão das vagas do mar!
Se algum dos guerreiros não foge a meus passos: «Teus olhos são garços,» Responde anojado; «mas es Marabá: «Quero antes uns olhos bem pretos, luzentes, «Uns olhos fulgentes, «Bem pretos, retinctos, não côr d’anajá!»
--É alvo meu rosto da alvura dos lyrios, --Da côr das areias batidas do mar; --As aves mais brancas, as conchas mais puras --Não tem mais alvura, não tem mais brilhar.--
Se ainda me escuta meus agros delirios: «Es alva de lyrios» Sorrindo responde; «mas es marabá: «Quero antes um rosto de jambo corado, «Um rosto crestado «Do sol do deserto, não flor de cajá.»
--Meu collo de leve se encurva engraçado, --Como hastea pendente do cactos em flor; --Mimosa, indolente, resvalo no prado, --Como um soluçado suspiro de amor!--
«Eu amo a estatura flexivel, ligeira, «Qual duma palmeira,» Então me respondem; «tu es Marabá: «Quero antes o collo da ema orgulhosa, «Que pisa vaidosa, «Que as floreas campinas governa, onde está.»
--Meus loiros cabellos em ondas se annelão, --O oiro mais puro não tem seu fulgor; --As brisas nos bosques de os ver se enamorão, --De os ver tão formosos como um beija-flor!--
Mas elles respondem: «Teus longos cabellos, «São loiros, são bellos, «Mas são annelados; tu es Marabá: «Quero antes cabellos, bem lisos, corridos, «Cabellos compridos, «Não côr d’oiro fino, nem côr d’anajá.»
* * * * *
E as doces palavras que eu tinha cá dentro A quem n’as direi? O ramo d’acacia na fronte de um homem Jámais cingirei:
Jámais um guerreiro da minha arasoya Me desprenderá: Eu vivo sosinha, chorando mesquinha, Que sou Marabá!
* * * * *
CANÇÃO DO TAMOYO.
(Natalicia.)
Não chores, meu filho; Não chores, que a vida É luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos, Só pode exaltar.
Um dia vivemos! O homem que é forte Não teme da morte; Só teme fugir; No arco que enteza Tem certa uma presa, Quer seja tapuya, Condor ou tapyr.
O forte, o cobarde Seus feitos inveja De o ver na peleja Garboso e feroz; E os timidos velhos Nos graves concelhos, Curvadas as frontes, Escutão-lhe a voz!
Domina, se vive; Se morre, descança Dos seus na lembrança, Na voz do porvir. Não cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não fujas da morte, Que a morte ha de vir!
E pois que es meu filho, Meus brios reveste; Tamoyo nasceste, Valente serás. Sê duro guerreiro, Robuste, fragueiro, Brasão dos tamoyos Na guerra e na paz.
Teu grito de guerra Retumbe aos ouvidos D’imigos transidos Por vil commoção; E tremão d’ouvil-o Peor que o sibilo Das seta ligeiras, Peor que o trovão.
E a mãe nessas tabas, Querendo calados Os filhos creados Na lei do terror; Teu nome lhes diga, Que a gente inimiga Talvez não escute Sem pranto, sem dôr!
Porêm se a fortuna, Trahindo teus passos, Te arroja nos laços Do imigo fallaz! Na ultima hora Teus feitos memora, Tranquillo nos gestos, Impavido, audaz.
E cae como o tronco Do raio tocado, Partido, rojado Por larga extenção; Assim morre o forte! No passo da morte Triunfa, conquista Mais alto brasão.