Chapter 53 of 141 · 1001 words · ~5 min read

XXIII.

Ver o mar de toninhas coberto, Ver milhares de peixes brincar, Ver a vida nesse amplo deserto Mais valente, mais forte pular!

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Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses, Ou fosse tempestade ou calmaria, Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia, Só de ti, só de ti me lembraria!

O mar suas ondas inconstante volve, Sem que o seo curso o mesmo rumo leve, Assim dos homens a paixão se move, Fallaz e vária, assim no peito ferve!

Meditados enganos sempre encobre O mesmo que ao principio ardente amava; Oxalá não diga eu que me enganava, Que teo peito julguei constante e nobre!

Oh! que o homem fosse eu, mulher tu fosses, Ou fosse tempestade ou calmaria, Ou fosse mar ou terra, Hespanha ou Grecia, Só de ti, só de ti me lembraria!

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AO ANNIVERSARIO DE UM CASAMENTO.

A MRS. A. N. V. DA G.

A filha d’Albion bem vinda seja Ao solo brasileiro! Bem vinda seja ás margens florescentes Do Rio hospitaleiro!

Qu’importa que te acene a Patria ao longe, Que vejas incessante As memorias, os templos, os palacios Da Cidade gigante?

A patria é onde quer que a vida temos Sem penar e sem dôr; Onde rostos amigos nos rodeião, Onde temos amor:

Onde vozes amigas nos consolão Na nossa desventura, Onde alguns olhos chorarão doridos Na erma sepultura;

A patria é onde a vida temos presa: Aqui tão bem ha sol! Tão bem a brisa corre fresca e leve Da manhã no arrebol!

Aqui tão bem a terra produz flores, Tão bem os céos têm côr; Tão bem murmura o rio, e corre a fonte, E os astros têm fulgor!

Aqui tão bem se arrelva o prado, o monte, De mimoso tapiz; Nas azas do silencio desce a noite Tão bem sobre o infeliz!

A filha d’Albion bem vinda seja Ao solo brasileiro; Bem vinda seja ás margens florescentes Do Rio hospitaleiro!

Compridos annos e folgados viva Neste ditoso clima, E veja á par dos filhos seos queridos Crescer do esposo a estima!

Possa eu tão bem do seo feliz consorcio De novo em cada anno Soltar um hymno de amizade extreme, Um canto mais que humano!

24 de Março.

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CANTO INAUGURAL.

Á MEMORIA DO CONEGO JANUARIO DA CUNHA BARBOSA.

Onde essa voz ardente e sonorosa, Essa voz que escutámos tantas vezes, Polida como a lamina d’um gladio, Essa voz onde está?

No rostro popular severa e forte, No pulpito serena, amiga e branda, Pelas naves do templo reboava, Como oração piedosa!

E a mão segura, e a fronte audaciosa, Onde um vulcão de ideias borbulhava, E o generoso ardor de uma alma nobre --Onde párão tão bem?

Novo Colombo audaz por novos mares, A sonda em punho, os olho nas estrellas, Co’as bronzeas quilhas retalhando as vagas Do inhospito elemento;

Porfioso e tenaz no duro empenho, No manto do porvir bordava ufano, Sob os tropheos da liberdade sacra, Os destinos da Patria!

Nocturno viajor que andou vagando A noite inteira, a revolver-se em trevas, Onde te foste, quando o sol roxeia Nuvens de um céo mais puro?

Seccou-se a voz nas fauces resequidas, Parou sem força o coração no peito, Quando somente um pé firmava a custo Na terra promettida!

E a mão cançada fraquejou ... pendeo-lhe, Inda a vejo pendente, sobre os paginas Da patria historia, onde gravou seo nome Tarjado em letras d’oiro.

Pendeo-lhe ... quando a mente escandecida Talvez quadro maior lhe affigurava Que a luta acerba do Titan brioso, Ultima prole de Saturno.

Inveja Claudiano pincel valido, Que nos retrata o cataclysmo horrendo, Que elle--poeta--não achou nos combros Da ignivoma Tessalia!

Inveja!... mas ás formas do Gigante Sorri-se o grande Homero;--e o cego Bardo Da verde Erin, entre os heróes famosos Prazenteiro o recebe!

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Dorme, ó lutador, que assaz lutaste! Dorme agora no gelido sudario; Foi duro o afan, asperrima a contenda, Será fundo o descanço.

Dorme, ó lutador, teo somno eterno; Mas sobre a lousa do sepulchro humilde, Como na vida foi, surja o teo busto Austero e glorioso.

Columna inteira em combros derrocados, Rolo encerado, que já beija as praias Do remoto porvir,--seguro e salvo Dos naufragios d’um seculo;

Dorme!--não serei eu quem te desperte, Meos versos ... não serão:--palmas sem graça, Ou pobre ramo d’arvore funerea, Pyramidal cypreste.

São flôres que desfolha sobre um tumulo Singelo, entre um rosal, quasi fagueiro, Piedosa mão de peregrino extranho, Que alli passou acaso!

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TABYRA.

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DEDICATORIA

AOS PERNAMBUCANOS.

Salve, terra formosa, ó Pernambuco, Veneza Americana, transportada Boiante sobre as agoas! Amigo genio te formou na Europa, Genio melhor te despertou sorrindo Á sombra dos coqueiros.

Salve, risonha terra! são teos montes Arrelvados, innumeros teos valles, Cujas veias são rios! Doces teos prados, tuas varzeas ferteis, Onde reluz o fructo sasonado Entre o matiz das flores!

Outros, patria d’heroes, teos feitos cantem, E a bella historia de colonia exaltem, E os nomes forasteiros; Não eu, que nada almejo senão ver-vos, Tu e Olinda, ambas vós, co’os olhos longos, Expraiados no mar!

Ambas vós, sobre tudo americanas, Doces flores dos mares de Colombo, Filhas do norte ardente! Virgens irmãs, que vão de mãos travadas Sorrirem d’innocencia á propria imagem, Que luz em claro arroyo.

Andei, por vós somente, em vossas matas, Colhendo agrestes flores na floresta, Não respiradas nunca, Singelas, como vós,--como vós, bellas, Ennastrei-as em forma de grinalda Fino, extremoso amante!

Não vivem muito as flores: são meos versos Ephemeros como ellas; côr sem brilho, Ou perfume apagado, Ou trino fraco d’ave matutina, Ou echo de um baixel que passa ao longe Com descante saudoso.

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TABYRA.

(POESIA AMERICANA.)

Les _peaux rouges_, plus nobles, mais plus infortunées que les _peaux noires_, qui arriveront un jour á la liberté par l’esclavage, n’ont d’autre recours que la mort, parce que leur nature se refuse à la servitude. * * *